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A Epístola de Paulo aos Filipenses

CRISTO – O PRÊMIO DA VIDA CRISTÃ Capítulo 3

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 5 de 12

CRISTO – O PRÊMIO DA VIDA CRISTÃ
Capítulo 3

O capítulo 3 é um parêntese (J. N. Darby, Notes and Jottings, pág. 209). Antes de continuar suas exortações em conexão com a unidade na assembleia no capítulo 4, Paulo desvia-se um pouco para falar da força motivadora que leva o Cristão ao longo do caminho da fé. Ele explica neste terceiro capítulo que o que dá ao Cristão a energia para andar nesse caminho e fazer a vontade de Deus é ter Cristo em glória como nosso único Objeto na vida.

É interessante que Paulo não exorta exatamente os filipenses a buscarem a Cristo em glória, mas fala disso a partir da perspectiva de sua própria experiência. Ele lhes diz o que ter Cristo como seu Objeto fez em sua vida e que isso continuava fazendo em seu dia a dia. Assim, todos os que leem esta epístola têm a oportunidade de ver o que o motivou a viver pela causa de Cristo. Ele também nos diz que essa mesma energia será encontrada em nós se “sentirmos o mesmo” que ele na busca de Cristo (v. 15).

Paulo nos deu o Padrão para a vida Cristã no capítulo 2 – o caminho humilde de Cristo neste mundo. Agora, no capítulo 3, ele nos aponta para o Objeto da vida Cristã – Cristo exaltado em glória. Ambas as coisas são necessárias se quisermos derrotar o inimigo em sua tentativa de destruir a assembleia a partir de dentro. No capítulo 2:3, Paulo declarou que as assembleias são destruídas por “contenda” e “vanglória”. No capítulo 2, nos mostrou como a contenda pode ser vencida – cada um na assembleia tendo uma mente mirando para baixo. Agora, no capítulo 3, ele nos mostra como a vaidade (importância própria) pode ser vencida – cada um na assembleia tendo uma mente mirando para o alto. Fixar nosso olhar na grandeza de Cristo em glória livra a alma de todo pensamento de importância própria. Olhando para a Sua grandeza e glória, vemos quão pequenos realmente somos! Já que nenhuma carne pode se gloriar em Sua presença (1 Co 1:29), aqueles que despendem lá seu tempo não estarão pensando em si mesmos mais do que deveriam pensar (Rm 12:3).

Cristo em humilhação e Cristo em exaltação é ilustrado tipicamente no Velho Testamento em dois alimentos que Deus deu aos filhos de Israel – o “maná” (Êx 16) e “trigo da terra do ano antecedente” (Jz 5:12). O maná desceu do céu e repousou no orvalho que caiu no deserto; as pessoas o recolheram e o comeram. Isto tipifica a condescendência de Cristo como um Homem humilde neste mundo, como visto no capítulo 2 (Jo 6:31-35, 47-51). Ao meditar em Seu caminho humilde, assimilamos Sua perfeição moral e isso produz semelhança moral em nós. O trigo da terra do ano antecedente é o que Israel comeu depois que atravessaram o rio Jordão e entraram na terra de Canaã. Cruzar o Jordão tipifica a identificação do crente com a morte e ressurreição de Cristo. Canaã tipifica os lugares celestiais onde Cristo está agora, tendo sido ressuscitado por Deus de entre os mortos e estando sentado à Sua direita (Jo 12:24; Ef 1:20). Assim, comer trigo da terra fala de se alimentar de Cristo em meditação, pois Ele está agora no alto como um Homem glorificado. Cristo como o Maná é encontrado nos quatro Evangelhos e Cristo como Trigo é encontrado nas Epístolas. (Há algumas exceções, como Filipenses 2).

Neste terceiro capítulo, demonstrado na própria experiência de Paulo, vemos a energia que conduz o Cristão por este mundo. A nova vida em nós precisa de um Objeto, e Deus o providenciou em Cristo, no alto em glória (2 Co 3:18; Hb 2:9, 12:2). A pessoa que entende isso, e que faz d’Ele o seu único Objeto, não será apenas cheia de gozo, mas também cheia de energia espiritual. De tempos em tempos, ouvimos sobre Cristãos a serviço do Senhor falando que estão “esgotados”. Com o que está diante de nós neste capítulo, isso nunca deveria acontecer. Se um Cristão perde sua energia no caminho da fé e do serviço, é porque tirou os olhos do Senhor em glória. Ele perdeu seu foco em Cristo, e com isso vem uma perda de energia e uma perda de gozo na alma – e o desânimo não estará muito distante.

Regozijando-se no Senhor

V. 1 – No capítulo 2, Paulo antecipou que os santos de Filipos se “regozijariam” na feliz circunstância de Epafrodito haver se recuperado de sua doença, quando as notícias chegassem até eles (cap. 2:28-29). Isso é adequado e bom, pois certamente não há nada de errado em regozijar-se em nossas circunstâncias quando coisas felizes e favoráveis ocorrem. Mas Paulo agora lhes aponta um tipo mais elevado de gozo – gozo “no Senhor!” Ele diz: “Resta, irmãos meus, que vos regozijeis no Senhor”. Esse tipo de gozo não é resultado de se estar em circunstâncias favoráveis, mas é nosso, por meio da comunhão com o Senhor e comprometimento com os Seus interesses. Se nosso gozo deriva do que temos em Cristo, seremos capazes de nos regozijar mesmo em circunstâncias difíceis e de provações, porque nosso gozo se baseia em coisas que são mais elevadas que as coisas desta vida. É por isso que os Cristãos podem passar por profundas provações e ainda manter seu equilíbrio espiritual, e realmente ter paz em tais ocasiões. Assim, estes são dois tipos diferentes de regozijo – regozijando-se em nossas circunstâncias e regozijando-nos nas coisas acima de nossas circunstâncias. Nem sempre podemos ter circunstâncias favoráveis para nos regozijarmos – porque algumas coisas na vida são tristes e ruins – mas podemos sempre “nos regozijar no Senhor”.

Paulo então diz: “Não me aborreço [não me é incômodo – JND] de escrever-vos as mesmas coisas, e é segurança para vós”. Ele não daria desculpas por despender tempo lembrando os filipenses do fato de que há perigos espirituais no caminho, porque sabia quão traiçoeiros eram os ataques do inimigo. Era em vista da segurança deles que repetiria o que já lhes ensinara sobre esses perigos. Eles precisavam ser avisados dos esforços dos mestres judaizantes que estavam se movendo, procurando levar os santos à servidão. Vemos a partir disto que Paulo não estava interessado apenas na salvação deles (cap. 2), mas também em sua segurança (cap. 3). O culpado no capítulo 2 que impediria a salvação prática era a disputa interna. O culpado no capítulo 3, que rouba dos santos o gozo de buscar a Cristo em glória, é o ensino subversivo que encoraja a busca de coisas terrenas. Isso mostra que o servo do Senhor nunca deve ter medo de ser repetitivo em seu ministério, se necessário.

