Biblioteca / A Epístola de Paulo aos Efésios / Andando Como é Digno da Nossa Vocação em Nossos Lares (Capítulos 5:22-6:9)

A Epístola de Paulo aos Efésios

Andando Como é Digno da Nossa Vocação em Nossos Lares (Capítulos 5:22-6:9)

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 9 de 14

Andando Como é Digno da Nossa Vocação em Nossos Lares
(Capítulos 5:22-6:9)

As exortações no capítulo 5:18-21 eram direcionadas para todos os crentes, mas nesta parte da epístola temos exortações referentes àqueles em relacionamentos especiais no lar Cristão. As exortações que agora estão perante nós correspondem com o terceiro círculo da responsabilidade Cristã no capítulo 4:6 – “um só Deus e Pai de todos, O qual é sobre todos, e por todos e em todos”. Estas exortações têm a ver com nosso andar em conexão com nossos relacionamentos naturais e terrenais, no ambiente doméstico. Deus estabeleceu estes relacionamentos muito antes de o Cristianismo ter entrado neste mundo, mas nesta epístola o apóstolo Paulo dá o sentido e o significado Cristão desses relacionamentos.

Submissão é o tema ao longo desta passagem inteira. Isso é porque as esposas são exortadas antes dos maridos, e os filhos antes dos pais, e servos antes dos senhores. O Espírito de Deus propositadamente colocou desta forma para dar valor a este grande e importante princípio de submissão. J. N. Darby disse: “Submissão é o princípio de cura da humanidade.” É bom mantermos isso em mente quando olhamos para esses vários relacionamentos no lar.

Esposas

Cap. 5:22-24 – Em relação aos maridos e esposas, Hamilton Smith disse, “Estas exortações especiais sempre têm em vista a característica particular em que o indivíduo abordado provavelmente falhará. A mulher é passível de falhar quanto à submissão, e é, portanto, lembrada de que o marido é a cabeça da esposa, e que seu lugar é de estar “sujeita”. O homem é mais propenso a falhar quanto à afeição do que a mulher. Portanto, maridos são exortados: “amai” suas esposas.

Para enfatizar o caráter de submissão que precisamos, Paulo aponta a “Cristo e a Igreja” como modelo (v. 32). No Cristianismo, nossos relacionamentos terrenais são formados segundo o padrão de nossos relacionamentos celestiais. Nós vemos a partir disso que Deus pretende que o efeito prático da verdade do Mistério seja aplicado nas relações pessoais em nossos lares.

“Esposas” devem ser “sujeitas” (TB) aos seus maridos “como ao Senhor”. Não lhes é dito para obedecer, como é no caso das crianças (cap. 6:1), porque elas têm um relacionamento diferente com o cabeça do lar. Pode ser argumentado que Sara “obedeceu” a Abraão, mas ela não estava no terreno Cristão naquela velha economia (1 Pe 3:6). Ela também o chamou de “senhor”, mas, de novo, não significa que esposas Cristãs devem chamar seus maridos de “senhor”. Sara é trazida diante de nós na epístola de Pedro para ilustrar a reverência que esposas Cristãs devem ter para com seus maridos.

Como a Igreja está “sujeita a Cristo”, assim a esposa deve estar sujeita a seu marido. Deve ser mantido em mente que a verdade dada aqui, a respeito do marido e da mulher, está de acordo com o que é encontrado em toda a epístola, naquilo que é o ideal de Deus. Como mencionado antes, a epístola não leva em conta a ruína do testemunho Cristão – seja na realização da verdade do um só corpo na prática, ou no nosso andar particular com o Senhor por este mundo, ou ainda em nossos relacionamentos terrenais em nossos lares. Tudo é apresentado de acordo com o desejo de Deus. Nós mencionamos isso porque a Igreja, neste dia de ruína, não está em submissão a Cristo. Se as irmãs forem se comportar em relação a seus maridos “como” a Igreja faz em relação Cristo neste dia, elas seriam insubmissas e rebeldes! Mas isso seria perder o foco desta exortação.

Uma esposa pode reclamar que seu marido é um homem grosseiro e bastante incompetente. E pode até ser o caso, mas isso não dá permissão para ela colocar de lado a ordem divina no lar. É importante que ela permaneça sujeita a ele porque o lugar dela ilustra a posição em que a Igreja está em relação a Cristo. Uma esposa insubmissa descaracteriza a figura.

