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As Epístolas de Paulo a Tito e Filemom

A EPÍSTOLA DE PAULO A FILEMOM

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 9 de 18

A EPÍSTOLA DE PAULO A
FILEMOM

INTRODUÇÃO

Esta é uma das quatro epístolas “pastorais” (1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom) escritas pelo apóstolo Paulo. Essas epístolas são chamadas de “pastorais” porque são dirigidas a indivíduos, e não a assembleias – cada uma com caráter de pastoreio e aconselhamento. Essa epístola, no entanto, é única entre as epístolas pastorais, na medida em que se refere a um assunto puramente privado entre dois indivíduos. Assim, ela possui um caráter distinto, demonstrando a graça e o amor Cristãos em ação em uma circunstância da vida real. A epístola não contém nenhuma declaração de doutrina; nem tem exortações gerais à vida Cristã; mas nos fornece um exemplo inspirador da graça e amabilidade Cristãs.

Foi escrita na época em que Paulo redigiu a epístola aos Colossenses e ambas foram levadas aos Colossenses por Tíquico e Onésimo (Cl 4:7-9).

A Ocasião da Epístola

Pelo conteúdo da epístola, não é difícil reunir as circunstâncias que levaram Paulo a escrever a carta. Filemom era um chefe de família rico em Colossos, que havia sido grandemente ajudado por Paulo – talvez tendo se convertido por meio dele (v. 19). Ao longo do tempo, o escravo de Filemom (Onésimo) fugiu, aparentemente tendo-o roubado (v. 18). Pela providência de Deus, o escravo fugitivo foi para Roma, onde conheceu Paulo e foi genuinamente convertido (v. 10). A vida de Onésimo foi completamente transformada pelo poder da graça de Deus e ele se tornou útil ao apóstolo em seu confinamento. No entanto, a questão de Filemom ter sido prejudicado ainda era relevante e, portanto, Paulo e Onésimo achavam que seria correto esclarecer a questão com ele antes que qualquer outra consideração pudesse ser cogitada. Como Paulo estava escrevendo sua epístola para a assembleia de Colossos na época, e Filemom morava naquela mesma cidade (na verdade, a assembleia se reunia em sua casa – v. 2), era o momento perfeito para enviar essa carta pastoral e, esperançosamente, ter esta matéria esclarecida de uma maneira divina.

Um Testemunho do Poder de Deus no Evangelho

A epístola serve como testemunho do fato de que Deus pode salvar pessoas de seus pecados e transformar a vida deles. Foi a isso que Paulo se referiu quando disse: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação” (Rm 1:16). Não precisamos ir além da história de Onésimo para ver isso. Ele é um exemplo brilhante de uma verdadeira conversão. Antes havia sido um inútil escravo que havia fugido, mas desde que acreditou no evangelho e passou da morte para a vida, houve uma transformação completa em sua vida. Ele havia sido um pecador, mas, atendendo ao chamado de Deus, tornou-se um santo – e sua vida mostrou isso. Nada pode explicar essa radical mudança para o bem que não seja a misericórdia soberana, o amor e a graça de Deus trabalhando nele (Ef 2:4-9). Os santos tessalonicenses também foram um exemplo desse poder. Quando eles creram no evangelho, houve uma mudança tão profunda neles que Paulo disse: “dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro; e esperar do céu a Seu Filho” (1 Ts 1:9-10).

O Ponto Relevante da Epístola
O Exercício do Perdão Pessoal

Mesmo que os verbos “desculpar” e “perdoar” não sejam encontrados na epístola, eles estão implícitos. O perdão pessoal é claramente o assunto que o apóstolo tem diante de si. É extremamente elementar para a vida Cristã e de grande importância; se não for praticado, a saúde e o bem-estar da assembleia estarão ameaçados. Este é um assunto tão importante para Deus que Ele dedicou uma epístola inteira a ele!

O perdão pessoal ou fraternal é baseado no perdão eterno de Deus. Paulo disse: “Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4:32). Quando pensamos em quanto fomos perdoados e quanto custou a Deus nos perdoar, não devemos ter problemas em perdoar os outros. Onde estaríamos sem o perdão? Não estar disposto a perdoar alguém é impensável. Como mencionado, perdoar um ao outro é um dos elementos mais básicos da vida Cristã. É, de fato, uma das características do novo homem (Cl 3:13). Um Cristão que carece dessa graça evidencia que ele ou ela não amadureceu espiritualmente. Quando Pedro perguntou ao Senhor quantas vezes devemos perdoar nosso irmão, Ele respondeu: “Até setenta vezes sete” (Mt 18:22). Isso significa que nosso perdão deve ser infinito.

