OBSTÁCULOS PARA MANTER A VERDADE DO MISTÉRIO
Capítulo 2:4-19
Tendo falado da importância de entender o Mistério, bem como da necessidade de caminhar juntos em amor com nossos irmãos, por meio da qual a verdade do Mistério é colocada em prática, Paulo agora adverte sobre os perigos de se desviar desse objetivo. Neste segundo capítulo, ele expõe as diferentes artimanhas que o diabo usa para tirar os santos da simplicidade que está em Cristo. Ele também mostra que Cristo é a resposta para tudo o que o inimigo introduziria para enlaçar os santos.
Quatro Perigos Espirituais
Paulo se concentra em quatro principais perigos espirituais que afastam a pessoa da verdade do Mistério, se ele não for cuidadoso. Esses são:
- Palavras persuasivas de eloquência (vs. 4-7).
- Racionalismo filosófico (vs. 8-15).
- Ritualismo judaico (vs. 16-17).
- Misticismo oriental (vs. 18-19).
Mesmo que esses erros variem e sejam diferentes em natureza, eles se referem à mesma classe de mestres que estavam corrompendo os santos com suas doutrinas falsificadas. H. Smith disse: “Será notado que nenhum desses males são as coisas grosseiras do mundo, mas sim coisas que atrairiam o intelecto e o lado religioso da natureza do homem e, portanto, são coisas que são uma armadilha especial para o Cristão” (The Epistles to the Colossians, pág. 30). Essa série de armadilhas espirituais serve para nos lembrar de que não devemos subestimar o poder e o engano do diabo. Novamente, usando a tipologia na conquista de Canaã por Israel, se o capítulo 1:15-22 dá uma visão do Capitão do exército do Senhor, e capítulo 2:2-3 corresponde à herança de Canaã, então o capítulo 2:4-19, que estamos agora considerando, nos daria uma visão dos inimigos na terra. Os cananeus correspondem aos vários tipos de maldade espiritual que o crente encontra “nos lugares celestiais” (o reino da atividade espiritual – Ef 6:12).
Olhando para estas quatro coisas, vemos que toda a intenção do inimigo de nossas almas poderia ser resumida na frase: “E não segundo Cristo” (v. 8). Verdadeiramente, o lema do diabo é: “Qualquer coisa menos Cristo”. É significativo que Paulo comece cada um destes quatro avisos com: “para que ninguém” ou “Ninguém ...” (vs. 4, 8, 16, 18). Isso mostra que o diabo não usa só os seus anjos e os elementos do mundo, mas também os homens para fazer o seu trabalho maligno. Também é significativo que, enquanto ele usa esses agentes, ele não pode usar qualquer coisa que é “segundo Cristo”; essas coisas não se encaixam em seu programa maligno (v. 8).
Cada uma dessas quatro coisas que o inimigo introduziria por meio de homens astutos é seguida por um antídoto apropriado, que, se ele fosse observado, preservaria os santos dessas seduções. Como já mencionado, a resposta para todas essas intrusões é saber o que temos em Cristo e andar n’Ele. Essa é nossa grande salvaguarda.
1) Palavras Persuasivas de Eloquência (vs. 4-7)
A primeira coisa que marcou esses falsos mestres foi um grande espetáculo da eloquência humana. Paulo diz: “E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas”. A eloquência é a arte de usar a linguagem para agitar as emoções. Os gregos ficaram particularmente impressionados com isso (At 12:21-22). A eloquência em si não é necessariamente má (At 18:24). O perigo está em usá-la com um objetivo para promover pontos de vista errôneos e propósitos heréticos para atrair pessoas após si mesmo. Paulo advertiu os Romanos sobre este perigo, afirmando que com “suaves palavras e lisonjas” os homens com segundas intenções “enganam os corações dos símplices [desavisados – JND]” (Rm 16:18). Almas não firmadas são muitas vezes influenciadas por fraseologia transcendental que parece espiritual, achando que eloquência é espiritualidade. Um exemplo disso são os cultos atuais na profissão Cristã. Suas doutrinas malignas são geralmente envolvidas em um belo exterior de palavras lisonjeiras. Aqueles que ensinam esse tipo de “erro sistematizado” (Ef 4:14 – JND) frequentemente terão um comportamento atraente, e isso também pode ser enganador. “Himeneu” (“canção de casamento”) e “Fileto” (“amado”) são exemplos disso (2 Tm 2:17). O significado de seus nomes sugere que esses homens tinham personalidades doces e amáveis – mas, na verdade, eles estavam derrubando a fé dos santos com suas doutrinas errôneas! H. E. Hayhoe disse apropriadamente: “Cuidado com homens amáveis; ame homens fiéis”.