Um Triplo Aviso Contra Mestres Judaizantes

Vs. 2-3 – Paulo então adverte os filipenses de uma linha de falso ensino que havia chegado que, se ouvida, impediria a busca dos santos por Cristo em glória e seu regozijo n’Ele. Aqueles que estavam propondo este ensinamento maligno eram judeus não convertidos que haviam se infiltrado na profissão Cristã. J. N. Darby disse que o ensino deles era uma “mistura de princípios judaizantes com a doutrina de um Cristo glorificado. Foi de fato para destruir esta última e restabelecer a carne (isto é, pecado e alienação de Deus) em seu lugar” (Synopsis of the Books of the Bible, edição de Loizeaux, vol. 4, pág. 510). Isso era um falso ensino embrulhado de tal maneira que uma pessoa desavisada poderia pensar que era a verdadeira doutrina Cristã. Mas seu grande efeito foi afastar de Cristo no alto, o foco dos santos, e assim tirar o chamado e o caráter celestiais do Cristianismo e torná-lo uma mera religião terrena. Tendo vindo de uma origem judaica, esses homens tiveram uma vantagem inicial sobre os gentios recém-convertidos. Eles estavam familiarizados com as Escrituras do Velho Testamento às quais os gentios não haviam sido expostos. Essas pessoas falsas se aproveitaram disso e assumiram o papel de mestres, e assim introduziram suas doutrinas errôneas.

Paulo descreve esses mestres judaizantes de três maneiras. Todas as três coisas se referem ao mesmo grupo de homens. Ele diz:

 

1) “Guardai-vos dos cães” (v. 2a) – Refere-se à verdadeira posição desses homens em relação a Deus. Eles nunca tinham nascido de novo nem foram selados com o Espírito Santo, e assim, não sendo convertidos, estavam fora da companhia Cristã. O termo “cão” foi usado entre os judeus para descrever os gentios impuros que estavam fora da nação favorecida de Israel, que estava num relacionamento de aliança com Deus (Sl 22:16, 20, 59:6, 14, 68:23; Mt 7:6; 15:26-27; Ap 22:15). Mas Paulo inverte o termo aqui e o usa para descrever judeus não convertidos que eram impuros por não terem seus pecados lavados no sangue de Cristo. No Cristianismo, eles é que eram os “cães” e que estavam fora da comunhão dos santos. Paulo não foi o primeiro a usar o termo para descrever os israelitas; o profeta Isaías falou do atalaia sem fé em Israel como tal (Is 56:10-11).

 

2) “Guardai-vos dos maus obreiros” (v. 2b) – descreve o trabalho desses mestres judaizantes. Seus esforços eram para doutrinar os santos com seus falsos ensinos.

 

3) “Guardai-vos da circuncisão” (v. 2c) – “Concisão” é um termo de escárnio (provavelmente criado pelo próprio Paulo) para descrever o verdadeiro caráter e efeito do ensino desses judaizantes. Esses homens se gloriavam de ter a marca externa da circuncisão em sua carne, mas rejeitaram o que simbolizava internamente o corte completo da carne diante de Deus na morte de Cristo (Cl 2:11). A palavra significa literalmente “contra o cortar fora”. (“Con” significa “contra” e “cisão” significa “cortar fora”). É um corte na carne, mas não vai tão fundo a ponto de cortar fora a carne em um sentido prático. Está em contraste com o que fala a “circuncisão”, que é um corte completo da carne. Por isso, “a concisão” eram os mestres judaizantes que se opunham ao corte da carne na prática. Por isso, esses judaizantes acreditavam no cortar fora das formas mais grosseiras da carne, mas ainda encorajavam a busca de coisas carnais – tais como: grandeza religiosa, fama mundana, ganho monetário, etc.

O ensino judaizante é um problema na Igreja hoje? Definitivamente é; ele permeou a profissão Cristã em geral. H. Smith disse: “As palavras do apóstolo têm, certamente, uma advertência especial para nós nestes últimos dias, quando este ensinamento judaizante, que era um perigo para a Igreja primitiva, se desenvolveu na Cristandade tornando-se uma mistura corrupta de judaísmo e Cristianismo. O resultado é que surgiu uma vasta profissão em que formas e cerimônias tomaram o lugar de adoração pelo Espírito... tendo se formado a partir do padrão judaico, a Cristandade tornou-se uma imitação do arraial judaico (Hb 13:13)” (The Epistle to the Philippians, pág. 17). Assim, o ensino que instrui os Cristãos a adorar a Deus segundo os princípios da ordem judaica, que encoraja a busca de coisas do mundo e o ganho terrenal, é um ensino judaizante.

Uma Tripla Descrição do Verdadeiro Cristianismo

V. 3 – Em contraste com o que os mestres judaizantes estavam apresentando, Paulo descreve o que é o verdadeiro Cristianismo. Ele dá a sua essência em três declarações distintas. Se nos perguntassem o que realmente é o Cristianismo, esse terceiro versículo daria a resposta. Paulo diz: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em [pelo – JND] Espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”. Cada Pessoa na Divindade é mencionada aqui como tendo uma parte integral nesta nova ordem espiritual de coisas. Assim, o verdadeiro Cristianismo envolve a revelação da Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Paulo diz: “a circuncisão somos nós”. Ao afirmar isso, estava falando de forma representativa de toda a companhia Cristã como está diante de Deus. Esta foi uma nova maneira de usar a palavra “circuncisão”, pois é geralmente usada nas Escrituras para significar a nação de Israel (At 10:45, 11:2; Rm 15:8; Gl 2:7-9, 12; Cl 4:11; Tt 1:10) como separada dos gentios, que são denominados “a incircuncisão” (Gl 2:7; Ef 2:11). Paulo não está se referindo ao rito externo da circuncisão aqui, mas está usando a palavra em um sentido simbólico. Sendo que a circuncisão literalmente significa “cortar fora completamente”, Paulo estava usando isso para indicar o que os crentes no Senhor Jesus Cristo, pela fé em Sua morte, tinham aceitado o corte completo e, portanto, o completo fim do homem na carne diante de Deus. (Rm 8:3; Cl 2:11). Isto também significa uma vida que é separada da atividade da carne para Deus na prática.

Três coisas que descrevem o Cristianismo em sua essência são:

 

1) Nós “servimos a Deus em [pelo – JND] Espírito” – a aproximação Cristã a Deus é algo espiritual – “em espírito e em verdade” (Jo 4:24). É um “novo e vivo caminho” que não requer os rituais da religião terrena, como encontrado no judaísmo (Hb 10:19-22). É “novo” porque não é uma versão atualizada ou um complemento do judaísmo e é “vivo” porque a pessoa deve ter uma nova vida (por meio do novo nascimento) para participar dele.