O Valor Prático da Epístola

Como hoje a escravidão humana foi proibida em todos os países da Terra, podemos estar inclinados a pensar que essa epístola não tem relevância prática para nós. Podemos até nos perguntar por que ela está incluída no cânon da Escritura. No entanto, os mesmos elementos básicos envolvidos no problema que Paulo estava abordando ainda surgem hoje entre o povo de Deus. O conselho e a sabedoria que Paulo aplicou a essa situação pode ser tomado e aplicado às situações que possamos enfrentar. As circunstâncias serão diferentes, mas os princípios envolvidos são praticamente os mesmos.

Devido ao fato de os santos ainda terem a carne, os problemas podem surgir em nossos relacionamentos pessoais. Pessoas serão maltratadas, e ofensas serão acolhidas e resultarão em rupturas na comunhão dos santos. Como foi o caso aqui, na maioria dos problemas interpessoais haverá um ofensor e haverá uma parte ofendida; e muitas vezes, haverá alguém que atuará como um pacificador para tentar ajudar as duas partes a resolver o problema de uma maneira que honre o Senhor. Nesta situação, Onésimo era o ofensor, e Filemom e sua esposa (Ápia) eram a parte ofendida, e Paulo agia como o pacificador. Aprendemos com esse incidente que o ofensor precisa confessar seu erro (Lc 17:4), e aqueles a quem ele ofendeu precisam genuinamente perdoá-lo em seu coração (Mt 18:35). E o pacificador pode encorajá-los a fazê-lo genuinamente. Assim, somos instruídos nesta curta epístola a respeito de como a graça e o amor Cristãos resolvem problemas sociais que surgem entre os santos para a glória do Senhor e para o bem de todos os envolvidos.

J. N. Darby comentou: “A epístola serve mais para produzir esses sentimentos no leitor mais do que ser o objeto da explanação” (Synopsis of the Books of the Bible, edição Loizeaux, vol. 5, pág. 258). Assim, ao meditar no caminho que Paulo empreendeu para resolver o problema que eles estavam enfrentando, o Espírito de Deus gera em nós o mesmo espírito de amor e graça que encontraria um meio de se manifestar em nossos irmãos. Portanto, esta epístola é muito aplicável a nós hoje.

A primeira lição prática que aprendemos dessa situação é que as questões de ofensa pessoal entre irmãos devem ser resolvidas o mais rápido possível. Se as rupturas na comunhão dos santos forem deixadas sem solução, elas podem degradar e crescer, e outros podem ser contaminados, por se envolver na situação (Hb 12:15). O inimigo de nossa alma (Satanás) pode, e irá, usá-las para destruir uma assembleia.

Três Consequências Negativas que Resultam da Falta de Perdão

Nutrir um espírito implacável pode resultar em algumas consequências terríveis em nossa vida que nenhuma pessoa sóbria deseja:

Em primeiro lugar, magoamos a nós mesmos. Ao remoer sobre o erro e nos recusar a perdoar alguém, ficamos presos no passado. Tal ocupação apenas mantém viva a dor e nos torna miseráveis. Meditando sobre isso, mantemos a ferida aberta e não permitimos que ela se cure. Isso alimenta raiva, ressentimento e amargura em relação à pessoa que nos ofendeu. O Senhor alertou sobre isso em uma parábola em Mateus 18:23-35. Ele falou de um homem que foi muito perdoado por seu credor, mas quando foi libertado de sua dívida, ele não perdoou seu companheiro que lhe devia uma quantia insignificante. Quando seu senhor soube disso, ele ficou “indignado” e “o entregou aos atormentadores, até que ele pagasse tudo o que devia”. Isso não significa que alguém com um espírito implacável perde sua salvação e é enviado para uma eternidade perdida, mas que ele é entregue ao seu espírito amargo que o atormenta continuamente. Sempre que vê ou pensa na pessoa que o ofendeu, seu estômago se revira e sua amargura e ressentimento o atormentam. Isso continuará até que ele finalmente abra a mão e perdoe seu irmão de coração. Assim, mantendo um espírito implacável para com alguém, nos machucamos (Pv 8:36). George Washington Carver sabia disso e disse: “Nunca deixarei outro homem arruinar minha vida por me permitir odiá-lo”.