V. 5 – Paulo se regozijou ao saber que os colossenses continuavam na verdade. Ele disse que isso era evidente ao estar “vendo” sua “ordem” e a “firmeza” de sua “fé em Cristo”. Esse fato prova que os colossenses não haviam engolido as doutrinas falsas que lhes estavam sendo apresentadas. No entanto, eles estavam em perigo, e isso era uma preocupação para Paulo.
O remédio
Vs. 6-7 – Como mencionado, com cada laço que o inimigo colocaria no caminho para fazer o crente tropeçar, Paulo dá um antídoto apropriado que satisfaria essa sedução em particular. Seu remédio para o discurso persuasivo daqueles que os afastaria após essas estranhas doutrinas era: “Como, portanto, recebestes o Cristo, Jesus o Senhor, assim n’Ele andai, arraigados, e edificados n’Ele, e assegurados na fé, tal como fostes instruídos, abundando nisso com ações de graças” (JND). Isto é, deviam permanecer com as coisas que eles sabiam e tinham sido “ensinados” e deviam “andar” nelas. “Como” eles haviam começado, assim deveriam continuar. Em vez de procurar por uma nova verdade, eles deveriam estar “arraigados e edificados” na verdade que receberam e ser “assegurados” dela. “Arraigados” está no tempo verbal passado, mas “edificados” está no o tempo verbal presente. Assim, Paulo quer que sejam edificados no que já lhes foi dado. Eles não deveriam deixar ninguém os atrair, independentemente de quão persuasivo fosse seu discurso. (Veja Gl 1:8-9.) Eles precisavam entender que haviam recebido todos os tesouros da verdade no Mistério; não havia maior verdade para dar. É o suficiente para preencher e satisfazer nossos corações e mentes, e causar em nós muitas “ações de graças”.
2) Racionalismo Filosófico (v. 8-15)
A segunda coisa perigosa que marcou esses falsos mestres foi o racionalismo filosófico. Isto é, o uso do raciocínio humano nas coisas divinas. Filosofia significa “o amor do conhecimento”. Não é errado querer conhecimento; Paulo orou pelos santos para esse fim no capítulo 1:9. O perigo é procurá-lo fora das revelações que Deus deu pelos apóstolos e profetas do Novo Testamento. Isso é exatamente o que esses falsos mestres estavam fazendo. Eles tentaram adicionar filosofia ao evangelho, mas foi apenas o trabalho da mente humana nas coisas de Deus. Como resultado, eles se desviaram da verdade com muita má doutrina. Sendo assim, Paulo advertiu os colossenses: “Cuidai que não haja ninguém que vos faça de vós [que vos leve como – JND] presa sua meio da sua filosofia e vão engano, segundo a tradição [ensino – JND] dos homens, segundo os rudimentos [elementos – JND] do mundo, e não segundo Cristo” (TB). Paulo destaca aqui o triste efeito deste ensinamento que finalmente leva os crentes para longe de Cristo.
Paulo expõe essa linha filosófica de ensino como sendo “vão engano” porque ministrava ao orgulho do homem. Como emana da mente dos homens, todo esse raciocínio humano nunca leva em conta o fim do homem na carne sob o juízo de Deus na cruz, como fazia o evangelho que Paulo pregava (Rm 6:6, 8:3). Essa linha humana de ensino faz do homem na carne ser algo. Vê algum bem no homem e procura cultivar esse bem e, assim, ministra enganosamente alimentando a vaidade do homem. É por isso que é chamado vão engano.
