Andando Como é Digno da Nossa Vocação Como Membros do Corpo de Cristo
(Capítulo 4:1-16)
Como mencionado na introdução, os últimos três capítulos da epístola são exortações baseadas na verdade doutrinal encontrada nos primeiros três capítulos. Era necessário que o apóstolo se desviasse do assunto no terceiro capítulo para estabelecer sua autoridade para ministrar a verdade do Mistério, para que as exortações que agora são dadas neste quarto capítulo, chegassem a nós com mais força.
Havendo explanado a verdade do Mistério e havendo orado pelos santos, Paulo continua do ponto onde parou no capítulo 3:1. Como “o prisioneiro de Jesus Cristo” (cap. 3:1), ele revela a verdade do Mistério; como “o prisioneiro no Senhor” (cap. 4:1), ele nos exorta para andarmos como é digno daquela grande verdade.
O primeiro versículo devia ser lido, “Eu, o prisioneiro no Senhor...”. A expressão “em Cristo”, que caracteriza os primeiros três capítulos, não aparece na última metade da epístola, e “no Senhor” torna-se proeminente. Isso é significante; é uma expressão que se refere à autoridade do Senhorio de Cristo. Não é difícil ver a razão desta mudança. Quando se trata de praticar a verdade, o reconhecimento do Senhorio de Cristo é essencial. Simplesmente significa reconhecer Suas reivindicações sobre nós em redenção por nos submeter ao Seu direito de nos dizer o que fazer em todas as áreas de nossas vidas.
Além disso, encontramos a palavra “andar” mencionada várias vezes nos últimos três capítulos da epístola (cap. 4:1, 17, 5:2, 8, 15, 6:15). Isso implica viver a verdade praticamente todo o curso e conduta de nossas vidas.
Três Esferas de Responsabilidade Cristã
Deus queria que nosso andar fosse consistente com nosso chamado. Portanto, somos ordenados a “andar como é digno” de nosso chamado em três esferas. Elas são:
1) A esfera da assembleia (cap. 4:1-16). Nestes versículos somos vistos como membros do corpo de Cristo e somos responsáveis por manifestar esse fato coletivamente.
2) A esfera da profissão Cristã no mundo (cap. 4:17-5:21). Nesta série de versículos somos vistos como membros da raça da nova criação, professando que conhecemos a Deus, e assim somos responsáveis por manifestar o caráter do novo homem em Cristo.
3) A esfera doméstica do lar (caps. 5:22-6:9). Nestes versículos somos vistos como membros de famílias e devemos reconhecer e respeitar a ordem de Deus na primeira criação, em nossas relações naturais.
Membros do Corpo de Cristo
Cap. 4:1-16 – As exortações nos primeiros dezesseis versículos do capítulo 4 pertencem à primeira esfera – a assembleia, o corpo de Cristo. Estes versículos apresentam uma bela ilustração do que a Igreja, como o corpo de Cristo, devia ser neste mundo, de acordo com a mente de Cristo. Não é levado em conta o fracasso no testemunho da Igreja, como é visto no Cristianismo hoje, mas nos mostra o ideal de Deus.
Vs. 1-3 – Estes começam por nos exortar a “andar como é digno” da nossa “vocação”. Nós podemos perguntar: “Como podemos andar dignos da nossa vocação?” O Mistério revela que fomos chamados a um lugar privilegiado, como membros do místico corpo de Cristo. Andar como é digno de tal vocação é manifestar esse fato neste mundo. Deus pretende que o vaso de testemunho (a Igreja), que Ele está formando para a manifestação de Seu Filho ao mundo vindouro, deva dar expressão da verdade que é um só corpo, mesmo agora, enquanto está aqui neste mundo. Paulo não entra em detalhes nesta epístola sobre como a Igreja deve fazer isso, mas simplesmente menciona que devemos manifestar a unidade que demonstra a união que temos no corpo. É a primeira coisa prática que o Senhor ordena aos membros do Seu corpo como sendo adequada à união que os membros têm em “o Cristo” (1 Co 12:12-13).
