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A Epístola aos Hebreus

TERCEIRA ADVERTÊNCIA CONTRA A APOSTASIA Capítulos 5:11-6:20

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 11 de 23

TERCEIRA ADVERTÊNCIA CONTRA A APOSTASIA
Capítulos 5:11-6:20

O Perigo da Imaturidade Espiritual

O escritor faz uma pausa para dar uma importante advertência contra a apostasia nos capítulos 5:11-6:20. Essa digressão, como os outros desvios do assunto relativos à apostasia na epístola, pode ser vista como um parêntese. (Veja Synopsis of the Books of the Bible, de J. N. Darby, sobre Hebreus 6).

Vs. 11-12 – O autor percebeu que o assunto referente ao sacerdócio de Melquisedeque poderia ser difícil para os hebreus entenderem e vincula o problema à imaturidade espiritual deles. Eles haviam sido impedidos em seu crescimento espiritual e isso trouxe uma repreensão da seguinte forma: “Do qual (Melquisedeque) muito temos que dizer, de difícil interpretação, porquanto vos fizestes negligentes para ouvir. Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus [princípios elementares dos oráculos de Deus – AIBB]; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento”. Eles demoraram a entender a revelação Cristã da verdade, e isso aconteceu porque foram prejudicados por suas antigas associações judaicas. Eles estavam apegados aos elementos fracos e empobrecidos do judaísmo (se não na prática, pelo menos no coração), e isso dificultou a entrada deles nos princípios mais simples do Cristianismo. Um julgamento governamental de cegueira havia sido lançado sobre aquela religião terrena (judaísmo) que havia sido invocada pelo próprio Senhor quando Ele estava na cruz (Salmo 69:22-23). Permanecerem em comunhão com aquela religião significava que eles herdariam a cegueira que vinha junto com ela. Isso evidentemente estava começando a ter efeito entre eles. Compare também 2 Coríntios 3:14-16.

Assim, o escritor viu os hebreus como crianças espirituais, precisando aprender os elementos básicos do evangelho novamente. Os coríntios haviam sido atrofiados em seu crescimento e eram considerados “criancinhas” (AIBB) por causa de sua carnalidade (1 Co 3:1). Esses hebreus também eram considerados “criancinhas [bebês – JND]”, mas foi por causa de sua legalidade (Hb 5:13). Eles precisavam ser novamente instruídos em coisas que ele chama de “os primeiros rudimentos [princípios elementares dos oráculos de Deus – AIBB]”. Esses são os ensinamentos elementares de Cristo em conexão com o fato d’Ele ser o Rei e o Messias de Israel. É a linha da verdade que surgiu em Seu ministério terreno antes da cruz – essencialmente aquilo que é encontrado nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas). W. Kelly disse: “Essas [coisas] qualificadas como ‘o princípio dos oráculos de Deus’ significam o que Deus deu em Cristo aqui embaixo, aquém da Sua redenção e de Seu lugar celestial, com o dom do Espírito, o que dá ao Cristianismo seu verdadeiro caráter distinto” (The Epistle to the Hebrews, pág. 97). Ele também disse: “O que realmente significa aqui na ‘palavra do princípio de Cristo’ é o que foi revelado nos dias da Sua carne e, no devido tempo, registrado como Seu ministério nos Evangelhos” (The Epistle to the Hebrews, pág. 101).

O fato de que os hebreus “ainda” precisavam ser ensinados sobre esses primeiros princípios indica que eles haviam regredido. Eles sabiam e haviam aceitado que o Senhor Jesus era o Messias, mas de alguma forma eles ficaram confusos sobre essas coisas e pareciam estar questionando isso. Como resultado, eles precisavam ser ensinados sobre todas aquelas coisas de novo. Isso mostra que, se não seguirmos na verdade que Deus nos deu, nos distanciaremos dela. Se não progredirmos, regrediremos. Os hebreus estavam hesitando, e as coisas estavam ficando nebulosas em suas mentes, e isso acabaria levando-os a voltar atrás em suas convicções.