Aos Cristãos procurarem conhecimento dos assuntos da vida nos filósofos gregos não convertidos mostra claramente que eles não entendem que “o homem natural não compreende [aceita – TB] as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2:14). Simplificando: os filósofos do mundo não podem dar a verdade ao Cristão porque eles não a têm! O melhor que eles podem oferecer é apenas mero raciocínio humano. Eles podem ter grandes pretensões de ter um conhecimento espiritual mais elevado, mas na realidade Paulo diz que são apenas os “rudimentos [elementos] do mundo”. “Os gregos buscam sabedoria” (1 Co 1:22), mas é “a sabedoria deste mundo” (1 Co 2:6). Além disso, grande parte de sua sabedoria mundana está cheia de incertezas. Cada nova geração de filósofos geralmente contradiz a geração anterior, de modo que aquele que busca o conhecimento não tem esperança real para descansar sua alma. Se nos aprofundarmos na filosofia e na sabedoria dos homens, em breve seremos preenchidos com esse tipo de coisa e Cristo será deixado de fora.
Vs. 9-10 – Pelo contrário, em Cristo “habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. O argumento de Paulo ao afirmar isso é mostrar que em Cristo no alto há tudo o que podemos precisar ou desejar. Se quisermos “sabedoria”, a temos n’Ele (1 Co 1:30) e no Mistério (Cl 2:3). Não há, portanto, necessidade de recorrer a filósofos mundanos para iluminação. Assim, Paulo diz que os crentes são “perfeitos [completos – JND] n’Ele”. Quanto à nossa posição diante de Deus e à nossa porção em Cristo, simplesmente não há nada que possa ser acrescentado a elas. (O capítulo 1:19 refere-se à plenitude da Divindade habitando em Cristo como um Homem na Terra durante Sua vida e ministério, enquanto aqui, no capítulo 2:9, refere-se a Ele como um Homem glorificado no alto.)
Além disso, se alguém pensasse que os seres angélicos eram realmente algo especial e objetos a serem admirados (como esses mestres defendiam), eles precisavam entender que Cristo é o Criador de todos esses seres (Sl 104:4). e, como tal, Ele é “o Cabeça de todo principado e poder [autoridade – JND]”. Este fato prova que Ele é incomparavelmente superior a eles. Na realidade, a posição dessas criaturas angélicas diante de Deus é na verdade inferior à dos Cristãos! Como filhos de Deus na nova ordem da criação, estamos em uma posição muito mais elevada que os anjos. Estando assentados juntamente “nos lugares celestiais em Cristo Jesus”, estamos muito “acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” (Ef 1:21; 2:6). Eles são realmente nossos servos, ordenados por Deus para nos ajudar nas várias situações da vida (Hb 1:14). Não somos considerados completos nesses seres; nossa plenitude está em Cristo. Além disso, como membros do corpo de Cristo, temos uma união especial com Ele como a Cabeça, pela habitação do Espírito Santo – mas essas criaturas não têm essa união. (Nota: o versículo 10 se refere a anjos eleitos em suas diferentes capacidades, enquanto o versículo 15 se refere a diferentes categorias de anjos caídos.)
