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A Epístola de Paulo aos Filipenses

CRISTO – O PROPÓSITO DA VIDA CRISTÃ Capítulo 1

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 4 de 12

CRISTO – O PROPÓSITO DA VIDA CRISTÃ
Capítulo 1

Como mencionado na Introdução, nas muitas referências de Paulo a si mesmo, vemos um homem absorto em seu Objeto e regozijando-se em suas circunstâncias. Isso é Cristianismo normal. É o que deveria ser a experiência de todo Cristão. Neste primeiro capítulo, vemos Cristo diante da alma de Paulo como aqu’Ele que é todo o seu propósito de viver.

A Saudação

Vs. 1-2 – Ao dirigir-se aos santos em Filipos, Paulo não usa um título oficial, mas, em vez disso, apresenta a si mesmo e a Timóteo simplesmente como “servos de Cristo Jesus”. Portanto, não devemos considerar a experiência que ele relata na epístola como sendo algo apostólico. Ou seja, uma pessoa não precisa ser apóstolo para ter a experiência que Paulo teve. Pelo contrário, ele fala de si mesmo como um servo. Isso significa que essas coisas estão ao alcance de todo Cristão, pois todos os crentes podem se entregar a Cristo como o Senhor de suas vidas e serem servos em Seu serviço.

O Senhor nunca, em momento algum, ordenou que alguém fosse Seu servo; é algo que o crente voluntariamente escolhe ser quando percebe que foi “comprado por um bom preço” (1 Co 6:20, 7:23). O processo de exercício que leva o crente a essa entrega vem primeiro do entendimento do que a obra de Cristo na cruz fez por nós. Isso torna o crente “liberto do Senhor” (1 Co 7:22a). Assim, fomos libertados do julgamento de nossos pecados, do pecado como um mestre, de Satanás e do mundo. Mas quando o custo de nossa liberdade chega ao íntimo de nossas almas e percebemos o que Cristo pagou para nos redimir, resolveremos não mais usar nossa liberdade para nossos próprios interesses, mas para a promoção de Seus interesses. Nós, portanto, nos alistaremos voluntariamente em Seu serviço como “servos de Cristo” (1 Co 7:22b). Assim, a obra do Senhor na cruz recebida pela fé nos torna libertos, mas nós, por nossa própria escolha, nos tornamos Seus servos. Isto é puramente um exercício individual e uma decisão que uma pessoa só pode fazer por si mesma – ninguém pode fazer isso por nós. Ao declarar que ele e Timóteo eram “servos”, Paulo estava indicando que ambos tinham passado por esse exercício e estavam com regozijo se colocando à disposição do Senhor em Seu serviço. E, ao fazê-lo, descobriram o segredo do verdadeiro gozo e felicidade na vida!

Paulo então se dirige aos filipenses como “santos em Cristo Jesus”. Um santo é um “santificado”. Refere-se ao crente sendo separado (o significado de santificação) por Deus e colocado em um lugar de bênção. A expressão “Cristo Jesus” (o título do Senhor colocado antes de Seu nome humano) refere-se a Ele como tendo completado a redenção e retornado ao céu como um Homem glorificado. Sua aceitação lá diante de Deus tornou-se a medida da aceitação do crente, pois é dito que estamos “em Cristo Jesus!”. Simplificando, estar “em Cristo” é estar no lugar de Cristo diante de Deus. Esta é a posição de todos os Cristãos. Os santos do Velho Testamento foram abençoados por Deus e agora estão no céu, mas não é dito que estejam “em Cristo”. Os crentes de outras eras são aceitos “com” Ele (At 10:35 – KJV), enquanto apenas Cristãos são ditos aceitos “n’Ele” (Ef 1:6). Estar “em” Cristo denota nossa conexão com Ele como um Homem glorificado à destra de Deus por meio da habitação do Espírito Santo. Assim, os Cristãos têm um lugar especial de favor na família de Deus que todos os outros não têm.

Paulo inclui “os bispos e diáconos” em sua saudação. Esses homens, que cuidavam do rebanho localmente, provavelmente foram os que tomaram a iniciativa de organizar a coleta e escolheram Epafrodito para levá-la a Paulo. Talvez seja por isso que é feita uma menção especial a eles. Uma assembleia que reconhece seus líderes e atua em feliz comunhão com eles é geralmente uma assembleia forte.

Paulo então diz que “graça” e “paz” estavam sobre eles “da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo” (v. 2). Assim, uma provisão sempre nova de ajuda divina estava sobre os filipenses (como está sobre todos os Cristãos), e assim eles podiam contar com a ajuda de Deus para caminharem juntos como uma assembleia. Esta é a primeira menção de “Senhor” na epístola; Ele é mencionado mais de 50 vezes! Isso é significativo; sua menção frequente aponta para o fato de que, se a autoridade do Senhorio de Cristo é possuída na vida prática do crente, ele experimentará o mesmo tipo de felicidade e frutificação que Paulo teve em sua vida.

Agradecimentos de Paulo

Vs. 3-8 – Paulo começa agradecendo a Deus pelos filipenses. Ele diz: “Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós”. Eles tinham sido uma fonte de encorajamento para ele, e ele queria que soubessem disso. Sua conversão do judaísmo ao Cristianismo rompera muitos laços ternos e fortes que mantinha com seus compatriotas, e ele sentiu essa perda profundamente; mas o amor e companheirismo dos filipenses ajudaram a preencher aquele vazio. Eles se tornaram queridos e ele era grato pelo amor e cuidado que tinham para com ele. Também queria que soubessem que estava orando por eles, e assim diz: “Fazendo sempre com alegria [gozo – JND] oração por vós em todas as minhas súplicas”. Acrescentar as palavras “com alegria” significava que ele tinha boas lembranças do tempo que ficou com eles.

Mais particularmente, Paulo agradeceu a Deus por sua “cooperação no evangelho desde o primeiro dia até agora”. Isso se refere ao apoio monetário deles aos servos do Senhor que saíram para pregar a Palavra em outras regiões. Isto é bastante notável porque era uma assembleia muito pobre. Eles davam à obra do Senhor da sua “profunda pobreza”, indo “acima de seu poder” para fazê-lo – e o fizeram “com gozo” (2 Co 8:1-3). Paulo foi o destinatário desta graça pelas mãos de Epafrodito (Fp 4:18), enquanto ele estava encarcerado em Roma e agora estava escrevendo para agradecer-lhes por sua bondade. Seu interesse e apoio ao evangelho não haviam diminuído “desde o primeiro dia” (veja Atos 16), “até agora”. Esse foi um período de cerca de dez anos – aproximadamente de 51 d.C. a 61 d.C. Os filipenses realmente haviam ministrado a Paulo desta maneira em mais de uma ocasião (Fp 4:14-15; 2 Co 11:9). Isso mostra que seus corações estavam no lugar certo e que era uma assembleia espiritualmente saudável. É sempre uma marca de declínio espiritual quando uma assembleia perde interesse no evangelho. Tal não foi o caso com os filipenses.

Note que Paulo não fala deles pregando o evangelho, mas sim da comunhão deles com o evangelho. Os próprios filipenses não saíam por regiões afora para pregar – eles tinham responsabilidades seculares a cumprir e não estavam livres para sair no trabalho missionário. Mas o coração deles estava com esse trabalho e ministravam àqueles que saíam dessa maneira para o evangelho. Paulo diz que, ao fazer isso, eles eram “participantes” naquela obra da graça, e Deus certamente Se lembraria do sacrifício deles pelo nome de Cristo (v. 7). Isso mostra que, se não formos capazes de romper com nossas responsabilidades seculares para nos dedicarmos a tal obra, ainda podemos fazer parte desse trabalho apoiando monetariamente aqueles que estão, por assim dizer, nas “linhas de frente”. Aqueles que assim o fazem compartilharão as recompensas no dia vindouro.

Barzilai, Sobi e Maquir são exemplos desse ministério no Velho Testamento. Eles proveram a Davi e a seus homens que participavam da batalha, mas eles mesmos não estavam diretamente envolvidos no conflito (2 Sm 17:27-29, 19:32). Davi apreciou a bondade deles e lhes escreveu um Salmo de agradecimento, que às vezes é chamado de “O Salmo de Barzilai” (Sl 41). Em Lucas 19:11-27, o Senhor falou do valor desta obra nos bastidores. Ele mostrou que se não pudermos entrar diretamente no trabalho e “negociar” nossa “mina”, podemos pelo menos colocá-la “no banco” e retirar a remuneração dos juros quando Ele voltar (v. 23). É significativo que a palavra traduzida do grego como “banco” em Lucas 19:23 tenha também um sentido semelhante à palavra traduzida como “comunhão” aqui em Filipenses 1:5. Os filipenses foram exemplares neste trabalho de auxílio. Uma pergunta que podemos nos fazer a respeito disso é: “Que comunhão tenho eu com o evangelho?”

V. 6 – A condição espiritual saudável dos filipenses deu a Paulo a confiança de que continuariam no caminho Cristão até o fim. Ao fazer tal sacrifício como fizeram, Paulo percebeu que Deus “começou a boa obra” neles e tinha certeza de que isso levaria ao seu triunfo final no “dia de Jesus Cristo”. Como regra, Deus olha para Seu povo tendo em vista o que serão quando Seu trabalho neles estiver completo. Assim, ao olhar para o triunfo final deles, como Paulo faz aqui, vemos que tinha a perspectiva de Deus para com os filipenses. O início da obra de Deus nos crentes é o novo nascimento e sua conclusão não é quando recebem a Cristo como seu Salvador e são selados com o Espírito, mas quando forem glorificados como Cristo (Fp 3:20-21) e manifestados em glória no dia vindouro (2 Ts 1:10).

“O dia de Jesus Cristo” (cap. 1:6, 10, 2:16) é aquele tempo quando Deus mostrará publicamente os santos com Cristo em glória – o Milênio. Os galardões que os santos receberão no tribunal de Cristo serão então manifestos (1 Co 3:13; 2 Tm 1:12; Fp 2:16). Assim, o dia de Cristo começará na Aparição de Cristo e continuará durante todo o Milênio (1 Co 1:8, 3:13, 5:5; 2 Co 1:14). Ele é abreviado como “aquele dia” em alguns lugares nas epístolas de Paulo (2 Ts 1:10; 2 Tm 1:12, 18, 4:8). “O dia de Cristo” não é o dia do qual o Senhor falou no cenáculo quando disse: “Naquele dia ...” (Jo 14:20, 16:23, 26). O Senhor estava falando dos dias atuais, quando o Espírito viria morar na Terra, na Igreja. Nem é do mesmo dia que os profetas do Velho Testamento falaram quando disseram: “Naquele dia ...” (Zc 12:3, 4, 6, 8, 9, 11; 13:1, 2, 4 , etc.) – que é o dia do Messias na Terra em relação a Israel. Em contraste com o que os profetas falaram, o dia de Cristo tem a ver com a Sua glória celestial com a Igreja sendo manifestada.

Aprendemos deste versículo 6 que todos somos uma obra em progresso. Assim sendo, precisamos ter a perspectiva de Deus quando olhamos uns para os outros; caso contrário, é provável que nos tornemos críticos em relação às particularidades e falhas de caráter nos outros. Temos a tendência de ver a imperfeição presente uns nos outros em vez de ver o que a futura glorificação fará. Isso pode ter sido o que, no fundo a razão dos desentendimentos entre as duas irmãs na assembleia em Filipos (cap. 4:2). O remédio do Sr. Darby para isso era: “Se você não pode ver Cristo em seu irmão, então veja seu irmão em Cristo”. Ele também disse: “Eu vejo a carne em mim e Cristo em meu irmão” (Miscellaneous Writings of J. N. Darby, vol. 4, pág. 214). Olhar o povo de Deus dessa maneira nos livrará de conflitos e disputas. Isso é algo que Paulo abordará no segundo capítulo.

