RELAÇÕES TERRENAS ONDE CRISTO DEVE SER MANIFESTADO
Capítulos 3:18–4:6
Nesta próxima seção, Paulo mostra que uma manifestação do caráter de Cristo deve ser vista em todos os aspectos de nossas vidas – no círculo familiar, em nossa vida profissional e no alcance dos perdidos no mundo. Em cada relacionamento e em cada esfera, aqueles que estão em sujeição são tratados primeiro. A esposa é exortada antes do marido, os filhos antes dos pais e os servos antes dos senhores.
Cristo Demonstrado no Círculo Familiar
Cap. 3:18-21 – Paulo fala primeiro do círculo familiar. As relações de maridos e esposas, pais e filhos não surgiram com a introdução do Cristianismo – essas relações remontam ao começo da existência do homem. Mas o que o Cristianismo trouxe para a vida familiar é o Senhorio de Cristo como sendo o novo fator motivador de todo comportamento correto nessas relações. Isto é indicado nesta próxima passagem pelo uso frequente do termo – “o Senhor”. Ele eleva todo o assunto a um plano mais elevado do que era conhecido nos tempos do Velho Testamento.
É apropriado que Paulo se dirija primeiro à unidade familiar, pois é um alvo primordial do inimigo. A desintegração da vida familiar é uma das coisas que marca “os últimos dias” no testemunho Cristão (2 Tm 3:1-2). Mas isso não precisa ser assim. Se seguirmos os princípios básicos que Paulo aborda nesses versículos a respeito do amor, da submissão e do Senhorio de Cristo, seremos capazes de enfrentar e derrotar todos os desígnios do inimigo contra a família. Ele mostra que há certas obrigações e responsabilidades na vida doméstica, e quando essas coisas são aplicadas, o lar Cristão andará de acordo com a ordem de Deus e terá Sua bênção e proteção das incursões do inimigo.
Esposas (v. 18)
A esposa Cristã deve “estar sujeita” ao marido, não porque o marido insiste nisso, mas porque isso “convém ao Senhor”. Isso expressa o lugar em que a Igreja foi estabelecida em relação a Cristo (Ef 5:22-24). Um motivo para sua submissão pode muito bem ser seu amor pelo marido – e isso, é claro, é bom. Mas como uma mulher Cristã sob o Senhorio de Cristo, ela tem um motivo maior para sua submissão – ela se submete porque é o que o Senhor quer que ela faça. Uma vez que toda esposa Cristã, em condições normais, quer agradar ao Senhor, ela deve ser feliz em fazê-lo, pois é a vontade de Deus.
Nota: Paulo não diz que a esposa deve obedecer ao marido, como as crianças e os servos devem fazer. Isso é porque ela não tem o mesmo relacionamento que os filhos e servos têm com o cabeça da família. Se a obediência fosse exigida da esposa, isso tornaria o relacionamento num casamento Cristão uma coisa legal. A submissão é diferente de obediência. É algo que vem do coração, enquanto que na obediência o coração da pessoa pode estar longe do ato de obedecer. Além disso, se problema entra no relacionamento do casamento, a submissão pode curar muitas das dificuldades que surgem. J. N. Darby disse: “A submissão é o princípio curativo da humanidade”.
Ocupar um lugar de submissão no relacionamento conjugal implica que ela não deve tomar o papel da liderança ou usurpar a autoridade do marido em casa.
Maridos (v. 19)
O marido Cristão deve “amar” sua esposa. Ele deve não apenas iniciar o amor no relacionamento, mas também é ele quem deve mantê-lo. Quando uma mulher Cristã sabe que é amada pelo marido, isso vai ajudá-la muito a se submeter a ele. Se um marido “se irrita contra ela [a trata com amargura – ARA]”, como Paulo adverte, isso só tornará o casamento mais difícil.
