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A Epístola de Paulo aos Efésios

A Maneira de Deus em Fazer Conhecido o Mistério pelo Apóstolo Paulo (Capítulo 3)

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 6 de 14

A Maneira de Deus em Fazer Conhecido o Mistério pelo Apóstolo Paulo
(Capítulo 3)

Neste capítulo temos um importante parêntese entre a verdade doutrinal da epístola (caps. 1-2) e suas exortações práticas (caps. 4-6). Neste capítulo o apóstolo estabelece sua autoridade para ensinar o “mistério de Cristo”. Paulo sabia que os judeus teriam alguns sérios equívocos com o que ele estava ensinando. Então ele se desvia do assunto num parênteses para explicar a verdade do Mistério mais detalhadamente, e também para dar o caráter peculiar de sua missão em trazê-lo aos santos. Seu propósito aqui era o de esclarecer alguns dos equívocos que os judeus iriam naturalmente ter com a sua doutrina.

Até agora na epístola Paulo falou de algo novo que Deus estava fazendo ao formar a Igreja de Deus, na qual não há judeu nem gentio (cap. 2:14-16). Ele também ensinou que aqueles que têm parte nesta nova companhia de crentes estão em uma posição diante de Deus que é superior à dos santos do Velho Testamento – estar no lugar do próprio Filho (cap. 1:4-6). E que a grande maioria desses crentes é gentia! Isto, compreensivelmente, era um potencial tropeço aos judeus. Eles tinham seus pensamentos e sentimentos formados nas Escrituras do Velho Testamento, que prometiam que seu Messias reinaria na Terra sobre Israel, com as nações gentias sujeitas a eles. O que Paulo estava ensinando parecia colocar de lado tudo o que as Escrituras do Velho Testamento antecipavam.

Parecia que ele estava falando depreciativamente dos dignitários do Velho Testamento, tais como: Abraão, Isaque e Jacó, etc. Quão inconcebível isso era em suas mentes de que Paulo pensasse que os gentios poderiam ter um lugar diante de Deus maior que o de Abraão! E, se tudo isso fosse verdade, o que seria agora das promessas? Estavam anuladas e invalidadas? Para a mente judaica, mergulhada em esperanças judaicas, parecia que Paulo era um renegado que estava ensinando coisas que eram claramente contrárias às Escrituras.

As distinções de judeus e gentios sendo colocadas à parte na Igreja (Gl 3:28, 6:15; Cl 3:11) eram demais para o judeu legalista.

A verdade que Paulo ensinou era particularmente odiosa para os judeus porque os colocava no mesmo terreno com os gentios quanto à necessidade de salvação (At 15:11). Isto tocava no seu orgulho nacional. Como resultado, eles se tornaram os principais antagonistas de Paulo em sua proclamação do Mistério. Era como se eles dissessem para Paulo, “Se você continuar ensinando que gentios vão ter um lugar no céu melhor do que o de Abraão, Isaac, e Jacó, vamos te matar!” Na estimativa deles, alguém que fosse aos gentios proclamando tais coisas não era digno de viver (At 22:21-22). Os judeus tiveram sucesso em fazer exatamente isso ao colocarem os Romanos contra Paulo os quais, finalmente, o mataram. Se Paulo tivesse pregado um evangelho que desse aos gentios um lugar inferior de bênção do que o dos judeus, ele não teria sido tão amargamente atacado.

Os judeus precisavam entender que os ensinamentos de Paulo de maneira alguma contrariavam as promessas de Deus para Israel. Todas aquelas promessas seriam cumpridas quando seu Messias viesse para reinar no mundo vindouro. No presente, a nação de Israel foi temporariamente colocada de lado nos caminhos de Deus por causa da sua rejeição de Cristo, seu Messias. As suas próprias Escrituras ensinam que haveria uma suspensão em Seus tratamentos com eles por essa causa (Sl 69:1-28; Dn 9:26; Mq 5:1-3; Zc 11:4-14, etc.). Deus não Se esqueceu de Israel e retomará com eles num dia futuro para trazê-los à bênção, em conformidade com as promessas do Velho Testamento. O que Paulo estava ensinando não colocava nem um pouco de lado aquela esperança. Ele estava ensinando que, nesse meio tempo, enquanto estivesse havendo uma pausa ou suspensão nos tratamentos de Deus com a nação, Deus chamaria crentes pelo evangelho de entre os judeus e os gentios, para formar uma nova companhia (a Igreja), a qual teria bênçãos celestiais e um destino celestial com Cristo, quando Ele reinar em Seu reino num dia vindouro. Isso não contraria o plano de Deus para abençoar Israel como Ele prometeu. A chave para entender isso é perceber que Deus não está substituindo as promessas a Israel pelo chamado da Igreja – uma doutrina errônea chamada “Teologia da Substituição”. Nem Ele está instituindo o chamado da Igreja para glória celestial e o chamado de Israel para bênção milenar na Terra ao mesmo tempo. O chamado de Israel está agora em suspenção, enquanto o chamado celestial da Igreja está acontecendo (Rm 11). Isso exigiu algumas explicações adicionais, daí a necessidade dessa mudança no assunto.