Algumas esposas podem compreensivelmente ter dificuldade com o comentário de Paulo sobre ser sujeita a seus maridos “em tudo” (v. 24). E se ele pedir para ela fazer algo que é claramente errado – talvez mentir ou roubar algo? Mais uma vez ressaltamos que Efésios não contempla a Igreja em falha e, portanto, não supõe o marido ou a esposa fazendo qualquer coisa senão o que é normal ao Cristianismo – o que está totalmente acima do pecado. Colossenses 3:18 qualifica a submissão da esposa, dizendo: “Como convém no Senhor”. É para ela fazer tudo que ele pede, mas como convém no Senhor. Pecar porque seu marido fala para ela assim fazer está fora de questão.

Maridos

Cap. 5:25-33 – Como mencionado, homens são mais propensos que a mulher a falhar em afeição, portanto, maridos são exortados: “amai vossas mulheres”. O primeiro passo repousa sobre o marido. Cristo é o exemplo. Ele tomou a iniciativa da maneira mais maravilhosa. É dito, “Como também Cristo amou a Igreja, e a Si mesmo Se entregou por ela”. Ele não deu dinheiro ou posses; Ele Se deu “a Si mesmo” (Gl 1:4; Ef 5:2, 25; 1 Tm 2:5-6; Tt 2:14). Ele não poderia ter dado mais. Esta é a maior demonstração de sacrifício próprio que poderia haver. Já que os maridos devem amar suas esposas “como” Cristo amou a Igreja, eles devem expressar seu amor não só em palavras, mas também sacrificando seus próprios interesses para o bem e auxílio de sua esposa. Um casamento pode ser feito no céu (como alguns falam,), mas a sua manutenção é feita na Terra – e isso começa com os maridos amando suas mulheres.

A palavra grega usada aqui para amor é “ágape”. É um amor que emana de uma disposição estabelecida; é uma escolha ou uma decisão estabelecida. A palavra usada aqui para “amor” não é “phileo”, como talvez pudéssemos pensar, que é um amor de afeição e emoção. Ágape é o tipo de amor necessário para um casamento duradouro. Certamente o marido deve amar sua esposa com emoção e afeição, como é em “phileo”, mas o amor ágape é o que é necessário para levar o casamento à distância de uma vida. A esposa pode mudar conforme envelhece, mas a escolha do seu marido de amá-la continuará para sempre.

Ágape é o tipo de “amor” que o Senhor tem por nós. Ele escolheu colocar Seu amor em nós quando naturalmente não havia nada em nós para amar (Rm 5:8). Foi uma escolha soberana d’Ele. (Compare também o amor do Senhor por Israel – Dt 7:7-8; Ez 16:6-14). Nota: Ele não fez a Igreja digna de ser amada, para então a amar e Se dar a Si mesmo por ela – Seu amor e Sua entrega foram antes de nos salvar! O propósito do sacrifício de Cristo não era para assegurar o amor de Deus para com os homens, pois Deus nos amou muito antes de Cristo ter morrido por nós. De fato, Deus agir em amor para com os homens foi provado pelo sacrifício de Cristo. Este é o tipo de amor que é necessário para um casamento duradouro.

O “amor” de Cristo pela a Igreja é tripartido. Há o que Seu amor fez no passado (v. 25), o que Seu amor está fazendo no presente (v. 26), e o que Seu amor fará no futuro (v. 27). Seu amor por nós no passado O levou a Se entregar Si mesmo à morte para fazer expiação por nossas almas. No tempo presente, Ele está pacientemente trabalhando com os membros de Seu corpo para os “santificar” e “purificar” com a “lavagem da água, pela Palavra”. Derramando Seu sangue na morte, nos limpou num sentido judicial (1 Jo 1:7; Ap 1:5-6), mas com a água da Palavra está purificando nosso andar num sentido prático. A “Palavra” descobre para nós o que somos e nos leva ao julgamento próprio (Jo 17:17) e nos ocupa com Cristo em glória (Jo 17:19). Estas duas coisas são o poder para nossa purificação prática. Então, no futuro, o Senhor vai “apresentar” a Igreja a Si mesmo. Isto acontecerá na “ceia das bodas do Cordeiro” (Ap 19:7-9). Ele apresentará a Igreja a Si mesmo antes de apresentá-la ao mundo na Sua Aparição (2 Ts 1:10).

