CRISTO
SUPERIOR A JOSUÉ
Capítulo 4:1-16
No quarto capítulo, o escritor apresenta outro contraste. Ele compara Josué, o grande líder militar na história de Israel, com Cristo nosso grande Líder espiritual. Josué trouxe os filhos de Israel para o descanso deles prometido em Canaã, que era uma porção terrena e temporal de bênção. Poderia ser perdida, e é triste dizer que foi, alguns anos depois. Cristo, por outro lado, está trazendo os crentes para o descanso eterno de Deus. Isso é algo que é espiritual e não material e nunca pode ser perdido! O contraste aqui é incalculável e, portanto, distingue Cristo de Josué de modo incomensurável.
O Descanso ao Qual a Viagem no Deserto Conduz
Cap. 4:1-11 – Depois de fechar o parêntese no final do capítulo 3, o escritor retoma suas palavras de advertência em conexão com os perigos de apostasia que enfrentavam os hebreus. Ele lhes diz que eles precisavam “temer” qualquer falta de fé e não entrar no “descanso” (TB) de Deus. Isso mostra que havia um perigo real de que alguns deles não alcançassem esse fim divino e terminassem eternamente perdidos.
O “descanso” (TB) de Deus do qual ele fala neste capítulo é uma coisa futura. Não é uma inscrição sobre uma lápide. Nem é um descanso presente que o Senhor dá do fardo de guardar a lei para aqueles que vêm a Ele (Mt 11:28-29). Nem é um descanso em nossas almas, resultante do conhecimento de que o Senhor está no controle de todas as circunstâncias em nossas vidas (2 Ts 1:7; Is 26:3). Nem é um descanso para os nossos corpos cansados resultantes de se ocupar do serviço ao Senhor (Mc 6:31). Como mencionado, é uma coisa futura que os santos alcançarão no Milênio. J. N. Darby disse: “No capítulo 4, o repouso de Deus é deixado vago em seu caráter, a fim de incluir tanto a parte celestial como a parte terrena do reino milenar do Senhor” (Synopsis of the Books of the Bible, sobre Hebreus 4). O repouso de Deus finalmente se estenderá ao Estado Eterno. W. Scott disse: “O termo ‘Seu descanso’ em Hebreus 3-4 em sua aplicação mais completa refere-se ao Estado Eterno” (An Exposition of the Revelation of Jesus Christ, pág. 416).
O versículo 2 diz: “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles”. Isto é, temos sido o objeto das boas novas de Deus, como foram os filhos de Israel no passado. Mas isso não significa que ambos tenham recebido a mesma mensagem de boas-novas. Nós recebemos o evangelho da graça de Deus que apenas começou a ser pregado depois que a redenção foi realizada (At 20:24). As boas-novas que Israel recebeu no deserto foram as “notícias” que os espiões trouxeram de volta para o povo em Cades, concernente à boa qualidade de Canaã (Nm 13:26-27; Dt 1:25). O perigo que o escritor está apontando aqui é que, como a informação que Israel ouviu naquele dia de provocação, “não estava misturada com a fé” e, portanto, de “nada lhes aproveitou”, assim também pode ser o caso agora com o evangelho que ouvimos.
V. 3 – Ele diz: “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso”. Seu ponto aqui é que o crente, e somente o crente, entrará no descanso de Deus. Ele deduz isso do Salmo 95 raciocinando no reverso do que é dito. Se aqueles que não creem não entram, então são apenas aqueles que creem que entrarão. F. B. Hole afirma que esta é uma maneira comum de se expressar nesse idioma.
Vs. 4-10 – O escritor, então, procura provar pelas Escrituras que o verdadeiro descanso de Deus ainda está por vir no futuro. O descanso de Canaã ao qual Josué trouxe Israel é realmente uma sombra do descanso eterno de Deus. Ele enfatiza isso aqui porque os judeus pensavam que o descanso de Deus era Canaã e nada mais. Ele diz: “embora fossem completadas as obras desde a fundação do mundo, pois em certo lugar disse assim acerca do dia sétimo: E descansou Deus no dia sétimo de todas as Suas obras” (TB). Esta é uma citação de Gênesis 2:2. Ele traz isto para mostrar que desde o princípio da criação Deus teve diante d’Ele um descanso final. Com isso aprendemos que há duas coisas que caracterizam o Seu descanso. Uma é a Sua satisfação no que realizou e a outra é a Sua cessação do trabalho. J. N. Darby afirmou que com a queda do homem existe agora uma condição em que “a santidade não pode repousar onde o pecado está, e o amor não pode repousar onde a tristeza está”. Uma vez que Deus só pode descansar naquilo que satisfaz o Seu amor e santidade, fica claro que ainda não entrou em Seu descanso. A esse respeito, portanto, permanece um descanso por vir quando o Estado Eterno for alcançado, quando Deus cessará de Sua obra (Ap 21:6 – “Está cumprido!”). Até então, Ele não pode estar satisfeito enquanto o pecado existir no mundo, e Ele tem trabalhado, em relação ao Seu propósito divino, desde que entrou o pecado (Jo 5:17).