Em segundo lugar, abrimos a porta para Satanás trabalhar em nossa vida. Somos avisados para não dar oportunidade a Satanás (Ef 4:27), pois ele certamente atacará qualquer crente que puder e o desviará (1 Pe 5:8) – mas é exatamente isso que um espírito implacável faz. Paulo disse aos coríntios: “E a quem perdoardes alguma coisa também eu; porque, o que eu também perdoei, se é que tenho perdoado, por amor de vós o fiz na presença de Cristo; para que não sejamos vencidos por Satanás; porque não ignoramos os seus ardis” (2 Co 2:10-11). Ele sabia que os santos de Corinto precisavam perdoar o ofensor juntos, corporativamente (1 Co 5), porque se alguns deles o perdoassem e outros não, Satanás aproveitaria a situação e causaria estragos na assembleia, criando desunião. Paulo disse que seguiria o exemplo deles e perdoaria o homem quando eles o perdoassem. Embora esse seja um assunto corporativo, é o mesmo em nossa vida pessoal – não perdoar com sinceridade e verdade dará a Satanás uma oportunidade de destruir nossa vida Cristã.

Em terceiro lugar, trazemos o julgamento governamental de Deus sobre nós mesmos. O Senhor disse: “E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas. Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas” (Mc 11:25-26). Deus não quer um espírito implacável em Seus filhos e Se comprometerá a eliminá-lo por meio da sabedoria de Seus caminhos disciplinares. Podemos ter certeza de que tudo o que Ele faz em nossa vida a esse respeito é sempre feito em amor e para o nosso bem (Hb 12:5-11). Ele pode nos permitir chegar a uma posição em que precisemos de Seu perdão governamental, porque erramos de alguma maneira (Tg 3:2), e Ele, por um tempo, não nos concederá Seu perdão. Assim, somos levados a sentir o mesmo espírito que temos contra os outros e seremos ensinados, por Sua disciplina, que estamos errados em como agimos com os outros. Não nos julgarmos a esse respeito é uma coisa séria; isso pode prejudicar nossa comunhão com Deus. Podemos começar a questionar a sabedoria de Seus caminhos conosco, e isso pode resultar em um colapso em nossa fé e confiança em Deus (Lc 22:32).

A Escravidão Humana e o Cristianismo

O cenário e o contexto em que a epístola foi escrita é o da escravidão humana. Essa injustiça social sempre foi contrária aos pensamentos de Deus, mas Paulo não trata disso aqui porque o Cristianismo não é uma força para melhorar o mundo. O Cristianismo não reforma o mundo; ele chama as pessoas (crentes) para fora do mundo, por meio do evangelho e anuncia o julgamento de Deus que virá em breve. O Cristianismo, como encontrado nas epístolas do Novo Testamento, não tenta corrigir os males sociais do mundo. Estamos “no mundo” (Jo 17:11), mas não somos “do mundo” (Jo 17:14, 16). Como “peregrinos e forasteiros”, estamos apenas de passagem por essa cena em nosso caminho para o céu, onde está nossa cidadania (1 Pe 2:11; Fp 3:20). Como tal, deixamos os homens do mundo lutarem entre si em suas causas, e não temos nada a dizer sobre isso (Is 45:9). Se fôssemos do mundo, nos envolveríamos em seus assuntos (Jo 18:36).

Alguns podem perguntar: “Se a escravidão está errada, por que Paulo não clamou contra ela? Por que ele retornaria um escravo ao seu mestre que havia escapado daquela escravidão terrível?” Como afirmado, a resposta é que os Cristãos não são chamados a consertar o mundo. Nosso trabalho é apresentar Cristo ao mundo em nossos caminhos e modos, e pregar Cristo a toda criatura humana que pudermos para que elas sejam salvas (Cl 1:23). Se o Cristianismo fosse uma causa para mudar o mundo, esse certamente seria o lugar para Paulo falar disso. Mas ele não tem nada a dizer a Filemom sobre a escravidão. Ele não dá nenhuma orientação para libertar Onésimo de sua posição na vida. De fato, o ensinamento de Paulo sobre esse assunto é: “Cada um fique na vocação em que foi chamado. Foste chamado sendo servo? Não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião” (1 Co 7:20-21). Isso não significa que ele aprovou a escravidão, mas que essas coisas não são o foco do evangelho que ele foi enviado para pregar.

