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A Epístola de Paulo aos Gálatas

A Defesa de Paulo de seu Apostolado (Capítulos 1-2)

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 4 de 14

A Defesa de Paulo de seu Apostolado
(Capítulos 1-2)

O método dos mestres judaizantes não era atacar a verdade diretamente, mas atacar o instrutor da verdade – Paulo. O plano deles era simples, mas eficaz: Se conseguissem minar a autoridade de Paulo, poderiam então destruir seu ensino. Eles haviam persuadido os santos na província da Galácia que Paulo era um pregador renegado que não possuía credenciais ou suporte de Pedro e dos outros apóstolos em Jerusalém. Portanto, ele não tinha autoridade para aquilo que estava fazendo, e consequentemente, eles não deveriam lhe dar ouvidos. Tendo colocado dúvida suficiente na mente dos santos na Galácia quanto à autenticidade do ministério de Paulo, eles lançaram o alicerce para introduzir as sementes de sua má doutrina em relação a guarda da lei.

Como essa era a tática dos mestres judaizantes, Paulo começa a epístola estabelecendo sua autoridade apostólica que lhe foi dada por Deus nos capítulos 1 e 2. Tendo feito isso, ele segue ensinando a verdade da justiça sendo estabelecida sem a lei nos capítulos 3 e 4, e então exorta os santos baseado nesta verdade nos capítulos 5 e 6.

Paulo sabia que precisava estabelecer a realidade de seu apostolado antes que pudesse esperar que os gálatas recebessem sua doutrina e exortação. Portanto, os dois primeiros capítulos são introdutórios ao ensinamento contido na epístola.

A Saudação
Cap. 1:1-5

Paulo começa expondo de maneira simples e clara a autoridade de seu apostolado (vs. 1-2) e os principais elementos do evangelho que pregava (vs. 3-5). Essas eram as duas coisas que seus opositores estavam desafiando. Este tipo de franqueza era algo que infelizmente estava faltando em seus difamadores, os quais tinham interesses ocultos.

V. 1 – Ele anuncia claramente que era um “apóstolo” expondo três fatos de tal verdade que eram irrefutáveis. O apostolado de Paulo:

  • Não era “da parte dos homens” como uma fonte (v. 1a). Seu apostolado não emanava de homens – independentemente de quão piedosos e bem-intencionados pudessem ser. A fonte da autoridade de Paulo era muito mais elevada que o homem.
  • Não era “por homem” como meio (v. 1b). Ela não veio como uma sucessão passada a ele vinda de outros antes dele, nem era resultado de uma ordenação por outros.
  • Era “por Jesus Cristo e por Deus Pai” (v. 1c).

 

Assim, isso não foi por meio de Pedro e dos outros apóstolos, mas de Pessoas divinas na Divindade. Portanto, rejeitar Paulo como um apóstolo é também rejeitar o Pai e o Filho que o comissionaram.

É significativo que Paulo diz: “...que O ressuscitou dos mortos”. A ressurreição de Cristo é o selo de aprovação de Deus por aquilo que Cristo realizou na cruz para a salvação do homem. Paulo menciona isso no início porque aqueles que estavam inquietando os gálatas claramente não haviam entendido a obra de Cristo. Eles pensavam que havia alguma coisa que o crente tinha que fazer para assegurar sua salvação, a saber, guardar a lei. A ressurreição de Cristo é a resposta de Deus para Sua obra consumada na cruz. Ao ressuscitar o Senhor Jesus de entre os mortos Deus estava dizendo “Amém” para aquilo que Cristo havia realizado. Não existe nada que possamos fazer para acrescentar a essa obra perfeita e completa. Somos chamados a “crer” no testemunho de Deus quanto à satisfação da justiça divina na obra de Cristo em expiação; aquele que crê nela é salvo (Jo 3:14-17). Ambos, Pedro e Paulo, confirmam isto (Rm 4:24-25; 1 Pe 1:19-21).

V. 2 – Paulo acrescenta: “E todos os irmãos que estão comigo”. Ele menciona isto para mostrar que aquilo que ele estava para escrever era considerado ortodoxo1 pela maioria dos Cristãos daqueles dias. Eles estavam “com” Paulo no sentido de que estavam em concordância com ele e com sua doutrina. Eles obviamente não estavam concordando com os erros judaizantes os quais os gálatas haviam absorvido. Os gálatas precisavam entender que eles haviam abandonado a fé comum dos irmãos como um todo. Isso também mostra que as doutrinas da graça que Paulo ensinava não se tratavam de uma interpretação particular de sua invenção; antes eram aquilo que “todos os irmãos” que eram ortodoxos sustentavam e ensinavam.

“Às assembleias da Galácia” (JND). É significativo que isto esteja no plural. Elas não eram só uma, mas várias “assembleias” que tinham sido afetadas pelo fermento desses judaizantes. Portanto, esta epístola foi escrita a todas as assembleias daquela região. O caso deles ilustra como a má doutrina se espalha, e porque deve ser impedida antes que venha a levedar toda a massa de crentes (Gl 5:9; 2 Tm 2:17).