Vs. 5-6 – O escritor se refere novamente ao Salmo 95, dizendo: “E outra vez neste lugar: Não entrarão no Meu descanso” (TB) Como mencionado anteriormente, esta é uma maneira hebraica de se expressar baseada na citação original (o Salmo 95). Sua ênfase aqui está no verbo “entrarão”, que aponta para o futuro. Isso mostra que o descanso final de Deus ainda está por vir.
Vs. 7-10 – O escritor refere-se, novamente, ao Salmo 95; desta vez ele salienta o fato de que a escrita do Salmo foi “muito tempo depois” que Josué levou Israel para Canaã. No salmo, Davi falou de pessoas que estavam em perigo de não entrar no descanso de Deus (Sl 95:11). Que descanso ele poderia estar se referindo se Israel já tivesse sido trazido para o seu descanso por Josué centenas de anos antes? O raciocínio do escritor é que, se Josué “lhes houvesse dado repouso”, por que Davi “teria depois falado de outro dia” (TB) de descanso? (A KJV e a JND dizem: “Jesus” aqui, que é a forma grega para “Josué”). Sua conclusão é que “resta, portanto, um descanso para o povo de Deus”, que ainda está por vir. No versículo 10, ele lembra aos hebreus de que a grande característica desse descanso é que haverá uma completa cessação do labor. Aquele que entra nele irá descansar eternamente com Deus (v. 10).
V. 11 – Como definitivamente há um descanso por vir, o escritor exorta os hebreus a “usar diligência para entrar naquele descanso, para que ninguém caia após o mesmo exemplo de não ouvir a Palavra” (JND). Isso se refere a ter certeza de que a fé deles era verdadeira, e provar isso, continuando no caminho. O uso de “diligência” é declarado no tempo verbal aoristo no grego, significando que deve ser uma decisão tomada de uma vez por todas de continuar no caminho.
Nos capítulos 3-4, ele mencionou três descansos:
- Descanso da criação – arruinado pelo pecado.
- Descanso de Canaã – perdido pela incredulidade.
- Descanso eterno – certo de ser alcançado por aqueles que têm fé.
A Tríplice Provisão de Deus para nos Ajudar a Alcançar Seu Descanso
Cap. 4:12-16 – O escritor continua falando sobre a provisão que Deus nos fez para que não falhássemos em alcançar Seu descanso. Ele menciona três grandes coisas:
A PALAVRA DE DEUS (vs. 13-14)
A primeira é “a Palavra de Deus”. Ela beneficia toda pessoa que a manuseia com um “coração honesto e bom” (Lc 8:15). Nesta passagem, a Palavra de Deus é mencionada em conexão com a correção, que se levada a sério, será para nossa preservação no caminho do deserto. W. Kelly disse: “A Palavra de Deus é a correção necessária, como vemos aqui” (The Epistle to the Hebrews, pág. 73). O escritor prossegue dando algumas de suas características proeminentes neste sentido:
A Palavra de Deus é “viva”. Isso significa que ela está espiritualmente viva. Quando usada pelo Espírito de Deus, dá vida e luz às almas (Jo 6:63; Sl 19:8, 119:130).
A Palavra de Deus é “eficaz”. Não há nada que possa impedir sua ação; sempre realiza o que Deus pretende fazer ao enviá-la (Is 55:11). Nenhum homem ou diabo é capaz de impedi-la.
A Palavra de Deus é “mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes”. Todos os que a usam descobrirão que ela tem uma dupla aplicação. As questões morais e espirituais que aborda se aplicam aos outros, assim como a nós mesmos; corta em ambas as direções.