A Autoridade de Paulo para Ensinar a Verdade do Mistério

Cap. 3:1-6 – O capítulo começa com Paulo falando do preço que pagou para trazer a verdade do “mistério” aos gentios. O efeito imediato de ministrar isso trouxe a ele a censura do mundo religioso, que resultou em sua prisão. Mesmo estando encarcerado, ele não se denominou o prisioneiro de Nero (o imperador Romano); ele se viu como “o prisioneiro de Jesus Cristo” (v. 1). Isto expressa uma dignidade em conexão com seus sofrimentos e mostra que ele entendia a importância das doutrinas que ensinava e que seus sofrimentos eram inevitáveis.

A principal objeção que os judeus tinham com o ensinamento de Paulo era que ele não tinha Escritura para sustentá-lo. E nisso eles estavam certos! A verdade do Mistério não está nas Escrituras do Velho Testamento; foi uma revelação de Deus completamente nova.

E assim, em um parêntese (vs. 2-21), Paulo explica onde obteve a verdade do Mistério – Deus deu isto “aos Seus santos apóstolos e profetas” por “revelação” (vs. 3-5). Esta era a sua autoridade para ensiná-lo. “Noutros séculos” isso “não foi manifestado aos filhos dos homens” (v. 5), mas “esteve oculto em Deus” (Ef 3:9; Rm 16:25; Cl 1:26). Se os judeus considerassem isso usando a lógica, não teriam tido dificuldade com esta explicação, uma vez que Moisés também não pode apresentar Escrituras para apoiar as revelações que Deus lhe deu, quando Ele introduziu o velho pacto, o qual deu a base a tudo que eles acreditavam. Foi também algo inteiramente novo quando Moisés o trouxe para Israel.

O fato de que esta verdade foi revelada “pelo Espírito aos Seus santos apóstolos e profetas” mostra que não era alguma interpretação particular de Paulo – estas revelações também tinham sido dadas aos outros apóstolos e profetas (v. 5). Embora tenha sido revelada para eles, não foi anunciada por eles. Era a comissão especial de Paulo trazer esta verdade celestial aos santos. Ele é o único escritor do Novo Testamento usado por Deus para fazer conhecida essa grande verdade.

O Caráter Peculiar de Bênção que o Evangelho da Graça de Deus Apresenta

Paulo continua explicando que o que Deus está agora fazendo, no chamado do evangelho, é algo totalmente diferente do que foi ensinado pelos profetas do Velho Testamento, a respeito da bênção dos gentios. No versículo 6 ele menciona três coisas exclusivas que caracterizam o presente chamado de Deus, em graça, pelo evangelho:

Em primeiro lugar, o versículo 6 diz: “Que os gentios são co-herdeiros”. Esta citação da KJV (N. do T.: e das em português também) infelizmente não é a melhor tradução. Uma mais precisa interpretação seria: “Que os que são de (entre) as nações são co-herdeiros” (JND). Esse presente chamado de Deus pelo evangelho não é a introdução de toda a massa das nações gentias a Jeová, como anunciado no Velho Testamento, pelo qual eles teriam um lugar sob Israel, no reino do Messias (Zc 2:11, 8:22-23; Is 11:10, 14:1, 56:3-7, 60:1-5; Sl 22:27, 47:9, 72:10-11). Isso é uma conversão exterior das nações gentias quando virem Cristo na glória do Seu reino. Eles se unirão em submissão ao Deus de Israel pelo temor do julgamento; não haverá, necessariamente, uma obra de fé nos seus corações (Sl 18:44-47, 66:1-3, 68:28-31; Is 60:14), embora que muitos serão verdadeiros (Ap 7:9-10). Portanto o que Paulo estava anunciando era o chamado especial dos eleitos para “fora”, de entre as nações, os quais têm sido predestinados por Deus para compartilhar um lugar com Cristo, em Seu corpo. Portanto ele fala, “Que os que são das nações são co-herdeiros” (JND). Assim isso era “a conversão daqueles das nações” (At 15:3 – JND). Não era a conversão das nações como um todo, a qual, como temos dito, acontecerá no futuro. No presente chamado do evangelho, Deus está visitando os gentios para “tomar deles um povo para o Seu nome” (At 15:14). Ele também está tirando alguns crentes judeus para “fora” do seu lugar anterior, na nação de Israel, com o mesmo propósito. Paulo era um exemplo disso. O Senhor disse a ele, “levando-te para fora de entre o povo [Israel]...” (At 26:17 – JND).