 

2) “Nos regozijamos [gloriamos – ARC] em Cristo Jesus” (KJV) – o uso por Paulo da expressão “em Cristo Jesus” não deve ser menosprezado aqui. Como mencionado em nossas observações no capítulo 1:1, quando as Escrituras dizem “Jesus Cristo” (Seu nome de Humanidade antes de Seu título), geralmente se refere ao Senhor como tendo vindo do céu para cumprir a vontade de Deus na morte e ressurreição (Rm 15:8, etc.). Mas quando se diz “Cristo Jesus” (seu título antes de seu nome de Humanidade), está se referindo ao Senhor como tendo completado a obra de redenção e voltado ao céu como um Homem glorificado. Visto que a posição do Cristão diante de Deus é “em Cristo Jesus” (Rm 8:1, etc.), e tudo o que ele tem está naqu’Ele Homem glorificado à direita de Deus (Cl 3:1-3), entendemos que o Cristianismo é algo inteiramente celestial. As escrituras indicam que o caráter do Cristão (1 Co 15:48), a habitação (2 Co 5:2), as bênçãos (Ef 1:3), o assento (Ef 2:6), o conflito (Ef 6:10-12), a cidadania (Fp 3:20), a esperança (Cl 1:5), a vocação (Hb 3:1), a possessão (Hb 10:34), o lugar (Hb 12:23), a herança (1 Pe 1:4) e o destino final (2 Co 5:1) são todos celestiais. Isto está em contraste com o judaísmo, que é uma religião terrena. No Cristianismo, não nos gloriamos em Moisés – “nos gloriamos em Cristo Jesus”. Isto é, tudo o que somos e tudo o que temos está no céu e é encontrado naqu’Ele Homem celestial à destra de Deus.

 

3) “Não confiamos na carne” – Como resultado da aceitação da sentença da condenação de Deus sobre o homem na carne lá na cruz (Rm 6:6, 8:3; Cl 2:11), os crentes no Senhor Jesus Cristo recusam a carne em suas vidas – tanto em um contexto secular quanto em um contexto religioso. Assim, os Cristãos não se envolvem em buscas mundanas que favorecem as inclinações da carne nem perseguem realizações pessoais em religião terrena.

Em resumo, o verdadeiro Cristianismo tem a ver com crentes no Senhor Jesus aceitando a sentença de condenação de Deus sobre a carne e encontrando tudo em Cristo no alto, e tendo o Espírito habitando em si, adoram a Deus espiritualmente, em vez de ser por meio das ordenanças externas e rituais de religião terrena.

O Cristianismo puro, como Paulo estabeleceu no versículo 3, era algo ao qual os mestres judaizantes se opunham. Sendo incrédulos, não tinham uma visão clara do mundo e da carne, e do julgamento de Deus sobre eles. Também não tiveram fé para entender e apreciar a posição do crente diante de Deus “em Cristo Jesus” e nossas bênçãos a Ele associadas, estando Ele ali assentado. Eles viram o Cristianismo como uma oportunidade para “fazer um negócio da Palavra de Deus” (2 Co 2:17 – JND) – isto é, como um empreendimento do qual alguém poderia tirar seu sustento! Eles imaginavam que o Cristianismo era uma religião terrena e era uma mera extensão do judaísmo. Com essa visão falsa do Cristianismo, esses judaizantes encorajaram os crentes a perseguirem as “coisas melhores” da carne, tanto na religião quanto no mundo. A força propulsora de seu ensinamento, em essência, era encorajar os crentes a colocarem sua “confiança na carne”. Eles estavam claramente contra um corte completo da carne na prática, o que a verdadeira circuncisão significa. Assim, esses falsos mestres eram um obstáculo à prática do verdadeiro Cristianismo, e é por isso que Paulo usou essa oportunidade para advertir os santos.

Circuncisão Verdadeira – O Corte Completo da Carne

Vs. 4-7 – Para ilustrar a verdadeira circuncisão, Paulo menciona sua história pessoal. Ele diz: “Ainda que também podia confiar na carne: se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu, circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, segundo a lei, fui fariseu, segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo”. Ao ouvir isso, os acusadores de Paulo podem tê-lo acusado de estar orgulhoso do que havia desistido pelo Senhor. Mas não foi por isso que Paulo mencionou sua história pessoal. Ele a mencionou por duas razões importantes:

Em primeiro lugar, foi para mostrar que a verdadeira circuncisão envolve um corte completo da carne, o que sua vida demonstra claramente. Deus julgou a carne em sua totalidade na cruz (Rm 6:6, 8:3; Cl. 2:11). Isso incluía as chamadas “boas” coisas que a carne poderia fazer, assim como as coisas “ruins”. Sendo assim, Paulo recusou a carne em todos os aspectos de sua vida, não apenas em suas formas mais grosseiras.

Se houvesse um caso em que se pudesse confiar na carne de uma pessoa para fazer coisas “boas” e agradar a Deus, teria sido em Saulo de Tarso. Sua vida exibia “o melhor da carne”. Sua carne esteva sob cultivo divino desde o nascimento. Ele nasceu sob a lei e foi criado em um relacionamento de aliança com Jeová, e na mais rigorosa seita do judaísmo – os fariseus. No que dizia respeito à sua consciência, ele achava que havia guardado os justos requisitos da Lei de maneira irrepreensível. Em busca de uma vida na religião, ele se esforçou para ser um homem proeminente no judaísmo e ter a aclamação e notoriedade que o acompanhavam. Outros poderiam gloriar-se de realizações nessa religião, mas ele poderia dizer “ainda mais eu”. Falando em vanglória (importância própria), este homem estava cheio dela em seus dias anteriores à sua conversão! Ele era um “homem arrogante e insolente” (1 Tm 1:13 – JND).

Assim, as credenciais de Paulo, no que diz respeito à carne, eram tão boas quanto possíveis. Mas, na realidade, diante de Deus, ele era um fanático religioso que estava cheio de orgulho hipócrita. Certamente ele não viu isso desta forma naquela época. Ele realmente achou que estava agradando a Deus! Mas isso apenas nos mostra quão indigna de confiança e enganosa é a carne. A vida de Paulo prova que a carne pode estar envolta em atividades religiosas e ainda assim ser muito enganadora. De fato, o orgulho espiritual que leva uma pessoa a buscar um lugar de importância entre os homens em um contexto religioso é geralmente o tipo mais difícil de orgulho de se identificar em si mesmo. Outros verão isso em nós, mas, infelizmente, nós geralmente não conseguimos detectá-lo. Paulo dá uma lista de algumas coisas religiosas das quais orgulhosamente se gloriava antes de se converter, as quais o cegavam quanto ao seu verdadeiro estado:

  • “Circuncidado ao oitavo dia” – O rito exterior da circuncisão literal era o sinal de uma pessoa estar em um relacionamento de aliança com Deus. Esse é o orgulho do relacionamento.
  • “Da linhagem de Israel” – Esse o é orgulho racial.
  • “Da tribo de Benjamim” – Essa é uma referência à fidelidade desta tribo por ficar com Judá no tempo em que a nação se dividiu em dois reinos sob Roboão e Jeroboão. É orgulho da fidelidade.
  • “Hebreu de Hebreus” – Esse é o orgulho da linhagem familiar.
  • “Segundo a Lei, Fariseu” – Esse é o orgulho da ortodoxia (conformidade religiosa).
  • “Segundo o zelo, perseguidor da igreja” – Esse é o orgulho do zelo religioso.
  • “Segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” – Esse é o orgulho da moralidade.

 

Saulo de Tarso era um bom exemplo de retidão religiosa, mas, como mencionado acima, tudo era apenas orgulho. O que ele precisava aprender (e o que precisamos aprender também) era que “todo o homem, por mais firme que esteja, é totalmente vaidade” (Sl 39:5b), e que todas aquelas chamadas “boas” coisas que havia feito com exatidão religiosa tinham sido julgadas por Deus na cruz, e eram totalmente inúteis aos Seus olhos. Pela soberana graça de Deus, isso aconteceu de maneira dramática quando ele foi a Damasco (At 9).