Paulo deseja “graça” e “paz” aos gálatas. Se eles haviam de ser corrigidos quanto a este erro grave, iriam precisar de “graça” para o fazer; “paz” seria o resultado. Ele não menciona misericórdia, como faz em suas saudações nas suas epístolas pastorais, porque eles não poderiam esperar misericórdia de Deus se recusassem a correção apostólica de Paulo nesta epístola.

Vs. 3-5 – Havendo declarado o fato de seu apostolado, Paulo apresenta um resumo das principais verdades do evangelho que pregava, já que isso também estava sob ataque.

  • Paulo pregava que: “nosso Senhor Jesus Cristo, o Qual Se deu a Si mesmo por nossos pecados”. Isto mostra que Paulo ensinava que o sacrifício do Senhor Jesus Cristo na cruz era o meio de Deus de resolver a questão dos pecados do crente. É digno de nota que ele não faz menção alguma de que o crente precise guardar a lei para assegurar essa grande bênção.
  • Paulo também pregava que a obra de Cristo livra o crente do “presente século mau”. O mundo é uma vasta sociedade que o homem construiu para se manter satisfeito em sua alienação de Deus. Ele possui vários departamentos, tais como política, religião, esportes, teatro, etc. É da “vontade de Deus”, ao salvar almas, que elas sejam libertas de todo o curso deste mundo, o qual está caminhando em direção ao juízo. Isso é significativo porque o que os judaizantes estavam ensinando deixava a pessoa no mundo, isto é, o lado religioso do mundo.
  • O evangelho que Paulo pregava, se recebido em fé, produzia no redimido espontâneo louvor e adoração diretamente ao Pai e o Filho. Ele diz: “Nosso Pai, ao Qual glória para todo o sempre. Amém”. Isso, lamentavelmente, estava faltando entre os gálatas; legalismo não tinha feito outra coisa senão expulsado a liberdade de filiação para fora deles (Rm 8:15; Gl 4:6 – clamando “Aba Pai”).

 

O erro que eles haviam adotado essencialmente negava estes três resultados básicos do evangelho: remoção de pecados, libertação do mundo, e espontâneo louvor e ações de graças a Deus, o Pai. Tal erro, de maneira prática, colocava de lado a obra de Cristo substituindo-a com as obras do homem (guardar a lei). Isso abandonava o homem no mundo com suas formas e rituais de religião terrena. E roubava o crente de sua liberdade de filiação na presença do Pai. Consequentemente, o Cristão é deixado a certa distância de Deus, como os santos estavam no Velho Testamento, adorando a Deus fora do véu (Hb 10:19-20), o que não é de modo algum o terreno Cristão.

A Repreensão Necessária
Cap. 1:6-12

Esse sério afastamento da verdade do evangelho demandava uma repreensão severa. Normalmente nas epístolas de Paulo, após saudar os santos, ele os elogia por certas coisas que havia visto neles que glorificavam a Deus e Paulo os louva por isso. Porém, nesta epístola, ele não faz seu habitual elogio e ações de graças, nem os louva. Em lugar disto, ele parte diretamente para uma repreensão. Isso é bem impressionante, porque mesmo com os coríntios, em todos os seus erros, Paulo ainda encontrou coisas para elogiar. Mas este não era o caso aqui. Isso nos mostra a gravidade do erro no qual eles haviam caído.

V. 6-7 – Paulo se maravilha diante da instabilidade dos crentes da Galácia que tinham “tão depressa” se desviado após “outro evangelho, o qual não é outro”. Os gálatas podem ter pensado que estavam recebendo uma versão nova e melhorada do evangelho, mas na verdade tratava-se de “outro evangelho” (2 Co 11:4).

Neste momento Paulo não menciona o que é este outro evangelho. Ele deixa claro do que se tratava mais adiante na epístola, que era algo que envolvia acrescentar a lei de Moisés à obra de Cristo para justificação. (Gl 2:16-18). Como mencionado anteriormente, este era um erro grave que minava verdades fundamentais do Cristianismo. Misturar a lei com a graça faz a bênção do evangelho depender do homem cumprir sua responsabilidade em sua salvação e, essencialmente, impede a ação da graça, tornando a obra de Cristo por nós de nenhum proveito (Gl 5:4 – JND). Acrescentar a lei ao evangelho é na realidade “outro evangelho”. Não é algo que Paulo ou qualquer outro apóstolo ensinou (At 15:8-11; 2 Co 11:4).