A Palavra de Deus “penetra”. Se permitirmos que ela nos sonde (Sl 139:23-24), penetrará na parte mais profunda de nosso ser e dividirá entre o que é alma e o que é espírito em nós. (O escritor fala de “juntas e medulas” no sentido figurado para indicar a parte interior de nosso ser). Ela detecta e expõe, e assim nos torna conscientes de motivos profundamente arraigados em nossos corações que de outra forma não estaríamos conscientes deles. Aprendemos com isso que a “alma e espírito” estão intimamente ligados e difíceis de distinguir. Assim sendo, muitos foram movidos por suas íntimas emoções em algum assunto e imaginam que tenha sido uma coisa espiritual. Por exemplo, podemos estar pensando em dar certo passo na vida que acreditamos ser baseado em motivos espirituais. Mas quando um princípio da Palavra de Deus é trazido para lidar com o assunto, ele traz à luz que tal passo é realmente gerado por motivos naturais e carnais, e não é algo espiritual de forma alguma. Assim, a Palavra de Deus retira toda a pretensa e superficial profissão e expõe tendências ocultas em nossos corações que podemos não saber que existiam.
Por último, a Palavra de Deus “é apta para discernir (julgar) os pensamentos e intenções do coração”. A palavra grega traduzida “discernir” pode ser traduzida como “julgar” como na tradução de W. Kelly. Assim, a Palavra não apenas detecta e expõe os males ocultos em nossos corações – ela condena todo mal que expõe! É a mesma palavra em grego da qual obtemos a palavra “crítico”. Homens, em sua ignorância, ousam criticar a santa e infalível Palavra de Deus, mas na verdade deveriam estar deixando que ela os criticasse. Assim, a Palavra de Deus nos julga; nós não a julgamos!
O escritor prossegue dizendo: “E não há criatura alguma encoberta diante d’Ele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daqu’Ele com Quem temos de tratar” (v. 13). Ele traz isto para mostrar que se permitirmos que a Palavra de Deus nos sonde e nos julgue como deveria, nos dará um senso consciente do que temos de tratar com Deus em relação àquelas coisas que Sua Palavra detectou. Toda pessoa íntegra, portanto, tomará o lado de Deus contra o mal em seu coração e julgará aquilo que é inconsistente com Sua santidade. Males que certamente iriam desviar o crente, se deixados a se desenvolver, são, portanto, “cortados pela raiz”. Consequentemente, somos capazes de evitar muitas das armadilhas que, certamente, nos fariam tropeçar no caminho, se esses males não fossem, assim, expostos e julgados. Este exercício pode ser doloroso e humilhante, mas é o modo de Deus nos preservar. Isso mostra que nosso coração é excessivamente enganoso e não devemos confiar nele (Jr 17:9; Pv 28:26). Este exercício de julgar a nós mesmos nos coloca em um estado correto para nos beneficiarmos da próxima provisão que Deus nos deu nos próximos versículos.
O SACERDÓCIO DE CRISTO (vs. 14-15)
A segunda coisa que Deus usa para nos preservar no caminho é o sacerdócio de Cristo. O escritor diz: “Visto que temos um grande Sumo Sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão”. Ele chama o Senhor Jesus Cristo de “grande Sumo Sacerdote”. Houve uma longa sucessão de sumos sacerdotes na história de Israel, mas nenhum deles foi dito ser grande. Isso em si distingue Cristo de todos os outros. Ele “penetrou nos céus” para levar adiante Seu serviço sacerdotal na presença imediata de Deus no santuário celestial (Hb 8:1-2, 9:24). Isso também O separa daqueles sacerdotes do Velho Testamento, pois nenhum sacerdote naquela administração jamais subiu ao céu para ministrar! Aarão passava pelo átrio exterior do tabernáculo, pelo lugar santo, para o lugar mais santo de todos (o santo dos santos – v. 25 – ARA) uma vez por ano, mas o tabernáculo em que ele servia era um mero modelo do verdadeiro santuário no qual Cristo entrou e habita como nosso Sumo Sacerdote (Hb 8:5).
O uso pelo escritor do nome terreno do Senhor “Jesus” destaca o fato de que Ele é um Homem real que sabe o que é andar neste mundo. Como resultado, Ele pode Se relacionar totalmente com nossas circunstâncias como homens na Terra. O Senhor também é chamado de “o Filho de Deus” aqui. Isso enfatiza Sua divindade e significa que Ele tem todos os atributos da divindade. Esses dois nomes do Senhor indicam que Ele é humano e divino e O qualificam para ser nosso Sumo Sacerdote. Assim, temos Alguém não menos do que o próprio Deus (na Pessoa do Filho) como nosso Sumo Sacerdote! Com tal Pessoa no alto para interceder por nós (Rm 8:34) e nos ajudar em nossa jornada terrena (Hb 2:18), somos exortados a reter “firmemente a nossa confissão”. Como mencionado anteriormente, a permanência no caminho é a melhor maneira de demonstrar a nossa veracidade. Nossa “confissão” não é meramente uma confissão de Jesus como nosso Salvador; é a confissão de todo o nosso chamado celestial (Hb 3:1). Não devemos abandonar isso para seguirmos uma religião terrena, que é o que os hebreus foram tentados a fazer.