 

E assim os conselhos eternos correram,

"Amor Onipotente, prenda aquele homem!"

Hinário “Echoes of Grace” nº 88

 

Duas coisas aconteceram naquele dia notável: “uma luz” do céu brilhou sobre Paulo e ele ouviu “uma voz” do céu o chamando. De uma só vez, ele fez uma dupla descoberta: a luz fez com que se visse como Deus o via – como pecador! A voz que o chamava tornou-o consciente de que Jesus de Nazaré era de fato Cristo, o Salvador dos pecadores! Assim, o chefe dos pecadores encontrou o Salvador dos pecadores e, imediatamente, confessou-O como seu “Senhor!”.

Paulo ficou três dias sem visão. Durante esse tempo, antes de receber o Espírito Santo, ele passou pela experiência descrita em Romanos 7:7-25. Naqueles três dias, ele aprendeu na presença de Deus que toda a carne é irremediavelmente má e totalmente indigna de confiança. Ele emergiu dessa experiência dizendo: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm 7:18). Ele aprendeu que não havia uma coisa sequer em sua carne que fosse boa. Seja a vileza da carne ou a carne em um contexto religioso, todos os aspectos dela são incuravelmente maus e, portanto, devem ser recusados em todos os sentidos na vida Cristã prática. Esse é o verdadeiro significado da “circuncisão” da qual Paulo fala no versículo 3.

A segunda razão pela qual Paulo menciona sua história pessoal foi para mostrar que aprender a “não confiar na carne” não precisa necessariamente levar muito tempo. Não precisa ser algo longo e demorado. O caso do próprio Paulo mostra que isso pode ser aprendido de uma forma muito profunda em um período muito curto de tempo. Ele aprendeu esta grande lição em três dias! Tal é a experiência do Cristianismo normal. Embora isso seja um fato, a maioria de nós demora a acreditar no testemunho de Deus a respeito da carne, e muitas vezes leva algum tempo e experiência antes que estejamos dispostos a aceitar o que Deus disse sobre a carne e não depositar mais confiança nela. Isso mostra que uma coisa é concordar mentalmente com essas coisas como questão de doutrina, e outra bem diferente é conhecer essa verdade na prática.

F. B. Hole disse: “Mas muito tempo é normalmente gasto em aprender a não confiar na carne e não dar a ela um 'voto de confiança'. Que experiências muitas vezes se têm de passar! Os tipos de experiências a que nos referimos estão detalhados para nós em Romanos 7, e a lição é uma, que não pode ser aprendida meramente em teoria, deve ser aprendida por experiência. Não é necessário que demoremos muito tempo para aprender a lição, mas, na verdade, geralmente o fazemos.... Assim que terminaram os três dias de sua cegueira [de Paulo], ele começou a se gloriar em Cristo Jesus. Nesses três dias esta grande lição foi aprendida” (Philippians, págs. 78-79).

Um Novo Objeto – Cristo

Vs. 8-14 – Nos versículos anteriores, Paulo nos disse o que fez ao renunciar a tudo por Cristo, mas não nos disse exatamente o que o levou a fazê-lo. Sabemos, como observamos na história de sua conversão em Atos 9, que foi porque ele teve uma visão de Cristo em glória. Imediatamente, Cristo Se tornou seu novo Objeto na vida. Quando recobrou a visão, todo o seu pensamento e propósito de vida tinham sido revolucionados.

Ele menciona duas coisas que trabalharam para mudar o curso de sua vida: Ele diz: “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo Qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo”. Primeiramente, ele viu na luz de Deus (quando cegado por três dias) que aquelas coisas sobre as quais havia construído suas esperanças para a eternidade eram completamente inúteis. Consequentemente, ele reputou tudo como “perda”. Em segundo lugar, ele tinha uma nova aspiração – queria “a excelência do conhecimento de Cristo Jesus”. Assim, houve uma reavaliação de tudo em sua vida, que o reiniciou em um curso completamente novo. Logo em seguida, ele pregou a Cristo nas sinagogas de Damasco (At 9:20).

Nem por um momento ele voltou atrás nessa grande renúncia. De fato, enquanto continuava no caminho Cristão de fé e serviço, só ficou mais convencido de sua decisão de renunciar a essas coisas. No versículo 7, ele disse: “considerei...” (ARA), mas no versículo 8, ele diz: “considero...” (ARA). Isso abrange um período de sua vida de cerca de 30 anos. Ele considerou todas as coisas como perda quando se converteu em Damasco, mas agora, ao escrever esta epístola aos filipenses uns 30 anos depois, ele ainda as considerava como tal! Há, no entanto, essa diferença: o que ele viu então naquelas coisas como “perda”, agora via como “refugo!” (TB). A KJV diz “esterco”, mas deveria ser traduzida como “refugo”. O esterco pode ser útil para algumas coisas (combustível, fertilizante, etc.), mas o refugo não serve para nada. Tendo andado em comunhão com o Senhor por muitos anos, Paulo viu mais claramente do que nunca a inutilidade daquelas coisas e apropriadamente as rotulou como tais. Além disso, no início de sua experiência Cristã, falou daquelas coisas as quais havia abandonado como “o que [coisas] para mim”, mas agora, tendo trilhado o caminho por algum tempo, ele diz que estava contando “todas as coisas” como perda por Cristo. Isso mostra que, ao andar com o Senhor, houve progresso no exercício de sua alma.

O que o fortaleceu nesse caminho? Não era simplesmente que tivesse mudado de religião; ele havia sido conquistado por uma Pessoa – Cristo, o Filho de Deus! Ele podia dizer: “a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, O qual me amou, e Se entregou a Si mesmo por mim” (Gl 2:20). Foi o constrangedor “amor de Cristo” que o motivou (2 Co 5:14).

Sete Novos Desejos

Tendo este novo Objeto em sua vida, vemos pelo exemplo de Paulo em que resulta ter essa meta, naqueles com ela ocupados. Ele tinha desejos completamente novos – todos centrados em Cristo. Estar ocupado com esse novo Objeto produziu uma provisão infinita de energia que o manteve ativo na carreira Cristã. De acordo com o caráter da epístola, ele não diz aos filipenses para perseguirem Cristo em glória, mas sim, fala disso como uma questão de sua própria experiência. Assim, fala da perspectiva do que isso produziu em sua vida, sabendo que reiterar sua experiência faria com que eles desejassem o mesmo (Ct 6:1).

Nesta próxima série de versículos, Paulo fala de sete novos desejos em sua vida, todos os quais resultaram em ele tendo este novo Objeto. Estas eram coisas que ele estava insistindo na carreira Cristã:

 

1) “Para que possa ganhar a Cristo” (v. 8) – Ao afirmar isso, Paulo não estava dizendo que esperava ganhar a Cristo como seu Salvador, renunciando à sua vida passada; Cristo tinha sido seu Salvador por 30 anos! Essa é uma ideia católica; eles erroneamente ensinam que uma pessoa ganha a Cristo e a salvação eterna por meio de obras. Eles encorajam as pessoas a renunciarem a todas as coisas da vida e a se retirarem para um mosteiro ou convento, onde se engajam em um regime de boas obras na esperança de assegurar a salvação de suas almas.