Expressar na prática a verdade de o um corpo requer dos membros do corpo estarem num correto estado de alma. Isso é abordado no versículo de abertura do capítulo, ao serem exortados “no Senhor” (v. 1 – TB). Envolve dar ao Senhor Seu lugar de direito em nossas vidas, ao reconhecer a autoridade de Seu Senhorio sobre nós em assuntos práticos – o que implica estar em um correto estado de alma. Então, há também a necessidade de “toda a humildade e mansidão, com longanimidade”, e suportarmos “uns aos outros em amor” (v. 2). Andar juntos em uma unidade prática exigirá o exercício destas coisas por cada membro do corpo.
“Humildade” mantém o ego inativo e “mansidão” dá lugar aos outros. Elas andam juntas (Mt 11:29; Ef 4:2; Cl 3:12). A mansidão é interagir com outros, de modo a não lhes ofender (1 Co 4:21; 2 Co 10:1; Gl 6:1; 2 Tm 2:24; Tt 3:2). Humildade, por outro lado, é não nos ofender quando interagimos com alguém que não é manso (Nm 12:3 – JND Nota de rodapé). “Longanimidade” é exercitar paciência na presença da deficiência do outro, e “suportando-vos uns aos outros em amor” é ignorar ofensas pessoais. As duas primeiras coisas são o que precisamos em nós mesmos; as duas seguintes são o que precisamos para com os outros, quando eles não estão exercitando as duas primeiras. Em suma, devemos usar longanimidade e paciência na presença daqueles que não são mansos e humildes.
Estas coisas práticas devem ser exercitadas em vista de “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (v. 3). Nós podemos perguntar: “Que é exatamente a unidade do Espírito? É uma unidade prática entre crentes que o Espírito de Deus está formando para dar expressão da verdade do único corpo”. Colocando de uma maneira simples: Deus deseja que haja uma manifestação prática da verdade do “um só corpo”. Ele quer que coloquemos em prática aquilo que é verdade de fato, e o Espírito de Deus está trabalhando para esse fim com os membros do corpo de Cristo.
Esta unidade encontra seu centro em Cristo. Falar de unidade e trabalhar para isso sem reconhecer a autoridade de Cristo como sendo o seu fundamento é uma obra da carne. Também, guardar a unidade do Espírito envolve estar em comunhão com aqu’Ele que é chamado “o Espírito de santidade” (TB) e “o Espírito de verdade” (Rm 1:4; Jo 14:17). Isso significa que os membros do corpo não somente devem reconhecer a autoridade de Cristo em todas as coisas, mas também devem andar em “santidade” e “verdade”. Isso envolve separação de tudo que é inconsistente com Sua Pessoa, pois Ele é chamado “o Espírito Santo”. Se princípios divinos são sacrificados para alcançar unidade, essa não é a unidade do Espírito. O ecumenismo moderno, por exemplo, é uma unidade feita pelo homem; não é a unidade do Espírito. Portanto, a “unidade pelo vínculo da paz” a que Paulo se refere aqui não é a paz a qualquer preço, mas paz que resulta de Cristo tendo Seu lugar legítimo e crentes sendo sujeitos ao Espírito de Deus. Portanto, a unidade do Espírito é a unidade que reconhece a autoridade do Senhorio de Cristo e está separada de tudo que é profano em doutrina e prática.
Note que não somos chamados a guardar a unidade do corpo. Essa união Deus Mesmo mantém, pois apenas Ele o pode fazer. Nada pode quebrar esse vínculo que os membros têm com Cristo – a Cabeça ascendida. A unidade do Espírito, por outro lado, é algo prático que os membros do corpo são responsáveis por guardar. Assim, enquanto todos os Cristãos têm união com Cristo, talvez nem todo Cristão ande na unidade do Espírito.