Crianças (v. 20)
As crianças devem entender que quando elas “obedecem” aos pais, estão fazendo algo que é “agradável ao Senhor”. Obedecer “em tudo” significa até mesmo em coisas que elas possam não gostar de fazer. Novamente, se as crianças souberem e tiverem certeza de que são amadas por seus pais, isso ajudará grandemente em sua disposição de obedecer. É bom notar que a palavra “pais” está no plural. Isso reprime a tendência de as crianças obedecerem a um dos pais e não ao outro – talvez ao pai, mas não tanto à mãe. Os pais sendo plurais também sugerem que são um em seus desejos para com as crianças e que estão levando-as na mesma direção.
Pais (v. 21)
Os pais não devem fazer exigências injustificadas a seus filhos, por meio das quais os “irritam” e eles acabam “perdendo o ânimo”. Isso é dito aos pais, mas não às mães, porque os pais têm uma tendência maior a fazer exatamente isso.
Cristo Demonstrado no Local de Trabalho
Cap. 3:22-25 – A próxima esfera de responsabilidade que Paulo aborda é o local de trabalho, onde os servos e senhores têm seus respectivos papéis.
Servos (Escravos)
Esses crentes eram escravos. Escravidão é algo que Deus nunca pretendeu para o homem; foi introduzido por homens perversos para propósitos sem princípios. É interessante e instrutivo ver que em cada epístola de Paulo que trata desse assunto, ele não encoraja os crentes escravos a fazer um esforço para se livrar de sua situação. Em vez disso, ele diz a eles como se comportar em sua situação para que o testemunho da graça de Deus no evangelho seja promovido. Isso porque o Cristianismo não é uma força para corrigir injustiças sociais no mundo; esse não é o objetivo do evangelho. Quando o Senhor veio em Sua primeira vinda, Ele não tentou reformar o mundo retificando seus erros sociais e políticos. Ele fará tudo isso num dia vindouro, quando intervier em juízo na Sua Aparição. Então toda coisa torta neste mundo será corrigida (Is 40:3-5). Assim, os Cristãos não foram chamados para acertar o mundo, mas para esperar pelo dia vindouro. Devemos deixar o mundo como está e anunciar o evangelho que chama os homens do mundo para o céu. Não há, portanto, nenhuma orientação nas epístolas para os Cristãos corrigirem os erros da escravidão, ou qualquer outra injustiça social no mundo. Isto é porque estamos “no” mundo, mas não somos “do” mundo (Jo 17:14). O Senhor disse que se o Seu reino fosse “deste mundo”, então Seus servos lutariam nessas causas (Jo 18:36). Mas, como não é esse o caso, devemos “deixar o caco se esforçar com os cacos da Terra” (Is 45:9 – JND).
Paulo sabia como era importante para os Cristãos manter um bom testemunho diante do mundo. Sua grande preocupação para os servos Cristãos era que eles se comportassem de uma maneira correta, de modo que “o nome de Deus e a doutrina” não fossem “blasfemados” (1 Tm 6:1). Esses crentes escravos não deveriam fugir (como Onésimo fez antes de ser salvo – Fm 15), mas permanecer em sua posição de vida e glorificar a Deus diante de seus senhores tratando-os com verdadeiro respeito, e não “servindo só na aparência, como para agradar aos homens”. Se eles servissem com “em simplicidade de coração, temendo a Deus”, isto prestaria um poderoso testemunho da realidade de sua fé em Cristo. Assim, eles deveriam trabalhar para seus mestres “de todo o coração, como ao Senhor”, pois, na realidade, eles estavam servindo “a Cristo, o Senhor”. Isso mostra que, independentemente de onde um crente está em seu status social, ele ainda tem uma oportunidade para testemunhar por Cristo. Nem todos somos missionários, mas todos podemos compartilhar o evangelho com aqueles a quem interagimos em nossa vida diária e, assim, servir ao Senhor dessa maneira.
Para encorajar estes servos nisso, Paulo lembra-lhes de que o Senhor estava tomando nota de tudo o que eles fizeram, e que Ele iria “galardoá-los” num dia vindouro com a posse da “herança”. Que inversão estava por vir a estes crentes escravos! Eles tinham bem poucos bens neste mundo – eles não podiam possuir propriedade, etc. – mas eles estavam destinados a serem co-herdeiros com Cristo sobre a herança de todas as coisas criadas no universo!