O versículo estando no tempo presente, indica que o fato de Paulo ter Cristo como seu ganho era um exercício presente, bem como o que tinha n’Ele ao recebê-lo como seu Salvador muitos anos antes. Paulo viu aquelas coisas que uma vez perseguiu como um obstáculo aos imensuráveis benefícios que havia em conhecer e seguir a Cristo. Ele percebeu que para “ganhar” na prática em sua experiência com Cristo, precisava manter as satisfações carnais, como aquelas que tinha renunciado, no monturo – e isso é exatamente o que ele fez pelo o resto de seus dias na Terra.

 

2) Ser “achado n’Ele, não tendo a minha justiça” (v. 9) – Esta afirmação não significa que Paulo não era considerado justo diante de Deus, e estava, portanto, esforçando-se diligentemente para isso, esperando que um dia, no final de seu caminho, fosse declarado justo. Novamente, o catolicismo romano ensinaria assim, mas não as Escrituras. Paulo já era considerado justo diante de Deus como resultado de ter sido justificado pela fé (Rm 4:5, 5:1). Em vez disso, Paulo estava se referindo a tê-la como um homem glorificado no dia de Cristo. Ele não queria estar lá com uma justiça legal que resultasse de suas próprias obras (se isso fosse possível), mas na justiça que está em Cristo (2 Co 5:21). Assim, queria estar com Cristo em glória sem ter nada que pudesse apontar que desse a ele crédito por estar lá, de modo que Cristo recebesse todo o crédito, e toda a glória e louvor fossem para Ele.

 

3) “Para conhecê-Lo” (v. 10a) – Enquanto isso, no caminho, estando com Cristo no estado glorificado, o grande e ardente desejo de Paulo era conhecer a Cristo mais intimamente. Note que ele não disse que queria saber coisas sobre Ele, em relação a fatos, mas sim que ele pudesse conhecer a Cristo. Isto se refere a um conhecimento pessoal de Cristo que só vem por meio da experiência de andar com Ele nas circunstâncias da vida.

 

4) “E à virtude [poder – TB] da Sua ressurreição” (v. 10b) – Tem havido algum debate entre os expositores sobre se isso está se referindo à ressurreição literal ou ao poder da vida de ressurreição trabalhando em um crente de uma maneira prática. Visto que é mencionado no texto antes de Paulo falar da possibilidade de morrer por Cristo, consideramos que ele está falando do poder espiritual da vida ressurreta sendo manifestada na vida dele. J. N. Darby concorda com isso: “Pergunta. O que é ‘o poder da ressurreição’ em Filipenses? Resposta... para que eu possa agir e andar por este mundo no poder da ressurreição, o que faz da morte e de todas as outras coisas nada para mim” (Notes and Jottings, pág. 441).

Em Efésios 1:19-21, Paulo menciona que o poder de Deus que ressuscitou Cristo dos mortos está agora “sobre nós, os que cremos”. Isto é, ele é eficaz na vida dos crentes que andam em Espírito, e assim, manifestam a vida ressurreta em seus corpos mortais. Paulo queria experimentar esse poder prático da vida ressurreta como algo vivo presente em sua vida (Gl 2:20). Isso é ilustrado como tipo em Eliseu assumindo o manto de Elias no Jordão, indo adiante nesse poder e sendo uma bênção para os outros (2 Rs 2:9-15).

 

5) “E à comunhão dos Seus sofrimentos” (ARA), “sendo feito conforme à Sua morte” (v. 10c) – Viver no poder da vida ressurreta e manifestar essa vida em nosso andar e caminhos, naturalmente atrairá a perseguição dos incrédulos. Paulo fala dessa oposição que os Cristãos têm no caminho como “comunhão” com os “sofrimentos” de Cristo. Isto é porque quando sofremos por Cristo, estamos realmente experimentando o mesmo caráter de sofrimentos que Ele enfrentou de homens iníquos (2 Co1:5, 4:10; Gl 6:17; Cl 1:24). Esses sofrimentos não são Seus sofrimentos expiatórios, pois nenhuma criatura pode participar da obra expiatória de Cristo (Mc 10:38). Como regra, quando a Escritura fala do “sofrimento” (singular) de Cristo, tem a ver com expiação (Hb 2:9), mas quando fala dos “sofrimentos” de Cristo (plural), são os sofrimentos do martírio (Hb 2:10), em que os crentes participam quando sofrem por Ele.

Todo o desejo de Paulo era ser como Cristo de todas as maneiras possíveis. Isso era sua paixão. (Novamente, isso é Cristianismo normal.) Ele queria alcançar Cristo em glória e, com esse fim em vista, estava preparado para se “conformar” à “morte” de Cristo e morrer como um mártir para alcançar esse destino. Vivendo uma vida de devoção a Cristo como Paulo fez, havia uma possibilidade muito real de isso acontecer. É como ele disse: “Se eu morrer nas mãos de homens maus, então serei muito mais parecido com Cristo, pois Ele foi morto por homens maus também! Nada me agradaria mais do que alcançar a Cristo em glória pelo mesmo caminho que Ele tomou para chegar lá!”

6) “Para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dos mortos” (v. 11) – Se realmente fosse a vontade de Deus que Paulo morresse por causa seu testemunho por Cristo, ele estava disposto a isso (2 Co 5:8), porque então experimentaria o poder literal da ressurreição, como Cristo fez quando ressuscitou de entre os mortos. Isso só o tornaria um tanto mais parecido com Cristo!

As escrituras indicam que há duas ressurreições que ocorrerão com cerca de mil anos entre elas (Jo 5:29). Estas são as ressurreições dos “justos e injustos” (At 24:15). Isso é algo que os santos do Velho Testamento não sabiam; eles só conheciam a ressurreição de um modo geral (Jo 11:24). O evangelho lançou luz sobre este assunto (2 Tm 1:10), e agora sabemos que existem duas ressurreições:

A primeira ressurreição, que tem a ver com a ressurreição dos justos, é mencionada como sendo uma ressurreição “de entre os mortos” na tradução de J. N. Darby. Assim, é algo seletivo; os justos mortos serão selecionados de entre os iníquos mortos e ressuscitados para a vida. Essa “ressurreição seletiva” como às vezes é chamada, foi ensinada primeiro pelo Senhor Jesus Cristo (Mt 17:9) e depois pelos apóstolos (Rm 6:4; 1 Co 15:20; Ef 1:20; Fp 3:11; Cl 1:18, etc.). Tem três fases:

  • “Cristo, as primícias” (1 Co 15:23a). Isso ocorreu quando o Senhor ressuscitou de entre os mortos (Mt 28:1-6). O caráter de Sua ressurreição é uma amostra daquilo que virá depois para os justos. Por isso, Ele é “as primícias” dessa ressurreição.
  • “Os que são de Cristo, na Sua vinda” (1 Co 15:23b). Isso se refere aos santos do Velho Testamento e do Novo Testamento sendo ressuscitados no Arrebatamento (1 Ts 4:15-18; Hb 11:40).
  • “[Eles] viveram, e reinaram com Cristo” (Ap 20:4). judeus e gentios fiéis que morrerem durante a septuagésima semana de Daniel serão ressuscitados ao final da grande tribulação, completando assim a primeira ressurreição (Ap 14:13).