V. 7 – Mantendo este princípio de olhar para os santos sob a perspectiva de Deus – o que eles serão como um produto acabado – Paulo disse: “Como tenho por justo sentir isto de vós todos” (v. 7). Ele sabia (provavelmente por meio de Epafrodito) que as coisas não eram perfeitas em Filipos, mas escolheu olhar para eles como o que seriam quando a obra de Deus neles estivesse completa. Sua confiança nesse resultado foi baseada no fato de que eles o tinham em seus corações. (A KJV diz: “Eu tenho vocês em meu coração” – o que certamente é verdade, mas não é o ponto dele aqui. Deveria ser traduzido de outra maneira – “Vós me tendes em vossos corações” – JND) A afeição deles por Paulo era uma clara evidência de que foram nascidos de Deus, pois todo aquele que é nascido de novo ama aqueles que também são nascidos de Deus (1 Jo 5:1).

Paulo lhes diz que por meio de sua comunhão prática com a obra do Senhor, eles se tornaram “participantes” nos sofrimentos relacionados ao evangelho que Paulo estava suportando em “prisões”. E, por meio desse ato de bondade e consequente identificação, também se tornaram “participantes” com ele na “defesa e confirmação do evangelho”. O evangelho é defendido por nossa insistência verbal em sua verdade, e isso é confirmado por nosso andar e caminhos. Isso significa que Paulo não apenas falou do evangelho, mas também o mostrou com sua vida. O inimigo está sempre procurando falsificar as boas novas, seja corrompendo sua mensagem introduzindo erro ou tentando denegrir o caráter de seus mensageiros. Uma defesa verbal da verdade do evangelho, bem como uma demonstração adequada dele exibido no caráter Cristão são, portanto, necessárias. Essas duas coisas andam juntas. Os homens de Gideão que tinham uma “buzina [trombeta – ARA]” em uma mão e uma “tocha” na outra ilustram esse importante equilíbrio (Jz 7:16). É inútil tentar uma defesa verbal do evangelho se o que ensinamos não for confirmado por um sólido caráter Cristão. Como podemos esperar que as pessoas aceitem o que pregamos e ensinamos quando seguimos os caminhos do mundo como qualquer outra pessoa que não tem fé?

V. 8 – Paulo clamava por Deus como testemunha do fato de que amava os filipenses tanto quanto eles o amavam. Ele diz: “Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho, em entranhável afeição de Jesus Cristo”. “Entranhas” é uma antiga palavra que descreve nossos mais profundos sentimentos e afeições. Assim, Paulo verdadeiramente os amava. É interessante que diz que era “entranhável afeição de Jesus Cristo”. Isso significa que ele os amou com o mesmo caráter de amor divino que o Próprio Senhor tinha por eles.

A Oração de Paulo

Vs. 9-11 – Tendo confirmado seu amor aos filipenses, Paulo passa a demonstrar suas preocupações de oração por eles. Ao fazê-lo, ficaram cientes do que Paulo desejava para eles. Já foi dito que não há maior serviço que possamos fazer pelos santos de Deus do que orar por eles. Epafras é um maravilhoso exemplo disso. Ele trabalhou “fervorosamente” (KJV) em oração para que os santos fossem “perfeitos e consumados [completos – JND] em toda a vontade de Deus” (Cl 4:12). Isso, é claro, não deveria ser o único serviço que fazemos para os santos, mas é por onde devemos começar.

Note que Paulo não pede melhores condições de vida para esses pobres santos, nem pede por sua saúde física, mas ora por um aumento em sua inteligência espiritual e discernimento moral, para que pudessem viver irrepreensivelmente e sem ofensa neste mundo e, assim, prestarem um bom testemunho diante de todos. Ele diz: “E peço isto: que a vossa caridade abunde mais e mais em ciência e em todo o conhecimento; Para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo; Cheios de frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus”. Em Efésios 1:16-23, a oração de Paulo tinha a ver com a inteligência espiritual dos santos em assuntos doutrinais em conexão com o Mistério, mas aqui ele ora por sua inteligência espiritual em conexão com o discernimento moral em questões práticas.

Essa série de coisas que Paulo pede pelos os filipenses começa com o crescimento deles em “amor” (AIBB). Isso ocorre porque o amor é o solo no qual o discernimento moral cresce. Quando nosso amor pelo Senhor, por Seu povo e pelos perdidos arder intensamente como deveria, estaremos em um estado correto de alma. E quando isto está conectado com “conhecimento” e “inteligência” (JND) dos princípios divinos, seremos capazes de “julgar e aprovar as coisas que são mais excelentes” (JND) em questões práticas que nos confrontam na vida. J. G. Bellett citou alguns exemplos de se ter esse tipo de discernimento moral em questões práticas que se diferem. Ele apontou para Daniel, que aconselharia o rei da Babilônia em assuntos concernentes ao império, mas não comeria de seu manjar (Dn 1:8-16, 2:27-45). E Zorobabel aceitaria a ajuda do rei da Pérsia na reconstrução do templo (Ed 1:4), mas recusaria a ajuda dos Samaritanos (Ed 4:1-4). E novamente, os cativos judeus na Babilônia orariam pela cidade da Babilônia e seus habitantes (Jr 29:7), mas não cantariam as canções de Sião para eles (Sl 137:1-4) (The Moral Glory of the Lord Jesus, pág. 35). Podemos nos perguntar por que em uma ocasião se associariam aos gentios e, em outra, recusariam associar-se a eles. A resposta é o discernimento moral.

O grande propósito de se ter esse discernimento moral e espiritual é ajudar os santos a andar de um modo que glorifique a Cristo. Assim, Paulo diz que o funcionamento prático dessas coisas faria o crente “puro e sem ofensa” (Fp 1:10 – JND) neste mundo. “Puro” é o que seremos para com Deus (1 Pe 1:16) e “sem ofensa” é o que seremos diante de nossos semelhantes (2 Co 6:3). Isso certamente teria um efeito positivo no presente testemunho do evangelho, mas Paulo estava pensando além do tempo presente, para o “dia de Cristo”, quando Deus vai mostrar em público o que Ele tem formado nos santos. Como mencionado, o dia de Cristo começa na Sua Aparição, e se estende por todo o Milênio (2 Ts 1:10). O resultado de se ter esse discernimento moral é que o mundo verá “frutos de justiça” em nós, não apenas agora, mas também naquele dia, e redundará para “glória e louvor de Deus”.

Uma Atualização de Suas Circunstâncias Pessoais em Roma

Vs. 12-20a – Paulo falou de ter “comunhão com o evangelho” (v. 5 – JND) e da importância da “defesa e confirmação do evangelho” (v. 7); agora ele fala do “maior proveito do evangelho” (v. 12). Os filipenses estavam cheios de preocupação por Paulo e estavam ansiosos para ouvir sobre o seu bem-estar. Sabendo da preocupação deles, Paulo aproveitou a oportunidade para lhes aliviar a ansiedade, atualizando-os sobre suas circunstâncias pessoais. É notável que, ao fazê-lo, ele não os ocupa com suas dificuldades, que eram consideráveis, mas com o que o Senhor estava fazendo em Roma.

Havia muito em torno de Paulo que poderia causar tristeza e depressão. Ele estava diariamente acorrentado a um soldado Romano, aguardando seu julgamento. Seu futuro, quanto à vida e morte, era sombrio e cheio de incertezas; Martírio era uma possibilidade muito real. Ele estava sem o conforto de amigos Cristãos, pois a maioria tinha medo de ser identificada com ele (2 Tm 1:15). (Mais tarde, quando foi encarcerado novamente, Onesíforo o visitou, mas Paulo fala dele como uma exceção – 2 Tm 1:16-18). Com tudo isso pairando sobre a cabeça de Paulo, não o encontramos reclamando ou em tristeza. Ele não pede aos filipenses que orem por seu livramento, ou para que tivesse melhores condições no cativeiro. Ele poderia repreender-se a si mesmo por ter ido a Jerusalém, o que levou ao seu cativeiro, mas ele elevou-se acima de sua falha e não se ocupou com isto.

Em vez de estar cheio de tristeza e pesar, vemos um homem vivendo com Deus acima de suas circunstâncias, em um estado de satisfação. Isso é notável; Paulo está contente com quem ele é e onde está, pois sabe que Deus está acima de todas as circunstâncias, e “o caminho de Deus é perfeito” (Sl 18:30). Longe de estar abatido com desânimo – estava se regozijando! Ele estava preso com uma corrente, mas seu espírito permaneceu livre. Isso mostra que a fé não pode ser impedida pelas circunstâncias. Também nos mostra que as circunstâncias não fazem o estado de alma de uma pessoa – elas apenas a manifestam.

Por meio do exemplo de Paulo, as lições aqui são abundantes sobre o que é o estado Cristão normal. Vemos que quem anda com Deus no poder do Espírito não ocupa os outros consigo mesmo, seja nas coisas boas ou nas ruins. Ele se submete à mão de Deus em sua vida e está contente em suas circunstâncias. Ele não se lamenta sobre seus fracassos, mas, tendo julgado tudo, continua com o coração voltado para Cristo e Seus interesses.

A Propagação do Evangelho

Mais do que apenas relatar seu estado pessoal, Paulo deu aos filipenses um breve resumo sobre a propagação do evangelho naquela área. Ele queria que soubessem que sua prisão não havia sido um obstáculo para o evangelho seguir adiante. Com o maior arauto das boas novas impossibilitado de sair para pregar, poderíamos pensar que tal coisa teria sido desastrosa para o testemunho do evangelho. Mas, na verdade, foi exatamente o oposto – seu cativeiro havia sido realmente para “maior proveito do evangelho!” (v. 12). Deus, que está acima de todas as circunstâncias, ordenou as coisas de tal modo que resultou em uma nova e mais ampla esfera de pregação. É um exemplo maravilhoso de como Deus pode providencialmente anular os planos dos ímpios e fazer com que as coisas resultem para maior proveito de Seus próprios interesses. Asafe declarou este princípio da ação providencial de Deus no Salmo 76:10. Ele disse: “Certamente a cólera do homem redundará em Teu louvor; o restante da cólera Tu o restringirás”.

O cativeiro de Paulo ilustra o fato de que Deus não precisa de nenhum de nós em Seu serviço – nem mesmo um apóstolo! Somos gratos pelos dons espirituais que Cristo, a Cabeça da Igreja, deu para ajudar os membros de Seu corpo a crescer (Ef 4:11-15), mas o êxito da obra de Deus entre os santos não depende desses dons. Ele tem o prazer em nos usar em Sua vinha, e somos gratos quando o faz, mas devemos sempre nos lembrar de que Ele não precisa de nós. Podemos não gostar de ouvir isso, mas nenhum servo do Senhor é indispensável. Entender isso nos livrará da importância própria no trabalho do Senhor.

Dois Resultados Positivos do Cativeiro de Paulo

Vs. 13-18 – Paulo prossegue declarando dois efeitos positivos que resultaram de seu aprisionamento. A primeira coisa foi que se tornou amplamente conhecido (“manifesto”) que ele não estava em cativeiro por conta de atividade criminosa, mas sim pelo seu testemunho por Cristo. Por isso, ele fala de sua prisão como sendo “prisões em Cristo” (v. 13).