Se de fato Derbe, Listra e Icônio eram as assembleias da Galácia, às quais Paulo estava escrevendo, era de se esperar que tivessem mais entendimento porque eles haviam recebido “os decretos” dos apóstolos que ditavam muito claramente que a lei de Moisés e a circuncisão não deveriam ser impostas sobre os santos (At 15:23-29, 16:4). Numa questão de cerca de cinco anos após Paulo ter pregado o evangelho naquela região (At 16:6), eles haviam “passado [se mudado – JND] daqu’Ele” que os tinha chamado. No texto original grego a palavra “mudado” está na voz reflexiva, implicando que a mudança estava ainda ocorrendo, o que iria continuar levando-os para ainda mais longe da verdade se não julgassem seu erro. Isso mostra que não tem como dizer quão longe alguém pode ir ao se apartar da fé. É algo verdadeiramente muito solene.

Paulo diz: “mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar [perverter – JND] o evangelho”. Note que ele não diz que estes mestres judaizantes negavam o evangelho, mas que pervertiam o evangelho. Eles não negavam diretamente a verdade da Pessoa de Cristo ou os fatos de Sua morte e ressurreição, mas tinham acrescentado (se isso fosse possível) à obra de Cristo na cruz. Eles ensinavam que Sua obra consumada não era suficiente para a salvação de alguém, mas que para ser salvo era necessário guardar a lei e ser circuncidado (At 15:1). Isso era uma perversão do evangelho e frequentemente uma perversão é mais perigosa do que uma clara negação do evangelho. Na perversão do evangelho existe verdade suficiente para enganar o Cristão descuidado, e existe também erro suficiente para anular a verdade.

Vs. 8-9 – Paulo não enfrenta os mestres judaizantes e nem tenta corrigi-los. Bem pode ser que ele os havia enxergado como apóstatas, e para tais não há arrependimento (Hb 6:4-6). Em lugar disso, ele lança seu anátema apostólico. Paulo declarou que havia uma maldição sobre todos que tinham falsificado ou alterado a mensagem do evangelho. Falando hipoteticamente, ele supõe que, se fosse possível, mesmo se ele e aqueles que trabalhavam com ele (“nós”) pregassem outro evangelho além daquele que os gálatas tinham ouvido dele, eles seriam “anátema”. E que se fosse possível um anjo descer do céu com outro evangelho ele também seria anátema. No versículo 9 ele diz: “Se alguém vos anunciar outro evangelho...”, a palavra “alguém” aqui abrange além dos homens e refere-se a todas as criaturas de Deus, até mesmo anjos.

V. 10 – Paulo começa a falar dos seus motivos em servir ao Senhor. Ele diz: “Porque, persuado eu agora, a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo”. Ele coloca isso em questão porque era uma das coisas que caracterizavam os judaizantes que estavam inquietando os gálatas. Ao sugerir que não estava buscando “agradar a homens” ele estava na verdade expondo os motivos dos judaizantes para que os gálatas pudessem enxergar sem apontar diretamente o dedo para eles. Paulo indica em outro lugar que esses “falsos apóstolos” e “obreiros fraudulentos” (2 Co 11:13) viram o movimento do evangelho como uma oportunidade de ouro para conseguirem uma vida confortável para si mesmos (2 Co 2:17 – “um negócio” – JND). Eles, portanto, trabalharam duro para obter uma posição entre os santos gálatas que ainda não estavam firmados, passando-se por servos de Cristo. Eles agradavam homens servindo a eles para ganhar seguidores e o suporte monetário deles (Gl 4:17, 6:13; Jd 16). Em contraste com esta forma desonesta de ganho, Paulo não se inclinaria a tais princípios. (2 Co 11:8-9, 12:14-17). Ele não buscava o aplauso do homem, e nem queria o seu dinheiro.

Vs. 11-12 – Os três pontos que Paulo menciona no versículo 1, em relação ao seu apostolado, eram os mesmos em relação ao “evangelho” que ele pregava. O apostolado de Paulo não era “da parte de” homens e nem “por” homens (v. 1). Semelhantemente, o evangelho que ele pregava não era “segundo os homens” nem “de homem”. Não era de homem – naquilo que diz respeito à fonte e canais porque era algo totalmente externo ao homem. O que é do homem glorifica, honra e lisonjeia o homem e consequentemente será agradável aos homens. Tal era a linha de coisas com que se ocupavam os falsos mestres. O evangelho, por outro lado, rejeita todas as coisas relacionadas ao homem e introduz o que é infinitamente melhor em Cristo.

Aqueles que estavam pervertendo o evangelho estavam reivindicando possuir autoridade dada por Jerusalém (At 15:24). Em contraste com isso, Paulo mostra que sua autoridade era do céu. Ele possuía uma autoridade muito mais elevada para seu apostolado devido ao fato deste ter sido recebido por “revelação de Jesus Cristo”.

Sua Conversão e Comissão Divina
Cap. 1:13-17

Paulo começa falar de sua conversão e comissão divina vinda do Senhor. Ele não tinha intenção de ocupar seus leitores consigo desnecessariamente (2 Co 4:5), mas sua vida era um testemunho do poder e graça de Deus, e isso era algo que os gálatas desesperadamente precisavam enxergar.