A segunda ressurreição (do injusto) ocorrerá no final do Milênio, que é o final do tempo (Ap 20:5, 11-15). Naquele momento, os ímpios mortos serão ressuscitados e julgados perante o grande trono branco, e depois designados para uma eternidade perdida no lago de fogo (inferno).

 

7) Como Paulo andou pelo caminho da fé, procurou crescer em sua apreensão sobre o fim glorioso para o qual ele foi destinado pela graça de Deus. O “prêmio” que ele perseguiu era estar com e ser como Cristo em glória. Isso é algo que todos os santos obterão quando o Senhor vier (2 Ts 2:14). Paulo reconheceu que, naquele ponto de sua experiência Cristã, ele ainda não tinha a “posse” (JND) do prêmio – “Não que já a tenha alcançado [o prêmio], ou que seja perfeito” (Perfeição, na maneira como fala dela aqui, é ter plena conformidade com Cristo no estado glorificado – v. 21.) Mas Paulo queria um conhecimento mais profundo do por que ele foi preso por Cristo, e assim disse: “Para que eu saiba apreender [alcançar] aquilo pelo qual sou também preso de [alcançado por] Cristo Jesus” (v. 12 – Tradução W. Kelly).

A revelação do Mistério em Efésios e Colossenses manifesta o “propósito dos séculos” (TB) de Deus (Ef 3:11). Ele é apresentado nessas epístolas principalmente como uma questão de doutrina, então Paulo estava ciente dessas coisas, tendo sido o escritor delas. Mas ele queria mais; queria conhecer o coração daqu’Ele que o escolheu para aquele lugar que terá com Cristo no dia vindouro de manifestação. Não tendo alcançado o fim divino para o qual fora chamado, ele seguiu em frente no caminho da fé em sua busca por um entendimento mais profundo disso.

Vs. 13-14 – A busca de Paulo pelo seu objetivo de alcançar Cristo em glória foi o foco singular de sua vida. Ele havia removido todas as coisas estranhas dela para poder dar toda a sua atenção à busca desse objetivo único. Ele disse: “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação [do chamado ao alto – JND] de Deus em Cristo Jesus”. Novamente, ter um foco tão singular é o Cristianismo normal – todos deveríamos ter esse tipo de foco em Cristo!

Paulo sabia que o maior obstáculo para seguir Cristo em glória era colocar “confiança na carne”, numa busca terrena ou qualquer outra busca (v. 4). Isso era exatamente o que os mestres judaizantes estavam promovendo e, assim, eram uma praga para o Cristianismo. Eles precisavam ser identificados como maus obreiros e tratados como tais (Gl 5:7-10). A mensagem de Paulo foi exatamente o oposto; tinha a ver com “esquecendo-me das coisas que atrás ficam...”. Isso se refere à ambição que ele uma vez teve de ser um grande homem no mundo religioso. Esta afirmação é frequentemente retirada do contexto e aplicada a coisas ruins que uma pessoa pode ter feito, ou a coisas tristes que ela possa ter experimentado em sua vida. Para consolar-se sobre essas coisas, a pessoa vai citar essa afirmação sobre o esquecimento. No entanto, Paulo não está falando de esquecer coisas tristes e ruins; ele está falando em deixar atrás as chamadas coisas “boas” que uma vez perseguiu e que o distinguiram entre seus pares – coisas de que a carne podia se orgulhar e que o mundo admiraria.

Nós vemos aqui uma progressão do exercício em relação às coisas anteriores que Paulo tinha perseguido. Quando se converteu, ele tratou essas coisas como “perda”; então, ao seguir adiante em sua experiência Cristã, ele as viu como realmente eram – como “refugo”. Agora ele fala dessas coisas como algo que ele estava “esquecendo” completamente. Note que “esquecendo” e “avançando para” são indicados no tempo presente. Isso mostra que foi um exercício contínuo em sua vida. Isso nos ensina que não há tempo para ficar ociosos em nossas vidas Cristãs, porque se pararmos em nossa busca por Cristo, mesmo por um pouco, provavelmente voltaremos às coisas que outrora buscávamos.

Paulo prossegue “para o alvo, pelo prêmio”. Isso não significa que estivesse tentando apressar o dia de alcançar Cristo em glória antes do tempo designado por Deus; isso acontecerá para todos os crentes ao mesmo tempo – no arrebatamento. O objetivo era ter total conformidade com Cristo. Insistir nessa direção é buscar agora, de todas as formas possíveis, ser como Ele, moral e espiritualmente. E, uma vez que naquele dia nós “conheceremos”, como também somos “conhecidos” (1 Co 13:12), quanto mais crescemos agora em apreensão daquele conhecimento, nesse sentido, estamos chegando mais perto desse dia quando teremos então o conhecimento completo.

A frase: “o alto chamado de Deus em Cristo Jesus” (traduzido como tal na KJV) pode levar a erro. Uma pessoa poderia pensar que Paulo estava falando em tentar ganhar o prêmio mais alto que será dado no céu ao mais dedicado servo do Senhor. Se fosse isso a que ele estava se referindo, então ele realmente não havia julgado seus antigos desejos da carne em ser o melhor e ter o mais elevado lugar de honra no judaísmo – mas é que agora ele perseguia o prêmio no Cristianismo. Contudo, essa tradução na KJV não é a melhor. O versículo deveria ser lido: “o chamado ao alto” (JND). Refere-se ao chamado celestial do Cristão estando com e como Cristo, onde Ele está, no alto. É a porção de todos os crentes, não apenas para uma pessoa que se destacou acima de seus irmãos na fé e boas obras. “Alto” significa simplesmente “acima”, no céu. O sentido em que Paulo usa a palavra “prêmio” refere-se ao que todos os Cristãos receberão no dia vindouro.

Assim, vemos a partir desses sete novos desejos de Paulo que houve uma renovação completa em todo o seu propósito de viver. Essas coisas não são exercícios extraordinários que só seriam encontrados em um apóstolo, mas é o que caracterizam o Cristianismo normal. Assim, todos devemos ter esses desejos!

Três Estados de Espírito em Relação ao Buscar Cristo em Glória

Vs. 15-21 – Nos versículos finais do capítulo 3, Paulo menciona o fato de que em toda companhia Cristã haverá diferentes estágios de crescimento espiritual e de progresso entre os santos. Alguns terão sido salvos recentemente e outros estarão no caminho já há muitos anos. Em condições normais, a mentalidade de cada um concernente à busca de Cristo em glória será respectivamente variada. Mas este nem sempre é o caso; às vezes, aqueles que têm estado no caminho já há algum tempo são bastante elementares em sua apreensão da revelação Cristã e são subdesenvolvidos espiritualmente, e consequentemente, isso será refletido na intensidade de sua busca de Cristo em glória. Paulo mostra aqui que, embora essa variação possa existir, não há razão para que todos na assembleia não possam caminhar juntos em feliz unidade, e cada um aceitar ao outro onde quer que esteja em seu progresso espiritual. Se não formos cuidadosos quanto a isso, Satanás usará essas diferenças para dividir os santos.