Naquela época, Paulo estava em prisão domiciliar e morava em sua “própria habitação que alugara” (At 28:30). Um soldado romano estava acorrentado a ele todos os dias por um período de tempo estabelecido, e um após o outro, esses soldados tiveram uma experiência que jamais esqueceriam. Eles testemunharam em primeira mão um homem vivendo em constante gozo celestial. Cada um certamente ouviu o evangelho, e alguns provavelmente se converteram por meio da experiência, embora a Escritura seja silente quanto a isso. Visível por esse silêncio, aprendemos outra coisa sobre o correto caráter Cristão: o servo do Senhor, que anda com Deus no poder do Espírito, não conta seus convertidos nem se gloria do seu sucesso no evangelho (Mt 6:3). Tal coisa apenas chama a atenção para si mesmo. Em vez disso, ele continua silenciosamente em humilde serviço e deixa os resultados para Ele (Lc 17:10). (O capítulo 4:22 afirma que alguns da “casa de César” foram salvos! Como, ou por meio de quem foram salvos Paulo não diz.)

Não demorou muito para que a notícia a respeito deste notável prisioneiro se espalhasse por “toda a guarda pretoriana”. Essa era a Guarda Imperial, o quartel-general militar romano, que tinha um quartel que abrigava dez mil soldados. (Ver a nota de rodapé da Tradução de J. N. Darby.)1 Paulo olhou para cada um desses soldados, não apenas como futuros convertidos, mas como futuros mensageiros do evangelho. Independentemente se alguns soldados foram salvos ou não, as notícias de Paulo e das boas-novas que pregou se espalharam pelos quartéis e além deles por “todos os demais lugares” em Roma! Nem todos creram no evangelho, mas estava sendo falado sobre ele em toda a cidade, e isso era uma coisa boa.

V. 14 – O segundo resultado positivo da reclusão de Paulo foi que mais irmãos estavam sendo estimulados a pregar a Palavra. Ele disse que: “Muitos dos irmãos no Senhor” estavam “tomando ânimo com as minhas prisões” e “ousam falar a palavra mais confiadamente, sem temor”. Isso também era bom.

V. 15 – Paulo relata que entre esses, havia dois grupos de pregadores. Alguns pregavam a Cristo “por inveja e porfia” – isto é, com motivos errados e impuros, e havia outros que pregavam “de boa mente” ou com boas intenções.

V. 16 – Aqueles que pregaram a Cristo “por contenção” (ACF) e “não puramente” (ACF) estavam fazendo isso com o propósito de acrescentar “aflição” às “prisões” de Paulo. Eles queriam aumentar seus sofrimentos, se possível. É evidente a partir disso que esses pregadores do evangelho não gostavam de Paulo. Qual era exatamente o problema deles, ele não revela. Pode ter sido pelo que Paulo ensinou sobre o fim do primeiro homem diante de Deus (Rm 6:6; Fp 3:3). Talvez eles considerassem o seu ensinamento muito severo, e que isso tenha tornado o Cristianismo impopular entre as massas, e para contra-atacar, apresentavam um novo modelo de evangelho que não condenava diretamente o homem na carne nem insistia na separação do mundo. Pode ser que esses pregadores tenham visto o evangelho como um meio de obter lucro financeiro, como foi o caso de alguns em Corinto (2 Co 2:17 – que fizeram “um comércio da Palavra de Deus” – JND). Isso, é claro, foi algo que Paulo condenou, e essas coisas se tornaram a causa da antipatia por ele. Com Paulo estando encarcerado, procuraram tirar proveito da situação – mas os motivos deles tinham encobertos objetivos futuros.

Certos aspectos da doutrina de Paulo ainda são impopulares entre os Cristãos de hoje. A Cristandade rejeita categoricamente muito do seu ensinamento sobre doutrina e prática da Igreja. Por exemplo, a massa na profissão Cristã não aceita o que Paulo ensina sobre a condução soberana do Espírito Santo na assembleia em adoração e ministério, e introduziu o clericalismo (o sistema clero/leigo) em seu lugar. Além disso, a Cristandade em geral rejeita o que ele ensina sobre a adoração Cristã, onde não é necessária a prática judaica do uso de instrumentos musicais, corais, etc. E ainda, o que Paulo ensina sobre o lugar da irmã na Igreja – que não permite pregação pública, ensino e administração – também é rejeitado pela massa. E também, seu ensino sobre o uso de cobertura de cabeça, etc. O espaço nos impede de fornecer uma lista completa aqui.

Os maus motivos desses pregadores servem para nos mostrar que o serviço Cristão pode ser realizado na energia da carne, motivado pela ganância, inveja e busca de glória. Uma vez que existe essa triste possibilidade com cada um de nós, devemos julgar a nós mesmos e nos manter humildes no serviço do Senhor, porque nossos motivos serão um dia revistos no tribunal de Cristo (1 Co 4:5).

V. 17 – No lado feliz, muitos irmãos foram devidamente despertados pelo cativeiro de Paulo. Eles pregaram a Cristo “por amor”, que é o motivo correto para ter-se relativamente a Deus e às almas perdidas. Ouvindo o exemplo de Paulo de ter sido “posto para a defesa do evangelho”, eles tiveram coragem e foram movidos para uma confiança mais completa no Senhor e, consequentemente, saíram destemidamente para pregar o evangelho. Isso deve ter sido encorajador e inspirador para os filipenses ouvirem.

V. 18 – Paulo diz: “Mas que importa? contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda”. Motivos impuros e métodos carnais podem ter sido utilizados por alguns que estavam pregando o evangelho, mas Paulo estava contente em deixar tudo isso com o Senhor. O testemunho do evangelho estava abundando; essa era a coisa importante. O evangelho pode não ter estado em seus corações, mas estava em seus lábios, e desde que Cristo estava sendo pregado, Paulo podia se regozijar. Percebemos a partir disso que ele não tinha animosidade em relação a esses pregadores. Longe de ter ciúmes ou de criticar esses homens que tinham a intenção de provocar-lhe problema, ele é gracioso; não há vestígio de irritação ou amargura em seu espírito. Quer os motivos da pregação fossem falsos ou puros, Cristo estava sendo proclamado e seu coração estava cheio de gozo. Ele diz: “nisto me regozijo, e me regozijarei ainda”.

Precisamos ter essa mesma atitude em relação àqueles da Cristandade que pregam com aparentes motivos impuros. Pode ser que eles trabalhem com motivos de cobiça, inveja e busca de glória – ou talvez, eles anunciem uma mensagem falha ou incompleta do evangelho. Podemos sentir que não devemos nos unir a eles em seu trabalho, mas podemos orar para que a Palavra pregada seja multiplicada nas mãos de Deus e frutifique nas almas sendo salvas. Vamos, assim como Paulo, regozijar-nos, pois Cristo está sendo pregado e as almas estão sendo abençoadas.

Salvação Prática Resultando em Glória Vindoura

V. 19 – Paulo diz: “Porque sei que disto me resultará salvação, pela vossa oração e pelo socorro do Espírito de Jesus Cristo”. Por meio das orações dos santos e da ajuda do Espírito Santo, ele estava confiante de que alcançaria “salvação”. Ele não poderia estar se referindo à salvação de sua alma da pena de seus pecados (At 16:31; 2 Tm 1:9; 1 Pe 1:9, etc.), porque ele já havia sido salvo eternamente. Além disso, a salvação de nossas almas não depende das orações dos santos ou de alguma obra do Espírito a ser feita para nós no futuro – é uma possessão presente do crente.

A que salvação Paulo poderia estar se referindo aqui? Para responder, precisamos entender que a salvação é um termo amplo e abrangente na Escritura que inclui muitos aspectos de livramento – desde a salvação da pena de nossos pecados até a nossa glorificação, quando o Senhor vier. É um erro, portanto, pensar que quando as palavras “salvo” ou “salvação” aparecem na Escritura, estejam sempre se referindo à libertação do juízo eterno conforme anunciado no evangelho. Como há muitos aspectos da salvação, é igualmente verdade dizer: “Eu fui salvo, estou sendo salvo e serei salvo”. W. Kelly comentou: “Se você tentar supor que existe apenas um significado de salvação no Novo Testamento, você está realmente em dificuldade; e descobrirá que não há possibilidade de conciliar essas passagens. De fato, nada é mais certo e fácil de determinar, de que a salvação no Novo Testamento é mais frequentemente citada como um processo ainda incompleto, não terminado, do que algo totalmente finalizado” (Lectures on Philippians, pág. 43). Este comentário do Sr. Kelly é significativo. Quer dizer que quando nos deparamos com as palavras “salvo” e “salvação” no Novo Testamento, na maioria das vezes, não está se referindo à salvação de nossas almas da pena de nossos pecados! Tal é o caso em toda a epístola aos Filipenses.

Como Paulo já tinha a alma salva por ter recebido a Cristo como seu Salvador (At 9), estava obviamente se referindo aqui a um aspecto diferente da salvação. Comentando sobre este versículo, W. Potter disse: “Então temos a palavra ‘salvação’. Nós a temos várias vezes nesta epístola. Está sempre em conexão com nossas circunstâncias e não com nossas almas” (Gathering up the Fragments, pág. 155). O contexto sugere que “disto” no versículo 19 se refere à contenda da carne daqueles que se opunham a Paulo, mencionada nos versículos anteriores. Ele esperava ser salvo em um sentido prático dos desígnios malignos deles para difamá-lo e feri-lo, e contava com as orações dos santos e o poder do Espírito para esse livramento. Assim, a salvação que tinha diante dele era o livramento completo de tudo o que pudesse encontrar na vida que impedisse que Cristo fosse engrandecido em seu corpo.

Alguns pensaram que a “salvação” da qual Paulo estava falando era sua libertação do cativeiro. Mas não poderia ser assim porque ele fala de salvação como algo que certamente obteria, ao passo que nos próximos versículos ele fala de sua libertação como sendo algo do qual estava incerto. Havia uma possibilidade muito real de ele morrer como um mártir nas mãos dos romanos. Além disso, no estado de alma em que Paulo é visto nesta epístola, seria fora de seu feitio querer uma mudança em suas circunstâncias. Ao longo da epístola, ele é visto em um estado de contentamento sobre o que Deus havia permitido em sua vida (cap. 4:11).

V. 20 – Essa “salvação” prática incluiria a vitória sobre a tentativa do inimigo de causar em Paulo a perda e fracasso da fé quando testada. Por isso, ele acrescenta: “Segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido” Teria sido um grande triunfo para Satanás se conseguisse que o maior defensor do evangelho Cristão se rendesse quando viesse seu teste final diante do tribunal romano. Por isso, a expectativa sincera e a esperança de Paulo eram que, quando esse teste viesse, ele teria a graça de não renunciar a Cristo. E que, se isso significasse ser morto por seu testemunho de Cristo, morreria fielmente para a glória de Deus como um mártir justo. Estêvão (o primeiro mártir Cristão), cujo testemunho inabalável Paulo havia testemunhado em primeira mão, foi seu grande exemplo (At 7). Se ele recuasse naquele momento crucial, certamente ficaria “envergonhado” (JND) no dia vindouro de manifestação, quando os resultados de nossas vidas serão expostos.