Três Razões para Mencionar sua Conversão

Das muitas coisas que Paulo poderia ter mencionado sobre sua vida, enquanto não convertido, o que certamente iria nos distrair, o Espírito de Deus o leva a falar de três coisas significantes que dizem respeito ao assunto em pauta. Elas são introduzidas aqui porque possuem uma aplicação direta na dificuldade em que os gálatas haviam entrado.

1) V. 13 – A primeira razão para chamar a atenção para sua conversão era mostrar onde o seu zelo extremo em guardar a lei o tinha levado – Isso o fez um franco perseguidor da “Igreja de Deus”! Isso mostra que quanto mais alguém é envolvido no sistema de obras baseado na guarda da lei, tanto mais ele será antagônico aos princípios da graça, que é a essência do evangelho. Legalismo e graça são completamente opostos um ao outro e não podem permanecer em um terreno comum. A verdade disso deveria ter alarmado os gálatas. Significava que a linha em que estavam os levaria a serem oponentes diretos do evangelho da graça de Deus!

2) V. 14 – A segunda razão pela qual Paulo menciona os dias anteriores à sua conversão é para mostrar aos gálatas que ele era bem versado na religião dos judeus. E tinha excedido “em judaísmo a muitos” de seus “contemporâneos” (JND). Ele não estava se gloriando, mas dando a conhecer a eles que não era negligência de sua parte a omissão de elementos judaicos (guardar a lei, circuncisão, etc.) no seu evangelho. Paulo sabia tudo sobre essas coisas e as omitiu em suas pregações porque essas coisas não têm absolutamente nada a ver com a maneira de Deus de salvar por graça.

Observe que Paulo a chama de “a religião dos judeus” (Gl 1:14 – KJV); ele não diz que era a religião de Deus. Ele fala dessa forma porque o judaísmo tinha, há muito, sido colocado de lado e já não era reconhecido por Deus (Jo 4:21; Rm 11:1-16). O apóstolo João fala de modo semelhante, chamando as diferentes festas em Jerusalém de “a páscoa dos judeus” e “a festa dos judeus”. Ele não as chama de festas de Jeová (Jo 2:13, 5:1, 6:4, 7:2, 10:22, 11:55). O Senhor também indicou isso em Seu ministério. No começo de Seus dias de ministério Ele chamou o templo de “casa de Meu Pai” (Jo 2:16), e mais tarde de “Minha casa” (Mt 21:13), mas depois de ter sido formalmente rejeitado pela nação Ele deixou o templo e o chamou de “vossa casa” (Mt 23:38). Sendo assim, os gálatas precisavam entender que estavam adotando elementos de um sistema que havia sido deixado de lado por Deus. Eles claramente estavam indo para a direção errada.

3) Vs. 14-16 – A terceira razão pela qual Paulo menciona sua conversão é para demonstrar o poder de Deus para libertar alguém do legalismo. Ele mesmo havia sido “extremamente zeloso” da lei e das “tradições” de seus pais, mas Deus o libertou! E se Deus pôde libertar alguém zeloso como Saulo de Tarso, um que estava outrora muito mais arraigado ao legalismo do que os gálatas, Ele poderia certamente libertá-los. Isso mostra que a triste condição deles era recuperável. Este fato apresentado pelo apóstolo tinha a intenção de encorajar os gálatas a ouvir e agir naquilo que estava para lhes falar nesta epístola em relação ao erro deles.

É significativo que a conversão de Paulo aconteceu quando ele estava no caminho para Damasco (At 9). Paulo ouviu o chamado do Senhor quando ele estava viajando para fora de Jerusalém. E também não foi por acaso que o Senhor tenha ensinado a Seus discípulos a verdade da Igreja, pela primeira vez, quando Ele os havia levado para os limites territoriais ao norte da terra de Israel – o ponto mais longe de Jerusalém (Mt 16:13-18). Estas coisas são indicativas do fato de que judaísmo e Cristianismo são duas ordens contrastantes. Quanto mais alguém se afasta do judaísmo, tanto mais claramente enxergará a verdade do Cristianismo. Deus nunca teve a intenção de que ambos fossem misturados em uma ordem judaico-Cristã – um termo impróprio que caracteriza muito da Cristandade hoje.

O primeiro ponto de Paulo deve ter alarmado os gálatas e produzido uma busca em seus corações quanto ao caminho em que estavam. Seu segundo ponto deve ter feito com que eles percebessem que haviam adotado algo o qual Deus não apoiava. E este terceiro ponto deve tê-los preparado para ouvir aquilo que ele estava para escrever.