Senhores (cap. 4:1)
Por fim, Paulo se dirige aos senhores Cristãos. Mais uma vez, não lemos sobre ele dizendo-lhes para cessar com o seu envolvimento na escravidão. Em vez disso, ele os instrui sobre como se comportar como senhores de uma maneira que honre a Deus. Eles deviam remunerar seus servos com o que era de “justiça e equidade” por seus serviços prestados. Os senhores deveriam estar conscientes de que eles tinham um “Senhor no céu” a Quem são responsáveis.
Vivendo no mundo ocidental onde a escravidão foi abolida há muito tempo, podemos estar inclinados a pensar que esta passagem não tem aplicação para nós hoje. No entanto, quando somos empregados remunerados em alguma empresa, em princípio, estamos no local de trabalho na mesma posição que esses servos Cristãos. Durante as horas de nossas ocupações, prestamos nossos serviços a várias empresas por salários. Portanto, as orientações dadas aqui aos servos têm uma aplicação prática para nós quando estamos em nossos empregos. Da mesma forma, os empregadores que possuem uma empresa e têm funcionários, em princípio, estão na posição de senhores, e devem administrar suas empresas de uma maneira que honre o Senhor.
A história da Igreja revela que essa orientação foi geralmente aceita pelos escravos Cristãos – a tal ponto que era bem conhecido no mundo da escravidão que um escravo Cristão tinha um preço mais alto em leilão. É um tributo à fé Cristã. Deve ser o mesmo hoje; qualquer empregador que possa contratar um empregado Cristão deve ser grato, porque o Cristão deve cuidar do negócio de seu patrão com a devida diligência e tratá-lo como se fosse dele (Ef 6:5-8; 1 Pe 2:18).
Cristo Demonstrado na Propagação da Verdade no Mundo
Cap. 4:2-6 – Na seção anterior as exortações eram para grupos específicos de indivíduos, mas agora elas se ampliam para os crentes em geral. As exortações aqui têm a ver com o apoio dos santos à divulgação da verdade por meio da oração e da conduta piedosa. Eles são encorajados a orar pelas coisas em geral, e particularmente pelos servos do Senhor em seu trabalho de comunicar a verdade, e que os santos manteriam um testemunho apropriado para com os perdidos.
Paulo diz: “Perseverai em oração, velando nela com ação de graças” (v. 2). Muitas vezes oramos por algo, mas desistimos. Isto não é bom. O Senhor ensinou que os homens devem “orar sempre, e nunca desfalecer” (Lc 18:1). Já foi dito que precisamos orar tanto quanto precisamos respirar! A alma floresce na atmosfera de oração, mas definha sem ela. Perseverar na oração não significa que devemos insistir com Deus em relação a algo que queremos e persistir em pedir até que Ele nos dê o que estamos pedindo. Isso manifesta um espírito não subjugado que insiste em ter seu próprio caminho. Se essa é a nossa atitude, para nos ensinar uma lição, Deus pode nos conceder o nosso pedido, mas enviar com ele carência à nossa alma (Sl 106:15). Tiago nos diz que, em todas as nossas orações, devemos acrescentar: “Se o Senhor quiser” (Tg 4:15; Mt 26:39). Isso manifesta um espírito de submissão à vontade divina e um reconhecimento de que, em última análise, queremos a Sua vontade no assunto. “Velando nela” é observar a resposta do Senhor aos nossos pedidos de oração. Isso manifesta fé. Fazê-lo “com ação de graças” manifesta confiança no Senhor. É dizer: “Qualquer coisa que o Senhor der como resposta (seja ‘sim’ ou ‘não’), sei que será o melhor para mim, por isso vou me regozijar e dar graças mesmo antes de Ele tornar Seu pensamento conhecido”.