Ele conclui dizendo: “com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte”. Assim ele desejou, como Deus lhe deu a graça, continuar até o fim de sua vida com um testemunho ousado e firme por Cristo. Quer fosse libertado ou morresse como um mártir realmente não importava para ele. O que importava, e com o que se preocupava, era que Cristo fosse “engrandecido” em seu corpo. Engrandecer Cristo “pela vida” é fazer com que Ele seja apreciado e louvado pelos outros por meio do nosso testemunho d’Ele em nossa vida. Engrandecer Cristo “pela morte” é fazer com que Ele seja apreciado e louvado por outros, permanecendo firmes em nossa confissão de fé e não O renegando quando ameaçados com a espada. As pessoas que testemunharem tal confissão verão que Cristo é verdadeiramente precioso para nós (1 Pe 2:7) – suficientemente precioso mesmo para morrermos por Ele! Este testemunho, sob o poder do Espírito Santo, converterá pecadores a Cristo porque eles desejarão o que temos.

V. 21 – Paulo então declara o grande princípio de sua existência: “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho”. Ele não viveu por dinheiro, fama ou prazer; essas coisas não eram seu objetivo. Ele tinha apenas uma ambição – que Cristo fosse engrandecido em seu corpo quer fosse pela vida ou pela morte. Ao falar da vida e da morte dessa maneira, vemos que Paulo aprendeu a ver as coisas sob a perspectiva de Deus. Ele entendeu que o que pertencia à glória de Deus em Cristo era a coisa importante na vida. O que o preocupava não era o que seria melhor para Paulo, mas o que seria melhor para os interesses de Cristo – isso era o que importava para ele. Vemos nisso a absoluta ausência de egocentrismo. Ele era um homem que havia colocado um fim em si mesmo. O “eu” e suas ambições egoístas haviam sido julgados e estavam fora de cena (cap. 3:4-8), e ele estava feliz por isso! Com o ego fora do caminho, ele viu as coisas na vida claramente – tudo deve estar centrado em Cristo. Que estado maravilhoso de se alcançar na experiência Cristã! Vamos nos lembrar de que isso é Cristianismo normal.

Afirmar que a morte para um Cristão é um “ganho” prova que a doutrina do “sono da alma”, ensinada em alguns círculos, não poderia estar correta. É dito que as almas e os espíritos do falecido entram imediatamente num estado de inconsciência, no qual não sabem nem sentem nada. Jó 14:21, Salmo 115:17 e Eclesiastes 9:5 são usados erroneamente para sustentar essa falsa ideia. (Essas Escrituras falam dos mortos não estando conscientes das coisas que acontecem na Terra depois de morrerem, simplesmente porque eles não estão aqui para considerá-las; não se referem a um estado de inconsciência) Se um estado de inconsciência fosse a porção dos mortos, então a morte não poderia ser chamada de ganho. Paulo, por exemplo, vivia em feliz comunhão com o Senhor; se a morte o levasse, e ele passasse para um estado de inconsciência, isso lhe seria uma grande perda. Ele perderia seu feliz gozo da comunhão com o Senhor! Muito pelo contrário, Paulo diz que a morte leva o crente a um novo patamar de gozo da comunhão com o Senhor, do qual ele diz ser “ainda muito melhor” do que qualquer coisa que pudesse experimentar enquanto estava aqui na Terra em seu corpo (v. 23).

Vs. 22-23 – Paulo então volta a falar de seu futuro. Como já mencionado, ele enfrentou dois desfechos – ser libertado do cativeiro ou morrer como mártir pelas mãos dos romanos. Ele diz: “Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto [apertado entre dois], tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor”. (Tradução de W. Kelly). Assim, Paulo estava em meio a um dilema; ele queria as duas coisas. Mas estando em tal estado de abnegação, ele estava sem uma decisão no assunto, e assim se contentou em deixar a escolha para o Senhor. Sua vida podia ser resumida como tendo sido cheia do serviço do Senhor, e a morte era simplesmente aquilo que o levaria a um desfrutar mais pleno do Senhor. Permanecer vivo significava viver para Cristo, morrer significava estar com Cristo.

Há quatro passagens principais no Novo Testamento que se referem ao estado feliz dos crentes que partiram. (Ver Collected Writings of J. N. Darby, vol. 2, pág. 293). Esses são:

  • Lucas 23:43 – “Comigo no paraíso”.
  • Atos 7:59 – o espírito e a alma são “recebidos” pelo Senhor.
  • 2 Coríntios 5:8 – “presentes com o Senhor” (AIBB).
  • Filipenses 1:23 – “com Cristo... é ainda muito melhor.”

 

Note que em conexão com este estado feliz de crentes que partiram, Paulo não diz apenas que é “bem melhor”, como traduzido na KJV, mas “muito melhor”, como na Tradução de W. Kelly, ou “muitíssimo melhor”, como na Tradução J. N. Darby. Note também que ao estabelecer o fato de que o estado dos crentes que partiram é melhor do que qualquer coisa que pudéssemos experimentar enquanto estivermos aqui na Terra em nossos corpos, ele é cuidadoso em não dizer que é o melhor. Isto é porque é de fato melhor, mas não é o melhor. Há algo esperando o crente que é ainda maior do que partir para estar com Cristo por meio da morte – é estar com e como Cristo no estado glorificado (Fp 3:21). Isto é o melhor de tudo! Isto, como sabemos, não ocorrerá até que o Senhor nos chame ao lar no Arrebatamento, quando os mortos em Cristo e os santos vivos serão glorificados juntamente (1 Ts 4:16-17; Hb 11:40).

“Partir para estar com Cristo” é uma afirmação que se refere ao estado intermediário ou “despido” dos crentes que partiram (2 Co 5:4); não está falando de sua condição final de glória. Muitos entenderam mal isso e pensaram estar se referindo à partida do crente para estar com o Senhor em Sua vinda (o Arrebatamento). Mas o assunto aqui é claramente o de estar com o Senhor por meio da morte, não do Arrebatamento. Assim, os santos que partiram estão presentemente “com Cristo”, mas ainda não estão em glória. Isso pode soar estranho para alguns que têm a ideia errônea de que a glória é sinônima de céu – uma antiga ideia dos Reformadores. Para eles, parece que estamos dizendo que os santos falecidos não estão no céu. Contudo, a glória em referência aos crentes é uma condição (1 Co 15:43, etc.), não um lugar no céu onde os crentes vão quando morrem. Os santos que partiram estão com Cristo no paraíso, no céu, em um estado de felicidade indescritível, mas eles não estão em glória – isto é, ainda não estão glorificados. Essa condição aguarda a ressurreição deles. J. N. Darby disse: “O estado intermediário, então, não é glória (pois devemos esperar pelo corpo. Ele será ressuscitado em glória; O Senhor mudará nossos corpos e os tornará como Seu corpo glorioso)” (Collected Writings of J. N. Darby, vol. 31, pág. 185).

Vs. 24-26 – Paulo reconheceu que permanecer na Terra seria mais benéfico para o progresso espiritual dos santos e, da maneira não egoísta, diz: “Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne; E, tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós para proveito vosso e gozo da fé; Para que a vossa glória [regozijo] abunde por mim em Cristo Jesus, pela minha nova ida a vós”. Não podemos deixar de ficar impressionados com isto. Ele não pensou em seu próprio conforto e no que preferiria, mas no que seria melhor para a causa de Cristo neste mundo e do progresso espiritual dos santos. Este, novamente, é um estado Cristão normal.

Exortações de Paulo à Unidade no Testemunho do Evangelho

Vs. 27-28 – Chegamos agora às exortações de Paulo. Ele tinha preocupações especiais quanto aos perigos que os filipenses estavam correndo e os exorta sobre isso. Em primeiro lugar, e acima de tudo, ele insiste em que eles se conduzam de maneira digna que recomendaria o evangelho aos perdidos. Não há melhor maneira de fazer isso do que ter crentes andando juntos em feliz comunhão. Ele diz: “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (v. 27). Assim, era imperativo que ficassem juntos, ombro a ombro, em feliz unidade perante o mundo.

Paulo desejou conhecer os afazeres dos filipenses, e disse-lhes que o relato que esperava ouvir era que estivessem permanecendo “juntos” no evangelho com “um mesmo espírito” e “o mesmo ânimo”. Ele menciona isso porque sabia que havia dissensão crescendo no meio deles, girando em torno de duas irmãs que não estavam se dando bem (cap. 4:2). Ele também sabia que Satanás faria uso de algo tão simples como este para dividir a assembleia em Filipos, se pudesse. E isso, por sua vez, prejudicaria o testemunho do evangelho naquela área. Dificilmente poderia haver algo mais prejudicial ao testemunho do evangelho para com os que estão de fora do que contenda e disputa entre aqueles que estão no meio Cristão. Se o mundo vê que não podemos concordar sobre as coisas entre nós, como podemos esperar que recebam as coisas que pregamos?

Paulo também sabia que caminhar juntos em um testemunho em unidade atrairia feroz oposição ao evangelho, e resultaria em perseguição. Ele diz, portanto, que esperava que o relato que aguardava ouvir deles incluísse o fato de que, apesar da oposição, permaneciam sem medo de seus adversários e, consequentemente, continuavam com uma ousada confissão de Cristo. Ele diz: “e que em nada estais atemorizados pelos adversários, o que para eles é indício de perdição [destruição – JND], mas para vós de salvação, e isso da parte de Deus” (v. 28 – AIBB). O próprio fato de que Paulo chama os opositores do evangelho de “adversários” (AIBB) é uma prova de que a “destruição” (JND) será sua porção merecida quando o juízo for proferido pelo Senhor. Mas para os crentes, será exatamente o oposto; a intervenção do Senhor será para a nossa “salvação”. Este é um aspecto futuro da salvação que os crentes aguardam ansiosamente, quando serão tirados deste mundo no Arrebatamento. Novamente, como no versículo 19, Paulo não poderia estar se referindo à salvação de nossas almas da pena de nossos pecados aqui, porque já o tivemos quando recebemos a Cristo como nosso Salvador.

Sofrendo por Cristo

V. 29 – É uma antiga tática do inimigo desencorajar os crentes de testemunharem por Cristo por meio de ameaças de violência. Paulo lembra aos filipenses que, se a perseguição fosse a porção deles, precisavam se lembrar de que todo esse sofrimento é realmente um privilégio que nos foi “concedido” para suportar por Cristo, e deveria ser visto como uma honra. Ele disse: “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer n’Ele, como também padecer por Ele”. Nosso exemplo são os próprios apóstolos (At 5:40-41). Todo Cristão precisa entender que sofrer reprovação e perseguição é normal para o Cristianismo. Nós não podemos realmente escapar disso e ainda permanecer fiéis ao Senhor (2 Tm 3:12).

Sofrer “por” Cristo tem a ver com suportar reprovação e perseguição por causa da confissão de Cristo entre os homens. Há um tipo dessa espécie de sofrimento na história de Davi e Jônatas. Davi é um tipo de Cristo e Jônatas é um tipo do crente. Quando Jônatas se identificou publicamente com Davi, Saul e os que o seguiram se enfureceram, e Saul atirou uma lança em Jônatas – seu próprio filho! (1 Sm 20:30-34) O sofrimento por Cristo é uma coisa facultativa. Ou seja, podemos optar por evitá-lo, se desejarmos, simplesmente recusando-nos a confessar a Cristo diante dos homens.