A mensagem de Paulo foi divinamente revelada a ele. Mas não foi apenas revelada a ele (v. 12) foi também revelada nele (v. 16). A partir de então, Paulo procurava pregar “Seu Filho” (não um sistema baseado em obras) “a toda criatura que há debaixo do céu” (Cl 1:23). Não era uma religião que ele pregava, mas um relacionamento com uma Pessoa divina – o Filho de Deus (At 9:20).

Três Lugares Significativos na História de Paulo

Nos versículos 17 e 18 Paulo menciona três lugares que foram significativos em seu chamado e preparação divina para seu serviço – Damasco, Arábia e Jerusalém.

Primeiramente “Damasco” (At 9:1-22), foi onde ele foi convertido a Deus, recebeu o Espírito Santo e onde foi primeiramente introduzido à comunhão com os irmãos de “fé igualmente preciosa” (2 Pe 1:1).

Em segundo lugar, “Arábia” (o deserto), foi onde Deus o preparou para o trabalho que ele haveria de fazer (At 9:22-23). Ele tinha recebido sua mensagem por revelação, mas precisava aprender, assim como todos precisamos, que a carne para nada aproveita nas coisas de Deus (Jo 6:63; Rm 7:18). Esta lição somente pode ser aprendida por experiência, e isto leva algum tempo. Era algo que os judaizantes evidentemente não haviam aprendido. Acrescentar a lei à vida de um crente para seu aperfeiçoamento Cristão, que era aquilo que eles estavam tentando fazer (Gl 3:3), é uma prova clara de que alguém não entende o fim da carne, como sendo totalmente inútil e condenada por Deus (Rm 8:3).

O terceiro lugar que Paulo menciona é “Jerusalém”, o centro do judaísmo, onde os legalistas se gloriavam na lei de Moisés. Paulo deixa muito claro que ele havia se afastado de Jerusalém depois de ter sido salvo. Isso era um bom exemplo para os gálatas, porque tudo que Jerusalém significa apenas tende a dificultar os Cristãos – suas influências contribuem para a servidão da lei (Gl 4:24-25). Paulo mesmo é um exemplo disso. Quando ele foi para Jerusalém mais tarde, caiu sob a influência de Tiago e dos outros que lá estavam, os quais não estavam esclarecidos quanto à distinção existente entre judaísmo e Cristianismo, e isso levou Paulo à prisão em Cesareia (At 21:18-29). Isso mostra que grande força a influência de Jerusalém tinha sobre alguém de origem judaica.

Paulo foi ajudado em Damasco e na Arábia, mas ele foi impedido por Jerusalém. Os gálatas precisavam entender isso, porque os judaizantes, que estavam lançando os gálatas em confusão, tinham vindo de Jerusalém e trouxeram aquela influência com eles.

Três Encontros com Pedro
(Capítulos 1:18–2:21)

Paulo teve que contender com certas acusações que foram designadas para enfraquecer a confiança que dos santos da Galácia tinham nele e em seu ministério. Desde que Pedro era considerado por muitos o apóstolo mais preeminente, Paulo se concentra em suas interações com Pedro. Paulo menciona três diferentes encontros que ele havia tido com Pedro que desmascaravam completamente as falsas acusações. Estes três acontecimentos são apresentados para mostrar de maneira conclusiva que o apostolado de Paulo não estava em oposição aos dos outros apóstolos – na verdade, os outros apóstolos davam suporte ao seu apostolado!

O Primeiro Encontro de Paulo com Pedro
Cap. 1:18-24

Vs. 18-19 – Os difamadores de Paulo tinham espalhado a ideia de que ele era um pregador renegado que estava fora de sintonia com os outros apóstolos e não tinha autorização alguma deles para as coisas que ensinava.

Paulo responde a isso mencionando um acontecimento que provava que não havia verdade alguma em tal acusação. Três anos depois que tinha sido salvo ele subiu à Jerusalém e “ficou com” Pedro por quinze dias (At 9:26). Isso mostra que havia perfeita harmonia entre Pedro e ele. Ele menciona “Tiago” num tom semelhante. Simplesmente não era verdade que Paulo estava fora de sintonia com os outros apóstolos. Se ele fosse algum renegado que era heterodoxo2 no que concerne a fé Cristã, Pedro teria detectado isso e o teria rejeitado.

Paulo deixa claro que não havia ido à Jerusalém para se tornar um apóstolo, ele tinha sido feito apóstolo pelo chamado do Senhor (Gl 1:1; 1 Co 1:1, 9:1). Nem tinha ido até lá para ser treinado no Cristianismo ou para receber autorização dos outros apóstolos. Na verdade, ele menciona que propositadamente permaneceu longe de Jerusalém depois de ter sido salvo – não por desrespeito por seus companheiros apóstolos – mas porque sua comissão do Senhor não necessitava de autorização humana. O especial chamado do Senhor feito a Paulo era para ele levar o evangelho aos gentios (At 9:15, 13:46, 18:6, 22:21, 28:28) e, portanto, não precisava ter ido para Jerusalém, o centro judaico.