O Remédio
Vs. 11-15 – O remédio para todo o racionamento e especulação humanos nas coisas de Deus é entender o significado da morte e ressurreição de Cristo. Paulo traz isto aqui, dizendo: “no qual também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo; tendo sido sepultados com Ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados [com Ele – JND] pela fé no poder [na obra – JND] de Deus, que O ressuscitou dentre os mortos” (AIBB). Como essas ideias filosóficas são errôneas e depreciativas para com a Pessoa e a obra de Cristo, é claro que elas emanam do homem na carne – isto é, toda aquela ordem de vida que segue a natureza pecaminosa caída no homem. Assim sendo, Paulo declara que na morte de Cristo (a qual ele se refere como “a circuncisão de Cristo”), Deus condenou o homem na carne (que ele chama de “o corpo da carne”), e como tal, Ele o deixou de lado como inútil. Assim, tudo o que tem a ver com o homem na carne – desde seus pecados mais imundos aos seus raciocínios filosóficos do assim chamado conhecimento superior – foi julgado por Deus na morte de Cristo. Assim, Sua morte marcou o fim judicial do homem na carne diante de Deus (Rm 6:6; 8:3). A versão King James e a Almeida Fiel acrescentaram as palavras “dos pecados” no versículo 11, mas sem suficiente autoridade de manuscrito e, portanto, não deveria estar no texto. O assunto no verso não são as ações da carne, mas a carne como um sistema maligno no homem caído que controla seus movimentos. O ponto aqui é que a morte do Senhor não apenas cuidou do fruto da natureza pecaminosa caída (os pecados do crente), mas também condenou a própria raiz que produzia esses pecados e tirou tudo isso de diante de Deus.
Além disso, os Cristãos, por meio de sua identificação com a morte de Cristo, foram “circuncidados com a circuncisão não feita por mãos”, e assim, diante de Deus, foram cortados judicialmente de toda conexão que tinham com a carne. O crente também é visto como estando “sepultado” com Cristo, como demonstrado na ordenança do “batismo”. Além disso, o crente também é visto como estando “ressuscitado com Ele”. Assim, somos identificados com toda uma nova ordem de vida em Cristo.
Como mencionado acima, Paulo usa as palavras “circuncisão” e “corpo” em um sentido simbólico nesta passagem. Quanto ao uso da palavra “corpo” nesta passagem, descreve todo o sistema de vida segundo a carne. Similarmente, poderíamos dizer: “O corpo do conhecimento científico”, ou “o corpo do conhecimento médico”, etc. J. A. Trench explicou como: “‘O corpo do pecado’ – isto é, todo o seu sistema e força, como dizemos, o corpo de um rio ... É todo o sistema e a totalidade dele” (Truth for Believers, vol. 2, págs. 77, 83). J. N. Darby disse: “Ele [Paulo] toma a totalidade e o sistema do pecado no homem como um corpo que é anulado pela morte” (Synopsis of the Books of the Bible em Romanos 6). E. Dennett disse algo semelhante: “Pode ser bom dizer que ‘o corpo do pecado’ é a totalidade do pecado em sua energia dominante” (The Christian Friend, vol. 23, pág. 182). Assim, Paulo não está falando do corpo humano aqui.
A conclusão prática da morte e ressurreição de Cristo, como aplicada aos crentes, é que os Cristãos (caracteristicamente) estão encerrados com relação à carne. Seu “batismo” significa isso (vs. 12). Eles, portanto, rejeitam tudo que tem a ver com a carne e agora vivem para Deus como totalmente desconectados daquela velha ordem de vida. Aplicando isto à situação que os colossenses estavam enfrentando, eles deveriam rejeitar todo o esquema de ensino racionalista que estava sendo apresentado pelos falsos mestres, porque era da carne – e tudo que tem a ver com a carne deve sair da vida do crente.
Vs. 13-15 – Paulo passa para o que foi realizado em nós e para nós por meio da morte e ressurreição de Cristo. Ele diz: “E vós, estando mortos em ofensas e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou junto com Ele, havendo nos perdoado todas as ofensas; havendo apagado o manuscrito de ordenanças que permanecia diante de nós, o qual era contrário a nós, Ele também o tirou do caminho, tendo-o pregado na cruz; havendo despojado principados e autoridades, Ele fez uma demonstração deles publicamente, levando-os em triunfo por ela” (JND). Como mencionado, o crente foi “vivificado junto” com Cristo em uma nova esfera de vida onde ele vive para Deus. (Veja também Ef 2:5). O versículo 13a refere-se aos crentes gentios. Isso é indicado pelas palavras “vós” e “vossa”, pois os colossenses eram uma companhia de gentios convertidos; enquanto que o versículo 14 se refere aos crentes judeus. Isto é indicado pela palavra “nós”. Paulo estava falando com seus compatriotas, e assim ele se inclui. (Isso não é incomum nos escritos de Paulo. Compare Ef 1:12-13, 2:1-3, 17, etc.)
