IDENTIFICAÇÃO DO CRENTE COM A MORTE E RESSURREIÇÃO DE CRISTO
Capítulos 2:20–3:11
Chegamos agora à parte prática da epístola na qual estão as exortações baseadas na verdade de que, como crentes, estamos mortos e ressuscitados com Cristo. A aplicação prática dessa grande verdade não apenas livra os crentes dos quatro perigos mencionados no capítulo 2, mas também leva ao estabelecimento de Cristo caracteristicamente nos santos, que corresponde ao aspecto do Mistério nesta epístola – “Cristo em vós, a esperança da glória” (cap. 1:27).
Usando novamente a tipologia na jornada de Israel para Canaã, a verdade que está diante de nós nesta passagem corresponde à travessia do rio Jordão por Israel (Js 3-4). O rio Jordão é um tipo da morte de Cristo. A entrada de Israel no leito do rio corresponde à morte do crente com Cristo e a saída de Israel do leito do rio para a terra de Canaã corresponde ao crente sendo ressuscitado com Cristo. Naquela época, os filhos de Israel tiraram 12 pedras do leito do rio e as colocaram na banda de Canaã para um memorial. Isto tipifica o crente sendo ressuscitado e assentado nos lugares celestiais em Cristo (Ef 2:6).
O Efeito Prático de Estar Morto Com Cristo
Cap. 2:20-23 – Paulo fala primeiro das ramificações práticas do crente estando morto com Cristo. Ele diz: “Se (visto que) morrestes com Cristo aos rudimentos do mundo, porque, como se vivendo no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não manuseies, nem proves, nem toques (as quais coisas são todas para destruição pelo uso), conforme os mandamentos e doutrinas dos homens? Elas têm sem dúvida certa aparência de sabedoria em culto voluntário e humildade e severidade para com o corpo; mas não têm valor algum e só servem para satisfazer a carne” (TB). O argumento de Paulo aqui é que, uma vez que os santos morreram “com Cristo” para “os rudimentos [elementos – JND] do mundo”, por que se sujeitariam a várias ordenanças de religião mundana que foram inventadas por homens ou emprestadas do judaísmo? O crente não está apenas morto para as coisas mais grosseiras da carne, mas também para a religião mundana. Os Cristãos, em geral, não entenderam isso e incorporaram erroneamente muitas ordenanças e rituais carnais em seus cultos da igreja. W. Kelly disse: “O grande erro da Cristandade sempre foi voltar às ordenanças” (Lectures on Colossians, pág. 136). (O Cristianismo bíblico tem apenas duas ordenanças: o batismo e a ceia do Senhor. O batismo é realizado uma vez na vida de uma pessoa e o partir do pão na Ceia do Senhor deve ser feito semanalmente – At 20:7).
O fato de esses falsos mestres terem encorajado os santos a se engajarem nas ordenanças carnais da religião terrena provou que eles estavam promovendo algo que não fazia parte do verdadeiro Cristianismo bíblico. Para ajudar os colossenses a ver isso mais claramente, Paulo expôs a loucura de buscar a realização espiritual por meio de ordenanças carnais e práticas ascéticas (punir o corpo na tentativa de impedi-lo de obedecer às concupiscências da carne). Ele dá um exemplo das regras e regulamentos que acompanham muitas dessas ordenanças – “Não manuseies, nem proves, nem toques”. Estas são imposições humanas, que ele chama de “os mandamentos e doutrinas dos homens”, pelas quais pessoas religiosas mal orientadas procuram em vão controlar a carne e alcançar uma vida espiritual mais elevada. Religião feita de confiar em ordenanças e rituais externos pode ter um apelo para um homem “vivendo no mundo”, mas é totalmente inconsistente com o crente que aceita a verdade de que ele morreu com Cristo. A identificação com a morte de Cristo o separou de tudo isso. Em um parêntese, Paulo explica que essas coisas não eram espirituais, mas carnais, e “hão de perecer pelo uso” (v. 22a – AIBB).