Nem devemos pensar que a unidade do Espírito é apenas uma exortação para a unidade numa comunhão da igreja local; é mais do que isto. Esta unidade tem em vista o único corpo, como o próximo versículo afirma – “há um só corpo” (v. 4). Uma vez que os membros do corpo de Cristo não estão em nenhuma localidade, mas espalhados por todo o mundo, esta unidade deveria ser vista onde quer que os Cristãos estejam na Terra. Deus quer que os Cristãos universalmente (em todas as localidades) andem juntos nesta unidade, dando expressão ao fato de que eles são um corpo. O ato do partimento do pão é uma confissão prática desta verdade (1 Co 10:16-17), mas a Igreja também deveria manifestar a unidade do corpo em assuntos práticos de comunhão e disciplina As epístolas aos Coríntios desenvolvem este lado da verdade.
Nos primeiros dias da Igreja, esta unidade era guardada. Os santos estavam “todos concordemente” (At 2:1 – ARF, 4:32), mas é triste dizer, não permaneceu assim por muito tempo. C.H. Brown dizia: “Evidentemente, a unidade do Espírito deve ter sido quebrada.” J. N. Darby dizia: “Ananias e Safira foram os primeiros a interrompê-la (At 5); depois disso, você encontra os Helenistas murmurando contra os Hebreus (At 6).” O fato de nos ser dito que devemos nos “esforçar” (TB) ou usar “diligência” significa que haverá resistência em fazê-lo por conta do mundo, da carne e do diabo. Portanto, guardar esta unidade requererá energia de nossa parte.
Três Círculos Concêntricos
Vs. 4-6 – O apóstolo faz referência a três esferas da responsabilidade Cristã. Como mencionado, as exortações no resto da epístola fluem das respectivas responsabilidades nestas três esferas. Elas são melhores entendidas se vistas como três círculos concêntricos.
O círculo mais interno é a esfera da realidade Cristã. “Há um só corpo, e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação” (v. 4). Verdadeiros crentes (Cristãos) são os únicos nessa esfera. Uma pessoa é introduzida nessa esfera ao ser selada pelo Espírito Santo, que acontece quando crê no evangelho da sua salvação (Ef 1:13).
O segundo círculo é a esfera da profissão Cristã onde há “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (v. 5). Este é um círculo mais amplo incluindo todos do primeiro círculo e todos que fazem uma profissão de fé em Cristo, seja real ou não. Uma pessoa é formalmente introduzida nessa esfera pelo batismo com água.

O terceiro círculo é a esfera das relações naturais, onde há “um só Deus e Pai de todos” (v. 6a). Essa esfera é mais ampla ainda, incluindo todos dos outros dois círculos. Seu escopo inclui cada pessoa viva na Terra. A paternidade de Deus aqui não é Sua paternidade na família Cristã, mas Sua paternidade de todos os seres criados. Neste sentido, todos os homens são “a geração de Deus” (At 17:29). Uma pessoa é introduzida nessa esfera pelo nascimento natural. Ao dizer, “Por todos e em [nós – JND] todos” (v. 6b), Paulo volta para ao primeiro círculo. Deus habita somente “em” crentes verdadeiros (1 Jo 4:12, 15).
A Função dos Dons para a Edificação do Corpo
Vs. 7-16 – Uma vez que é a vontade de Deus que a Igreja manifestasse visualmente que é “um só corpo”, Cristo ascendeu ao alto para fazer completa provisão para os membros andarem juntos, de maneira coletiva. Foi dado a cada membro “a graça ... segundo a medida do dom de Cristo”. O Senhor transmitiu a cada um de nós um dom de poderes espirituais (1 Co 12), e nos deu a “graça” necessária para usar este dom habilmente no lugar onde Ele nos colocou no corpo.
O apóstolo toma emprestado o Salmo 68:18, que celebra a vitória do Senhor sobre Seus inimigos num dia vindouro (na Sua Aparição), e aplica esse princípio à Sua vitória sobre Satanás na cruz. Tendo derrotado Satanás pela morte (Hb 2:14), o Senhor trouxe crentes em sujeição a Si mesmo, que outrora eram escravos de Satanás. Assim como quando um conquistador retorna vitoriosamente da batalha, trazendo com ele o espólio retirado do inimigo como prova da vitória, semelhantemente, Cristo tem ostentado Sua vitória por conceder “dons” aos que eram cativos de Satanás (v. 8). Estes dons são poderes espirituais e foram dados com o propósito de ajudar os santos a andarem juntos na unidade do Espírito e assim manifestar a glória de Cristo na Igreja.