Vs. 13-14 – O escritor prossegue dizendo: “Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos [adultos – AIBB]”. Ele faz uma correlação interessante aqui entre “leite” e “mantimento sólido”. Se o leite corresponde à verdade nos Evangelhos, como notamos, então o mantimento sólido é a revelação completa da verdade do Cristianismo, como encontrada nas epístolas. Essas duas coisas (leite e mantimento sólido) são distinguidas pelo Senhor em João 14:25-26. Ele chamou a verdade em Seu ministério de “estas coisas” (TB), e chamou a verdade que viria depois da descida do Espírito de “todas as coisas”. A última refere-se à plena revelação da verdade no Cristianismo. O escritor não fala depreciativamente de leite – ele reconhece que tem seu lugar nos estágios de desenvolvimento do crescimento da alma, mas fica claro, pela maneira como ele fala de alimentos sólidos, que é aquilo que realmente deseja para os santos.

Então ele diz: “os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal”. Nesta declaração, ele alude a como uma pessoa passa de um simples bebedor de leite para alguém capaz de comer mantimento sólido. Isto é, como alguém faz progresso espiritual e se torna um Cristão adulto (maduro). Isso é alcançado pelo manejo frequente da verdade, como ele diz aqui – “em razão do costume”. Isso significa que, se nos aplicarmos ao aprendizado da revelação Cristã, seremos recompensados com um entendimento dela. Os evangelhos apresentam a verdade do reino, mas não revelam o Cristianismo. O Cristianismo nem mesmo começou até que houvesse um Homem no céu (At 1) e o Espírito de Deus tivesse sido enviado para habitar nos crentes (At 2). Veja João 7:39. As epístolas foram escritas desta perspectiva e nos dão nossa posição Cristã completa. Isto significa que se uma pessoa se concentra nos Evangelhos, negligenciando a verdade nas epístolas, ela será prejudicada em seu crescimento espiritual. Portanto, devemos dar atenção à verdade nas epístolas; é nosso fundamento. É o que nos estabelece na fé Cristã.

Ao acrescentar: “Para discernir tanto o bem quanto o mal”, ele mostra que o crescimento e o progresso nas coisas espirituais não é meramente ter um entendimento intelectual da verdade – o discernimento moral nas coisas práticas também se desenvolverá. Isso é importante; mostra que a verdade deveria ter um efeito moral sobre nós. Não apenas devemos agarrar a verdade (intelectualmente), mas a verdade deve nos agarrar (moralmente). Isso, diz ele, vem ao sermos “exercitados” sobre a verdade que aprendemos.

Prosseguir para a Perfeição

Cap. 6:1-3 – Tendo abordado o perigo da recaída espiritual, o escritor exorta os hebreus a “prosseguirem até à perfeição”. A palavra traduzida como “perfeição” aqui no texto grego tem a mesma raiz da palavra usada no capítulo 5:14 para “adultos [homens maduros – JND]”. Assim, exortando-os a prosseguir para a perfeição, ele estava se referindo a eles se estabelecendo no “mantimento sólido” da revelação Cristã da verdade. Isso, como dissemos, é encontrado nas epístolas – particularmente nas de Paulo.

Ao mesmo tempo, ele os desencoraja de voltar à posição do Velho Testamento no judaísmo, de onde vieram. Havia a necessidade de “prosseguirem” deixando os princípios do reino que o Senhor ensinou em Seu ministério terreno – “os rudimentos da doutrina de Cristo” – para a “maturidade” do Cristianismo. Esses crentes hebreus estavam, por assim dizer, em uma ponte que se estendia do judaísmo ao Cristianismo. Eles precisavam sair da ponte, não voltando ao sistema de judaísmo do Velho Testamento, mas avançando para a revelação completa do Cristianismo. Se ficassem onde estavam na ponte, em algum lugar entre o judaísmo e o Cristianismo, isso impediria seu crescimento espiritual e eles permaneceriam bebês. O grande perigo da imaturidade espiritual é que uma pessoa nesse estado é capaz de entender mal algum ponto da verdade e assumir que seja um erro, e rejeitar esse ponto. Isso mostra que há ramificações negativas ao permanecer superficial na verdade. É aceitável ser um bebê em coisas espirituais se for um novo convertido, mas não é a vontade de Deus que permaneçamos nesse estado (Ef 4:14).