Paulo fala de três estados mentais que refletem essa diferença entre os santos e exorta cada um de acordo:

Sentir o Mesmo (v. 15a)

Ele diz: “Pelo que todos quantos já somos perfeitos sintamos isto mesmo”. O modo pelo qual Paulo usa a palavra “perfeito” nesta passagem pode parecer confuso. No versículo 12, ele havia acabado de falar que os santos ainda não estavam “aperfeiçoados” – inclusive ele mesmo. Agora, no versículo 15, ele alude aos santos que são “perfeitos” e inclui a si mesmo. Isso pode parecer contraditório, mas ele está realmente falando de dois aspectos diferentes da perfeição. No versículo 12, está em conexão com alcançar o estado glorificado em que os santos terão plena conformidade com Cristo. Isso ocorrerá no Arrebatamento (v. 21). No versículo 15, é algo presente em conexão com o ser adulto ou maduro em coisas divinas.

O ponto de Paulo aqui é que os crentes espiritualmente maduros manifestarão sua maturidade por sentirem “o mesmo” que ele. Eles terão a mesma singularidade de foco em suas vidas, porque eles, assim como ele, terão deixado de lado coisas estranhas e estarão buscando a Cristo em glória como seu único objetivo. Se não somos “perfeitos” nesse sentido, não é um problema de capacidade, mas de desejo. Se tivermos o desejo, o Espírito Santo formará a capacidade em nossos corações e estaremos sedentos por mais de Cristo e de Suas coisas, e isso, por sua vez, resultará em maturidade espiritual. A capacidade para as coisas divinas não depende de habilidade natural – como ter recursos intelectuais. Há muitos no caminho Cristão que possuem consideráveis recursos intelectuais, porém são bastante elementares. Eles não se desenvolveram espiritualmente como poderiam se tivessem sido mais dedicados. Consequentemente, eles não estão no estado de sentirem o mesmo, como Paulo, na vida Cristã prática. No sentido em que Paulo fala aqui de ser perfeito, até mesmo novos convertidos podem sentir o mesmo. Não é uma questão de conhecimento, mas de coração.

Sentir de Modo Diverso (v. 15b-17)

Paulo continua e diz: “se sentis alguma coisa de modo diverso, Deus também vo-lo revelará” (TB). Isso mostra que ele percebeu que nem todos os crentes estão no mesmo nível de progresso e resultados em sua experiência Cristã. Há muitos que estão verdadeiramente seguindo a Cristo, mas não têm a mesma singularidade de foco em Cristo em glória que Paulo tinha. Ele diz que esses sentem “de modo diverso”. A maioria dos Cristãos de hoje provavelmente se enquadra nessa categoria. Tais não passaram pelos exercícios da alma que levam a ter Cristo como o único Objeto de suas vidas. Assim, eles têm em suas vidas uma mistura de coisas e buscas terrenas juntamente com genuína afeição por Cristo. Paulo estava confiante de que, ao andarem no caminho da fé com Deus, e amadurecerem de acordo, o Senhor iria lhes “revelar” que essas buscas terrenas são apenas distrações que atrapalham a alma na busca de Cristo em glória – e eles as deixariam de lado, como ele o fez. Satanás sabe disso, e faz tudo o que pode para embaraçar o crente em todo tipo de buscas e empreendimentos dos quais não é fácil se desvencilhar.

É maravilhoso ver como Paulo é gracioso em relação àqueles que sentiam de modo diverso. Ele não os repreende com palavras depreciativas, ou despreza-os por sua falta de exercício em coisas divinas. Em vez disso, fala-lhes graciosamente e os encoraja a viver de acordo com o que alcançaram. Ele diz: “Mas, naquilo a que já chegamos, andemos [nos mesmos passos – JND] segundo a mesma regra”. (A declaração que segue, “e sintamos o mesmo”, é encontrada na KJV [e na ARC], mas não tem muita, se é que tem alguma, autoridade como manuscrito e, consequentemente, é deixada fora da Tradução de J. N. Darby.) O argumento de Paulo aqui é que apesar de estarmos todos em níveis diferentes de realização espiritual, todos podemos andar juntos em feliz unidade se todos tivermos uma mente voltada para Cristo em glória.

Este espírito gracioso é algo necessário enquanto caminhamos com nossos irmãos, porque há uma tendência a se pressionar aqueles de menor progresso espiritual e forçá-los a um molde que exteriormente os conforma com o que achamos que um Cristão deveria ser. Mas se tal coisa não é produzida pelo coração da pessoa sendo movida pela graça e pelo exercício pessoal, isso resultará em viverem acima de onde realmente estão em suas almas. A vida Cristã se tornará algo legalista para eles. Em nosso zelo para vê-los seguir em frente e sentir o mesmo com Paulo, podemos inadvertidamente colocá-los em um lugar de perigo onde poderiam ter um naufrágio espiritual. Em vez de colocar cargas sobre eles e exortá-los a viver coisas além de onde realmente estão em suas almas, precisamos seguir o exemplo de Paulo. Ele encorajou todos os tais a andarem com o Senhor naquilo que eles “já haviam alcançado”, e deixou para Deus “revelar” a eles o caminho mais excelente, à medida que cresciam na graça. O espírito de graça de Paulo para crentes que sentem de modo diverso exemplifica como os santos mais avançados espiritualmente devem tratar os que têm menos conhecimento que eles. Se isso fosse seguido em nossas interações diárias entre um e outro, isso desarmaria muitas lutas e contendas internas em nossa vida de assembleia.

O exemplo de Eliseu em seu tratar com Naamã ilustra a sabedoria que devemos ter em tratar com aqueles que pensam de modo diverso (2 Rs 5:18-19). Quando Naamã ponderou sobre a questão de entrar na casa de Rimom, Eliseu disse a ele: “Vai em paz”. Ele não disse sim ou não, mas deixou Naamã com o Senhor, que deixaria claro a ele qual era a coisa certa a se fazer.

O conselho de Paulo para todos os crentes que sentem de modo diverso foi: “Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo [modelo] que tendes em nós, pelos que assim andam” (v. 17). Cristo deveria ser o Objeto deles, mas eles também tinham Paulo e àqueles que sentiam o mesmo com ele como seu “modelo” para a vida Cristã. Isso mostra que a coisa mais útil que podemos fazer pelos santos é continuarmos com o Senhor. O exemplo é uma influência poderosa para os outros (At 20:20, 35).

Pensar nas Coisas Terrenas (vs. 18-19)

Paulo fala de um terceiro estado mental – aqueles que “pensam nas coisas terrenas”. Ele diz: (“Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas”.) Paulo fala desse grupo entre parênteses (JND e KJV) porque eles não são verdadeiros crentes, como aqueles das outras duas classes. Isto pode ser visto pelo fato de que ele diz que seu “fim é a perdição”. Eles eram crentes meramente professantes se movendo no círculo Cristão. Se eles não fossem salvos enquanto tinham a oportunidade de fazê-lo, passariam para uma eternidade perdida.