Como mencionado anteriormente, o asceticismo nega ao corpo certas coisas (comida, sono, conforto natural, etc.) para purificar o espírito humano e controlar a concupiscência, mas na realidade só gratifica a carne com o sentimento de ter agido naquilo que acha ser louvável. A orgulhosa natureza caída ganha certa satisfação em tentar manter o corpo controlado; uma pessoa pode se orgulhar do que sofreu. Em outro parêntese (na JND), Paulo explica isso, afirmando que essas coisas têm “certa aparência de sabedoria em culto voluntário e humildade e severidade para com o corpo” (v. 23 – TB). Depois de fechar o parêntese, ele diz que toda essa prática é apenas “para a satisfação da carne”. Apesar desse ar de pseudo-espiritualidade, milhares de monges provaram que essas coisas não controlam os prazeres da carne. Eles passaram fome, espancaram seus corpos e fizeram muitas promessas sinceras a Deus, etc., mas nenhuma quantidade de força de vontade e sofrimento físico mudou a mente carnal do homem. O Senhor ensinou isso a Nicodemos, dizendo: “O que é nascido da carne é carne” (Jo 3:6). Ou seja, a carne não muda no homem, independentemente de quantos mecanismos forem usados para alterar suas propensões. Depois de todas essas tentativas de reformar a carne terem sido feitas, permanece a mesma velha carne que sempre foi.
No capítulo 2:20-23, Paulo não descreve um homem que está se esforçando para se tornar morto. Isso é algo que não é ensinado na Escritura, mas lamentavelmente buscado por muitos crentes bem-intencionados. Eles dirão: “Temos que morrer para nós mesmos, para que Cristo possa viver em nós”. A verdade é que o Cristão está “morto com Cristo” (v. 20). Ele também está “morto para o pecado” (Rm 6:2) e “morto para a lei” (Rm 7:4). Tudo isso é resultado de sua identificação com a morte de Cristo. Portanto, o que é necessário não é um esforço de alguém para atingir a morte com Cristo por meio de práticas ascéticas, mas ter o poder do Espírito para agir sobre o fato de que morremos com ele. Isto é retomado em detalhes em Romanos 6-8.
O Efeito Prático de Ser Ressuscitado Com Cristo
Capítulo 3:1-4 – A contrapartida da identificação do crente com a morte de Cristo é a identificação do crente com a ressurreição de Cristo. Paulo aborda isso em seguida. No capítulo 2, ele mostrou que o efeito prático de nossa morte com Cristo nos desconecta do mundo, da sabedoria e da religião humanas. Ele agora mostra que o efeito prático de nossa identificação com a ressurreição de Cristo é nos associar com o mundo de Deus acima e com tudo o que está lá. Por isso, o capítulo 2:20-23 apresenta o lado negativo dessa grande verdade e o capítulo 3:1-4 dá o lado positivo. A grande diferença entre os dois é que, do lado positivo, temos um objeto diante de nós – Cristo.
Paulo diz: “Se (visto que), ressuscitastes com Cristo [o Cristo – JND], buscai as coisas que são de cima, onde Cristo [o Cristo – JND] está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da Terra. Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo [o Cristo – JND] em Deus”. Visto que é verdade que estamos identificados com Cristo em Sua ressurreição, devemos buscar as coisas que estão em Cristo nas alturas. Pode ser perguntado: “O que exatamente são ‘as coisas que são de cima’”? São as nossas bênçãos celestiais e privilégios que foram assegurados para nós pela morte, ressurreição e ascensão de Cristo. Em Cristo ressuscitado, fomos introduzidos em uma esfera de coisas totalmente nova que veio à existência por meio do Seu Ser glorificado e assentado à destra de Deus. Essas coisas não existiam enquanto Cristo estava na Terra.
F. B. Hole explicou o que significa “pensai nas coisas que são de cima”. Ele disse: “Colocamos nossas mentes nas coisas do alto, não repousando em poltronas e entregando-nos a sonhos e imaginações místicas quanto às coisas que podem estar no céu, mas colocando nossa mente supremamente sobre Cristo e buscando em todas as coisas a promoção dos interesses do céu. O embaixador britânico em Paris coloca sua mente nas coisas britânicas buscando pelos interesses britânicos nas circunstâncias francesas, e não permanecendo sentado para tentar relembrar como é o cenário britânico” (Paul’s Epistles, vol. 2, pág. 105-106). Assim, o Cristão cuja mente está fixada nas coisas celestiais está ocupado na Terra perseguindo os interesses celestiais de Cristo. Essas coisas seriam: pregando o evangelho, aprendendo e ensinando a verdade, pastoreando o povo de Deus, etc. A pessoa que está envolvida nisso tem colocado sua mente nas coisas de cima, porque esses interesses estão centrados em Cristo acima e têm seu objetivo final em Cristo acima.