Este movimento em graça para com os judeus e os gentios com o evangelho é uma coisa inteiramente nova nos caminhos de Deus. Isto não tinha sido revelado nos tempos do Velho Testamento.

Judeus e gentios, como entidades nacionais distintas, ainda permanecem na Terra hoje enquanto o chamado do evangelho é pregado, e eles continuarão a existir no dia vindouro.

Mas agora há também uma terceira entidade – “a Igreja de Deus” (1 Co 10:32). Isto é algo distinto e separado dos outros dois, e não deveria ser confundida com eles. Por isso, nesta presente Dispensação da Graça, Deus está chamando judeus e gentios crentes para fora das suas posições anteriores e trazendo-os para dentro de algo novo – a Igreja. O próprio significado da palavra Igreja (“Ekklesia” em grego) é, “os chamados para fora”. Isto muito apropriadamente expressa este chamado especial pelo evangelho hoje. Crentes de entre os judeus e gentios estão, “de antemão”, crendo (cap. 1:12-13 – ARA) antes do dia, quando o remanescente de Israel e as nações dos gentios serão trazidos a Deus.

Em segundo lugar, versículo 6 indica que crentes de entre os gentios seriam formados em um “corpo-conjunto” (JND) com crentes de entre os judeus. O Mistério revela que judeus e gentios, que creem no evangelho, são formados num organismo vivo (um corpo-conjunto), que funcionaria para o gozo de Deus, no qual a mesma vida e as características do próprio Filho de Deus seriam manifestadas. Este “um só corpo” seria o resultado do Espírito de Deus habitando nesses crentes e os ligando juntos a Cristo – a Cabeça no céu (1 Co 12:13). O corpo de Cristo é algo inteiramente novo que Deus está formando e não é encontrado no Velho Testamento. Cristo reinará sobre Israel e as nações gentias (Sl 93:1; Is 32:1), mas em lugar algum é dito que Ele reina sobre a Igreja, a qual é Seu corpo.

Em terceiro lugar, esta companhia de judeus e gentios crentes são “co-participantes da promessa em Cristo Jesus” (TB). Esta promessa não tem conexão com aquela que foi feita aos patriarcas, nos tempos do Velho Testamento. Aquelas promessas feitas a Abraão, Isaac e Jacó foram dadas durante suas vidas, mas esta promessa foi feita “antes dos tempos dos séculos” (2 Tm 1:9; Tt 1:2). Esta é a promessa de “vida eterna”, que é distintamente uma bênção do Novo Testamento. Vida eterna, que é ter um relacionamento consciente com o Pai e o Filho (Jo 17:3), não era conhecida pelos santos do Velho Testamento. Os santos do Velho Testamento não sabiam do relacionamento do Pai e o Filho na Divindade, e somente esperavam ansiosamente viver para sempre na Terra, sob um Messias reinando. (Sl 133:3; Dn 12:2). Vida eterna é um caráter especial de vida, que o Pai e Filho gozavam na eternidade passada, à qual Cristãos têm sido introduzidos por meio da habitação do Espírito. (Jo 4:14). Foi vista primeiramente quando Cristo veio ao mundo e manifestou a vida eterna, que antes estava “com o Pai” no céu (1 Jo 1:2).

Vemos destas três coisas que o que Paulo estava ensinando era algo completamente diferente das promessas feitas aos pais. Não era um cumprimento de alguma maneira das profecias do Velho Testamento – isso é o erro da Teologia do Pacto. Como mencionado, a introdução desse chamado celestial da Igreja não interfere com o plano de Deus para abençoar Israel na Terra com os gentios debaixo deles, durante o reinado do seu Messias. A conversão em massa dos gentios acontecerá num dia vindouro, mas a conversão daqueles de entre os gentios está acontecendo hoje pelo chamado do evangelho.