Ao dizer “deixando os rudimentos da doutrina de Cristo”, ele não quis dizer que eles deveriam abandonar os ensinamentos do ministério terreno de Cristo, nem queria dizer que devíamos abandonar as verdades elementares do Cristianismo para abraçar “as profundezas de Deus”. (1 Co 2:10). Deus nunca nos encorajaria a abrir mão dos ensinamentos de Cristo, nem nos encorajaria a abandonar os fundamentos do Cristianismo. O pensamento de “deixando” aqui é o de prosseguir, a partir da verdade que receberam no ministério de Cristo.

Seis Coisas que Caracterizam o Judaísmo do Velho Testamento

Ele menciona seis coisas que caracterizavam o judaísmo do Velho Testamento, às quais não deviam voltar, porque essas coisas haviam sido suplantadas pelos “bens futuros” que haviam chegado por meio da morte e ressurreição de Cristo (Hb 9:11, 10:1). Ele diz, “não lançando de novo”:

1) “O fundamento do arrependimento de obras mortas” (v. 1)

Esta é uma referência ao que os filhos de Israel fizeram no Dia da Expiação ao afligirem suas almas em arrependimento (Lv 16:29). Ele chama isso de “obras mortas” porque toda a questão do pecado para os crentes foi totalmente resolvida na obra consumada de Cristo na cruz. Os pecados do Cristão foram postos de lado para sempre; eles não são apenas cobertos por mais um ano como no ritual do Velho Testamento no Dia da Expiação. Portanto, não há necessidade dessa prática agora.

2) “Da fé em Deus” (v. 1)

Refere-se ao entendimento judaico ortodoxo de Deus como “o único Senhor” (Dt 6:4). Foi fé em Deus sem conhecer e distinguir as três Pessoas na divindade (a Trindade), pois essa verdade não veio à luz nos tempos do Velho Testamento. Tal revelação exigia a vinda de Cristo ao mundo para declarar o Pai (Mt 11:27; Jo 1:18). Retornar à revelação parcial de Deus que os santos do Velho Testamento tiveram é desconsiderar a luz que temos agora no Cristianismo, e essencialmente denunciá-la como sendo falsa.

3) “A doutrina dos batismos [das lavagens – JND]” (v. 2)

Refere-se às lavagens cerimoniais que marcaram o judaísmo, que significava a santidade necessária para se aproximar de Deus em adoração. Toda essa limpeza exterior não é necessária no Cristianismo porque nos tornamos “santos” pela obra consumada de Cristo (1 Co 6:11; Ef 1:4; Cl 1:22; Hb 3:1). (A versão King James e as versões em português dizem: “batismos”, mas deveriam traduzir como “lavagens”. O escritor não está falando da ordenança do batismo).

4) “Da imposição de mãos” (v. 2)

Refere-se ao ritual relacionado com as ofertas judaicas (Lv 1:4, 3:2, 4:4, 16:21, etc.) Essa prática significava a identificação do ofertante com a oferta que ele apresentava no altar. No entanto, como o único sacrifício de Cristo é o cumprimento dessas ofertas judaicas, elas não precisam mais ser oferecidas e, portanto, essa prática também não é necessária. (Não se refere à imposição de mãos na Igreja primitiva como registrada em Atos 6:6, 8:17, 9:17, etc.)

5) “Da ressurreição” (v. 2)

Refere-se ao entendimento limitado que os santos nos tempos do Velho Testamento tinham em conexão com a ressurreição. Eles sabiam da ressurreição em um sentido geral. Isso é visto na declaração de Marta ao Senhor, que é considerado o entendimento judaico ortodoxo da ressurreição (Jo 11:24). No entanto, o evangelho trouxe “vida e incorrupção” à luz (2 Tm 1:10), e agora sabemos que existem duas ressurreições de duas ordens completamente diferentes (Jo 5:28-29, At 24:15, etc.) Haverá uma ressurreição “dentre os mortos” dos “justos” [At 3:15 – AIBB], seguida pela ressurreição dos “injustos” – com mil anos entre elas. Retornar ao entendimento limitado da ressurreição, como os santos do Velho Testamento tinham, seria, para esses judeus, virar suas costas para a verdade que havia sido trazida à luz por meio do evangelho.