É verdade que temos que suprir nossas necessidades temporais por meio de ocupação secular, mas não precisamos colocar nossas afeições nessas responsabilidades terrenas. O perigo para nós é sermos absorvidos pelas coisas terrenas. Daí vem a admoestação de Paulo para colocar nossa mente nas coisas de cima, e “não nas que são da Terra”. Ele acrescenta: “porque já estais mortos”. Ao dizer isso, Paulo não estava ensinando que o Cristão está morto para a natureza – isto é, para as coisas naturais desta criação. O crente está morto para o pecado e para o mundo, mas quando se trata de coisas naturais, Deus “abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos” (1 Tm 6:17). Portanto, são coisas carnais e mundanas na Terra para as quais o crente está morto, não coisas naturais.
Paulo então diz aos colossenses que eles não devem esperar que o mundo entenda sua busca pelas coisas celestiais, porque a vida do Cristão está “escondida com Cristo em Deus” (v. 3). De quem é esta vida escondida? Está escondida dos homens do mundo. Os homens deste mundo não entendem os Cristãos, no que diz respeito às nossas fontes e motivos internos. Eles não conseguem entender por que vivemos da maneira como vivemos e as coisas pelas quais vivemos – não faz sentido para eles. O homem incrédulo do mundo vive e se move e tem todos os seus pensamentos sobre as coisas temporais desta Terra; ele acha que todos deveriam fazer o que ele faz. Quando ele vê um Cristão “marchando ao ritmo de um tambor diferente”, é um total enigma para ele.
Ter uma vida oculta com Cristo no sentido em que Paulo fala aqui não significa que nos escondemos do mundo literalmente. Ficar enclausurados em nossas moradias e, como monges, vivermos uma vida isolada seria contraproducente para nosso testemunho Cristão. Pelo contrário, o povo de Deus deve ser “a luz do mundo” e como “uma cidade edificada sobre um monte” que “não se pode esconder” e, portanto, deve ser um testemunho claro e brilhante perante o mundo (Mt 5:14). O principal direcionamento desta epístola aos colossenses é fazer com que os santos se movam juntos na Terra de tal maneira que haja uma manifestação diante do mundo da verdade do Mistério, que é: “Cristo em vós, a esperança da glória” (cap. 1:27).
Paulo conclui dizendo: “Quando Cristo que é a nossa vida, Se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória” (v. 4). Ele traz isto para mostrar que há um dia se aproximando quando Cristo e a Igreja serão manifestados diante do mundo inteiro (2 Ts 1:10), e nesse momento será revelado diante de todos o que a fé levou os crentes a fazer no dia de hoje. A revelação daquele dia explicará para o que temos vivido no dia de hoje (Jo 17:23). Da mesma forma, Paulo tinha apenas dois dias diante dele em sua vida e serviço: “dia de hoje” (At 20:26) e “aquele dia” (2 Tm 1:12, 18, 4:8). Ele viveu sua vida neste presente dia da graça em vista do dia da manifestação – e também devemos faze o mesmo.
Uma Mudança de Caráter
Vs. 5-17 – Ser introduzido na vida acima com Cristo exige que nossa velha vida, que uma vez vivemos em nossos dias antes da conversão, vá embora. A razão é simples: as duas não podem continuar juntas na vida de um Cristão. Assim, o que se segue neste terceiro capítulo é o exercício de despir-se do caráter da velha vida e vestir-se do caráter da nova, de modo que o objetivo divino de ter uma reprodução de Cristo manifestada nos santos seria alcançado (cap. 1:27).