Como mencionado, mais especificamente, Paulo desejou as orações dos santos pelo trabalho de divulgar a verdade. Ele diz: “para que Deus nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do Mistério de Cristo” (v. 3).
Vs. 5-6 – Quanto à sua conduta, ele disse: “Andai com sabedoria para com os que estão de fora, remindo o tempo [oportunidades – JND]. Vossa palavra seja sempre agradável [com graça – JND], temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um”. Se andarmos com sabedoria em nossa vida diária, teremos “oportunidades” de compartilhar o evangelho com os perdidos (“os que estão de fora”). Andar “para com” implica uma busca genuína de seu bem-estar. Isso abre as portas quando as pessoas percebem que estamos genuinamente interessadas nelas. “Remindo o tempo” refere-se a libertar o tempo livre (o significado de resgatar) em nossos horários ocupados para ser usado no serviço ao Senhor. Paulo fala disso também em Efésios, mas em conexão com uma esfera diferente (Ef 5:15-21). Colocando as duas referências juntas, vemos que existem realmente apenas duas esferas de serviço em que devemos usar nosso tempo:
- Remindo o tempo para ajudar as pessoas da comunidade Cristã (“vós” – Ef 5:19, 21).
- Remindo o tempo para ajudar os que estão fora da comunidade Cristã (“os que estão de fora” – Cl 4:5).
Esses versículos em Colossenses 4 têm a ver com alcançar os perdidos com o evangelho. É significativo que “orar” seja mencionado antes de alcançar “os que estão de fora”. Isso mostra que todo trabalho de evangelização deve ser feito em sensível dependência do Senhor.
“A vossa palavra seja sempre com graça, temperada com sal” (AIBB) tem a ver com a forma como nos aproximamos dos outros. Devemos sempre nos comportar de maneira graciosa, cortês e gentil em todas as nossas interações com os homens do mundo. Isso vai funcionar para ganhá-los para Cristo. Mas nosso discurso também deve ser “temperado com sal”. Isso fala de fidelidade. Assim, devemos nos lembrar de ter uma palavra para a consciência do incrédulo, para que eles possam perceber que eles têm a haver com Deus, e que eles precisam estar preparados para encontrá-Lo. As consciências dos incrédulos precisam ser tocadas, mas cortaremos seus ouvidos se os “importunarmos” o tempo todo. Paulo disse que nosso discurso deve ser temperado aqui e ali com uma palavra fiel às suas consciências. Podemos ser excessivamente zelosos ao tentar salvar incrédulos e sermos conhecidos por pressionar demais as consciências dos homens. Isso faz com que as pessoas percam o interesse e se afastem. Zelotes como este parecem pensar que este versículo diz: “A vossa palavra seja sempre salgada, temperada com graça.” No entanto, é bem o contrário. A Escritura indica que é possível ter “zelo de Deus, mas não com entendimento” (Rm 10:2). O zelo é bom, mas precisa ser guiado pelo conhecimento e sabedoria. Paulo disse aos gálatas: “É bom ser zeloso, mas sempre do bem” (Gl 4:18). Ele acrescenta aqui: “para que saibais como vos convém responder a cada um”. Isso implica que, se andarmos em sabedoria para com os que estão de fora, estimularemos o interesse deles e eles “pedirão” de nós “a razão da esperança que há em nós (1 Pe 3:15). Quando eles têm esse espírito, podemos conduzi-los a Cristo.
Resumo da Parte Prática da Epístola Que Resulta na Demonstração de Cristo nos Santos
O que foi dito até aqui encerra a parte principal da epístola. Se ela for seguida pelos santos com exercício moral, o caráter de Cristo será visto em nós. Existem três elos no desenvolvimento desta verdade:
- O QUE deve ser manifestado – o caráter de Cristo (cap. 3:12-15).
- COMO deve ser manifestado – por estar cheio de Cristo e Seus interesses em tudo o que falamos e fazemos (cap. 3:16-17).
- ONDE deve ser manifestado – em todas as esferas da vida do crente (caps. 3:18-4:6).