Ao dizer que estas coisas divulgadas no Mistério relativo à Igreja são nossas “pelo evangelho” (v. 6), aprendemos que a verdade do evangelho e a verdade da assembleia estão ligadas. Assim, toda obra do evangelho deve ser conduzida tendo em vista a assembleia. No evangelho apresentamos Cristo, o Salvador; ao ensinar a verdade da Igreja apresentamos Cristo, o Centro. Ambos estão intimamente ligados. Deus deseja que quando uma pessoa é salva, seja encontrada, daí em diante, funcionando no corpo como Deus a colocou.

As grandes pedras, que eram trazidas com o propósito de construção do templo, ilustram isso. Elas não eram somente cortadas do lugar onde eram encontradas (1 Rs 5), mas elas eram trazidas ao lugar do templo e colocadas para dentro da casa (1 Rs 6). Apenas extrair as pedras da pedreira não era um fim em si mesmo. Semelhantemente, as pedras vivas, que compõem a casa de Deus hoje – a Igreja (1 Tm 3:15), têm sido salvas com o propósito de atuarem na Sua casa para a Sua glória. Mais tarde nesta epístola Paulo fala dessa conexão novamente (cap. 4:11-16). Os “evangelistas” eram para trabalhar com os “pastores e mestres” com vista à “edificação do corpo de Cristo”. Querendo que almas sejam salvas sem vê-las atuar no seu lugar no corpo está aquém do propósito de Deus para elas. O propósito do evangelho é trazer para dentro o material que irá compor a Igreja.

A Responsabilidade de Paulo em Fazer o Mistério Conhecido

Cap. 3:7-13 – Conhecendo estas coisas maravilhosas e entendendo que Deus o tinha escolhido para comunicá-las aos santos não fez Paulo se orgulhar de si mesmo. Muito pelo contrário, isto o humilhou. Ele se enxergou como “o menor de todos os santos”. Isto mostra o efeito apropriado que a verdade devia ter em nós – devia tirar nosso orgulho imediatamente. Ousamos dizer que Deus pode usar um homem como aquele; e é exatamente o que Deus fez com Paulo.

Já que foram dadas a Paulo estas revelações especiais a respeito do Mistério, ele se preocupava em fazê-las conhecidas. Ele não estava satisfeito em conhecer isso pessoalmente; ele queria que todos as soubessem. Ele fala de sua dupla comissão em espalhar a verdade: primeiro, de “anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo”, e segundo, “para iluminar a todos com o conhecimento do que é a administração do mistério” (vs. 8-9 – JND). Veja também Romanos 16:25 e Colossenses 1:23-28.

Resumindo: Paulo tinha uma comissão do Senhor, para pregar e ensinar. (1 Tm 2:7; 2 Tm 1:11).

  • As “riquezas incompreensíveis de Cristo” referem-se às muitas bênçãos individuais que são nossas em Cristo. Antes de serem reveladas, elas eram incompreensíveis pelo homem (1 Co 2:9; 1 Pe 1:11-12).
  • “O mistério” divulga a verdade corporativa da assembleia, sendo o corpo e a noiva de Cristo.

 

Duas Administrações de Cristo em Efésios

No versículo 9 temos a segunda das duas administrações de Cristo na epístola. A primeira é uma futura administração no mundo vindouro (cap. 1:10); A segunda é a presente administração do Mistério (cap. 3:9). Como Cabeça da Igreja e seu Administrador e Construtor Mestre, Ele está agora conduzindo as operações que dizem respeito à sua construção. O Senhor disse: “Edificarei a Minha Igreja” (Mt 16:18). Como Salomão construiu o templo usando seus trabalhadores, assim também Cristo, pelo Espírito, está construindo a Igreja, e os membros do Seu corpo são acionados na obra. Ele está enviando Seus evangelistas na obra do evangelho para trazer o material (crentes judeus e gentios), e Ele está usando Seus pastores e mestres para edificar aqueles novos convertidos na mais santíssima fé, e para mostrar-lhes como andar de uma maneira digna da vocação com que foram chamados.