O Velho Homem
Assim, nesta próxima série de versículos, Paulo faz uma aplicação prática referente a essa mudança de caráter baseada no “velho homem” (v. 9) e no “novo homem” (v. 10). Este é um assunto que não é bem entendido. Esses dois termos não se referem à carne e à nova natureza, como normalmente se pensa, mas são expressões abstratas que indicam o estado corrupto da raça caída de Adão e a nova ordem moral na raça da nova criação sob Cristo. O velho homem não se refere a Adão pessoalmente, mas ao que é característico da raça caída da qual ele é a cabeça. É a corporificação de cada característica horrenda e pecaminosa que marca aquela raça. Para se enxergar o velho homem adequadamente, devemos olhar para a raça como um todo, pois é improvável que qualquer pessoa seja marcada por todos os aspectos que caracterizam esse estado corrupto. Por exemplo, uma pessoa pode ser caracterizada por ser colérica e enganadora, mas pode não ser imoral. Outra pessoa pode não ser conhecida por perder a paciência, nem por ser trapaceira, mas é terrivelmente imoral. No entanto, considerando a raça como um todo, vemos uma personificação de todas as horrorosas características que compõem o velho homem.
Esse estado corrupto foi condenado por Deus na cruz (Rm 6:6, 8:3) e é algo que é deixado de lado pelo crente quando ele é salvo. Ele pode não estar consciente de o ter feito à época, mas ao tomar a posição Cristã, o crente, por sua profissão de fé, dissocia-se daquele estado corrupto, pois aquilo não faz parte do que constitui um Cristão. Portanto, como Cristãos, não estamos mais associados a esse antigo estado corrupto. Este despir-se é afirmado no tempo verbal aoristo5 no grego, que se refere a ter feito isso de uma vez por todas. A versão King James e as em português equivocadamente apresentam Efésios 4:22 como uma exortação, fazendo do despir-se do velho homem algo que devamos fazer em nossas vidas diariamente. Mas a passagem deveria dizer: “havendo se despido conforme o comportamento anterior, do velho homem ...” (JND) Isso mostra que o despir-se do velho homem é algo que já foi feito na vida do crente e que as exortações seguintes dirigidas a ele na passagem são baseadas nesse fato.
Como mencionado, o “homem velho” é frequentemente confundido com a velha natureza (a carne). Este é um equívoco generalizado entre os Cristãos. Eles dirão coisas como: “O velho homem em nós deseja coisas que são pecaminosas”. Ou: “Nosso velho homem quer fazer esta ou aquela coisa má”. Essas afirmações estão confundindo o velho homem com a carne. A Escritura não usa o termo dessa maneira. J. N. Darby observou: “O velho homem está habitualmente sendo usado para a carne incorretamente” (Food for the Flock, vol. 2, pág. 286). Uma diferença é que o velho homem nunca é dito estar em nós, enquanto a carne certamente é. F. G. Patterson disse: “Nem eu acho que a Escritura nos permitirá dizer que temos o velho homem em nós – enquanto ensina da maneira mais plena que temos a carne em nós” (A Chosen Vessel, pág. 51). Portanto, não é correto se referir ao velho homem como algo que vive em nós com apetites, desejos e emoções, assim como a carne. H. C. B. G. disse: “Eu sei o que significa um Cristão que perde a paciência e diz que é ‘o velho homem’, mas a expressão está errada. Se ele dissesse que era ‘a carne’, ele teria sido mais correto” (Food for the Flock, vol. 2, pág. 287). Além disso, se o velho homem fosse a carne, então Efésios 4:22-23 (na KJV e nas versões em português) estaria nos dizendo que precisamos nos despir da carne! Isso é algo que nenhum Cristão pode fazer enquanto vive neste mundo. Isso não vai acontecer até que morramos ou quando o Senhor vier.
Portanto, não há exortações na Escritura para se despir do velho homem. Há, no entanto, exortações para se despir das coisas que caracterizam o velho homem. Assim, Paulo diz: “Mortificai [Colocai na morte – JND], pois, os vossos membros que estão sobre a Terra: a fornicação, a imundícia, a paixão [vil], a má concupiscência e a avareza, que é idolatria” (v. 5 – TB). Essas mais grosseiras manifestações da carne eram comuns no mundo pagão, mas não têm lugar na vida Cristã. O fato de que há uma exortação desse tipo para os crentes mostra que quando uma pessoa é convertida, sua antiga natureza pecaminosa não é erradicada.