A Saudação

Vs. 1-3 – Paulo começa chamando a si mesmo de “prisioneiro de Cristo Jesus” (ARA). Ele não se vê como prisioneiro de Nero, o imperador romano, mas como prisioneiro do Senhor (Ef 3:1, 4:1). Ao declarar isso, ele estava se submetendo ao que o Senhor havia permitido que lhe acontecesse ao ser levado em cativeiro. Ele reconheceu o que o Senhor lhe havia feito por Sua providência divina e estava feliz por ser Seu prisioneiro, já que era essa a vontade de Deus. A Igreja foi a beneficiária disso, pois foi durante seu cativeiro que ele foi inspirado a escrever as chamadas “epístolas da prisão” (Efésios, Filipenses, Colossenses), nas quais é divulgada a verdade do Mistério de Cristo e a Igreja.

Ele inclui “Timóteo” na saudação porque, embora endereçada a um indivíduo, a carta também tem a assembleia em vista e, quando é assim, tudo deve ser feito pela boca de duas ou três testemunhas (2 Co 13:1). Não é dito que Timóteo era prisioneiro como Paulo e Epafras eram (v. 23), mas ele estava lá com Paulo ministrando a ele, e assim seu nome é incluído.

A carta é endereçada a “Filemom”, que era “cooperador” no evangelho, e sua esposa “Ápia”. “Arquipo” também é mencionado e parece ter sido parte da família de Filemom; portanto, alguns expositores sugerem que ele poderia ser filho deles. Mas não temos como ter certeza disso; A Escritura não diz que ele era. Tudo o que sabemos dele é que ele tinha um dom para ministrar a Palavra, ao que Paulo o encorajou a buscar com diligência (Cl 4:17).

V. 3 – “Graça a vós e paz da parte de Deus nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo”. Como regra, ao escrever para as assembleias, o apóstolo os cumprimenta com “graça” e “paz”, mas quando escreve para indivíduos, ele acrescenta uma terceira coisa: “misericórdia”. Isso ocorre porque quando uma pessoa não se beneficia do suprimento de graça e paz que Deus concede a Seus filhos, e falha no caminho da fé, há misericórdia para ela, e assim pode ser restaurada. No entanto, quando se trata de responsabilidade corporativa, onde o testemunho público da assembleia está em vista, se ela falhar, que foi o que a Igreja fez, não há misericórdia. Assim, não há menção na Escritura do testemunho público da Igreja sendo restaurado depois que falhou; ela será posta de lado no julgamento quando os verdadeiros crentes forem chamados para o céu na vinda do Senhor (Rm 11:17-24; Ap 3:16). Como a misericórdia não está incluída aqui no versículo 3, como geralmente ocorre quando se dirige a indivíduos, entendemos que a assembleia também está em vista nesta carta, pois deveria ter interesse em como os problemas interpessoais em seu meio são resolvidos. J. N. Darby disse: “O apóstolo, ao enviar Onésimo de volta, se dirige a toda a assembleia. É por essa razão que temos aqui “graça” e “paz”, sem a adição de “misericórdia”, como quando apenas os indivíduos são dirigidos pelos apóstolos” (Synopsis of the Books of the Bible, edição Loizeaux, vol. 5, pág. 260).

Filemom precisaria desse suprimento de “graça” e “paz” para receber Onésimo adequadamente e falar com ele com um espírito correto, para que tudo fosse tratado com honra. Paulo menciona essas coisas antes mesmo de explicar a Filemom o propósito de ter escrito a carta.