Paulo se concentra em três coisas particulares que resultaram da morte e ressurreição de Cristo:
A) No que diz respeito aos crentes, a obra de Cristo na cruz lançou as bases para o seu perdão eterno. Assim, Paulo diz: “havendo nos perdoado todas as ofensas”. (O “nos” aqui se refere tanto aos judeus quanto aos gentios.) O conhecimento desse grande fato purifica a consciência da culpa e dá gozo ao crente. Ele menciona isso para mostrar que nesta nova esfera de vida com Cristo ressuscitado, a questão dos pecados do crente nunca surgirá – foi eternamente resolvida.
B) No que diz respeito às ordenanças legais no judaísmo a que Israel estava vinculado, Paulo diz: “havendo apagado o manuscrito de ordenanças que permanecia diante de nós” O “nós” aqui se refere aos crentes judeus, pois o manuscrito de ordenanças nunca foi para os gentios. Eles nunca se colocam sob as obrigações legais do Velho Pacto. Nos dias de Moisés, Israel colocou seu “manuscrito” (sua assinatura, por assim dizer) nas obrigações da lei, declarando: “Todas as palavras que o Senhor tem falado faremos” (Êx 24:3). Moisés ratificou seu compromisso com aquela aliança legal com o sangue de um sacrifício, e assim eles estavam ligados a ela (Hb 9:18-21). A história registra tristemente que eles falharam em guardar a lei em todos os aspectos (At 7:53). Por isso, essas ordenanças “permaneciam” contra eles em um sentido acusatório.
No entanto, na obra consumada de Cristo na cruz, Ele não só suportou a maldição da lei transgredida (Is 53:8b; Gl 3:13; Sl 88), mas Sua morte anulou as obrigações legais da lei sob as quais Israel se colocara. Isso não significa que a lei tenha sido removida; ainda tem sua aplicação a Israel em nível nacional e aos pecadores incrédulos (1 Tm 1:8-10). A lei não está morta e extinta; é o crente que está morto e extinto – por meio de sua identificação com a morte de Cristo (Rm 6:2-8). O crente no Senhor Jesus Cristo está “morto para a lei” (Rm 7:4-6), e a lei não tem aplicação a um homem morto (Rm 7:1). Assim, todo o sistema legal foi anulado para cada judeu que acredita em Cristo. A morte de Cristo a “tirou do caminho” (a obrigação, não a lei). Paulo, sendo um crente judeu, usa a palavra “nós” aqui para indicar do que ele e seus compatriotas foram libertados. Ele acrescenta: “Pregando-o na cruz”. Isso se refere à acusação que permanecia contra os judeus por falharem em guardar a lei. Foi cancelada e a declaração desse fato foi exposta publicamente. É uma alusão ao costume romano de cravar na cruz onde um criminoso morre, a declaração do seu crime, indicando a todos a natureza da ofensa dessa pessoa. (Veja Jo 19:19-22.)
C) Em relação aos nossos inimigos espirituais – Paulo diz: “havendo despojado principados e autoridades”. Isto se refere aos seres angélicos caídos (que se alinharam contra Cristo) sendo completa e absolutamente derrotados. Eles tentaram desviar o Senhor de fazer a vontade do Pai de Ele ir à cruz e beber o cálice do juízo. Ele venceu as forças do mal pela simples obediência (Jo 18:11, 19:17). Cristo agora está em total supremacia sobre esses inimigos espirituais, tendo obtido uma vitória aberta sobre eles na cruz (Cl 2:15) e na sepultura (Hb 2:14). Embora derrotados, esses agentes malignos de Satanás ainda não estão no abismo, e atualmente se opõem aos santos que vivem em comunhão com Deus na nova esfera de vida na qual foram introduzidos por terem sido vivificados juntamente com Cristo. Esses inimigos se opõem à liberdade dos santos e ao gozo de sua porção em Cristo nos lugares celestiais. Mas como o Senhor subjugou o poder deles, uma provisão completa foi feita para nós na “armadura de Deus” para que possamos viver em comunhão ininterrupta com Deus (Ef 6:10-18).