A grande preocupação de Paulo era de “iluminar tudo com o conhecimento” (JND) desta presente administração, para que eles pudessem se conformar apropriadamente com o que Deus está fazendo neste tempo presente. Isto incluiria a prática e o funcionamento ordenados da assembleia na Terra. A palavra “todos” (ARC) no versículo 9 não corresponde ao texto grego e torna o ponto de Paulo, no versículo, muito limitado. A iluminação destas coisas se estende para “toda” a criação – incluindo seres angélicos, como o versículo 10 indica. Estes exaltados seres espirituais nunca viram qualquer coisa igual a isso antes. Eles testemunharam a criação levantar e se expandir perante seus olhos. Viram as maneiras de Deus em outras eras e observaram Suas tratativas com homens no governo, providência, e misericórdia, mas isto é algo completamente novo para eles. Não somente eles estão aprendendo da graça de Deus no chamado da Igreja, mas por observação cuidadosa, eles estão aprendendo daqueles na Igreja que são governados pelo Espírito de Deus e pela Palavra de Deus, quando estão reunidos juntos para adoração e ministério (1 Co 11:10; 1 Pe 1:12).

Paulo não entra em detalhes da ordem prática da Assembleia aqui (que são encontrados em 1 e 2 Coríntios, 1 Timóteo e Tito), mas ele passa a nos contar que o “propósito” de Deus é que todos aprendam “a multiforme sabedoria de Deus” pela presente administração de Cristo. Infelizmente, a Igreja, como um todo, tem falhado em apreender isso e não está agindo sob a direção da Cabeça, de uma maneira peculiar. Como resultado, muitos Cristãos são encontrados fazendo coisas no seu serviço ao Senhor e que não estão de acordo com a verdade do Mistério. Apesar disso, pelo poder de governo de Deus o grande “eterno propósito” está sendo levado a efeito “em Cristo Jesus nosso Senhor” (v. 11).

Oração de Paulo para que os Santos Possam Conhecer o Coração do Abençoador e Serem Confirmados com a Plenitude de Deus

Cap. 3:14-21 – É a intenção de Deus que a verdade do Mistério produzisse um comportamento prático em nossas vidas, como visto nas exortações nos capítulos 4-6. Porém, antes de sermos exortados a andar como é digno dessa elevada vocação (cap. 4:1), o apóstolo ora pela Igreja uma segunda vez. Ele sabia que haveria grande oposição à prática dessa grande verdade (Cl 1:27-29) e nos lembra de que agir à luz da verdade do Mistério trará reprovação e sofrimentos (v. 13). Assim ele deseja que os santos não fossem desencorajados pelas “tribulações” que ele sofria em conexão com a verdade. O Senhor também orou nesse sentido quando Ele foi rejeitado (Sl 69:6). Por essa causa Paulo se põe de “joelhos” em oração ao “Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” para que a glória e o amor de Cristo, e a plenitude de Deus fossem achadas nos santos as quais os preparariam para esse desafio. O objetivo aqui é que este vaso fosse competente para demonstrar a glória de Cristo, não somente no mundo vindouro, mas também agora neste mundo.

Ao acrescentar, “do qual toda a família nos céus e na Terra toma o nome”, Paulo usou a mais ampla expressão possível, que abrange todas as criaturas abençoadas de Deus. Isso inclui os santos do Velho Testamento, Cristãos, os santos do Milênio (judeus e gentios), crianças que não haviam alcançado a idade do entendimento, anjos eleitos, etc. É significativo que, entre todas essas criaturas abençoadas, Paulo ora especificamente por aqueles (a Igreja) que têm sido abençoados de uma forma especial, a qual o Mistério revela.

A diferença característica entre as duas orações nesta epístola é que na primeira ele ora para que conheçamos o grande PLANO de Deus para glorificar Seu Filho; na segunda ele ora para que possamos conhecer o coração do PLANEJADOR e sermos cheios da plenitude de Deus.

A primeira oração tem a ver com os santos conhecendo quão ricamente eles têm sido abençoados, mas a segunda é que eles conhecessem o próprio Abençoador. Assim, esta segunda oração é sobre Deus estar formando uma capacidade nos santos, de forma que seriam cheios da plenitude de Deus – e que isso resultaria em louvor e ações de graças e dariam coragem moral para agir sobre o que a fé deles apreendeu, como apresentado no capítulo 4.

Há quatro partes no pedido do apóstolo nesta segunda oração, baseada nas palavras “para que”. Como em uma corrente, cada uma dessas coisas reforça a anterior.