Ação de Graças e Oração de Paulo

Vs. 4-7 – Paulo agradeceu a Deus por Filemom e orou por ele regularmente (v. 4). Ele queria que ele soubesse que apreciava muito o “amor e a fé” que tinha “para com o Senhor Jesus, e para com todos os santos” (v. 5 – TB). Isso levou Filemom a ter “participação na fé” (v. 6 – JND). Ou seja, sendo um homem de recursos, ele ajudou na difusão da verdade apoiando monetariamente os servos do Senhor. Dessa maneira, ele foi um dos “participantes” na obra do Senhor (Fp 1:7). Com o amor e fé sendo “eficazes” na vida de Filemom, como Paulo observa, ele foi levado à realização de “todo o bem” nessas questões práticas (v. 6). Com isso em mente, Paulo acrescenta: “Tive grande gozo e consolação da tua caridade, porque por ti, ó irmão, as entranhas dos santos foram recreadas” (v. 7). Isso mostra que o amor e a fé de Filemom não foram direcionados apenas aos que estão na obra do Senhor, mas ele também não deixou de ajudar os santos que tinham necessidades. Aprendemos com isso que ele era um homem muito prático, e sua benevolência havia encontrado um meio para dar vazão a uma boa causa entre o povo do Senhor.

Vemos grande sabedoria no preâmbulo introdutório de Paulo aqui. Ele observa e elogia a bondade de Filemom antes de prosseguir com seu pedido, que segue nos versículos 8-21. Seu raciocínio diplomático é que, como Filemom costumava mostrar bondade com os santos, ele certamente ficaria feliz em mostrar mais uma ação de amor Cristão – da qual Paulo estava prestes a fazer um pedido.

Seu Pedido

Vs. 8-9 – Somente após uma introdução cuidadosa, terna e extensa é que Paulo prossegue com o propósito de sua carta. Mesmo assim, ele adia seu pedido para lembrar a Filemom de que ele não estava afirmando sua autoridade apostólica e impondo algo a ele nesta questão. Ele preferiu suplicar a Filemom em prol do amor, como sendo o servo idoso e prisioneiro do Senhor. Ele poderia muito bem, como apóstolo, ter dado uma ordem a Filemom, mas preferia ver aquilo que estava prestes a solicitar ser realizado pela graça e amor Cristãos. Assim, ele diz: “Pois bem, ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para te ordenar o que convém, prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho e, agora, até prisioneiro de Cristo Jesus” (ARA). Ele contava com o amor fraterno trabalhando no coração de Filemom para responder a seu pedido, pois o amor é “um caminho ainda mais excelente” de lidar com questões e problemas entre os santos (1 Co 12:31). Ser um servo “velho” foi intencional para inspirar o respeito de Filemom, e ser um “prisioneiro” do Senhor inspiraria sua empatia.

Vs. 10-12 – Finalmente, Paulo chega ao seu ponto e faz seu pedido para o qual a carta foi redigida. Ele roga a Filemom em nome de Onésimo, que havia sido notavelmente salvo por meio de Paulo. Ele diz: “Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas prisões: o qual, noutro tempo, te foi inútil, mas, agora, a ti e a mim, muito útil; eu to tornei a enviar. E tu torna a recebê-lo como às minhas entranhas”. Ao chamar Onésimo de “meu filho”, Paulo indicou carinhosamente que Onésimo agora era um de seus convertidos – ele fora salvo por Paulo! Ele fala de Timóteo e Tito da mesma maneira (1 Tm 1:2; 2 Tm 2:1; Tt 1:4). Pedro fala de Marcos da mesma forma (1 Pe 5:13).

Acompanhando a fé de Onésimo em Cristo, houve uma transformação completa de seu caráter. Ele havia sido “inútil”, mas agora era “útil” no serviço do Senhor. Essa transformação foi uma prova clara de que ele realmente havia sido salvo. Com o argumento de que houve uma verdadeira conversão nesse homem, Paulo faz um pedido triplo a Filemom para “recebê-lo” (vs. 12, 15, 17). Ele gentilmente pressiona Filemom que, uma vez que o Senhor perdoou Onésimo e o recebeu, ele deveria fazer o mesmo. Paulo não pede sua liberdade, mas seu perdão. Acrescentando as palavras: “como às minhas entranhas”, ele expressou sua profunda afeição por esse novo converso.

Vs. 13-14 – Paulo continua explicando por que estava enviando Onésimo de volta a Filemom: “Eu bem o quisera conservar comigo, para que por ti me servisse nas prisões do evangelho; mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu benefício não fosse como por força, mas voluntário”. Onésimo se tornara útil para Paulo em seus trabalhos no evangelho, mas Paulo sabia que Onésimo pertencia a Filemom, e mantê-lo lá em Roma teria passado por cima dos direitos de Filemom. Ele, portanto, achava que essa questão de transgressão pessoal deveria ser resolvida antes que qualquer outra coisa fosse considerada. Onésimo deve ter concordado com isso porque estava disposto a voltar para Colossos e enfrentar seu mestre. Era uma distância considerável a percorrer – estava em outro continente! Sua vontade de voltar e consertar as coisas com Filemom era outro sinal de que ele era verdadeiramente um homem arrependido. Assim, Paulo não faria nada sem o consentimento de Filemom nesse assunto. A amabilidade e sabedoria que ele usa ao se dirigir a Filemom são instrutivas; fornecem-nos um padrão de graça Cristã ao lidar com assuntos interpessoais entre os santos.