Por que então Paulo foi à Jerusalém? Ele foi para lá para comunhão, não para autorização. Ele queria familiarizar-se com Pedro que havia sido testemunha ocular da vida e ministério do Senhor. Paulo foi recebido por ele e estava em feliz comunhão com os outros que encontrou em Jerusalém (At 9:28).

Vs. 20-24 – Depois de sua visita a Pedro, Paulo retornou para “as partes da Síria e da Cilícia”. Ele acrescenta que as “igrejas da Judeia” se regozijaram no fato de que ele havia sido convertido e estava pregando Cristo, ainda que não fosse “conhecido de vista” deles. Eles estavam tão felizes com sua conversão que “glorificavam a Deus”. Isso mostra que os santos da Judeia, de maneira geral, apoiavam a ele e ao evangelho que pregava.

O ponto de Paulo aqui é claro e simples. Se os apóstolos e os santos na Judeia estavam em feliz comunhão com ele, os gálatas deveriam ter total confiança nele também. No entanto, estavam lhe tratando como um inimigo! (Gl 4:16).

O Segundo Encontro de Paulo com Pedro
Cap. 2:1-10

Havendo falado da harmonia existente entre Pedro e ele, Paulo segue enfatizando a plenitude de seu entendimento da revelação Cristã. Os difamadores de Paulo insinuavam que ele era inferior aos outros apóstolos naquilo que diz respeito ao seu conhecimento da verdade, e consequentemente, em sua pregação estava faltando alguns elementos importantes – tal como guardar a lei. Como criam que Paulo era deficiente em seu entendimento, eles falaram aos gálatas que a pregação dele não poderia ser confiada.

Paulo responde a isso apresentando outro encontro que ele teve com Pedro. Este acontecimento mostra que ele conhecia a verdade tão bem que os outros apóstolos não puderam acrescentar nada a ele, no que diz respeito a seu entendimento. Paulo omitiu elementos judaicos em sua pregação, tal como guardar a lei e a circuncisão, não porque ele não entendia o evangelho, mas porque tais coisas não têm parte na revelação Cristã.

V. 1 – Ele traz à memória um acontecimento, registrado em Atos 15, onde o assunto do guardar a lei na Igreja foi confrontado e resolvido. Quatorze anos após a primeira visita de Paulo à Jerusalém, ele foi para lá novamente para tratar do que diz respeito à necessidade de crentes serem ou não circuncidados e guardarem a lei. Paulo, e aqueles que estavam com ele, não haviam subido à Jerusalém para serem repreendidos pelos líderes de então por aquilo que estavam fazendo, nem era também para procurar ter a aprovação deles naquilo que pregavam. Ele subiu à Jerusalém “por uma revelação”. O Senhor lhe revelou que ele deveria ir, e os irmãos em Antioquia estavam em comunhão com isso (At 15:2). O propósito desta visita era considerar a relação da lei com o evangelho e expedir uma declaração apostólica definitiva quanto a isso.

Havia “alguns” que tinham vindo de entre eles na Judeia que não estavam esclarecidos quanto ao relacionamento da lei com o evangelho. Eles estavam essencialmente propondo o erro no qual os gálatas haviam caído (At 15:1, 5, 24). Era correto, portanto, que os irmãos em Antioquia levassem e tratassem o problema em sua origem (Jerusalém). Ao fazer isso, a unidade do Espírito entre a assembleia em Jerusalém e a assembleia em Antioquia seria mantida. Este é um princípio importante sobre o qual as assembleias deveriam agir quando há dificuldades que surgem entre elas. Depois de conferenciarem com os apóstolos acerca desta questão, a grande conclusão era de que não havia palavra da parte de Deus para se colocar crentes gentios debaixo da lei. Os apóstolos, portanto, emitiram uma carta com certos decretos para a conduta Cristã que estritamente proibia a colocação de jugo (a lei) sobre os gentios que criam no evangelho.

V. 2 – Paulo diz que quando ele chegou a Jerusalém e foi recebido pela assembleia, em primeiro lugar se comunicou “particularmente [privadamente – JND]” (separadamente dos outros) com aqueles que “estavam em estima”. Estes eram os “apóstolos e anciãos” em Jerusalém (At 15:6). As mulheres e recém-convertidos não foram incluídos nesta reunião, o que está em acordo com todas as atividades administrativas da assembleia. Eles fizeram isso porque havia a possibilidade de a igreja se dividir. Era bem conhecido que havia um forte elemento judaico em seu meio que não estava liberto do judaísmo, o qual iria se opor à verdade do evangelho (At 15:5). Lidar com a questão em um fórum aberto (diante de todos) colocava a comunhão dos santos em risco de ruptura e da igreja ser dividida em um lado judeu e outro gentio.