1) “Para que, segundo as riquezas da Sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo Seu Espírito no homem interior” (v. 16). Se os santos devem colocar em prática a verdade do Mistério, à qual são exortados a fazer no capítulo 4, eles precisam ser fortalecidos espiritualmente. Paulo não ora por um fortalecimento exterior na carne, mas no “no homem interior” (na alma).

2) “Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações” (v. 17a). Isto mostra que o grande alvo de ser espiritualmente fortalecido dessa forma é que Cristo teria Seu próprio lugar nas nossas afeições. A oração do capítulo 1 tinha a ver conosco apreendendo nosso lugar em Cristo, e as bênçãos associadas a esse lugar, enquanto que esta segunda oração tem a ver com sermos capacitados para ter Cristo habitando em nós de uma maneira profunda. O Único que é o centro do conselho e propósito de Deus deveria ser o centro de todos os nossos pensamentos e afeições. Se Cristo habita em nós dessa maneira, Ele controlará todas as nossas fontes internas – os pensamentos e desejos dos nossos corações. Isso nos levará a uma profunda convicção da verdade do Mistério.

3) “Para que, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender [apreender], com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade; e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento” (vs. 17-19). Cristo, tendo Seu próprio lugar em nossas afeições, nos conduz a que estejamos arraigados e fundados em Seu amor, e isto permite a ampliação de nossa capacidade para as coisas divinas. Isto é porque apreendemos por meio de nossas afeições. A medida em que gozamos de Seu amor, nossa capacidade pelas coisas divinas aumenta. A palavra “compreender” não é a melhor tradução. Em Latim “comp” significa agarrar algo o envolvendo. Dificilmente podemos fazer isso com respeito às coisas de Deus, uma vez que somente “conhecemos em parte” agora (1 Co 13:9). Devia se ler, “apreender”, que é ter um apanhado da coisa sem necessariamente agarrá-la por inteiro.

A “largura e comprimento”, etc., a que Paulo se refere aqui não são do amor de Cristo (como muitos escritores de hinos afirmam), porque o amor de Cristo não tem comprimento nem largura. É imensurável. Ele está falando da largura e comprimento da vasta extensão da glória de Deus que está centralizada em Cristo. Depois de nos lançar na infinitude da glória de Deus, ele nos traz de volta para um centro conhecido – “o amor de Cristo”. Embora seja algo que já conhecemos, não podemos apreender sua magnitude – que “excede todo o entendimento”.

Note que “amor” supera “entendimento”. A vontade de Deus a respeito de Cristo e a Igreja, revelada no Mistério é entendimento, mas há algo que excede esse maravilhoso entendimento – o amor que o planejou!

4) “Para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” (v. 19). O grande resultado de tudo isso é que seremos cheios da plenitude de Deus. Isto não é a plenitude da deidade; seria blasfêmia pensar que poderíamos ser cheios de deidade. Deidade é a essência de Deus o Qual está além do entendimento da criatura e subsiste em luz inacessível. O assunto aqui é o que Deus deseja formar na Igreja, com o propósito de manifestação. É tudo o que Deus é em caráter. Em Colossenses é dito que a plenitude de Deus habita em Cristo corporalmente (Cl 1:19, 2:9), mas aqui o apóstolo deseja que a plenitude de Deus nos encha! Somente de Cristo é dito que toda a plenitude de Deus habita, mas é possível para nós pelo menos ser “cheios de toda a plenitude de Deus”. A Diferença é que uma criança pode levar seu balde à praia e enchê-lo d’água. Ela poderia dizer que tem seu balde cheio de oceano, mas ela não poderia dizer que tinha o oceano dentro do seu balde. É a mesma coisa conosco quando se trata da plenitude de Deus.

Vs. 20-21 – Assim, o fortalecimento do homem interior, a habitação de Cristo em nossos corações, e apreensão da glória que O envolve são todos em vista de estarmos cheios da plenitude de Deus para que pudéssemos andar de acordo com a atual administração, e assim colocar em prática a verdade do um só corpo de Cristo. Estando cheios com a plenitude de Deus nos leva a adorar e nos prepara para atuar nas exortações nos capítulos seguintes.

Assim, chegamos ao ponto mais alto na epístola; o Espírito não nos pode levar mais alto. Paulo apropriadamente prorrompe aqui em uma doxologia de louvor. Como Davi quando bendisse Deus, dizendo: “do que é Teu To damos” (1 Cr 29:14), Paulo entendeu que todas estas coisas tiveram sua fonte no coração de Deus, e é apropriado que retornem para Ele em forma de glória e louvor.