V. 15 – Ele diz: “Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-Se das nossas fraquezas; porém Um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado [pecado à parte – JND]”. Isso mostra que Cristo é plenamente capaz de Se compadecer de nós porque Ele é um Homem que uma vez viveu aqui neste mundo e foi testado e provado como nós somos. O escritor menciona dois tipos de provações que encontramos no caminho para nosso descanso eterno – fraquezas e tentações. J. N. Darby confirmou isso e disse: “Tentações e fraquezas não são a mesma coisa” (Collected Writings, vol. 23, p. 291). A diferença é:
- Fraquezas são provas ligadas ao nosso corpo físico.
- Tentações são provas ligadas à nossa alma e ao espírito.
Fraquezas são doenças, males e outros desafios em conexão com nossos seres físicos, resultantes do que o pecado tem feito na criação em geral (Lc 13:11-12; Jo 5:5; Rm 8:26; 2 Co 12:5, 9; 1 Tm 5:23, etc.) O Senhor não tinha fraquezas, pois Seu corpo era santo e não podia ser afetado pelos efeitos corruptores do pecado (Lc 1:35). Por isso, Ele nunca esteve doente. O Sr. Darby declarou: “Ao contrário do sacerdote judeu de antigamente, Cristo não estava envolvido em nenhum sentido com fraqueza” (Notes & Jottings, pág. 256). Alguns erroneamente pensaram que as fraquezas são necessidades humanas, como fome, sede e cansaço, etc. – o que o Senhor certamente experimentou (Jo 4:6, 7, 31-33). Mas estas não são fraquezas. W. Kelly disse: “Há uma noção muito prevalente entre os teólogos e seus seguidores de que o próprio Senhor bendito estava cercado de fraquezas. Onde essa afirmação é garantida na Escritura? Chamam de fraqueza um homem aqui embaixo comer, beber, dormir ou sentir a falta dessas coisas? ... ninguém seguramente deveria declarar algo de Cristo o que a Escritura não declara” (Christ Tempted and Sympathizing” págs. 45-46).
Embora o Senhor pessoalmente não tivesse fraquezas, Ele, no entanto, “tomou sobre Si as nossas enfermidades [fraquezas – JND]” (Mt 8:17). Isso mostra que Ele não precisou experimentar a doença para ter compaixão de nós quando estamos doentes. Ele Se compadece e intercede por nós como nosso Sumo Sacerdote em relação às nossas fraquezas. Mas notemos que as fraquezas não são os pecados. O Senhor nunca irá se compadecer de nossos pecados; Ele sofre por nós quando permitimos pecados em nossas vidas, mas Ele não vai Se compadecer de nossos pecados. Assim, Ele é tocado com o sentimento de nossas fraquezas, mas não com nossos pecados.
Tentações, por outro lado, são coisas como: sofrer reprovação, opressão e rejeição, ter problemas na vida que pressionam nossos espíritos e produzem tristeza e desânimo, etc. Essas são coisas que afligem particularmente a alma e o espírito (1 Co 10:13, Tg 1:2, 12, 1 Pe 1:6). O Senhor certamente foi tentado com esse tipo de tentação. De fato, Ele foi tentado em cada teste com o qual um homem justo poderia ser testado – como diz o escritor: “como nós, em tudo foi tentado”. A nota de rodapé da Tradução JND traduz essa frase “de acordo com a semelhança da maneira em que somos tentados”. Por isso, Ele se compadece de nós em nossas tentações (provações) por tê-las experimentado em Si mesmo.
Em conexão com as tentações que o Senhor passou, o escritor abre uma exceção nas palavras: “Sem pecado”, ou como a tradução JND coloca: “pecado à parte”. Ao afirmar isso, ele alude ao fato de que há duas classes de tentações às quais os homens estão sujeitos, uma das quais o Senhor não participou. Esses dois tipos de tentações são:
- Tentações externas e provas nas quais fé e paciência de alguém são testadas. Estas são as provas externas que o inimigo procura usar para nos desviar do nosso chamado celestial. Todas essas são provas santas (Tg 1:2-12).