Os apóstolos, de forma privada, foram completamente inteirados do evangelho de Paulo de maneira que se tal coisa acontecesse eles poderiam lidar com isso. Paulo diz: “para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão”. O inimigo gostaria de ter lançado os santos em confusão; tendo a assembleia inteira reunida ele poderia facilmente ter feito isso, e o propósito de Paulo vir à Jerusalém teria sido frustrado. Isso mostra que podem existir momentos quando é necessário que os líderes responsáveis em uma assembleia se reúnam juntamente para discutir certos assuntos que dizem respeito à assembleia local, sem que estejam presentes aqueles que não estão estabelecidos ou que são governados por emoções. Tais pessoas estando presentes estariam inclinadas a fazer alarde.

V. 3 – Os irmãos em Antioquia “resolveram” (At 15:2) que Paulo e Barnabé deveriam tomar consigo a Tito como um caso precedente. Tito era um crente gentio que nunca havia sido circuncidado. O que os apóstolos em Jerusalém teriam a dizer quanto a ele? É significativo que Pedro, Tiago e João e os outros apóstolos nunca “constrangeram” Tito a ser circuncidado! Isso provou que eles não viam isso como necessário. Este fato era algo para os gálatas considerarem; se os apóstolos em Jerusalém não viram isso ser uma coisa necessária, por que tinham eles então adotado tal ideia?

Alguns podem dizer que Paulo havia cedido neste ponto porque ele circuncidou Timóteo mais tarde (At 16:3). Porém, isso foi feito por uma razão totalmente diferente. Ele fez isso por causa da sua liberdade no evangelho. Ele procurava ser “como” um judeu para alcançar e ganhar os judeus naquela área com o evangelho. Ele disse que iria até ao ponto de fazer-se “como” “os que estão debaixo da lei”, mas ao dizer isso ele rapidamente acrescentou “não estando eu debaixo da lei”. Ele disse: “Para ganhar os que estão debaixo da lei” (1 Co 9:20 – JND). Ele não cria que um Cristão deveria estar sob a lei, mas faria vista grossa para ganhar, para Cristo, alguns sob ela.

V. 4-5 – Além disso, quando “falsos irmãos”, que haviam se infiltrado na reunião privada, levantaram-se e tentaram convencer os outros que Cristãos precisavam estar debaixo da lei, Paulo diz: “Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição”. Seu ponto aqui é igualmente poderoso. Os apóstolos testemunharam, em primeira mão, este afrontamento e não ficaram do lado dos judaizantes que estavam no meio deles impondo a guarda da lei! Em lugar disto, eles deram suporte a Paulo posicionando-se pela “verdade do evangelho”. E foi a partir da boca de Pedro que isso foi estabelecido (At 15:7-11).

Paulo diz claramente que estes judaizantes haviam se introduzido “secretamente [sorrateiramente – JND]” entre os santos. Uma lição que podemos aprender disso é que existe a necessidade de sermos cuidadosos na recepção. Os irmãos naqueles dias não foram cuidadosos e essas pessoas acabaram entrando. Hoje, em quase todos os lugares, a igreja não pratica princípios de recepção, e isso tem causado a entrada de muito mal e muito dano na Igreja.

V. 6 – Já que os judaizantes estavam estimando em demasia os líderes em Jerusalém, Paulo – não intentando falar deles de maneira depreciativa – diz: “aqueles que eram distintos como sendo alguma coisa (o que tenham sido não me faz diferença)” (JND). Seu ponto aqui era de que os apóstolos e líderes em Jerusalém não o intimidavam, embora ele os respeitasse no Senhor (Mc 8:24; Jd 16).

Quando Paulo expôs aos outros apóstolos o seu evangelho, eles não precisaram corrigir ou modificar o que ele pregava, como foi o caso com Apolo quando Áquila e Priscila o tomaram e “lhe expuseram com mais precisão o caminho de Deus” (At 18:24-28 – AIBB). Na verdade, os apóstolos não podiam acrescentar “nada” a Paulo no que diz respeito à comunicação de maior luz e conhecimento na revelação Cristã. Eles simplesmente reconheceram a fonte divina de seu ministério e afirmaram sua verdade e perfeição.

Vs. 7-10 – Os apóstolos reconheceram que o evangelho da “circuncisão” havia sido confiado a Pedro, e o “evangelho da incircuncisão” a Paulo. Paulo segue adiante e diz: “Aqu’Ele” que havia operado em Pedro, fazendo-o um apóstolo, era a mesma Pessoa que havia operado nele, fazendo dele um apóstolo. “Esse”, obviamente, tratava-Se do Senhor. Não somente os apóstolos em Jerusalém reconhecem e afirmam a verdade que Paulo ensinava, mas alegremente prestam suporte a ele e a Barnabé em sua obra, dando-lhes “as destras em comunhão”.