Sofrer “com” Cristo é algo diferente (Rm 8:17). Isso é inevitável. Tem a ver com o crente tendo uma natureza divina por meio de um novo nascimento e da habitação do “Espírito de Cristo” (Rm 8:9). O Espírito de Cristo é uma função especial do Espírito Santo que forma os sentimentos e compaixões de Cristo no crente. Quando o Senhor olha para essa cena em que o pecado teve seus tristes efeitos, Ele sofre em empatia por Suas criaturas que estão sofrendo sob a escravidão da corrupção. Como “filhos de Deus” (Rm 8:14) e “crianças de Deus” (Rm 8:16 – JND)2, somos vasos da compaixão de Deus (Rm 8:14-18). Tendo um vínculo em nossos corpos com a criação sofredora e tendo o Espírito em nós, quando vemos uma das criaturas de Deus sofrer, em nossa pequena medida, sofremos “com” Cristo em empatia. Visto que todos os crentes têm o Espírito de Cristo neles, todos os crentes, mais ou menos, sofrem desse modo.

V. 30 – Enquanto esperamos o Senhor vir, é nosso privilégio servi-Lo, testemunhando por Ele e divulgando a revelação Cristã da verdade a todos os que a receberem. Ao usar as palavras “combatendo” e “conflito” nessa conexão, Paulo não estava sugerindo que deveríamos discutir e lutar com aqueles que se opõem à verdade. Nosso conflito é uma coisa espiritual, em que combatemos inimigos espirituais que confundem as mentes dos homens com ideias falsas, ensinando pacientemente a verdade a eles (2 Co 10:4-5; Cl 1:29, 2:1). Simplesmente não há lugar para argumentos carnais na obra do Senhor (2 Tm 2:14). Toda essa atividade apenas estraga o testemunho do evangelho. Mas quando servimos corretamente sob o senhorio de Cristo, estaremos engajados no mesmo conflito espiritual em que Paulo estava, e compartilharemos as mesmas recompensas em um dia vindouro.

Em resumo do capítulo 1, vimos um homem (Paulo) que pesou a vida na balança de Deus, e concluiu corretamente que viver para a causa de Cristo é a única coisa pela qual vale a pena viver – e vivendo para Cristo, descobriu que isso é a chave para uma vida feliz e frutífera.

CRISTO – O PADRÃO PARA A VIDA CRISTÃ
Capítulo 2

O inimigo (Satanás) não estava apenas tentando destruir o testemunho dos filipenses naquela região por meio da perseguição de adversários de fora do círculo Cristão (cap. 1), mas também estava tentando destruir seu testemunho instigando dissensão dentro do círculo Cristão. (cap. 2) Nosso adversário teve grande sucesso nessas linhas de ação ao longo da história da Igreja. O que a perseguição não causou a dissensão interna certamente realizou.

Como resultado do trabalho do inimigo dentro do círculo Cristão, a Igreja se dividiu em tudo, em princípio e prática – até o ponto em que seu testemunho público foi destruído em milhares de pedaços! Existe agora uma vasta variedade de denominações e comunhões não-denominacionais Cristãs que são tão diferentes como “água é do vinho”. Não é preciso dizer que isto absolutamente não é o que Deus pretendia para a Igreja durante o tempo da ausência de Cristo. O Senhor orou para que vivêssemos e andássemos juntos como “um” (Jo 17:11, 21, 23). Ele quer que os Cristãos caminhem juntos em unidade prática, mesmo que estejam espalhados por todo o mundo, e assim expressem a verdade do “um só corpo” de Cristo (Ef 4:2-4). É triste dizer que nosso estado dividido rendeu ao mundo uma visão distorcida do evangelho e da revelação Cristã da verdade. Os incrédulos olham para a Igreja como ela está hoje e ficam totalmente confusos.

Podemos perguntar: “Como tudo isso começou?” Em muitos casos, resultou de Cristãos não estando em “um espírito” e em “uma mente”, como Paulo insiste nesta epístola (cap. 1:27, 2:2, 3:16, 4:2). Satanás fez uso de divergências aparentemente pequenas e instigou a carne nos crentes a tomar posições opostas em questões de doutrina e prática, e essas diferenças tornaram-se tão profundamente abrigadas em cada um deles que se tornaram irreconciliáveis. O estado atual da Igreja com todas as suas muitas divisões tem sido o resultado. O triste é que Satanás ainda está trabalhando para dividir ainda mais a Igreja. Ele tem planos em todas as comunhões Cristãs, desde a enorme igreja de uma grande metrópole até o aparentemente insignificante pequeno salão ou capela evangélica numa área rural. Seu objetivo é fazer em pedaços todos os testemunhos para Cristo. Estando ciente dos ataques de Satanás (2 Co 2:11), Paulo dá aos filipenses, neste segundo capítulo, o remédio divino para a salvação da assembleia contra as investidas do inimigo. Como Satanás ainda está trabalhando para esse fim, o que está exposto aqui tem uma aplicação importante para as assembleias Cristãs de hoje em dia.

Paulo abordou a necessidade de unidade nos meios Cristãos no capítulo 1:27, mas agora inicia uma longa dissertação sobre a causa e cura para a contenda entre os Cristãos. Se as coisas que ele está prestes a apresentar fossem levadas a sério e aplicadas na prática, o inimigo seria frustrado em sua tentativa de destruir as assembleias Cristãs hoje.

Uma Exortação à Unidade na Vida da Assembleia

Vs. 1-2 – Neste capítulo, Paulo está prestes a exortar os filipenses a caminhar em unidade prática (v. 2). Ele também vai dizer-lhes que isso só pode ser alcançado por meio de cada um tendo uma mente humilde (vs. 3-4). Além disso, lhes mostrará que aquilo que produz sujeição e humildade de mente nos crentes é ter nossa atenção voltada para o sentimento de Cristo, que é o padrão para a graça humilde (vs. 5-8). Mas antes de Paulo falar dessas coisas, ele aponta para o fato de que a graça necessária para caminhar em unidade prática já havia sido produzida nos filipenses (v. 1). A evidência disso era o amor e a bondade que tinham livremente derramado sobre ele, ao pensar nele em sua necessidade e enviar uma oferta de tão longe. Paulo se refere a essa demonstração de graça e bondade ao mencionar seu “conforto em Cristo”, sua “consolação de amor”, sua “comunhão no Espírito” e seus “entranháveis afetos”. Tudo isso lhe havia sido dispensado (v. 1).

O “se” usado no versículo de abertura é um “se” de argumento, não um “se” de condição. (Veja a página 11) Os “se” não implicam que pode não ter havido consolo em Cristo, etc. A palavra é usada aqui no sentido de “desde que”, “já que”. Paulo estava construindo um argumento; estava dizendo que “desde que” DEUS produziu esses maravilhosos sentimentos e compaixões neles para com ele, então sabia que eram capazes de mostrá-los aos outros – e particularmente, uns aos outros, que é o que realmente tinha em mente. Sendo assim, ele diz: “Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa” (v. 2). É como se ele estivesse dizendo: “Vocês demonstraram muita bondade, amor e compaixão por mim, e eu realmente agradeço. Mas se vocês realmente querem me fazer feliz e completar meu gozo, mostrem uns aos outros a mesma graça que têm me dado”. Quando tal condição é existente entre os crentes, haverá uma unidade feliz e coesa que o inimigo não será capaz de estragar.

Parece que, embora os filipenses estivessem bastante abertos e dispostos a mostrar graça e bondade a Paulo, não foram tão diligentes em expressá-la uns aos os outros. Não testemunhamos isto nas assembleias Cristãs em nossos dias? Um irmão que viaja (“que trabalha na obra”) vem à cidade, e os santos se mobilizam em uma notável demonstração de amor e bondade para com ele – em tudo, desde comida deliciosa a uma oferta monetária. Mas quando se trata de uns para com outros, não manifestam o mesmo grau de amor e hospitalidade.

Podemos ver pelo que Paulo diz no versículo 2: “sintais o mesmo [penseis a mesma coisa – ARA]” e “sentindo uma mesma coisa [penseis uma coisa – JND]” que disputa geralmente começa com irmãos tendo pensamentos e opiniões diferentes sobre os assuntos (1 Co 1:10-11). Muitas vezes, isso vem de crentes que não têm um entendimento adequado de certos princípios relacionados a um assunto em questão e, por meio da ignorância, tomam uma posição sobre o assunto que outros, com um entendimento mais completo dos princípios divinos, percebem ser um erro. Então, quando o orgulho está envolvido, as pessoas tendem a “se entrincheirar” e manter suas posições com persistência e isso resulta em um impasse.

A Fórmula da Unidade

Vs. 3-4 – Isso poderia ser evitado se cada pessoa na assembleia seguisse a palavra de Paulo aqui: “Nada façais por [no espírito de] contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores [mais excelentes – JND] a si mesmo”. Nesta declaração, ele menciona duas grandes coisas que destroem as assembleias a partir de dentro – “contenda” e “vanglória”. A contenda é discutir e disputar e a vangloria é importância própria, ou nos considerarmos mais do que deveríamos. O orgulho está por trás de ambos (Pv 28:25; Rm 12:3). Paulo lida com contendas no capítulo 2 e vanglória no capítulo 3. Enquanto podemos esperar ver tal atividade da carne por todos os círculos mundanos, não sejamos tão ingênuos a ponto de pensar que tal coisa somente lá seria encontrada. Ela também pode estar presente entre os Cristãos – até mesmo os servos do Senhor, como o capítulo 1:15-16 indica. De fato, no reino espiritual, essas coisas assumem as formas mais sutis. Podemos disfarçar nossa malícia em algo que pareça ser uma piedosa preocupação.

Paulo diz que a grande segurança contra essas coisas é que cada um na assembleia ande em “humildade” e genuinamente considere seus irmãos como sendo “superiores [mais excelentes]” a si mesmo. (Isto não está se referindo à esfera do dom, mas à excelência moral. Ou seja, não está sendo pedido a um evangelista talentoso que considere um irmão – que claramente não tem o dom para pregar – ser um pregador “melhor” do que ele. Isso simplesmente não seria verdade: Paulo está falando das “qualidades” [v. 4 – JND] morais que Deus formou em Seu povo.)

O uso repetido das palavras “cada” (JND) e “todo homem” (KJV) nos versículos 3-4 indicam que deve haver participação da parte de cada pessoa na assembleia – tanto os irmãos quanto as irmãs. Se há apenas uma pessoa que não está andando em julgamento próprio e humildade, ela pode ser o canal que Satanás está procurando para provocar contenda. Um irmão uma vez disse: “Em toda assembleia há o 'nitro' e há a 'glicerina'; é preciso apenas uma faísca voar entre os dois e haverá uma explosão!” Já que todos temos a carne em nós, somos todos capazes de fazer aquela faísca fatal voar. O tipo de unidade que Paulo está encorajando aqui não é um mero arranjo humano pelo qual certas coisas são combinadas para manter a paz. Vemos isso no mundo – nos negócios, na política, etc. A unidade divina, por outro lado, resulta da verdadeira humildade de mente.

Acrescentando a sua observação anterior, Paulo diz: “Não atente cada um para o que é propriamente seu [vantagens], mas cada qual também para o que é [vantagens] dos outros” (Nota de rodapé – JND). Isso mostra que precisamos ter a mentalidade que não considera o que seria mais vantajoso para nós, mas o que seria mais vantajoso para os outros. Ter uma atitude egoísta do “eu primeiro” na assembleia certamente causará atrito e problemas (3 Jo 9). Isto certamente não é seguir as coisas que servem para a paz (Rm 14:19).