Ele fala de Deus “ser capaz de fazer” tudo o que poderíamos “pedir ou pensar” ao realizar Seu plano todo-sábio de glorificar publicamente Seu Filho por meio da Igreja. Alguns por engano pensam que isso está se referindo a Deus respondendo nossos pedidos de oração. É com certeza verdade que Deus pode e responde nossas orações numa maneira melhor do que temos pedido, mas isso não é o que o apóstolo está falando aqui. Ele está falando que se Deus tivesse pedido para escolhermos a melhor coisa que poderia acontecer conosco, não iria nunca entrar em nossas mentes o pedir ou pensar em algo tão abençoado como esse Seu plano. Então Deus tomou a iniciativa e planejou tudo antes do mundo começar. E Ele fez tudo para Seu próprio bom prazer e nossa grande bênção.

 

Em, eterno conselho, profundo,

Antes de ser feito o mundo,

Antes das fundações tão profundas,

No nada serem oriundas,

Por bênção, nos propôs, DEUS

E em Seu FILHO, nos escolheu,

Para ser a Ele conformado,

Quando for, nosso percurso, finalizado.

 

Tudo que Deus tem proposto acontecerá “segundo o poder que em nós opera”. Na primeira oração o apóstolo falou do poder de Deus trabalhando para nós (cap. 1:19), mas nesta segunda oração Ele fala do Seu poder trabalhando em nós (cap. 3:20). Isto é porque a ênfase aqui está na obra de Deus, capacitando aqueles que iriam compor esse especial vaso de testemunho.

Portanto, vemos neste capítulo o ministério do apóstolo envolvido em pregar, ensinar e orar pelos santos. Semelhantemente, nossa pregação e ensinamento deveriam ser acompanhados de oração para que as coisas que temos apresentado façam bem aos corações do povo de Deus.

Algumas Diferenças Entre as Orações nos Capítulos 1 e 3

  • A oração do capítulo 1 é ao “Deus de nosso Senhor Jesus Cristo”, a oração no capítulo 3 é ao “Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”.
  • A oração do capítulo 1 é para que possamos conhecer o plano que Deus tem para a manifestação de Seu Filho no mundo vindouro; a oração do capítulo 3 é para que possamos conhecer o coração do Planejador.
  • A oração do capítulo 1 é para que possamos conhecer nossas bênçãos; a oração do capítulo 3 é para que possamos conhecer o Abençoador.
  • A oração do capítulo 1 concentra-se em nosso lugar em Cristo; a oração do capítulo 3 foca em Cristo tendo um lugar em nós.
  • A oração do capítulo 1 fala do poder de Deus para conosco; a oração do capítulo 3 fala do poder de Deus em nós.

As Riquezas de Deus como Apresentadas em Efésios

  • As riquezas da Sua graça (cap. 1:7) – enfatiza quão fundo Deus desceu para nos salvar.
  • As riquezas da glória da Sua herança (cap. 1:18) – enfatiza o nosso grande privilégio em reinar com Cristo.
  • Riquíssimo em misericórdia (cap. 2:4) – enfatiza a profundidade da compaixão do coração de Deus.
  • Abundantes riquezas da Sua graça (cap. 2:7) – enfatiza a manifestação de Sua graça para conosco perante o mundo.
  • As riquezas incompreensíveis de Cristo (cap. 3:8) – enfatiza as muitas bênçãos distintas que são nossas em Cristo.
  • As riquezas da Sua glória (cap. 3:16) – enfatiza a grandeza da glória que rodeia Cristo, o grande Abençoador do universo.

 

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Resumo dos Capítulos 1-3

  • Capítulo 1 – A revelação do eterno propósito de Deus para Cristo e a Igreja. Revela o plano final de Deus para glorificar Seu Filho em duas esferas (no céu e na Terra) no mundo vindouro pelo vaso de testemunho especialmente formado – a Igreja, que é Seu corpo e noiva.
  • Capítulo 2 – A obra de Deus no tempo, chamando e formando aquele vaso de testemunho em vista do dia vindouro da manifestação. Cada obstáculo para realizar Seu objetivo é superado por Seu amor, poder e graça.
  • Capítulo 3 – A responsabilidade de Paulo em tornar conhecida a verdade do Mistério, comunicado em sua pregação, ensinamento e oração para os santos.