6) “Do juízo eterno” (v. 2)

Refere-se ao entendimento judaico do julgamento no último dia (Jó 19:25; Jo 11:24). Novamente, o evangelho também trouxe à luz muito mais detalhes sobre o julgamento eterno, como encontrado no Novo Testamento, e podemos agora falar mais definitivamente sobre isso. Voltar as costas ao que foi revelado no Cristianismo a respeito desse assunto é desconsiderar essa revelação superior.

Nota: o escritor não pede aos hebreus que neguem essas coisas porque todas eram verdadeiras e eram coisas dadas por Deus. Ele estava dizendo-lhes para “prosseguir” além dessas coisas e receber a mais completa revelação da verdade que veio à luz no Cristianismo. Voltar à revelação limitada da verdade sobre esses assuntos, como encontrados no Velho Testamento, é questionar se realmente tivemos uma revelação de Deus no evangelho. É apostasia. Por isso, sua palavra para eles não é voltar atrás, mas prosseguir. Ele acrescenta: “isso faremos, se Deus o permitir” (v. 3). Deus certamente “quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4), mas muitas vezes isso não acontece porque as pessoas se recusam a participar com Ele no exercício de fé pessoal e serem diligentes.

Cinco Grandes Privilégios Externos Conectados com o Cristianismo

Vs. 4-6 – Isso leva o escritor a falar mais especificamente sobre o perigo da apostasia. Ele menciona cinco privilégios externos que o Cristianismo trouxe ao mundo. Ele diz: “Porque é impossível que os que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa Palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro, e depois caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; visto que, quanto a eles, estão crucificando de novo o Filho de Deus, e o expondo ao vitupério” (AIBB). À primeira vista, pode parecer que ele está se referindo aos privilégios que pertencem àqueles que receberam a Cristo como seu Salvador, mas na verdade, uma pessoa pode participar de todas essas cinco coisas sem ser salva! Identificando-se externamente com a companhia Cristã, uma pessoa sem vida divina (um crente meramente professo) pode participar e experimentar essas coisas. O ponto que o escritor está trazendo aqui é que ser identificado com o testemunho Cristão é de grande vantagem, mas também o torna muito responsável. Ele fala de certos privilégios externos que tal pessoa tem:

1) Foram “iluminados”

Uma pessoa se torna iluminada por ouvir a verdade apresentada no evangelho; isso o torna informado. Isso não significa que tenha crido no evangelho e tenha recebido a Cristo como seu Salvador. A iluminação não é um novo nascimento e nem salvação. No entanto, ser iluminado faz com que alguém seja muito responsável, pois Deus tem uma pessoa responsável pelo grau de luz que lhe foi dado e será julgada de acordo com isso (Lc 12:47-48).

2) “Provaram o dom celestial”

Isto se refere à revelação Cristã da verdade – a “fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3). É esse “bom depósito” da verdade que devemos manter (2 Tm 1:14; Ap 3:11). Uma pessoa poderia entrar em reuniões Cristãs, onde essas verdades celestiais são expostas e provar dessas coisas de uma forma exterior, ouvindo sobre elas. (Nota: “provaram” implica que saborearam algo sem necessariamente ingerir).

3) Se fizeram “participantes do Espírito Santo”

Ele não diz que a pessoa é habitada pelo Espírito, mas sim “participante” do Espírito. O Espírito não apenas reside nos crentes no Senhor Jesus Cristo, mas também habita entre os crentes na casa de Deus (Jo 14:17; At 2:1-4). Um incrédulo, ou um crente meramente professo, pode estar entre os Cristãos onde o Espírito de Deus está operando e de uma maneira externa, participar das coisas que estão acontecendo entre eles. Desta forma, é participante do Espírito sem ser salvo e selado com o Espírito. Nota: a palavra no texto grego traduzido como “participantes” aqui é meteko, que indica um compartilhamento em algo sem especificar em que grau o compartilhamento ocorre. O escritor não usa koinoneo – a palavra usual para participar que indica um compartilhamento comum completo em uma coisa. Assim, a participação neste versículo refere-se a um compartilhamento superficial ou parcial. (Compare o uso dessas duas palavras gregas no capítulo 2:14 “E, visto como os filhos participam [koinoneo] da carne e do sangue, também Ele participou [meteko] das mesmas coisas”).