O Padrão de Humildade - A Condescendência3 de Cristo

Vs. 5-8 – Paulo prossegue dizendo-nos como a verdadeira humildade de mente é produzida – é meditando sobre a humildade de Cristo Jesus. Ele diz: “De sorte que haja em [encontrado entre] vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus. Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação [não estimou apoderar-Se para] ser igual a Deus. Mas aniquilou-Se [esvaziou-Se] a Si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-Se [tomando Seu lugar] semelhante aos homens; E, achado na forma [na figura como] de homem, humilhou-Se a Si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (ARC [JND]). Nestes versículos temos todo o curso da vida do Senhor Jesus, desde as alturas de glória celestial até às profundezas da vergonha do Calvário.

O grande ponto a se ver nesta passagem é que o Senhor Se humilhou e tomou este caminho voluntariamente! É verdade que Ele veio em obediência a Deus que O enviou, mas esse não é o lado das coisas que está sendo enfatizado aqui. É, antes, Sua disposição Pessoal de descer em humilde serviço aos outros. Ele é o Exemplo supremo de humildade e abnegação. O próprio Senhor disse: “e aprendei de Mim, que Sou manso e humilde de coração” (Mt 11:29).

Ao dizer: “De sorte que haja em [encontrado entre] vós o mesmo sentimento”, Paulo está dizendo que, se essa mesma atitude (ou todo o modo de pensar) que estava em Cristo, estivesse “entre” os santos, curaria qualquer tendência à contenda e disputa. A palavra “permita”4 é uma palavra característica nas epístolas usada em conexão com exortações Cristãs. Ela implica que possuímos uma nova natureza (recebida por meio do novo nascimento) que deseja fazer a vontade de Deus, e também que temos o Espírito Santo em nós que nos guia a buscar esses desejos. Nossa parte é “permitir” a nova vida e o Espírito que habita em nós, fazerem a vontade de Deus por nosso intermédio, e não impedir essa atividade espiritual.

Note que Paulo não começa falando de ações, mas da fonte de todas as ações – nosso pensamento. É aqui que as coisas precisam estar certas; todas as ações corretas fluem de pensamento correto. Como então devemos pensar? Precisamos pensar como Cristo, imitando Sua “mente” humilde.

Sete Passos para Baixo

Paulo traça sete passos para baixo que o Senhor deu em Sua grande condescendência.

1) Ele, “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus”. Esta é uma declaração da verdadeira Deidade de Cristo. A palavra “forma” é usada nesta passagem no seu sentido antigo que se refere à matéria ou substância integral de algo. O sentido e o uso moderno da palavra transmitem uma ideia diferente. Uma pessoa pode ser levada a pensar que o Senhor Jesus era um mero esboço de Deus, ou que Ele Se parecia com Deus. Isso absolutamente não é o que Paulo está dizendo. O Senhor Jesus não Se parece com Deus – Ele é Deus! (Jo 1:1) O argumento de Paulo aqui é que, visto que Cristo é Deus e tendo igual parte na Divindade, Ele não “estima” (considera) que a glória disso seja “um objeto de rapina” (JND) – algo a ser agarrado e segurado a todo custo. Assim, Ele estava disposto a abrir mão do que legitimamente Lhe pertencia como Deus para descer para ser nosso Salvador. Este é um fato de admirável humildade.

 

2) Ele “esvaziou-Se” (TB) – Ele não estava apenas disposto a descer para nos alcançar em nossa necessidade, mas Ele provou isso esvaziando-Se. De que Ele Se esvaziou? Certamente não era da Sua “forma” de Deus – Sua Deidade. (Se Ele Se esvaziasse de Sua Deidade, deixaria de ser Deus, o que é impossível!) Todos os confiáveis mestres bíblicos concordam que o Senhor Se despojou de Sua glória exterior como Deus – a divina insígnia externa de Sua Deidade. Por exemplo, J. N. Darby disse: “Cristo... esvaziou-Se por meio do amor, de toda a Sua glória exterior” (Synopsis of the Books of the Bible, edição de Loizeaux, em Filipenses 2, pág. 501).

É importante entender que, ao esvaziar-Se de Sua glória exterior, Ele não deixou de ser tudo o que era como Deus. Da mesma forma, um general cinco estrelas pode ir para casa ao final do dia e tirar o uniforme, que o identifica como tal, e colocá-lo em uma cadeira. Ao fazê-lo, ele removeu a insígnia externa daquela distinta posição – mas ainda é um general cinco estrelas! Assim, o Senhor Se despojou da Sua glória, mas não da Sua Deidade. Foi da glória de Sua igualdade posicional com Deus que Ele Se esvaziou, não Sua igualdade pessoal com Deus. Ele “vendeu tudo quanto tinha” (Mt 13:46). Isso envolvia abrir mão dos direitos de Sua Divindade e prerrogativa de agir como Deus, embora Ele fosse Deus. Esta é uma maravilhosa demonstração de humildade.

 

3) “Tomando a forma de servo” – Ao tomar a humanidade e uni-la à Sua pessoa tornando-Se um Homem (Sua encarnação), o Senhor desceu ao lugar de Suas criaturas, embora Ele mesmo não fosse uma criatura. Ao fazê-lo, ocultou Sua Deidade em carne humana (Jo 1:14; 1 Tm 3:16; Hb 10:20). Como no versículo 6, aqui a palavra “forma” não significa um mero esboço, mas a parte integral e a substância de algo. Assim, enquanto permaneceu sendo Deus plenamente, Ele Se tornou um Homem real – e de um modo completo, tendo um espírito humano, uma alma humana e um corpo humano. Essa união de Sua natureza divina e Sua natureza humana é inescrutável (Mt 11:27).

Este passo para abaixo envolveu aceitar limitações de criatura que acompanham a humanidade. Como tal, Ele Se colocou sob a autoridade de Deus como um “Servo”. Isso era algo novo para Ele, pois nunca estivera em uma posição de sujeição antes; na eternidade passada, Ele era o Comandante de tudo no universo! Assim, nunca soube o que era ser obediente e, portanto, “aprendeu obediência” por Sua experiência em sendo Homem (Hb 5:8). Isso não significa que Ele passou por um processo de tentativa e erro em Sua experiência de aprendizado, mas sim que aprendeu por experiência como era o obedecer. Ao contrário de outros homens, Sua obediência foi perfeita; não houve nela tentativa e erro.

Sendo Quem Ele era, quando o Senhor Se tornou um Homem, poderia ter trilhado qualquer caminho da vida que escolhesse. Ele poderia ter tomado a forma de um grande rei ou de um imperador, e cercado a Si mesmo de riqueza e opulência, mas não, por Seu próprio ato de humildade, Ele tomou o lugar de um servo! Assim, não veio para que outros O servissem; Ele veio para servir aos outros (Mt 20:28). Estava aqui inteiramente para fazer a vontade de Seu Pai (Sl 40:8; Mt 26:39). Alguém uma vez disse: “O egoísmo gosta de ser servido, mas o amor gosta de servir”. Isso é o que caracterizou a vida do Senhor (At 20:35). Mais uma vez, que inapreensível humildade de uma Pessoa tão grande!

 

4) “Fazendo-Se semelhante aos homens” – Isso não significa que o Senhor apenas parecia um homem. Ele era “semelhante aos homens” porque era um Homem real. Externamente não parecia diferente de qualquer outro homem. Ele não Se destacou entre Seus discípulos. De fato, quando vieram prendê-Lo, Judas teve de identificá-Lo com um beijo – uma prova de que não tinha uma auréola. No entanto, enquanto era como qualquer outro homem fisicamente, Ele não era como qualquer outro homem moralmente, porque não tinha uma natureza pecaminosa caída que todos os outros homens têm. Sua natureza era santa (Lc 1:35). Portanto, Ele “não conheceu pecado”, “não cometeu pecado” e “n’Ele não há pecado” (2 Co 5:21; 1 Pe 2:22; 1 Jo 3:5).

 

5) “E, achado na forma [figura] de homem, humilhou-Se a Si mesmo” – Como Deus, Ele Se esvaziou, mas como Homem, Se humilhou. “Humilhou” está no tempo aoristo no grego, o que significa que foi uma coisa de uma vez por todas em Sua vida. Assim, esta declaração não está se referindo a nenhum ato em particular de humildade, mas sim, está descrevendo a soma de toda a Sua vida como um Homem. Quanto mais Se humilhou, mais foi pisado. Sua reação era simplesmente descer mais. Sua mente sempre foi a de abnegação própria

 

6) “Sendo obediente até à morte” – Isto mostra que não havia profundidade à qual o Senhor não descesse em Sua condescendência. Não é que Ele tenha obedecido à morte; esta não tinha domínio sobre Ele, pois era imortal. Ele obedeceu a Deus e Sua obediência levou-O até o ponto da morte. Ele preferiria morrer a desobedecer (Hb 12:4).

Note que Paulo não está falando aqui do que o Senhor realizou na morte para fazer expiação pelos nossos pecados. Ele está colocando Cristo diante de nós como nosso grande Exemplo a seguir; nunca poderíamos segui-Lo no que fez como o Emissário do pecado ao fazer expiação pelo pecado. É Sua humilhação que está diante de nós, não Sua obra de expiação.

 

7) “E morte de cruz” – Este passo levou Cristo ao mais baixo ponto de Sua condescendência. Podemos pensar que teria sido suficiente que Ele morresse, mas padecer uma morte de vergonha na cruz é realmente inconcebível. Ele foi injustamente acusado de praticar o mal e condenado à morte (Mt 26:59-66). Foi então despido (Sl 22:17-18), pregado a uma cruz romana (Sl 22:16), e deixado para morrer (Sl 22:19-21a). Não poderia haver nada mais humilhante.

O Senhor poderia ter morrido de alguma outra forma em que Sua dignidade tivesse sido preservada, e haveria, diante do mundo, honra e glória conectadas a ela. Mas não, Ele morreu em “fraqueza” (2 Co 13:4) e em “vergonha” (Hb 12:2 - JND) no lugar de um criminoso! (Lc 23:32-33) Esse é o melhor exemplo de humildade. Ele estava disposto a Se rebaixar a tal ponto que morreria despido em uma cruz, e isso para que Ele pudesse ser uma bênção para os outros!

 

Perguntamo-nos em Tua mente humilde,

E dispostos gostaríamos de Contigo estar,

E todo o nosso descanso e prazer encontrar

Ao aprender, Senhor, de Ti.

Hinário “Little Flock” nº 230

 

Novamente, o grande ponto a ser visto nesses versículos é que o Senhor desceu esses passos por vontade própria. Ele o fez voluntariamente! Paulo O colocou diante de nós como nosso grande Padrão de humildade. No exemplo de Cristo, temos o segredo do livramento de todo egocentrismo e disputas carnais que causam desunião na assembleia. Se o mesmo sentimento desprendido do Senhor estivesse “entre” os santos, e cada um não pensasse tanto em si próprio e em manter seu lugar ou posição na assembleia a qualquer custo, mas voluntariamente assumisse o lugar abaixo, a contenda e a disputa nunca se iniciariam. O “sentimento [A mente]” (atitude) de Cristo está em direto contraste com o espírito de importância própria que é evidente entre os homens em todos os lugares. Ele desceu mais, mais e mais. Estamos dispostos a fazer isso? Colocando isso no contexto do que está diante de nós no exemplo de Cristo, se estivéssemos dispostos a ir tão longe como morrer por nossos irmãos, é improvável que fôssemos achados brigando com eles!