Não devemos deduzir disso que os maridos devam empreender um projeto de purificação e santificação das suas esposas, no sentido de tentar mudá-las e moldá-las em algo que elas não são. O modelo de Cristo e Seu amor é apresentado aqui como um exemplo, aos maridos, da profundidade de Sua devoção à Igreja. Nós, como maridos, devemos ter esse mesmo amor e cuidado para com nossas esposas.

O Senhor não ficará satisfeito até a Igreja estar perfeitamente adequada a Si mesmo. Paulo menciona quatro coisas que Sua obra fez e produzirá em nós (v. 27). No final, seremos “a Igreja gloriosa”:

  • “Sem mácula” – sem manchas. Máculas na Escritura referem-se a falhas. Naquele dia, nenhum vestígio de falha será visto na Igreja.
  • “Sem ruga” – sem idade. Não haverá sinais de envelhecimento. Todos seremos “semelhantes” ao Senhor, moralmente (1 Jo 3:2) e fisicamente (Fp 3:21). Ele estará no “orvalho” de Sua mocidade e nós estaremos também (Sl 110:3)
  • “Santa” – sem pecado. A natureza caída será erradicada, e nunca mais pecaremos.
  • “Irrepreensível” – inculpável. O mundo não será capaz de apontar com justiça um dedo de acusação para nós, pois seremos perfeitos por meio de Sua incomparável graça.

 

Vs. 29-30 – AIBB – Nutrir tem o sentido de alimentar e fortalecer, e isso pode sugerir que devamos gozar da verdade com nossas esposas enquanto estudamos a Palavra de Deus juntos. Prezar implica sério cuidado, amor, e consideração. Essas coisas fazem um casamento feliz. É fácil perceber que se o marido dá a sua esposa o devido amor, ela não terá muita dificuldade em ser submissa a ele.

Um Sétuplo Resumo da Grande Obra de Cristo para Assegurar a Igreja para Si

A iniciativa sétupla de Cristo para a Igreja, indicando Sua devoção completa para o bem estar dela é algo progressivo. Ele:

1)  “amou” (v. 25).
2) “entregou” (v. 25).
3) “santifica” (v. 26).
4) “purifica” (v. 26).
5) “nutre” (v. 29 – AIBB).
6) “preza” (v. 29 – AIBB).
7) “apresentará” a Igreja a Si mesmo (v. 27).

Filhos

Cap. 6:1-3 – Como a epístola não vê o testemunho Cristão em ruína, ela vê o lar Cristão em uma ordem piedosa. O lugar dos filhos no lar é de “obedecer” a seus pais. É apresentado como o caminho da bênção prática em suas vidas. Nota: é dito, “pais” (plural); isso supõe que tanto o pai quanto a mãe estão concordes em suas instruções no lar. Há uma tendência de os filhos obedecerem a seu pai (talvez por medo), mas não à sua mãe; portanto, eles são intimados a obedecer a ambos os pais. O fato de adicionar as palavras “no Senhor” supõe que ele está se dirigindo a filhos crentes que naturalmente querem agradar o Senhor.

“Honra a teu pai e a tua mãe”. Esta é uma obrigação que se estende além de uma criança na casa de seu pai. Honrar a nossos pais deve ser algo contínuo ao longo de nossas vidas, mesmo quando não vivemos diretamente sob a autoridade deles. Há uma recompensa prática em se honrar nossos pais, no sentido de Deus estar trabalhando providencialmente em nossas vidas para o bem. Paulo não está dizendo que cada criança Cristã que obedece a seus pais vai viver muito nesta Terra, mas ele se refere ao princípio do governo de Deus na lei Mosaica que promete Seu favor providencial na vida daqueles que honram a seus pais. Deus ainda hoje trabalha sob esse princípio nos lares Cristãos.

Três Razões para Obediência e Honra aos Pais

  • Isto é justo (v. 1).
  • Está de acordo com as Escrituras (v. 2).
  • Há uma promessa de bênção governamental (v. 3).

Pais

Cap. 6:4 – “E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos”. Os pais precisam, particularmente, ter o cuidado de não frustrar seus filhos, impondo obrigações extremas a eles e, assim, destruir sua influência para o bem e perder a suas afeições. Os filhos podem ficar “desanimados” e desistir. (Cl 3:21). Quando ficarem mais velhos, suas frustrações podem se manifestar em rebeldia contra tudo que seus pais tenham procurado incutir neles.