4) “Provaram da boa Palavra de Deus”

Isto se refere a ouvir as Escrituras expostas nas reuniões sem especificar se a verdade que foi ensinada tenha sido realmente recebida em fé. Mais uma vez, provar indica uma coisa superficial. Uma pessoa pode ouvir e entender a verdade da Palavra de Deus, sem receber e crer nela.

5) Provaram “os poderes do mundo vindouro”

Isto se refere aos milagres que foram feitos no círculo Cristão que uma pessoa podia ver, e até experimentar. É bem possível que um mero professante tenha sido curado por esses poderes miraculosos, enquanto estava entre os Cristãos.

Caída – Apostasia

V. 6 – Tendo listado alguns dos privilégios externos relacionados com a vinda de Cristo ao mundo (Seu primeiro advento), o escritor adverte os hebreus da seriedade de desprezar essas coisas e retornar ao judaísmo, o que seria apostasia. Pegando o fio das coisas do versículo 4, Ele diz: “Porque é impossível que os que ... caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; visto que, quanto a eles, estão crucificando de novo o Filho de Deus, e O expondo ao vitupério” (TB). Cair é a apostasia (Lc 8:13; 2 Ts 2:3; 1 Tm 4:1; Hb 3:12). É um abandono formal da fé que uma pessoa uma vez professou. Neste caso, está se afastando da revelação Cristã da verdade, depois de abraçá-la.

Um apóstata é diferente de um que rejeita o evangelho. Um que rejeita nunca professou crer no evangelho, mas um apóstata professou ter crido. Apostatar da fé é algo que somente alguém sem vida, um crente meramente professante, faria. Voltar e ser reintegrado na sinagoga e tudo o que isso representa seria concordar com aqueles nessa posição que rejeitaram e crucificaram o Senhor Jesus. A pessoa que faz isso, em essência, está crucificando o Filho de Deus mais uma vez! Quão solene isso é. Tal passo é tão final que não há recuperação para isso! Uma vez que uma pessoa apostata, não há esperança de ela retornar em “arrependimento”. F. B. Hole disse: “Você notará que a palavra aqui é ‘impossível’ e não ‘improvável’.” Judas Iscariotes é um exemplo. Mesmo que ele não tenha sido exposto à plena luz do Cristianismo, porque o Espírito ainda não havia chegado, ele viu e participou das coisas descritas nos versículos 4-5 – mas, infelizmente, se afastou delas para sua própria condenação.

Um verdadeiro crente não apostatará. Ele pode se desviar e caminhar longe do Senhor, mas não abandonará a fé. Se os verdadeiros crentes se afastam do Senhor, as Escrituras geralmente falam de seu desvio como “tropeço” (2 Pe 1:10 – Tradução de W. Kelly; 1 Jo 2:10; Jd 24), em vez de cair. Assim, os crentes podem tropeçar, mas eles não caem, no sentido de apostatar. W. Scott disse sucintamente: “Para recaída existe um remédio; para apostasia não há nenhum” (Doctrinal Summaries, pág. 44). Muitos Cristãos não sabem a diferença entre recaída e apostasia, e muitas vezes confundem as duas coisas. Eles tomarão Escrituras que se referem a crentes meramente professantes que estão em perigo de apostatar e imaginam que aquelas Escrituras estão se referindo a verdadeiros crentes. E assim, levou muitos à conclusão errônea de que um crente pode perder sua salvação se pecar e se afastar do Senhor. Mas essa ideia errônea nega a eterna segurança do crente, que a Escritura afirma claramente (Jo 10:28-29, etc.)

Vs. 7-8 – O escritor acrescenta uma ilustração figurativa à sua advertência para provar que participar da bênção de forma aparente não converte uma pessoa. “Porque a terra que embebe a chuva que muitas vezes cai sobre ela e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos é reprovada e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada”. Isso ilustra os dois tipos de coração que existe entre os homens. Um é comparado a um bom pedaço de terra e o outro a um solo ruim. Ambos recebem a chuva que Deus dá, mas um produz frutos e o outro apenas urtiga – que servem apenas para acender um fogo (um símbolo do julgamento de Deus). Da mesma forma, o “bom terreno” no verdadeiro filho de Deus produzirá frutos para Deus (Lc 8:15), mas o mau terreno em um crente meramente professo será evidente ao se afastar da fé e seu fim será julgamento.