Lembro-me de ter ouvido falar de um homem que estava viajando em um desfiladeiro nos Andes com sua mula totalmente carregada. A estrada era extremamente estreita, o suficiente para apenas um viajante de cada vez. A estrada era esculpida na montanha com um precipício íngreme do lado. Ele seguiu em frente, uma curva após outra. Quando chegou a uma curva, o que você acha que ele viu? Outro homem com sua mula totalmente carregada olhando para ele! O que eles iam fazer? Os dois homens discutiram as possibilidades. Perguntaram um ao outro se podiam se lembrar da distância de algum lugar onde o caminho se alargava para que dois pudessem passar. Talvez eles pudessem conduzir os animais até aquele ponto. Outra ideia era descarregar os animais. Mas enquanto os homens discutiam, as duas mulas resolveram o problema. Uma ficou de joelhos e chegou o mais perto possível da montanha, então a outra passou por cima dela! Resolver um impasse entre os irmãos é simples assim. Se ocorrer, precisamos ser os primeiros a descer e ocupar o lugar abaixo, deixando os outros passarem por cima de nós.

A Exaltação de Cristo

Vs. 9-11 – Agora temos a resposta de Deus à grande condescendência de Cristo – Sua exaltação. Parece que Paulo estava com pressa para chegar a isso. Ele não queria terminar com a triste passagem da morte de vergonha de Cristo e, portanto, se apressa em completar o assunto com a gloriosa exaltação de Deus de Seu Filho. Ele diz: “Pelo que também Deus O exaltou soberanamente, e Lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na Terra, e debaixo da Terra [seres do inferno - JND], E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai”. Assim, temos dois extremos – extrema humilhação respondida por extrema exaltação. A exaltação de Cristo é o cumprimento do Salmo 110:1: “Assenta-Te à Minha mão direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés”. Filipenses 2:9-11 não tem em vista o Senhor exaltado àquela posição pelo que realizou na expiação, porque isso não é o assunto da passagem. Hebreus 10:12-13 concentra-se nesse lado da Sua exaltação. Antes, Cristo é visto aqui exaltado no alto como sinal de aprovação de Deus de Sua grande humildade e obediência até a morte. Cristo está ali sentado justamente por causa de Sua igualdade com Deus. Seu nome na Humanidade (“Jesus”) é usado para enfatizar o fato de que Ele está lá como um Homem glorificado. “Um nome que é sobre todo o nome” não se refere a nenhum nome em particular do Senhor, mas sim significa ter-Lhe sido dado o lugar mais alto no céu.

Paulo fala de três esferas de seres que reconhecerão a autoridade de Cristo – “dos que estão nos céus, e na Terra, e debaixo da Terra [seres do inferno]”. Aqueles “debaixo da Terra” não são uma raça de seres subterrâneos, mas “seres do inferno”. Estes são homens impenitentes e anjos caídos condenados. Eles não eram seres infernais quando Deus os criou, mas tornaram-se por causa de rebelião (Apocalipse 5:13 fala de criaturas “debaixo da Terra”, mas isso se refere a criaturas que vivem abaixo da crosta da Terra, como toupeiras, vermes, etc.). O que Paulo está apontando ao mencionar essas três esferas de seres é que Cristo, cuja autoridade foi desprezada pelos homens quando Ele estava na Terra, um dia fará com que todas as criaturas dobrem o joelho a Ele (Is 45:23). Haverá uma inversão completa. Eles se curvarão a Ele como um Homem glorificado!

Ao dizer “se dobre todo o joelho” e “toda língua confesse”, Paulo não quis dizer que finalmente todas as criaturas de Deus serão salvas. Esta é uma doutrina errônea conhecida como Universalismo. A subjugação é uma coisa e a reconciliação é outra. Quando a reconciliação está em vista, ele fala de duas esferas apenas – céu e Terra (Cl 1:20). Mas quando é a subjugação que está em vista, três são mencionadas – a terceira esfera refere-se aos “seres do inferno”. Essas almas perdidas nunca serão reconciliadas.

A grande coisa que devemos aprender dessa passagem que tem a ver com a exaltação de Cristo é que a verdadeira humildade terá uma compensação divina. O próprio Senhor ensinou: “Porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado” (Lc 18:14). Deus toma nota de tudo o que o Seu povo faz ao humilhar-se em favor dos outros. Isso não será esquecido, e todos esses terão uma recompensa “naquele dia” da manifestação vindoura (2 Tm 1:12). O apóstolo Pedro disse: “Humilhai-vos pois debaixo da potente mão de Deus, para que a Seu tempo vos exalte” (1 Pe 5:6).

A Salvação Prática da Assembleia

Vs. 12-14 – Paulo então se volta para a aplicação prática dessas coisas entre os filipenses. Como mencionado, o inimigo (Satanás) havia mirado aquela assembleia e estava decidido a destruí-la por meio de conflitos internos. Paulo, portanto, diz: “De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade. Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas”. A assembleia em Filipos precisava ser salva dos desígnios malignos do inimigo. Paulo lhes dera o remédio – a condescendência de Cristo. Agora, com a ajuda de Deus, cada um deles deveria imitar o exemplo de humildade de Cristo e, assim, “operar” uma “salvação” prática das lutas internas que estavam enfrentando. Como Paulo estava longe na prisão, não poderia estar lá para ajudá-los, e isso significava que não poderiam procurar por ele para libertação. Eles tinham que olhar para o Senhor e encontrar uma solução piedosa entre eles para o que estava ameaçando a unidade da assembleia. Isso era algo que deveriam fazer como uma assembleia, pois o pronome “vós” é coletivo. Paulo estava confiante que fariam isso porque sabia que Deus estava trabalhando neles tanto “o querer como o efetuar” o que era agradável aos Seus olhos.

Podemos estar inclinados a pensar que era uma pena que Paulo não estivesse lá para ajudar. Mas aqui está a sabedoria de Deus. Os santos tendem a se inclinar demais para líderes e homens dotados de dons. Como resultado, se tornam dependentes deles, e isso pode se tornar prejudicial ao seu desenvolvimento espiritual. Esta pode ser uma das razões pela qual Deus ocasionalmente leva um homem dotado, seja por meio de sua morte ou por mudar-se para uma localidade diferente. Sem Paulo lá em Filipos, os irmãos se voltaram para o Senhor. Este é sempre um exercício saudável. Ter um apóstolo presente certamente era um benefício para os santos (cap. 1:24), mas Deus pretendia que essas posições oficiais na Igreja fossem eliminadas gradualmente após o primeiro século. Depois que a Igreja recebeu as Escrituras do Novo Testamento, esperava-se que os santos se desenvolvessem espiritualmente, o suficiente para que olhassem diretamente para o Cabeça da Igreja, em vez de apoiarem-se em apóstolos, anciãos ordenados, etc.

Em relação à “salvação” em vista aqui, é comumente pensado que Paulo estava dizendo aos filipenses que precisavam obter a salvação de suas almas da pena de seus pecados (a qual receberam por crer no Senhor Jesus) operada em suas vidas na prática como uma evidência de que foram verdadeiramente salvos. Então as pessoas veriam que eram Cristãos verdadeiros. Embora isso seja certamente uma coisa a ser desejada, não é o que Paulo estava dizendo aqui. Esse mal-entendido vem de pessoas tentando forçar um significado de salvação em cada passagem da Escritura que menciona a salvação. Conforme observado no capítulo 1:19, o Sr. Kelly disse que a maioria das referências relacionadas à salvação no Novo Testamento não se refere ao seu aspecto eterno apresentado no evangelho. O aspecto da salvação em vista em cada passagem, portanto, deve ser determinado pelo seu contexto.

Um artigo no periódico, Precious Things, explica o significado de “salvação” neste versículo 12: “Este versículo tem sido mal interpretado como se dissesse, operai para a salvação, enquanto o que ele diz é 'operai a vossa salvação'. Penso que o versículo se refere às dificuldades que estavam presentes no grupo em Filipos, em vez de ser algo individual. Tem sido apontado que o verbo está no plural, e quando ele diz ‘vossa’ aparentemente tem em mente as dificuldades na assembleia localmente... Salvação como referido nesta passagem não é a salvação da alma, que é obtida por meio da fé em nosso Senhor Jesus Cristo, é a salvação diária em relação às muitas dificuldades que nos cercam em nosso caminho. Está se tornando mais óbvio, à medida que seguimos essa epístola, que a desunião os estava marcando, e é disso que precisavam ser salvos. Isto parece sugerir que o caminho da salvação para sair das dificuldades consistia em a parte contenciosa decrescer em relação ao ego” (Precious Things, vol. 5, págs. 263-264).

H. A. Ironside disse: “Não há assembleia de santos na Terra que, mais cedo ou mais tarde, não venha ter suas dificuldades internas, e o conselho ou mandamento aqui dado [em Filipenses 2] se aplica exatamente a esses casos. É a maneira de Deus para que assembleias sejam corrigidas a partir de dentro, por julgamento próprio em Sua presença e submissão à Sua Palavra... Nos versículos 12-16 vemos este operar da salvação da assembleia demonstrada praticamente” (Notes on Philippians, págs. 50-52) .

W. MacDonald disse: “Eles foram afligidos por disputas e conflitos. O apóstolo lhes dera o remédio que era cada um ter a mente de Cristo. Assim, eles poderiam ‘operar’ sua ‘própria’ salvação ou a solução de suas dificuldades. A ‘salvação’ dita aqui não é a da alma, mas o livramento das ciladas que impediria o Cristão de fazer a vontade de Deus... A salvação tem muitos significados diferentes no Novo Testamento. O significado em qualquer caso particular deve ser determinado em parte, pelo menos, pelo contexto. Nós acreditamos que nesta passagem ‘salvação’ significa a solução do problema que estava conturbando os filipenses, isto é, suas contendas” (Believer’s Bible Commentary, pág. 1.968).

F. B. Hole disse: “Os perigos de fora os ameaçavam, e havia esta sutil dissensão interna os ameaçando. Deixe-os procurar ter e manifestar, com energia redobrada, a mente que estava em Cristo Jesus. Assim eles estariam operando sua própria salvação de tudo o que os ameaçava” (Philippians, pág. 74).

A. M. Gooding disse: “Opere sua própria salvação com ‘temor e tremor’. Salvação de que? Salvação de contenda, porque o avanço do evangelho é impedido quando vem a contenda” (The 13 Judges, pág. 95).

S. Maxwell disse: “O apóstolo está como que dizendo aqui, eu estou ciente de seus problemas internos e eu lhes dei um exemplo a seguir (2:5-7); agora operem sua própria salvação como uma assembleia. A palavra claramente indica que eles precisavam ser salvos daquilo que, no final, seria destrutivo para o testemunho, se não se movessem para acabar com a sua contenda” (Philippians, pág. 210).

Enquanto os filipenses estavam indo bem em geral, é evidente que o inimigo esteve plantando sementes de discórdia entre eles, e Paulo ligou isso a duas irmãs que não estavam se dando bem (cap. 4:2). Se isso não fosse resolvido, o problema cresceria e a paz e o bem-estar daquela assembleia seriam comprometidos. É como se Paulo dissesse: “Eu os exortei a serem de uma mente, cada um estimando o outro melhor do que a si mesmo, e também lhes dei o exemplo perfeito na humildade do Senhor Jesus. Assim, vocês têm o remédio para o problema em seu meio, agora ‘operai a vossa salvação com temor e tremor’ entre vocês”. Podemos perguntar: “Como exatamente devemos fazer isso?” Um bom lugar para começar é orar pelo bem e pela bênção de cada irmão e irmã na assembleia – e especialmente por aqueles com os quais é difícil de se conviver. Se um impasse ocorrer na assembleia, seja o primeiro a descer e a consentir. Se a consciência nos diz que ofendemos, seja rápido em pedir desculpas apropriadamente.