- Tentações internas que resultam de uma natureza pecaminosa agindo em nós. Todas essas são provas profanas (Tg 1:13-16).
O argumento do escritor ao dizer “pecado à parte” em conexão com as tentações do Senhor é enfatizar o fato de que, embora tenha experimentado a primeira classe de tentações externas, Ele não experimentou a segunda classe de tentações pecaminosas, porque Ele não tinha uma natureza pecaminosa (1 Jo 3:5). A versão King James infelizmente diz “sem pecado”, o que faz parecer que o escritor quis dizer que o Senhor Se guardou de pecar em Sua vida. Embora seja certamente verdade que o Senhor não cometeu pecados (1 Pe 2:22), esse não é o ponto que está sendo levantado no versículo. Como mencionado acima, a frase deveria ser traduzida como “pecado à parte”. Isso significa que as tentações que Ele suportou não estavam na classe das tentações que têm a ver com a natureza pecaminosa. Isso, como já dissemos, é porque Ele não tinha uma natureza pecaminosa.
J. N. Darby disse: “Existem dois tipos de tentações; uma é de fora, todas as dificuldades da vida Cristã; Cristo passou por elas e passou por mais do que qualquer um de nós; mas o outro tipo de tentação é quando um homem é levado por sua própria concupiscência e seduzido. Cristo, claro, nunca teve isso” (Notes and Jottings, pág. 6).
Debilidades em nosso espírito, alma ou corpo não caracterizam o pecado (Mt 26:41), mas se deixarmos essas coisas nos levarem a um mau estado de alma, isso pode produzir pecado em nossas vidas, e Satanás tentará tirar vantagem do nosso baixo estado e fazer nos desviar do caminho. Portanto, é importante manter uma boa atitude quando somos tentados (Tg 1:2). Por isso, temos um Sumo Sacerdote que pode Se compadecer de nós em todas as nossas santas provações, mas Ele não vai se compadecer de nossos pecados.
O TRONO DA GRAÇA (v. 16)
A terceira provisão que Deus nos deu para nossa jornada no deserto é o trono da graça. O escritor diz: “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno”. Sabendo que temos um grande Sumo Sacerdote intercedendo por nós no alto, somos encorajados a trazer situações e problemas da nossa vida a Deus em oração. O acesso que temos por conta da redenção realizada e de Cristo ter subido à presença de Deus como nosso Sumo Sacerdote é muito maior do que qualquer coisa que os sacerdotes do judaísmo conheceram. Somos convidados a entrar “com confiança” na presença de Deus com nossas petições. Isso é algo que os sacerdotes sob o concerto legal não podiam fazer. Eles iam para o lugar santíssimo uma vez por ano com sangue e o faziam com tremor. Além disso, a entrada deles era para evitar o julgamento de Deus; nós entramos em Sua presença para buscar o favor de Deus! Esses contrastes são significativos.
Quando nos aproximamos de Deus com nossos pedidos de oração, devemos lembrar de que nem sempre temos a mente de Deus em conexão com as coisas que pedimos e, portanto, Ele pode negar alguns de nossos pedidos. Isso é mencionado nas palavras “misericórdia” e “graça”.
- “Misericórdia” é um alívio concedido em conexão com uma prova que podemos ter ao sermos tirados dela pela boa mão de Deus.
- “Graça” é o apoio concedido em uma prova, da qual Deus não acha adequado nos tirar dela.
Por exemplo, podemos estar passando por uma determinada prova e fazer um pedido para ser retirado dela. E já que estamos pedindo algo que está de acordo com a Sua vontade (1 Jo 5:14), Ele nos tira dela – e nós, é claro, somos gratos por isso. Assim, recebemos “misericórdia” em conexão com a prova. Em outra situação, podemos pedir que uma prova específica seja tirada de nós, mas essa não é a vontade de Deus – pelo menos naquele momento. Nesse caso, Ele não nos tira dela, mas Ele dá “graça a fim de sermos ajudados” naquele “tempo oportuno”, e pela graça somos conduzidos na provação. Assim, conceder misericórdia tem a ver com Deus nos tirando fora de nossa prova e conceder graça tem a ver com Ele nos sustentando dentro de nossa prova.
Há um incidente em Atos 12 que ilustra essas duas coisas. Herodes encarcerou dois dos apóstolos do Senhor (Tiago e Pedro) e tinha toda a intenção de matá-los. Tiago recebeu a graça de passar pela prova e foi martirizado, mas Pedro recebeu misericórdia e foi libertado da prisão pelo anjo do Senhor.
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