O trabalho dos pais é de encorajar seus filhos, e não os desencorajar. Eles devem ser criados “na doutrina [disciplina – ARA] e admoestação do Senhor” (v. 4) Há duas coisas aqui. “Disciplina” e “admoestação”. Uma é positiva e a outra negativa. Disciplina neste versículo não é punição, mas a ideia de treinar ou discipular os filhos. Pais devem trabalhar com eles, criando-os para serem discípulos do Senhor Jesus. Admoestação tem o pensamento de corrigir, mas é para ser “do Senhor”. Isto é, no mesmo caráter como o Senhor nos admoesta e corrige. Isso coloca as coisas no lar Cristão em um nível muito alto e está de acordo com o caráter da epístola.

Servos

Capítulo 6:5-8 – “Servos” deveria ser traduzido “escravos”. As instruções aqui são para os dessa classe que tinham sido salvos. Consequentemente, eles eram escravos Cristãos. Enquanto os relacionamentos prévios de esposas/maridos, e filhos/pais são ordenações de Deus, esta posição em vida não é uma instituição de Deus. Isso aconteceu pela queda do homem. Era uma instituição humana forçada sobre seu parceiro por razões injustas. Deus nunca instituiu que alguém devesse ser escravo de outro homem.

É significativo que Paulo não tenta acertar esse relacionamento senhores/escravos feito pelo homem. Cristianismo não é uma tentativa de reformar a sociedade com uma revolução contra essa terrível instituição do homem. Paulo não pediu aos santos para fazerem campanha contra isso, ou dissolverem tais relacionamentos se eles estivessem neles. Isto é porque o evangelho não é uma força para consertar o mundo; o evangelho chama para fora a todos os que têm fé antes que o julgamento de Deus caia sobre o mundo. O evangelho proclama libertação, não das injustiças da sociedade, mas do pecado e do julgamento. Promete a obra do “poder de Deus” nas vidas daqueles que creem, libertando-os do domínio do pecado (Rm 1:16).

Podemos nos perguntar como uma passagem como essa teria alguma relevância para nós, em pleno século 21 onde a escravidão foi abolida há muito tempo. Contudo, as exortações aqui têm sua aplicação aos Cristãos no local de trabalho. Quando trabalhamos como empregados, em princípio, estamos no lugar de um servo, servindo nosso senhor, o empregador. Portanto, estas instruções se aplicam quando estamos neste relacionamento.

O ponto fundamental do apóstolo nestas instruções é que ambos, servos e senhores, devem regular suas condutas pelo padrão e princípios Cristãos no local de trabalho. Cristianismo encoraja glorificar a Deus e servir ao Senhor no lugar onde fomos chamados (1 Co 7:17-24). O local de trabalho é uma tremenda oportunidade para dar testemunho de Cristo por meio de nossos hábitos de trabalho, nossa maneira de viver e nossa obediência a nossos empregadores terrenais. Portanto, Paulo queria que servíssemos aos senhores em nosso local de trabalho “como servos de Cristo”. O trabalho é imensamente dignificante, considerando o nosso trabalho desse modo. A tarefa do trabalhador mais humilde pode ser enobrecida pela compreensão de que estamos realmente “servindo de boa vontade como ao Senhor”.

Atitude apropriada no campo do trabalho entre Cristãos requer, da parte de servos e senhores, o reconhecimento da autoridade constituída. O dever dos servos é obediência. Não “servindo à vista” ou “como para agradar aos homens”. Servir à vista é trabalhar quando estamos sendo vistos, mas caso contrário, ficar ociosos ou descuidados quando o senhor está ausente. Agradar aos homens define aqueles que buscam obter favores com seus senhores visando vantagem própria. Estas coisas, claro, somente estragam nosso testemunho Cristão perante o mundo.

Senhores

Cap. 6:9 – O apóstolo tem um aviso para os “senhores” Cristãos. Eles devem se lembrar de que têm um “Senhor” no céu que está observando todas as coisas, e, se necessário, agirá de uma maneira governamental contra um senhor injusto na Terra. Filemom seria um exemplo na Escritura de um senhor Cristão.

Como mencionado, as exortações aqui têm sua aplicação para aqueles que são empregadores. Um tremendo testemunho pode ser rendido ao Senhor quando as pessoas vêm um senhor Cristão tratando seus empregados com amor, cuidado e dignidade. A tentativa de aumentar a produção usando “ameaças” aos empregados não é um princípio Cristão, e devem evitar usar tal tática. Empregadores Cristãos precisam se lembrar de que eles também estão debaixo de autoridade e por fim terão de responder a Deus sobre como eles trataram seus empregados. Se eles se comportarem erroneamente redundará em um mal testemunho para o Senhor.