Encorajamento para “Prosseguir” no Caminho de Fé

Vs. 9-10 – Os versículos restantes neste parêntese expressam a confiança do escritor de que a vasta maioria daqueles a quem ele estava escrevendo eram verdadeiros crentes e, portanto, são palavras de encorajamento para eles. Ele estava convencido de que eles manifestariam sua veracidade continuando no caminho da fé. Ele diz: “Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação”. Ao dizer isso, ele assegurou a seus leitores que, ao anunciar sua advertência a respeito da apostasia, de modo algum duvidava da veracidade da conversão deles. Ele estava convencido de que havia uma verdadeira obra de Deus neles e ao dizer, “Mas, ... amados”, os distinguiu daqueles que poderiam apostatar.

As “coisas que acompanham a salvação” são aqueles sinais inconfundíveis na vida de uma pessoa que evidenciam o fato de que ela realmente tem vida divina – de que é realmente salva. Estas seriam coisas como: obediência a Deus, amor ao Senhor Jesus, amor ao povo do Senhor e desejo de estar com eles, etc. Tais são os “sinais vitais” da vida divina que provam que uma pessoa verdadeiramente “passou da morte para a vida” (Jo 5:24). Nesta passagem, o escritor menciona três coisas que muitas vezes são encontradas juntas na Escritura que acompanham a conversão de uma pessoa. Elas são: “amor” (v. 10), “esperança” (v. 11) e “fé” (v. 12). Veja também 1 Tessalonicenses 1:3.

O escritor se concentra particularmente no amor deles pelos santos. Ele diz: “Porque Deus não é injusto para Se esquecer da vossa obra, e do trabalho do amor que para com o Seu nome mostrastes, enquanto servistes aos santos; e ainda servis”. Esses crentes hebreus demonstraram um genuíno amor pelo Povo do Senhor, e ele os lembra de que Deus não tinha esquecido isso e iria recompensá-los de acordo com o seu serviço para o nome do Senhor. Isso deve ter sido palavras encorajadoras para eles.

Vs. 11-12 – Seu desejo era que continuassem no caminho com perseverança – permanecer naquilo que estavam fazendo, pois isso era agradável ao Senhor. Sua preocupação era que “cada um” deles fosse exercitado nesse assunto. Isso mostra que ir para o Senhor é uma coisa individual (Mt 16:24 – “Se alguém quiser vir após Mim...”). Ele queria que prosseguissem firmemente até que a “esperança” deles em Cristo fosse realizada ao serem glorificados junto com Ele. Esta esperança diante do crente transcende muito tudo o que os santos do Velho Testamento procuravam. Eles não deviam ser “negligentes” nisto, mas ser “imitadores” daqueles que foram antes no caminho e “pela fé e paciência herdam as promessas”. Isto novamente mostra que a perseverança no caminho é a maior prova de veracidade.

Palavra de Deus – Um Fundamento Seguro em que a Fé Pode Descansar

Vs. 13-15 – Visto que a fé precisa de um sólido fundamento de autoridade para sobre ele repousar, o escritor apresenta diante deles a coisa mais segura no universo – a Palavra infalível de Deus. Deus sempre mantém a Sua Palavra (1 Rs 8:56; 2 Tm 2:13); a fé pode descansar nela e não se decepcionar. O escritor aponta para a “promessa” e o “juramento” que Deus fez a Abraão como um exemplo de quão seguramente Ele mantém a Sua Palavra. Mesmo nas circunstâncias quase impossíveis em que Abraão e sua esposa se encontravam– estando muito além da idade de ter filhos – Deus guardou a Sua Palavra realizando um milagre e eles tiveram um filho, como foi prometido. Isso mostra que Deus manterá Sua Palavra, não importa o que aconteça – mesmo que isso signifique que Ele tenha que realizar um milagre para fazer isso!