Vs. 9-10 – Antes de Cristo ascender vitoriosamente às alturas da glória, Ele primeiro desceu ao túmulo (“às partes mais baixas da Terra”) para derrotar o inimigo ao ressuscitar de entre os mortos. Tendo tomado Seu lugar ao alto “acima de todos os céus”. Assim Cristo tinha que primeiro tomar Seu lugar no céu, como Cabeça da Igreja, antes que dons pudessem ser dados. O ponto do apóstolo aqui é que todo ministério Cristão flui de Cristo, a Cabeça assunta ao céu. Não procuramos na Terra por alguma organização humana de onde os dons tomam sua direção, mas para Cristo, no céu. Agências humanas, criadas para enviar pessoas dotadas para certas obras no serviço do Senhor, embora bem intencionadas, são estranhas à Escritura.
V. 11 – De Seu lugar no alto Cristo deu “uns para apóstolos; e outros para profetas, e outros para evangelistas; e outros para pastores e doutores”. Estes homens possuem poderes espirituais distintos para o ministério público da Palavra e eles foram dados como dons de Cristo à Igreja. O ponto aqui não é que Cristo dá o apostolado, mas que Ele dá apóstolos, etc. A passagem não está focando nos seus poderes espirituais, mas no fato que eles mesmos são um dom vindo de Cristo para a Igreja.
“Apóstolos e profetas” foram dados para ajudar a colocar o fundamento da Igreja no primeiro século pelo ministério deles (cap. 2:20). Agora que o fundamento foi colocado, estes dons não estão mais sendo dados, embora ainda aproveitemos do ministério deles, aos quais o Espírito de Deus inspirou a escrever nas Escrituras do Novo Testamento. Nós ainda temos o exercício do dom de profecia no sentido de alguém expondo a mente de Deus para o momento, por meio da palavra de ministério (1 Co 14:1, 31), mas não no sentido de alguém ter revelações especiais e predizer eventos futuros – como foi no caso de Ágabo (At 11:27-28, 21:10-11).
O Senhor também tem dado “evangelistas”, “pastores”, e “doutores” à Igreja. De novo, isto não está se referindo aos poderes espirituais de evangelismo, etc., mas os próprios homens têm sido dados como dons para a Igreja. Estes homens ainda são levantados pelo Senhor para ajudar a Igreja.
Primeira aos Coríntios capítulo 12:8-10 fala dos atuais poderes espirituais os quais o Espírito de Deus transmite ou deposita em homens como esses. Por exemplo, a “palavra de sabedoria” é o poder espiritual ou dom que um “pastor” teria, e a “palavra do conhecimento” (ARA) é o dom espiritual que um “doutor” teria. A ênfase, em 1 Coríntios 12, não é de sua sabedoria ou conhecimento – porque todos os santos devem possuí-los – mas que eles têm uma capacidade especial para comunicar a sabedoria e conhecimento que possuem. Por isso é chamado “a palavra de sabedoria”, e a “palavra do conhecimento”. Note que não é mencionado aqui, nem em outro lugar na Escritura, de que homens possuindo um dom espiritual de ensinar ou pregar tenham a necessidade de ser ordenados por alguma organização humana para poder funcionar na Igreja.