3) Ritualismo Judaico (vs. 16-17)
O terceiro perigo que ameaçou o progresso espiritual dos colossenses é o ritualismo judaico. Paulo diz: “Portanto ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados. Que são sombras das coisas futuras [vindouras – JND], mas o corpo é de Cristo”. Esses versículos indicam que esses falsos mestres provavelmente eram de origem judaica, mas se tornaram heterodoxos em suas doutrinas. Visto que os Cristãos judeus foram removidos das obrigações legais com as quais estavam vinculados por estarem “mortos com Cristo” (Rm 6:8, 7:4), eles não deveriam permitir que alguém os colocasse novamente sob aquelas ordenanças legais. A morte de Cristo acabou com todas as conexões com esse sistema legal para eles. Paulo usa a palavra “julgue” aqui em conexão com aqueles que encontrariam falhas em santos que entenderam sua liberdade em Cristo. Assim, os colossenses não deveriam deixar que as críticas daqueles que não estavam livres do judaísmo os dissuadissem (Gl 5:1).
Ao mencionar “comer”, “beber”, “dias de festa”, “lua nova” e os “sábados”, Paulo estava indicando que essa libertação não era meramente da lei dos dez mandamentos, mas também das leis cerimoniais, estatutos e rituais que compõem o judaísmo como um sistema. Essas coisas eram “sombras das coisas futuras” em Cristo. Nos tempos do Velho Testamento, a luz de Deus estava brilhando sobre Ele, e todas aquelas formas e cerimônias na ordem levítica de aproximação a Deus eram apenas sombras projetadas por Ele. Mas agora, desde que Cristo veio, esses tipos e sombras deram lugar à substância real. Paulo indica isso acrescentando: “Mas o corpo é de Cristo”. Ao afirmar isso, ele não está se referindo ao corpo físico de Cristo, nem está se referindo ao corpo místico de Cristo, do qual os crentes são membros. Em vez disso, ele está usando a palavra “corpo” para indicar que Cristo é a substância que projeta essas sombras. F. B. Hole disse: “Mas o corpo – isto é, a substância – é de Cristo” (Paul’s Epistles, vol. 2, pág. 103).
Aliás, a palavra “corpo” é usada de seis maneiras diferentes nesta epístola:
- Como o corpo místico de Cristo (cap. 1:18, 24, 2:19, 3:15).
- Como o corpo físico do Senhor (cap. 1:22).
- Como o corpo glorificado do Senhor (cap. 2:10).
- Como todo o sistema da carne como uma entidade que Deus julgou (cap. 2:11).
- Como a substância de Cristo nos tempos do Velho Testamento, lançando uma sombra das boas coisas que estavam por vir (cap. 2:17).
- Como os corpos dos santos (cap. 2:23).
Uma vez que esses tipos e sombras deram lugar à substância real em Cristo, o sistema judaico com suas formas e rituais serviu ao seu propósito de apontar para Cristo. Ensinar que os Cristãos devem se aproximar de Deus por meio de formas e rituais externos, como no judaísmo, é negar a verdade que veio à luz na morte e ressurreição de Cristo. Isso é algo que os Cristãos interpretaram mal por séculos. Em vez de ver as coisas no judaísmo como sendo cumpridas em Cristo, e não necessárias no culto Cristão, a maioria dos grupos Cristãos estabeleceu seu culto ao longo de linhas judaicas e misturaram os princípios e práticas do judaísmo com os do Cristianismo. O resultado é algo híbrido de ambos, coisa que Deus nunca pretendeu para a adoração Cristã.