Devemos fazer essas coisas com “temor”, porque sabemos que há um inimigo sempre presente à espreita, procurando uma posição em algum lugar. E também, deve ser feito com “tremor”, porque todos temos a carne em nós, e isso significa que podemos ser aquele que o inimigo pode usar para destruir a assembleia. (Certamente não é “tremor” na esperança que temos da salvação eterna de nossas almas, porque esse aspecto da salvação não é o assunto aqui.) Visto que o coração humano é tão enganoso (Jr 17:9), muitas vezes, aqueles que são usados pelo inimigo desta maneira, pensam que estão fazendo a coisa certa para a glória de Deus! Estando em tal estado confuso, é difícil convencê-los do contrário.

O Castiçal Queima Mais Brilhantemente

Vs. 15-16 – Isso nos leva à conclusão da exortação de Paulo a respeito da salvação prática da assembleia. Ele diz: “Para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio duma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo; Retendo a palavra da vida, para que no dia de Cristo possa gloriar-me de não ter corrido nem trabalhado em vão”. Isto mostra que se o problema interno entre os filipenses fosse corrigido, o inimigo seria derrotado em sua tentativa de desunir aquela assembleia. Como resultado, o testemunho Cristão naquela região brilharia mais intensamente. A assembleia de Filipos se tornaria um testemunho vivo e brilhante naquela comunidade, e o evangelho soaria de maneira mais distinta e eficaz. Assim, julgar o que está impedindo a unidade dentro de uma assembleia faz com que o castiçal queime com mais intensidade. Isso é ilustrado em tipo, na responsabilidade dos sacerdotes de avivar regularmente o castiçal no tabernáculo com “seus espevitadores e os seus apagadores” (Êx 25:38). Estes instrumentos eram usados para remover os pedaços queimados de pavio, etc., que impediam a chama de queimar como deveria. Assim, usar os espevitadores e apagadores fala de julgamento próprio.

Se quisermos bênção no evangelho e pessoas acrescentadas à assembleia local, isso começa tendo-se um testemunho unificado em relação àqueles na comunidade. G. Davison disse: “O caráter do grupo baseia-se na manutenção da Palavra da vida. Embora a pregação do evangelho em nossas salas de reuniões seja um exercício individual, pois a assembleia não prega (embora deva ser feita em comunhão com os irmãos), o pregador não terá muita liberdade ou bênção se estiver pregando no meio de um grupo desunificado. Devemos lembrar que aqueles a quem pregamos são bastante sensíveis para verem se há um caráter correto no grupo ou naqueles que pregam o evangelho” (Precious Things, vol. 5, pág. 267).

Paulo não lhes disse para tentar endireitar este pobre mundo tortuoso e deixá-lo certo, mas para “resplandecer como astros” nele. Nós temos as duas partes do testemunho do Cristão aqui. Há o nosso resplendor como “astros”, que é o testemunho prestado por nossas vidas (Mt 5:14-16), e existe o “Retendo a palavra da vida”, que é o testemunho de que falamos no evangelho. Quanto mais escuro o mundo fica, moral e espiritualmente, mais brilhante deve ser o nosso testemunho. “Astros” está no plural, mostrando que cada um de nós tem uma responsabilidade neste testemunho.

Paulo então fala de sua parte no crescimento e progresso dos filipenses, e antecipou o regozijo no “dia de Cristo” (o Milênio), quando os resultados da fé deles seriam manifestados diante de todos, e seu trabalho seria mostrado como não tendo sido em vão. Claramente, Paulo viu o progresso deles como um reflexo de seu trabalho com eles.

Três Exemplos de Abnegação Própria Semelhantes a Cristo

Vs. 17-30 – Na segunda metade do capítulo 2, o Espírito de Deus dirige nossa atenção para três homens (Paulo, Timóteo e Epafrodito) que exibem a mente humilde de Cristo nas circunstâncias de suas vidas. É oportuno que esses três servos sejam trazidos aqui, pois alguns podem olhar para o exemplo perfeito de Cristo em Sua abnegação própria e inclinar-se a pensar que isto é um padrão inatingível, visto que Ele é Deus manifesto em carne e nós somos nada, senão meros mortais. O Espírito de Deus parece antecipar isso e volta nossa atenção para “homens.. sujeitos às mesmas paixões” como nós mesmos (At 14:15) e mostra que isso certamente pode ser feito, se houver um exercício piedoso.

O Exemplo de Paulo (vs. 17-18)

Com Paulo, vemos uma demonstração viva de sua afirmação: “Cada um considere os outros superiores [mais excelente do que] a si mesmo” (v. 3). Ele usa a figura de uma oferta de bebida, que empresta do sistema Levítico do Velho Testamento, para ilustrá-lo. Uma oferta de bebida era uma libação que era acrescentada a um sacrifício que um ofertante levava a Deus (Êx 29:40-41). Ele diz: “E, ainda que seja oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós. E vós também regozijai-vos e alegrai-vos comigo por isto mesmo”. Paulo fala de seu serviço para o Senhor como uma oferta de bebida sendo “derramada” (JND) sobre “o sacrifício” dos filipenses – uma alusão à comunhão deles com o evangelho, expressada na oferta que eles lhe enviaram. Na verdadeira humildade e graça modesta, ele vê sua vida e serviço como sendo um mínimo acréscimo ao sacrifício deles para o Senhor. Ele maximiza o serviço deles e minimiza o seu próprio, e assim estima sacrifício e serviço deles como sendo “melhor” (KJV) e “mais excelente” (JND) do que o seu.

Gideão fez o mesmo com os Efraimitas na vitória de Israel sobre os Midianitas (Jz 8:1-3). Ele falou da parte dos Efraimitas na batalha que foi tal como um recolher de uvas após a colheita (quando catam quaisquer sobras de uvas das videiras) como sendo maior do que toda a colheita de Abiezer – a vindima de Gideão. Ao fazer isso, sua “resposta branda” desviou o furor deles (Pv 15:1).

Como Paulo não sabia como sua vida terminaria, ele usa a palavra “se” (JND). Ela poderia muito bem acabar em martírio; ele não sabia. Se este fosse seu destino, ficaria feliz, e se “regozijaria”, porque partiria para estar com Cristo. Ele não queria que os filipenses olhassem para isso como uma tragédia se tivesse de acontecer, mas queria que eles se “regozijassem” com ele.

O Exemplo de Timóteo (vs. 19-24)

Com Timóteo, vemos a exemplificação da exortação de Paulo a ser de um “mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa” (v. 2). Ele tinha “igual sentimento” que Paulo no serviço do Senhor (v. 20). Igual sentimento significa estar unido em alma, tendo os mesmos desejos. Quando se tratava de todas as coisas que pertencem à glória do Senhor, Paulo e Timóteo eram um. Isso é maravilhoso de se ver, pois nem sempre é assim (At 15:36-41). Ele diz: “E espero no Senhor Jesus que em breve vos mandarei Timóteo, para que também eu esteja de bom ânimo, sabendo dos vossos negócios. Porque a ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide do vosso estado. Porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus”.

Timóteo era uma pessoa singular e valiosa na obra do Senhor. Ele se importava com o estado do povo de Deus e estava disposto a dar sua vida para ajudá-los. Esta é uma marca de um verdadeiro pastor de ovelhas. Paulo pretendia enviar Timóteo aos filipenses e esperava que ele fosse capaz de unir os corações dos santos naquela assembleia e, assim, ajudá-los a dissipar a crescente dissensão. Paulo deu aos filipenses sua recomendação de Timóteo, afirmando que eles mesmos haviam conhecido “a prova dele” (JND) em seu ministério, pois havia servido com Paulo no evangelho por cerca de 10 anos naquela época (v. 22). Paulo não tinha outro servo com ele, a quem pudesse enviar para fazer esse trabalho, pois os santos em geral tornaram-se ocupados com seus próprios interesses na vida. Paulo relatou: “Porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus”. O Senhor falou disso como “os cuidados, e riquezas e deleites da vida” (Lc 8:14). Essas coisas podem ser usadas pelo inimigo para desviar nosso foco do serviço ao Senhor. Timóteo foi uma exceção à ordem do dia.

Paulo estava esperando pelo resultado de seu apelo a César, e então enviaria Timóteo aos filipenses (v. 23). Nesse meio tempo, Epafrodito seria enviado com a carta de Paulo.

O Exemplo de Epafrodito (v. 25-30)

Com Epafrodito, temos uma demonstração viva da exortação de Paulo: “Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” (v. 4). Nós vemos a sabedoria de Deus em mencionar Epafrodito aqui. Os filipenses poderiam ter dito: “Paulo, é compreensível que você possa imitar a graça de Cristo – você é um apóstolo e Timóteo é um vaso especial levantado por Deus. Mas nós somos apenas Cristãos normais; pedir que imitemos a Cristo dessa maneira é um padrão muito elevado”. Se alguém estava inclinado a pensar isso, o Espírito de Deus traz aqui Epafrodito como outro exemplo de alguém que tinha a mente de Cristo. Ele era um filipense a quem conheciam bem. Ele era um homem sem um dom extraordinário, mas ainda assim exibia claramente a mente humilde de Cristo. Isso nos mostra que um Cristão mediano – até mesmo um bebê em Cristo – pode fazê-lo. Uma pessoa não precisa ter dons ou ser especialmente bem ensinada nas Escrituras para ser semelhante a Cristo.

Epafrodito foi o “enviado” que levou a oferta dos filipenses a Paulo (v. 25). Ele ficou doente no caminho. De fato, ele quase morreu, mas Deus teve misericórdia dele e o restaurou em boa saúde novamente (v. 27). Ao realizar este serviço simples, vemos que estava mais interessado em ajudar os outros do que em agradar a si mesmo. Nisto, ele imitou o Senhor Jesus, pois as Escrituras dizem que “Cristo não agradou a Si mesmo” (Rm 15:3).

Tendo chegado a Roma com a oferta dos filipenses, Epafrodito foi de ajuda a Paulo atendendo suas necessidades (v. 25). Essas seriam atividades simples que um ajudante faria em relação às coisas temporais. Temos a tendência de considerar esse serviço como insignificante, mas é impressionante e instrutivo ver como Paulo fala desse humilde mensageiro. Paulo o coloca na condição de igualdade a si mesmo, chamando-o de “irmão” na fé, de “cooperador” no evangelho e de “companheiro nos combates” deles com inimigos espirituais. Isso mostra que Paulo não se considerava melhor ou mais importante que Epafrodito. Isso demonstra como devemos nos ver uns aos outros. Se houvesse mais dessa graça em nossas interações uns com os outros, haveria menos atrito para iniciar disputas.

Sendo um indivíduo tão abnegado, Epafrodito estava mais preocupado com a tristeza dos filipenses por ele do que com sua própria doença! Ele estava “muito angustiado”, não porque tinha estado doente, mas porque ouvira dizer que estavam tristes por ele (v. 26). Ele não queria que estivessem ocupados com ele; toda essa ansiedade só distrairia os santos de sua ocupação com o Senhor. Muitas vezes, quando estamos doentes, tudo em que podemos pensar é sobre nós mesmos, mas não Epafrodito; ele estava pensando neles, não em si mesmo! Ele era verdadeiramente alguém que não olhava para o que era “propriamente seu”, mas para o que era “dos outros” (v. 4). Estando pronto para retornar à sua assembleia em Filipos, Paulo enviou esta carta de agradecimento com ele.