Os Cristãos não são chamados a “mortificar” seus corpos, mas antes a mortificar “as obras” da carne que se manifestam em seus corpos (Rm 8:13). Ao usar a palavra “mortificar [colocar na morte – JND]”, vemos a necessidade de lidar com esses pecados severamente. F. B. Hole disse: “Colocar à morte é uma expressão forte e enérgica. Nossa tendência é negociar com essas coisas, e às vezes até brincar com elas e fazer provisões para elas. Nossa segurança, no entanto, está numa ação de forma implacável. Com espada à mão, por assim dizer, devemos nos encontrar com elas sem qualquer ideia de mostrar-lhe misericórdia. Antes, deveríamos encontrá-las da mesma maneira de Samuel ao despedaçar Agague perante o Senhor” (Paul’s Epistles, vol. 2, pág. 106). Usando novamente o ensinamento típico na jornada de Israel à Canaã, o que é descrito aqui em Colossenses 3, corresponde a Gilgal – o lugar onde Israel cortou sua carne pela circuncisão (Js 5). Isso tipifica o exercício do crente de cortar as manifestações da carne por meio do julgamento próprio.
Note também que Paulo não estava falando de mortificar os “membros” de nossos corpos literalmente – o desmembramento de nossas mãos, pés, etc. Ele estava usando a palavra de maneira figurativa para descrever o exercício de julgar a carne e mantê-la no lugar de morte para que essas coisas corruptas não se manifestassem em nossos membros. Mortificar nossos membros não é feito com resoluções, jejuns, privando o corpo de confortos naturais, etc. Nunca nos é dito para nos crucificarmos ou lutarmos contra a carne para mantê-la na linha – essas coisas levam à derrota. Nós devemos colocar estas coisas na morte assim que sejam concebidas (Tg 1:15).
Entre esses horríveis distúrbios morais, Paulo menciona “avareza, que é idolatria”. A avareza é permitir que o desejo por algo tenha um lugar indevido em nossos corações que desloca Deus, e qualquer coisa que desloque Deus em nossas afeições é um ídolo.
Vs. 6-7 – Os homens acham que podem cometer esses pecados e escapar do julgamento de Deus, mas Paulo diz que “vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência”, que sentem prazer nesses pecados. Este julgamento é governamental (enquanto vivem neste mundo) e eterno (quando saem deste mundo).
Vs. 8-9 – Mas há outras coisas, além daquelas mencionadas no versículo 5, que são do velho homem e que também devemos nos despir delas. Paulo diz: “Mas agora despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência [blasfêmia – JND], das palavras torpes da vossa boca. Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos”. Outra vez, “despojar” está no tempo verbal aoristo do grego. Nós uma vez vivemos envolvidos nessas coisas como uma roupa vestida sobre nós. Quando os homens olhavam para nós, era isso que eles viam – uma “roupa manchada da carne” (Jd 23). Ao sermos salvos, isso não deve ser visto nunca mais. Assim, a roupa antiga deve ser despida, e essa é a essência da exortação de Paulo aqui. Vamos repetir: o exercício não é despir o velho homem – isso já foi feito – mas despir o caráter pecaminoso do velho homem.
O Novo Homem
Vs. 10-15 – Tendo declarado o lado negativo das coisas, Paulo continua a dar o lado positivo em conexão com o novo homem. Ele diz: “tendo colocado o novo (homem), renovado para o pleno conhecimento de acordo com a imagem daqu’Ele que o criou, onde não há grego e judeu, circuncisão e incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; mas Cristo é tudo e em todos” (JND). Assim como o despir do velho homem, o vestir do novo homem é uma coisa que foi feita quando uma pessoa assumiu a posição Cristã. As exortações práticas que se seguem nos versículos 12-15 baseiam-se neste fato.
O “novo homem”, como o velho homem, é um termo abstrato. Indica a perfeição moral na raça da nova criação sob Cristo. Enquanto o velho homem é caracterizado por ser “corrupto” e “enganoso”, o novo homem é caracterizado por “justiça” e “santidade” (Ef 4:22-24). O novo homem foi visto pela primeira vez “em Jesus” (Ef 4:21). Isto é, os homens viram pela primeira vez essa perfeição moral quando o Senhor Jesus andou aqui neste mundo. (“Jesus” é o nome de Sua Humanidade.) Assim como o velho homem não é Adão pessoalmente, o novo homem não é Cristo pessoalmente. G. Davison disse: “O novo homem não é Cristo pessoalmente, mas é Cristo caracteristicamente” (Precious Things, vol. 3, pág. 260). Como mencionado anteriormente, o novo homem é frequentemente confundido com a nova vida e a nova natureza no crente. As pessoas dirão erroneamente: “O novo homem em nós precisa se alimentar de Cristo”. Ou: “Nosso novo homem precisa de um Objeto – Cristo”. Seria mais correto dizer que a nova vida em nós precisa se alimentar de Cristo.