As igrejas da Cristandade perderam o ensinamento claro da Escritura que mostra que o tabernáculo é uma figura do verdadeiro santuário ao qual os Cristãos agora têm acesso pelo Espírito (Hb 9:8-9, 23-24). Em vez disso, eles usaram o tabernáculo e o templo do Velho Testamento como padrão para suas igrejas. Eles têm emprestado muitas coisas em um sentido literal da ordem judaica para seus locais de adoração e serviços religiosos. Isto pode ser visto no uso de templos literais e catedrais para locais de adoração, tendo uma casta especial de homens que oficiam em nome da congregação (o clero), o uso de instrumentos musicais para ajudar na adoração, o uso de um coral, as vestes especiais dos “ministros” e membros do coral, a prática do dízimo, a observância dos dias santos e festas religiosas, etc. É verdade que muitas dessas coisas judaicas foram alteradas um pouco para se encaixar em um contexto Cristão, mas elas ainda têm os ornamentos do judaísmo. Uma vez que essa mistura de princípios e práticas judaicas e Cristãs permeou o testemunho Cristão e existe há tanto tempo, tornou-se aceito pelas massas como o ideal de Deus. É defendido e sustentado tenazmente por Cristãos sinceros (mas enganados). No entanto, misturar essas duas ordens distintas destruiu a particularidade de cada uma delas, e o que resultou da mistura não é nem judeu e nem Cristão.
O Remédio
O remédio de Paulo nos versos 16-17 era que os colossenses não deveriam deixar ninguém os convencer de que precisavam acrescentar a ordem judaica de se aproximar de Deus à sua adoração Cristã. Independentemente de qual forma o judaísmo possa estar embrulhado – seja o judaísmo pleno nas sinagogas ou a mistura semi-judaica encontrada nas igrejas da Cristandade – isso não tem lugar no Cristianismo. Abraçar-se a essa ordem externa de aproximação a Deus tende a “entorpecer” as sensibilidades espirituais Cristãs, impedindo seu crescimento e progresso. O resultado disso é que o crente permanece um “bebê”. Esse foi o caso daqueles a quem a epístola aos Hebreus foi escrita (Hb 5:11-14).
4) Misticismo Oriental (vs. 18-19)
A quarta coisa que marcou esses falsos mestres foi o misticismo. Definimos o misticismo neste contexto como ensinamentos que supostamente têm significados ocultos e secretos, que quando entendidos, levam uma pessoa (supostamente) a um conhecimento e uma espiritualidade mais elevados. Essa linha de coisas visava confundir os santos com ideias novas e fantasiosas que tinham aparência de ser algo realmente espiritual. Mas, na verdade, isso fez com que os santos olhassem para longe de Cristo por suas necessidades espirituais e impediram seu progresso espiritual. Paulo, portanto, advertiu os colossenses: “Que ninguém fraudulentamente vos prive de vosso prêmio, fazendo sua própria vontade em humildade e culto a anjos, entrando em coisas que não viu, inchado vãmente pela mente de sua carne, e não retendo a Cabeça, de Quem todo o corpo, ministrado e unido pelas juntas e ligamentos, aumenta com o aumento de Deus” (JND). Paulo estava particularmente se referindo nestes versículos à pretensão de se ter um conhecimento espiritual mais alto do que aquele que os apóstolos tinham entregado aos santos. Uma vez que toda a verdade já havia sido exposta na revelação do Mistério (v. 3), as alegações desses instrutores eram falsas.
Para ajudar os colossenses a ver esses instrutores como eles eram realmente, Paulo expôs a maneira pela qual eles trabalhavam para conquistar a atenção das pessoas. Eles usaram um manto de “humildade” que deu a impressão de que eles eram verdadeiros servos de Deus. Humildade é uma virtude Cristã que deve marcar todos os crentes. O inimigo sabe disso e faz com que seus obreiros façam uma bela demonstração disso – mas com esses homens isso era apenas uma farsa. É triste dizer que a falsa humildade funciona como um encanto entre os Cristãos em geral. Quando as ideias dos falsos mestres são apresentadas com uma fraseologia espiritual transcendental, e atreladas com o que parece ser uma vida de santidade e humildade, os crentes não firmados são muitas vezes levados por elas.