Depois de receber um filho e ser testado ao ser-lhe pedido para colocá-lo sobre o altar, Deus fez um juramento de que Ele também daria a Abraão uma posteridade por meio de seu filho – Isaque. A “promessa” de ter um filho foi feita em Gênesis 12:1-3 e confirmada em Gênesis 13:14-16, 15:1-6 e 17:15-22, mas a prestação do “juramento” foi feita em Gênesis 22:16 – “Por Mim mesmo, jurei, diz o Senhor”. O escritor afirma que ao fazer o juramento, uma vez que Deus “não tinha outro maior por quem jurasse, jurou por Si mesmo”. Ele cita Gênesis 22:17, dando a essência do juramento: “Certamente, abençoando, te abençoarei e, multiplicando, te multiplicarei.” Assim, a promessa estava em conexão com Abraão ter um filho e o juramento estava em conexão com Abraão ter uma posteridade por meio de seu filho.

Tendo recebido a promessa, Abraão “esperando com paciência” por muitos anos, finalmente “alcançou a promessa” e recebeu um filho por meio de Sara – exatamente como Deus havia dito. (Hebreus 11:13 não é uma contradição disto. Ele diz: “Todos estes (incluindo Abraão) morreram na fé, sem terem recebido as promessas”. A diferença é que essas promessas estavam em conexão com a herança, ao passo que essa promessa tinha a ver com Abraão tendo um filho e uma posteridade por meio dele). A aplicação aqui é óbvia. Os santos hebreus precisavam ter o mesmo tipo de fé e paciência que Abraão tinha, e continuar no caminho indicado pela revelação Cristã da verdade – mesmo que pareça tolo para aqueles que não têm fé. Abraão       teve que suportar o mesmo.

Vs. 16-17 – Quanto ao juramento, nos assuntos humanos, os homens juram por quem é maior do que eles. Eles “juram” e, assim, fazem um “juramento” e isso encerra “toda contenda”. Assim, “querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do Seu conselho aos herdeiros da promessa, Se interpôs com juramento”. Na realidade, se Deus deu a Sua Palavra, ninguém precisa de mais nada, porque “é impossível que Deus minta”. Dar Sua Palavra é suficiente; não precisa ser reforçado com um juramento. Mas, ao condescender com a fraqueza humana, Deus acrescentou um juramento a Abraão e ao herdeiro para assegurar-lhes o que Ele havia prometido. Assim, Abraão teve uma dupla garantia.

Vs. 18-20 – O escritor então mostra que essas mesmas duas coisas (a promessa e o juramento) podem ser aplicadas a todos os que são filhos de Abraão por fé. Já que os “herdeiros da promessa” não são apenas Isaque, Jacó, etc., mas todos os que por fé são filhos do fiel Abraão (Gl 3:7-8, 29), também podemos repousar nessas mesmas “duas coisas imutáveis” em conexão com nossa esperança em Cristo.

Ele encerra essa longa digressão afirmando que Deus deu um passo adiante, dando uma garantia pessoal para o cumprimento das promessas pelo fato de que o próprio Cristo entrou no santuário no alto. Na administração levítica, o sumo sacerdote entrava no santo dos santos apenas como representante. Ele entrava lá sozinho, e ninguém poderia segui-lo. Mas Cristo entrou lá como garantia e, como resultado, toda uma raça de homens agora pode segui-Lo até lá. J. N. Darby disse: “Esta certeza recebeu uma confirmação ainda maior. Ela entrou para dentro do véu, encontrou sua sanção no próprio santuário, onde o Precursor tinha entrado, dando não somente uma palavra, um juramento, mas também uma garantia pessoal das promessas e o santuário de Deus como um refúgio para o coração; dando assim, para aqueles que tinham entendimento espiritual, um caráter celestial para a esperança que eles estimavam; enquanto mostrava, pelo caráter daqu’Ele que havia entrado no céu, o certo cumprimento de todas as promessas do Velho Testamento, em conexão com um Mediador celestial que, por Sua posição, assegurou esse cumprimento; estabelecendo a bênção terrena sobre o firme fundamento do próprio céu e dando ao mesmo tempo um caráter superior e mais excelente àquela bênção, unindo-a ao céu e fazendo-a fluir daí” (Synopsis of the Books of the Bible, em Hebreus 6).