V. 11 - Paulo menciona quatro coisas que marcam a antiga ordem de criação que não fazem parte da nova ordem de criação:
- “grego e judeu” – sem distinções nacionais.
- “circuncisão e incircuncisão” – sem distinções religiosas.
- “bárbaro, cita” – sem distinção intelectual.
- “servo nem livre” – sem distinções sociais.
Assim, as distinções de raça, religião, cultura e classe são todas superadas na nova posição do crente em Cristo, a Cabeça da nova criação. Acrescentando, “Cristo é todas as coisas e em todos” (JND), Paulo estava indicando que tudo na nova ordem de vida em Cristo toma o caráter d’Ele, pois Ele é a Cabeça da nova raça (Ap 3:14). Ele é “tudo e em todas as coisas” (Cl 3:11 – TB).
Cristo Visto no Crente
Vs. 12-15 – Passando à aplicação prática disso, Paulo diz: “Revesti-vos pois [Vesti pois – JND], como eleitos de Deus, santos, e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade. Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro: assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de caridade [acrescentai o amor – JND], que é o vínculo da perfeição. E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos”. Isso mostra que, desde que nos vestimos do novo homem, nossa vida deve manifestar isso praticamente. Assim, outra veste, por assim dizer, é para ser vestida a qual manifesta o caráter do novo homem. Essa mudança de caráter é ilustrada tipicamente em Elias e Eliseu. Elias é um tipo do Cristo que foi elevado ao céu e Eliseu é um tipo do crente. Os filhos dos profetas disseram sobre Eliseu: “O espírito de Elias repousa sobre Eliseu” (2 Rs 2:15). Ele havia rasgado suas próprias vestes e colocado as vestes de Elias, e ao fazê-lo, não teve mais uso para o manto velho, por isso foi deixado de lado.
“Santos e amados” é o que os santos são diante de Deus. Paulo então lista dez características morais do novo homem, que é como os santos devem ser vistos diante do mundo. Essas coisas são as características morais de Cristo. Quando elas são vistas nos santos enquanto se movem juntos, coletivamente, a verdade de “Cristo em vós, a esperança da glória” será exibida diante do mundo (cap. 1:27):
- “Compaixão” (Mt 14:14; Mc 1:41).
- “Bondade” (Ef 4:32).
- “Humildade” (Mt 11:29).
- “Mansidão” (Mt 11:29).
- “Longanimidade” (Hb 12:3).
- “Paciência” (Mt 26:63; Jo 19:9).
- “Perdão” (Lc 23:34).
- “Amor” (Jo 13:1).
- “Paz” (Jo 14:27).
- “Gratidão” (Mt 11:25).
Em meio a todos esses traços maravilhosos de Cristo, Paulo diz: “E, sobre tudo isto, revesti-vos de caridade [acrescentai o amor – JND], que é o vínculo da perfeição” (v. 14). Este é o cinto, por assim dizer, que mantém a nova vestimenta no lugar.
Nós podemos ver porque essa passagem tem sido frequentemente chamada de “o Vestiário do Cristão”. Ela tem a ver com mudança de caráter. Como mencionado, é o antítipo de Israel circuncidando-se em Gilgal. Ao fazê-lo, o Senhor tirou “o opróbrio do Egito” de sobre eles (Js 5:9). Da mesma forma, quando uma pessoa vem a Cristo pela primeira vez, ele carrega as marcas de sua vida no mundo, das quais o Egito é um tipo. Mas, ao passar pelo exercício deste capítulo de despir aquela roupa velha e vestir a nova, ele não é mais marcado pelas coisas de sua antiga vida. A vergonha e a reprovação acabaram porque houve uma mudança de caráter.
Como o novo homem é conformado segundo “a imagem daqu’Ele que o criou”, sendo parte da raça da nova criação, somos plenamente capazes de representar a Deus neste mundo.