V. 12 – Estes dons não têm sido dados para seu proveito pessoal, mas para o enriquecimento do corpo de Cristo. É verdade que quem rega, também será regado (Pv 11:25), mas o que eles têm do Senhor é principalmente para seus irmãos – os outros membros do corpo. O propósito destes dons é o de ajudar no “aperfeiçoamento dos santos”. Perfeição, no sentido que é usado aqui, é “amadurecimento”. Assim, esses dons são para ajudar os santos a crescerem espiritualmente. Além disso, este “aperfeiçoamento” é “com vistas à obra do ministério” (JND). Isto mostra que é o desejo de Deus que os membros do corpo amadureçam (cresçam espiritualmente) pela ajuda dos dons, para que eles também possam ser envolvidos na “obra do ministério” e assim serem úteis para levar adiante o testemunho Cristão. Ministério é simplesmente o exercício de nosso dom espiritual. Como todos temos um dom, todos estamos engajados no ministério. Não há “zangãos” no corpo de Cristo; todos os membros do corpo devem se envolver nesse trabalho. Nem todos têm um dom distinto e são dados para a Igreja, como mencionado no versículo 11, mas todos devem se envolver na “obra do ministério” de alguma maneira. Cada membro pode fazer a sua parte na “edificação do corpo de Cristo”. Não era intenção de Deus que alguns dos membros do corpo fossem apenas expectadores enquanto que outros estivessem envolvidos na obra.
Esta obra é para continuar “até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito [maduro – JND]” (v. 13). Isto não será alcançado num sentido coletivo até Cristo vir de novo (o Arrebatamento). Portanto, “a obra do ministério” – chamar, cuidar e edificar dos santos – vai acontecer até o Senhor vir para nós. Isto significa que estes dons para edificação (v. 11) continuarão a ser dados até que a Igreja esteja completa. Em contraste com isso, não há menção na Escritura, de que dons de línguas e curas, etc., continuariam. A história confirma que isso não aconteceu.
Versículo 13 nos dá o objetivo final dos dons na “obra do ministério”, mas os versículos 14-16 nos dão seu objetivo imediato, que é tirar os santos do estado de infância espiritual, conforme Paulo diz, “Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina [ensino – JND]”. Há uma necessidade urgente e imediata dos santos se tornarem estabelecidos na verdade, para que o inimigo não os leve embora. Se isso acontecer, os santos não serão capazes de cumprir adequadamente seu papel no corpo e ser uma ajuda positiva na edificação dos outros membros. Paulo fala destas doutrinas errôneas introduzidas pelo inimigo como “o erro sistematizado” (JND) Normalmente será encontrado, por trás de doutrinas erradas, um sistema inteiro de ensino errôneo.
V. 15 – Nossa única segurança contra o erro não está em conhecer melhor o erro para que possamos refutá-lo, mas “seguindo a verdade em amor” (ARA). Isso vai além de conhecer a verdade e implica estar afetuosamente ligado a ela – guardar a verdade em nossas afeições. O Salmista exemplifica isso, dizendo: “Escondi a Tua Palavra no meu coração, para eu não pecar contra Ti” (Sl 119:11). A KJV traduz este versículo 15, “falando a verdade em amor”, mas isso pode levar a engano. Isso implica que devemos apresentar a verdade para outros numa maneira amorosa e gentil. Isso é certamente algo que devemos fazer, mas o contexto aqui tem a ver com o ser preservado dos erros doutrinais que estão espalhados. Falar a verdade a outros de uma maneira amorosa e gentil não é o que vai nos guardar desses erros sutis. “Mantendo a verdade em amor” (JND) – como ela deveria ser traduzida – é ter amor pela própria verdade. O ponto de Paulo aqui é que quando a verdade é guardada apropriadamente em nossas afeições, não apenas será uma salvaguarda contra os erros na Cristandade, mas também fará com que “cresçamos em todas as coisas até chegarmos a Ele, que é a Cabeça, Cristo” (TB).
V. 16 – Não só seremos preservados e cresceremos espiritualmente, mas também seremos úteis no corpo como uma “junta de auxílio”. Contribuiremos efetivamente para edificação do corpo em amor. Seu desejo é que “cada parte” tenha algo a fornecer em benefício de “todo o corpo”. Isso é algo em que podemos ser exercitados.
Resumo dos Exercícios Necessários para Caminhar de Acordo Com a Verdade de o “Um Só Corpo”
- O reconhecimento prático da autoridade do senhorio de Cristo em nossas vidas (v. 1).
- Um exercício pessoal em andar humildemente com nossos irmãos (v. 2).
- Submissão ao Espírito de Deus que conduz à unidade que Ele tem formado (vs. 3-6).