Quatro Figuras Usadas para Descrever a Segura Esperança que Temos em Cristo no Santuário Celestial

O escritor usa quatro figuras para enfatizar a segura esperança que temos em Cristo por Sua entrada no santuário celestial. Enquanto esperamos a nossa entrada física quando seremos glorificados, podemos entrar naquele santuário celestial agora em espírito para adoração e oração (Hb 10:19-22). Em um dia vindouro vamos entrar lá corporalmente.

UMA CIDADE DE REFÚGIO (v. 18)

Em primeiro lugar, nós, que cremos, somos vistos como “os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta”. Isso é uma alusão às cidades de refúgio para as quais uma pessoa culpada podia fugir para se abrigar do julgamento (Dt 19:1-13; Js 20:1-9). A pessoa estaria segura lá enquanto o sumo sacerdote vivesse (Js 20:6). A boa notícia para nós é que Cristo tem “um sacerdócio perpétuo”; Ele nunca mais morrerá, pois “vive sempre para interceder” por nós no santuário! (Hb. 7:24-25 – AIBB). Assim, estamos seguros em nossa eterna proteção do julgamento.

UMA ÂNCORA (v. 19)

Em segundo lugar, a “esperança” que temos em Cristo no santuário celestial é como uma “âncora” lançada naquele porto para o qual estamos viajando. É “segura e firme”, garantindo-nos que finalmente chegaremos a esse destino.

UM PRECURSOR (v. 20)

Em terceiro lugar, Cristo é o nosso “Precursor” que foi à frente para fazer todos os preparativos em vista de nossa chegada em boa posição. O fato de que Cristo é nosso Precursor garante que entraremos no lugar onde Ele está. A entrada do nosso Precursor é uma garantia de que, onde Ele está agora, nós também o seguiremos mais tarde.

UM SUMO SACERDOTE (v. 20)

Em quarto lugar, Cristo foi para o santuário celestial como nosso “Sumo Sacerdote”, tendo um sacerdócio que é “segundo a ordem de Melquisedeque”. É um sacerdócio eterno com uma dupla função. Na história, Melquisedeque trouxe uma bênção de Deus para Abraão, e recebeu dízimos de Abraão para apresentar a Deus (Gn 14:18-20; Hb 7:1-2). Isso significa o ministério da bênção de Deus, não somente a Abraão, mas a todos os que são seus filhos por fé, e significa trazer sua adoração a Deus. Visto que a bênção vinda de Deus aos remidos será eterna e a adoração oferecida a Deus pelos remidos também será eterna, isso requer que um sacerdote ministre essas coisas de e para Deus eternamente. É isso que temos no sacerdócio de Cristo. O escritor prova isso citando novamente o Salmo 110: “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 5:6, 6:20, 7:17).

Ao ressuscitar de entre os mortos, o Senhor foi empossado no ofício de Seu sacerdócio da ordem de Melquisedeque. Mas a presente função de Seu sacerdócio hoje é segundo o modelo de Aarão. Como nosso grande Sumo Sacerdote, o Senhor vive hoje na presença de Deus para interceder por nós e, assim, ajuda-nos pelo deserto rumo ao nosso destino celestial. Contudo, quando Ele aparecer, Ele cessará desta obra de intercessão e entrará na função de Seu sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque. Consequentemente, Ele está nesse ofício hoje, mas não está atuando como tal. Mas, quando vier, nossas esperanças n’Ele serão realizadas. Seremos glorificados com Ele em uma demonstração pública durante o Seu reinado como Rei e Sacerdote.

Assim, Cristo entrou no véu do santuário celestial de quatro maneiras diferentes e por quatro razões diferentes – todas as quais são calculadas para dar ao crente uma esperança segura. Ele está lá como nosso Refúgio do julgamento, como nossa Âncora garantindo nossa chegada segura lá, como nosso Precursor preparando tudo para nós lá, e como nosso Sumo Sacerdote intercedendo por nós no caminho até lá. Essas coisas certamente foram um encorajamento para que esses crentes hebreus continuassem no caminho Cristão, e deveriam ser para nós também.

 

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