Paulo não chegou ao ponto de pedir que Onésimo fosse colocado em liberdade para que pudesse retornar ao seu lado no serviço; ele deixou essa escolha inteiramente para Filemom. Ele não o pressionou de maneira alguma. Se Filemom pretendia enviar Onésimo de volta a Paulo, ele queria que esse “benefício” viesse de Filemom, e não fosse algo feito “por força”, porque havia sido ordenado pelo apóstolo.

Vs. 15-16 – Paulo acrescenta: “Porque bem pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o retivesses [o recebas – ARA] para sempre, não já como servo [escravo]; antes, mais do que servo [escravo], como irmão amado, particularmente de mim e quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor?” Ao sugerir que Onésimo talvez tenha partido “por algum tempo”, ele sugeriu que tudo havia sido ordenado nos caminhos providenciais de Deus e, portanto, tudo isso fazia parte do plano de Deus (Pv 16:33; Jr 10:23). O princípio por trás de tudo aqui é que, mesmo nas falhas e fracassos dos homens, Deus pode tirar o bem do mal. Ele pode usar essas falhas e fracassos para realizar Seu propósito na bênção dos homens (Sl 76:10).

Ele, portanto, pede a recepção de Onésimo com base no perdão fraterno, já que agora era “um irmão amado”. A breve perda de seu escravo estava sendo recompensada pelo ganho permanente de um irmão! Filemom se beneficiaria dessa obra da graça em Onésimo de duas maneiras: primeiro, “na carne” por ter seu servo de volta e, segundo, “no Senhor” por ter um irmão no Senhor.

O Compromisso Assumido por Paulo

Vs. 17-19 – Paulo então faz um terceiro pedido a Filemom para receber Onésimo. “Assim pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo. E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta. Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi; eu o pagarei, para te não dizer que ainda mesmo a ti próprio a mim te deves”. Ser considerado amigo ou camarada é uma coisa boa, mas ser considerado como um “companheiro [parceiro – KJV]”, como Paulo acreditava que ele era para Filemom, é uma coisa ainda maior. É assim que ele pede a recepção de Onésimo. Ele não pede apenas que seja recebido meramente, mas que seja recebido como Filemom receberia o próprio apóstolo! Este foi realmente um pedido ousado. O que Filemom deve ter pensado?

Se houvesse alguma suspeita latente no coração de Filemom, Paulo se apressou em apagá-la, prometendo assumir todas as obrigações pendentes que pudessem ter ocorrido. Ele diz: “se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta”. Ele não chama a ofensa de furto, mas se houvesse algo pendente da parte de Onésimo, Paulo se comprometeu de próprio punho, dizendo: “eu o pagarei”. Que espírito de graça Cristão! E que exemplo para os pacificadores! Podemos querer ajudar a curar uma ruptura pessoal que se desenvolveu entre os santos, e esse é um bom desejo, mas estamos dispostos a cobrir os custos que possam ter ocorrido?

Assim, vemos uma progressão na tríplice solicitação de Paulo de “receber” Onésimo. No versículo 12, ele pediu a Filemom para recebê-lo como um escravo arrependido que havia sido salvo. Então, no versículo 15, ele pede que ele seja recebido como um irmão amado. Mas agora no versículo 17, ele visa ainda mais alto e pede que seja recebido como o próprio apóstolo!

Como motivação adicional, Paulo acrescenta: “para te não dizer que ainda mesmo a ti próprio a mim te deves”. Ou seja, o que fosse que Paulo tivesse pedido a ele, na verdade, Filemom era devedor a Paulo – ele devia a si mesmo a Paulo. A maioria dos expositores diz que isso é uma referência ao fato de que Filemom havia sido salvo por meio de Paulo e, portanto, ele havia recebido algo que o dinheiro nunca poderia pagar.