A falsa humildade desses místicos envolvia a veneração de “anjos”. Mas ao se envolverem nessa prática, eles se expuseram. Como essas criaturas não caídas não pecam, e fazem apenas a vontade de Deus, a mente de Deus nesta questão é conhecida pela recusa deles de serem adorados (Ap 22:8-9). Assim, esses místicos estavam fazendo algo que Deus claramente não aprova. Eles estavam se intrometendo (esquadrinhando) em coisas invisíveis sobre as quais nada sabiam, e suas ideias eram mera imaginação e especulação. Além disso, “sua própria vontade em humildade e culto a anjos” é uma completa negação da ordem da nova criação que resultou da morte e ressurreição de Cristo. Como mencionado anteriormente, há agora uma nova raça de homens sob Sua liderança que está em uma posição que é superior à dos anjos. Por isso, no Cristianismo, os homens não são mais seres inferiores. É, portanto, completamente fora de ordem para os Cristãos estar fazendo reverência a essas criaturas inferiores. Se os anjos são inferiores aos Cristãos, por que os Cristãos os cultuariam?
Sem dúvida, a marca característica do ensino místico são as expressões vagas e nebulosas com as quais as ideias são apresentadas. Aqueles que estão impressionados com tal ensinamento geralmente descartam sua imprecisão alegando ser uma verdade profunda. Mas Paulo disse que suas novas ideias realmente vieram da sua “mente carnal” estando “inchados”. Assim, por trás de sua demonstração de humildade estava o orgulho espiritual! Como afirmado na Introdução, uma pessoa será atraída para essa linha de coisas porque ele pode se distinguir como tendo conhecimento em coisas divinas que os outros não têm. Ele pode fascinar seus amigos com seus pensamentos transcendentais e isso ministra ao seu orgulho.
V. 19 – É triste dizer que o resultado desta fachada de pseudo-espiritualidade é que os santos se distraem com novidades e cessam de “reter a Cabeça”. Isto é, eles deixam de olhar para Cristo, sua Cabeça, por direção, orientação e alimentação espiritual, passando a ocupar-se com coisas que, na verdade, os afastam d’Ele. Toda a verdadeira direção e sustento espiritual vem de Cristo, e devemos olhar para Ele por isso, mas nós os recebemos por meio das “juntas e ligamentos” (TB) do corpo, que são os membros que Ele usa para ministrar a verdade a nós (Ef 4:16). A comida espiritual não vem dos membros do corpo, mas do Senhor pelos membros do corpo. Ao suprir nossas necessidades espirituais deste modo, os membros são necessariamente interdependentes uns dos outros. O resultado deste ministério é que os santos estão “unidos” (TB) praticamente em amor e são edificados juntos “com o crescimento de Deus” (TB). O objetivo de todo ministério é que houvesse um crescimento nos santos que é de acordo com Deus. Nós não queremos um crescimento meramente na doutrina e conhecimento, por mais importante que seja, mas um aumento que é de Deus. Este é o verdadeiro desenvolvimento espiritual.
O remédio
A palavra simples e direta de Paulo para os colossenses era não permitir que alguém os persuadisse nessa direção mística, porque os privaria de seu “prêmio” (TB) por fielmente manter a verdade. Se os colossenses fossem enganados por esta linha mística de ensino, e entrassem nisso, seu desenvolvimento espiritual seria impedido. A conclusão de Paulo, portanto, era que, uma vez que não era de Deus e só os atrapalharia, e eles não deveriam permitir “que ninguém” os persuadisse a aceitar essa linha de coisas. Eles tinham tudo o que precisavam para reter firmemente a Cabeça.