Tão solenes e sérios eram os movimentos daqueles que pensavam nas coisas terrenas que Paulo diz aos filipenses que, apenas por ter de lembrá-los dessas pessoas, ele chorou. É surpreendente que nesta epístola a qual tem um forte tema fundamental de gozo e regozijo ao longo dela, que Paulo fosse encontrado “chorando”. Mas tal era o caso com aqueles a quem ele chama, “inimigos da cruz de Cristo”. Essas pessoas eram os professantes sem vida que absorveram a doutrina dos mestres judaizantes mencionados no versículo 2. Eles odiaram e rejeitaram o julgamento de Deus na cruz, sobre a primeira ordem do homem sob Adão e tinham como objeto a busca das coisas terrenas. Sobre eles Paulo disse “cuja glória é para confusão [vergonha] deles” (JND). Isto é, eles falam livremente do seu passado sem pesar ou vergonha. Assim, esses de mente terrena não mostraram nenhum sinal de arrependimento. (Paulo falou de suas buscas passadas, mas o fez para mostrar que havia julgado tudo isso).

Enquanto que essas pessoas eram crentes meramente professantes, e não reais, os verdadeiros crentes podem ser influenciados por seus caminhos e se tornarem completamente mundanos. Todos esses não perderão, é claro, a salvação eterna de suas almas, mas, ao adotarem tais condutas, devem ser advertidos e repreendidos.

F. G. Patterson mencionou um tipo desses três estados mentais na profissão Cristã em seu livro Lectures on the Church of God (págs. 50-52). Em conexão com a posse da terra de Canaã, as várias tribos de Israel caíram em três categorias, de acordo com o desejo delas. Havia duas tribos e meia (Judá, Efraim e meia tribo de Manassés) que queriam o que lhes fora dado pelo Senhor, e subiram diretamente e tomaram sua herança (Js 15-17). Esses corresponderiam aos Cristãos que “sentem o mesmo”. E também, havia sete tribos (Benjamim, Simeão, Zebulom, Issacar, Aser, Naftali e Dã) que demoraram a subir para tomar a sua parte na terra. Esses correspondem aos Cristãos que “sentem de modo diverso”. Eles precisavam de algum estímulo, o que Josué fez enviando 21 homens (três de cada tribo) para irem à terra e descreverem as coisas boas que viram num livro. Quando eles voltaram, leram o livro diante do povo e isso os animou a desejarem a terra agradável. Esta é uma figura do que o bom ministério fará pelos santos. As sete tribos então se levantaram e entraram e possuíram sua herança (Js 18-19). Por último, havia duas tribos e meia (Rúben, Gade e a outra meia tribo de Manassés) que não queriam Canaã como sua herança, mas escolheram as planícies de Moabe, do outro lado do Jordão (Js 22). Esses correspondem àqueles que “pensam nas coisas terrenas”.

O Desfecho Divino do Caminho Cristão – Glorificação

Vs. 20-21 – O capítulo termina com Paulo observando dois fins distintos daqueles na profissão Cristã. No versículo 19, ele falou do destino daqueles que eram professantes, de mente terrenal, afirmando que seu “fim é a perdição” (v. 19). Sendo que eles não têm fé, são corruptores da casa de Deus, e como tal, eles serão julgados (1 Co 3:17). Agora nos versículos 20-21, ele fala do destino dos verdadeiros crentes. Ele diz: “Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o Seu corpo glorioso, segundo o Seu eficaz poder de sujeitar também a Si todas as coisas”. Não poderia haver um contraste maior. O professante sem vida terá sua porção sob condenação no inferno, e o crente terá sua porção com e como Cristo no céu! Este é o prêmio que espera cada santo de Deus.

Nós podemos ser cidadãos de algum país da Terra, mas nossa verdadeira “cidade” [pátria – TB] está no céu. É nossa pátria e nosso lar. Estamos simplesmente esperando o “Salvador” vir e nos levar até lá. Este é um aspecto futuro da salvação que todos os crentes experimentarão quando acontecer o Arrebatamento (Rm 13:11; Hb 9:28; 1 Pe 1:5). Paulo explica que não iremos para casa no céu na condição em que nossos corpos estão atualmente. Deve haver necessariamente uma transformação física pela qual nosso “corpo de humilhação” (JND) será “transformado” à semelhança do “Seu corpo glorioso” (1 Co 15:51-56). Isso tem a ver com os corpos dos santos tendo Sua semelhança em essência; cada um de nós conservará a aparência individual e, assim, será reconhecido como tal – como os discípulos reconheceram Moisés e Elias no monte da transfiguração (Lc 9:30).

A KJV diz: “Nosso corpo vil [abatido – ARC]”, mas isso poderia ser enganoso. Embora “vil” pudesse ter sido uma palavra aceitável de ser usar 400 anos atrás (quando a tradução foi feita), hoje a palavra transmite um pensamento diferente. Uma tradução melhor é: “corpo de humilhação” (ARA). Nossos corpos se tornaram assim por causa da queda de Adão e dos efeitos resultantes do pecado na criação. Consequentemente, nossos corpos estão sujeitos a doenças, decadência e morte (Ec 12:1-7). No sentido moderno da palavra, não há nada vil ou mal em relação ao corpo humano; o mal está no emprego incorreto ao qual o corpo é submetido. Assim, nunca se diz que o corpo humano é pecaminoso. (Romanos 6:6 fala do “corpo do pecado”, mas não está se referindo ao corpo humano, mas sim à totalidade do pecado como um sistema na criação. Usando a palavra “corpo” como Paulo faz em Romanos 6:6, poderíamos dizer da mesma forma: “O corpo de um rio”, ou “O corpo do conhecimento científico”, etc.) Nossos corpos humanos estiveram envolvidos em muitos atos pecaminosos (pelos quais somos responsáveis), mas não é dito que eles sejam pecadores em si mesmos. Se nossos corpos fossem pecadores, não poderiam ser apresentados a Deus para serem usados no serviço do Senhor (Rm 12:1).

Os Cristãos frequentemente falam de receber um “novo” corpo quando o Senhor vier, mas isso poderia transmitir a ideia de que obteremos outro corpo, o que não é verdade. As Escrituras não dizem que os santos obterão “novos” corpos, mas sim que seus corpos serão “transformados” (Jó 14:14; 1 Co 15:51-52; Fp 3:21). O mesmo corpo que foi enterrado será ressuscitado, mas em uma condição completamente diferente de glorificação. 1 Coríntios 15:42-44 afirma isso claramente. Diz que o mesmo corpo que é “semeado” na terra em sepultamento se levantará novamente. (Note que apesar de o sujeito no v. 44 ser indeterminado, ele está se referindo tanto ao sepultar quanto ao ressuscitar do mesmo corpo). Se os santos receberem um novo, ou outro corpo, quando o Senhor vier, então, por conclusão lógica, Ele realmente não ressuscitará os corpos que uma vez viveram. Isso nega a ressurreição. Para evitar qualquer ideia como essa, as Escrituras têm o cuidado de nunca dizer que teremos “novos” corpos.

Quando o Senhor andou nesta Terra, Seu corpo humano não era o de “humilhação”, nem era um “corpo de glória”. Seu corpo era santo e imortal (Lc 1:35). Seu corpo não foi glorificado até que ressuscitasse de entre os mortos. As escrituras dizem que Ele foi “recebido acima em glória – JND” (1 Tm 3:16). Isto é, Ele subiu ao céu em um estado glorificado.

A atitude correta para o crente é “esperar o Salvador” que está por vir. Nosso próximo passo é sermos chamados a qualquer momento para longe desta Terra.