Sua confiança em Filemom

Vs. 20-23 – Paulo encerra seu pedido afirmando sua absoluta confiança de que ouviria uma resposta favorável de Filemom. Ele diz: “Sim, irmão, eu me regozijarei de ti no Senhor: recreia as minhas entranhas no Senhor. Escrevi-te confiado na tua obediência, sabendo que ainda farás mais do que digo”. Ele usa a palavra “obediência” aqui, mas não como obediência a um comando apostólico, mas ao chamado de Filemom ao dever Cristão. Examinando a carta, podemos ver como tudo isso seria irresistível para Filemom – um homem caracterizado por amor e fé (v. 5). Se ele estivesse propenso a se endurecer, ela teria derretido seu coração. O efeito do apelo gracioso e amável de Paulo deve ter sido irresistível.

Paulo encerra seu humilde pedido com uma pequena solicitação adicional para que Filemom preparasse (“prepara-me”) um alojamento para ele, pois esperava ser libertado e pretendia ir a Colossos, onde aparentemente nunca tinha visitado antes (Cl 2:1). Ele diz a Filemom que ele estava contando com suas “orações” para que assim fosse feito (v. 22).

Saudações Finais

Vs. 23-24 – A carta termina com breves saudações enviadas por alguns dos “cooperadores” de Paulo – um dos quais também foi cativo com Paulo (Epafras).

V. 25 – Sua última palavra a Filemom foi: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito. Amém”. Essa foi uma observação importante de despedida, pois Filemom precisava ter um espírito correto ao lidar com toda a questão da qual Paulo lhe pedia.

Os Elementos do Evangelho da Graça de Deus São Ilustrados na História de Onésimo

F. B. Hole disse: “Não devemos deixar essa epístola sem perceber a maneira impressionante de como toda a história ilustra o que a mediação significa e envolve, ilustrando realmente a afirmação: ‘Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem’ (1 Tm 2:5). Deus é o único ofendido pelo pecado; homem, o ofensor; o Homem Cristo Jesus, o Mediador.

Podemos nos ver retratados em Onésimo e sua triste história. Éramos também ‘inúteis’. Injuriamos a Deus e, consequentemente, éramos Seus devedores, tendo em vista que não podíamos pagar. Também ‘nos afastamos’ d’Ele, pois o temíamos e desejávamos estar o mais longe possível de Sua presença. Nossa alienação foi fruto do nosso pecado.

A mediação de Paulo entre Filemom e Onésimo ilustra, embora apenas levemente, o que Cristo fez. Não podemos quase ouvir o bem-aventurado Salvador falando assim quando, na cruz, Ele levou a culpa de nossas iniquidades e tomou o julgamento que merecíamos? Não devemos bendizê-Lo para sempre em relação a tudo o que nos era devido por causa de nossos pecados, quando Ele disse a Deus: ‘Ponha isso na Minha conta’?

No entanto, existe essa diferença: embora Paulo tenha que escrever: ‘Eu retribuirei’, mas nosso Salvador ressuscitado não usa o tempo futuro. Sua palavra para nós no evangelho, como fruto de Sua morte e ressurreição, é: ‘Eu a paguei’. Ele foi entregue por nossas ofensas e ressuscitado para nossa justificação. Por isso, é que, justificados pela fé, temos paz com Deus. Nesse ponto, portanto, a ilustração fica muito aquém da realidade ilustrada.

Nossa ilustração também falha nisso, que Deus não precisa de persuasão ao pleno exercício da graça, como era necessário no caso de Filemom. Ele é a própria Fonte da graça. Ele, no entanto, precisa de uma base justa para demonstrar Sua graça, assim como Paulo forneceu a Filemom uma razão justa de graça ao assumir todas as responsabilidades de Onésimo. A mediação envolve a aceitação de tais responsabilidades, para que seja exercida plena e efetivamente, pois somente então a graça pode reinar por meio da justiça” (Epistles, vol. 2, págs. 194-195).

Conclusões

A carta cumpriu seu propósito? Filemom respondeu favoravelmente ao pedido de Paulo e perdoou o escravo que voltou? A Escritura não dá a resposta. No entanto, é difícil imaginar que um pedido feito com um amor tão delicado e terno e uma graça diplomática teria sido recusado por Filemom. O amor nunca falha (1 Co 13:8). A eternidade nos dirá o resto da história.

 

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