O Poder Espiritual Para Agir de Acordo com a Verdade
Vs. 16-17 – Paulo nos exortou a vestir as características morais do novo homem, mas a questão é: “Como?” Ele continua abordando isso a seguir. Alguns dirão que devemos cultivar as graças Cristãs fazendo um esforço para agir como Cristo em todas as situações da vida. No entanto, Paulo não indica que essas coisas são colocadas por qualquer esforço consciente do crente. Antes, ele diz: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais; cantando ao Senhor com graça em vosso coração E, (tudo) quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus Pai”. Ele fala de duas coisas aqui: a necessidade de nos enchermos com as coisas de Cristo pelas várias maneiras que Paulo estabelece, e estarmos engajados com as coisas da vida que podem ser feitas para a glória de Cristo. Quando estamos ocupados com essas coisas, as características morais de Cristo serão formadas em nós pelo Espírito com bastante naturalidade (2 Co 3:18). Da mesma forma, uma árvore produz frutos como resultado natural do sistema radicular absorvendo água e nutrientes do solo. É verdade que devemos nos exercitar “na piedade” (1 Tm 4:7 – TB), mas isso é feito agindo sobre o próprio princípio que Paulo aborda aqui – estando cheio das coisas de Cristo. A atual produção de “fruto” se dá em nós pelo Espírito quando estamos ocupados com Cristo e Seus interesses (Gl 5:22-25).
“A Palavra de o Cristo” (JND) é a verdade que pertence especificamente a Cristo e à Igreja. Isto é indicado na expressão “o Cristo” que denota a união mística da Cabeça com os membros do corpo (1 Co 12:12-13). “Sabedoria, ensino e admoestação” são instruções específicas relativas à colocação dessa verdade em prática.
“Salmos, hinos, cânticos espirituais” são três tipos de composições Cristãs que expressam pensamentos e sentimentos espirituais em relação ao Senhor, à verdade e ao caminho em que trilhamos. “Salmos” não são, como alguns pensam, os Salmos do Velho Testamento. Estas são composições baseadas em experiências Cristãs pelas quais os santos passaram, caminhando com o Senhor. Se fossem os salmos do Velho Testamento, o Espírito de Deus teria acrescentado o artigo “os” como em Lc 24:446 e At 13:33. Os Salmos do Velho Testamento são composições judaicas expressando sentimentos e experiências judaicas; elas não têm um caráter Cristão e não transmitem adequadamente o conhecimento e sentimento Cristão. Por exemplo, o nome do Pai, que é característico do Cristianismo, não é conhecido neles. Portanto, a vida eterna não está em vista nos Salmos (Jo 17:3). Além disso, o conhecimento da obra consumada de Cristo não é conhecido pelos escritores dos Salmos, nem a aceitação do crente em Cristo diante de Deus por meio da habitação do Espírito. Os Salmos do Velho Testamento não retratam os sentimentos de quem tem uma consciência purificada e conhece a paz com Deus. Consequentemente, eles são compostos com um elemento de medo do julgamento de Deus, mesmo que eles tenham fé. Além disso, a esperança nos Salmos não é o céu, mas viver na Terra no reino do Messias de Israel (Sl 25:13, 37:9, 11, 29, 34, etc.). A adoração é também de uma ordem judaica em um templo terrestre. O lugar da adoração de um Cristão dentro do véu é totalmente desconhecido. Além disso, o clamor em muitas das orações nos Salmos é por vingança contra seus inimigos, que não é a atitude de um Cristão que abençoa aqueles que o amaldiçoam e ora por aqueles que os tratam injustamente. Os Cristãos podem lê-los e obter um entendimento das circunstâncias do remanescente judaico na Tribulação vindoura, e obter neles conhecimento dos princípios morais de Deus que são aplicáveis aos santos de todas as épocas, e assim receber consolo e esperança em suas circunstâncias da vida.
“Hinos” são composições que expressam adoração e se dirigem diretamente a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo. Estes podem tomar a forma de orações. “Canções espirituais” são composições que contêm verdades espirituais de acordo com a revelação Cristã pelas quais somos instruídos e exortados no caminho Cristão. Eles podem estar na forma de “ensino” a nós sobre algum aspecto da verdade do Novo Testamento, ou de “admoestação” quanto a algum ponto prático da vida Cristã.
Quando estamos imersos nessas coisas espirituais que têm a ver com Cristo, o poder do Espírito será evidente em nossa vida, e Cristo será visto em nós.