- Aproveitar-nos dos dons (homens) dados à Igreja que nos ajudarão a atuar em nosso lugar no corpo (vs. 7-16).
A Verdade do “Um Só Corpo” só Pode Ser Praticada Hoje num Testemunho Remanescente por Causa da Ruína da Cristandade
Olhando novamente os primeiros dezesseis versículos do capítulo 4, vemos o ideal de Deus para a Igreja quanto ao corpo de Cristo. Seu desejo é que existisse uma manifestação prática de sólida unidade entre os membros do corpo, enquanto atuam sob a direção da Cabeça no céu. Se os membros do corpo prestassem atenção a estas exortações, haveria uma comunidade feliz de santos na Terra habitando juntos em harmonia e gozo, atuando para o prazer de Deus e a glória de Cristo, e para a edificação uns dos outros. Não haveria nenhuma seita denominacional ou divisão no testemunho público da Igreja. Que coisa maravilhosa seria isso! Isto é o que Deus pretende para a Igreja.
Como mencionado antes, a verdade apresentada em Efésios não leva em conta a ruína e falha do testemunho Cristão, porque o foco do apóstolo está no desejo de Deus para a Igreja. Hoje, por conta da irremediável ruína que entrou na Cristandade, não é possível praticar a verdade do “um só corpo” com todos os membros do corpo de Cristo. A maioria dos membros do corpo de Cristo nem conhece sobre a ordem de Deus para Cristãos reunidos para adoração e ministério, no terreno de um só corpo. Eles estão bem felizes em ficar nos seus vários grupos denominacionais e não denominacionais, no estado dividido da Cristandade e, se eles forem iluminados com essas coisas, provavelmente eles não iriam querer deixar suas posições eclesiásticas. Portanto, é simplesmente impossível praticar a verdade do um só corpo com toda a Igreja na Terra hoje. Quando alguém se familiariza com isso pela primeira vez, pode ser devastador. Mas não há necessidade de nos desesperar. Deus antecipou plenamente o estado de ruína que se desenvolveria no testemunho da Igreja e fez provisão para esses dias de fracasso, de modo que Cristãos exercitados sobre esta verdade do um só corpo pudessem praticá-la. As Escrituras indicam que quando a falha generalizada entra, um grande princípio ao qual Deus recorre é que Ele abandona o testemunho público como um todo (como Ele originalmente estabeleceu), e passa a trabalhar com um remanescente. Quando o que Ele confiou às mãos dos homens em testemunho falha, Ele reduz seu tamanho, força, glória e número, e continua num testemunho remanescente (Is 1:2-9). A palavra “remanescente” significa “o resíduo” ou “aquilo que permanece” de qualquer coisa que resta do que foi estabelecido originalmente. Deus agiu neste princípio na história de Israel (1 Rs 11-12; Ed 1-6), e agora com a Igreja (Ap 2:24-29), e fará de novo, num dia vindouro, com os judeus na Tribulação (Is 8:11-18, 10:21-22, 11:11; Jl 2:32, 3:1-2; Mq 4:7; Sf 3:13; Ap 12:17).
Em divina prerrogativa e graça, Deus está tomando um aqui e outro ali, e Ele está reunindo-os ao nome do Senhor numa posição remanescente, aparte da confusão e desordem da Cristandade, onde a verdade do um só corpo pode ser praticada (Mt 18:20). Aqueles “reunidos” ao nome do Senhor não são o remanescente. Falando apropriadamente, todos os verdadeiros crentes dentre a massa de meros professantes na Cristandade é o remanescente de Deus, mas, eclesiasticamente, os santos reunidos ocupam uma posição remanescente no testemunho, e estão onde o remanescente (todos verdadeiros crentes) devia estar como reunido ao nome do Senhor.
Uma vez que a ruína agora permeia o testemunho público da Igreja, devemos olhar para a verdade do um só corpo, como apresentada em Efésios 4, através da “escotilha” de 2 Timóteo, a qual leva em conta a ruína. Esta pequena e útil epístola dá ao crente luz para este dia difícil no qual vivemos.