Este segundo acontecimento histórico responde à insinuação de que o evangelho de Paulo era deficiente em certos elementos de doutrina, a saber, a exclusão da lei no evangelho que ele pregava. Tal acontecimento prova que a acusação de seus difamadores era completamente falsa.

Portanto, existem três coisas aqui que os santos gálatas precisavam considerar. Os apóstolos de Jerusalém:

  • Nunca insistiram para que Tito fosse circuncidado.
  • Não dariam suporte ao elemento judaizante que havia se levantado e pressionava para que crentes se colocassem debaixo da lei, antes ficaram do lado de Paulo e contra tais pessoas.
  • Alegremente reconheceram o ensino de Paulo e deram a ele e a Barnabé “as destras em comunhão”, em suporte àquilo que eles estavam fazendo.

 

O argumento de Paulo aqui é poderoso. Se os apóstolos em Jerusalém estavam em feliz comunhão com aquilo que ele estava ensinando, por que então os gálatas estavam tendo dificuldade com seus ensinamentos? Aqueles que eram “colunas” na Igreja estavam de acordo com Paulo e não viam seus ensinamentos como imperfeitos de forma alguma. Pensavam os gálatas serem mais espirituais e conhecedores do que os apóstolos em Jerusalém? Condenar a doutrina de Paulo significava condenar os apóstolos que davam suporte à sua pregação com as destras em comunhão! Isso mostrava que os gálatas estavam num terreno perigoso. Eles haviam tomado uma posição que os colocava em colisão, não apenas com Paulo, mas também com os outros apóstolos que estavam em Jerusalém.

O Terceiro Encontro de Paulo com Pedro
Cap. 2:11-21

Os difamadores de Paulo também alegavam que ele não possuía autoridade como um apóstolo. Paulo responde a isso mencionando outro acontecimento quando ele havia se encontrado com Pedro. Paulo mostra que tinha autoridade suficiente para repreender aquele que era reputado como o principal apóstolo. Ao mesmo tempo, Paulo lida com a questão que dizia respeito a crentes judeus, se deveriam ou não guardar a lei. O acontecimento anterior havia mostrado que crentes gentios não deveriam ser colocados sob a lei (vs. 1-10), mas a questão ainda permanecia quanto aos crentes judeus, se deveriam estar debaixo dela. Essa questão é endereçada no terceiro encontro com Pedro onde Paulo mostra, conclusivamente, que crentes judeus também não deveriam estar debaixo da lei.

Vs. 11-13 – Algum tempo depois do concílio de Jerusalém de Atos 15, Pedro foi à Antioquia e encontrou os crentes judeus comendo livremente com os crentes gentios. Ele sabia que esta era a ordem de Deus e ajuntou-se a eles, porque “a parede de separação que estava no meio” de judeus e gentios havia sido derrubada (Ef 2:14). Mas quando chegaram certos homens de Jerusalém, da parte de Tiago, Pedro “se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão”. Outros, incluindo “Barnabé”, se deixaram “levar pela sua dissimulação”. Pedro sustentou a verdade do evangelho em palavra no concílio em Jerusalém (At 15:7-11), mas, na hora de praticá-la, Pedro fez o contrário. Ele falhou ao negar a verdade que ensinava pela sua conduta. Algumas Bíblias traduzem “dissimulação” como “hipocrisia” – e isso é exatamente o que estava acontecendo. A raiz da falha de Pedro estava em que ele queria ter sido considerado por aqueles que tinham reputação em Jerusalém. Ele temeu perder o respeito deles e isto o levou a dissimular. O fato de que ele possuía a posição de um apóstolo fazia da ofensa algo muito mais sério. Quanto mais um homem é honrado, tanto maior pedra de tropeço ele será para outros se vier a falhar. Foi exatamente isso que aconteceu: “E os outros judeus dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar”. O livro de Provérbios diz: “O receio do homem armará laços” (Pv 29:25). Pedro certamente caiu nesse laço e isto o levou a comprometer princípios.

V. 14 – Isso precisava ser tratado imediatamente. Paulo percebeu que a verdade do evangelho estava em jogo, talvez de uma maneira mais séria do que Pedro percebia. Uma falha pública – especialmente uma que influencia e afeta outros – requer uma repreensão pública (1 Tm 5:20). Paulo, portanto, perguntou a Pedro diante de todos: “Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus [a se judaizarem – JND]?” Ao recusar-se comer com os crentes gentios sua ação implicava em que, para a santidade, eram necessárias as observâncias dos costumes e das leis judaicas. E se isto fosse verdade, então depois de tudo, os gentios precisariam de fato estar debaixo da lei para que pudessem estar adequados para a comunhão com crentes judeus. Com efeito, Pedro, por meio de suas ações, estava compelindo os gentios a se “judaizarem”. Este era o mesmo erro que os mestres judaizantes estavam propagando na Galácia e, portanto, a repreensão de Pedro feita por Paulo continha uma repreensão implícita para os gálatas.

Pode parecer como algo pequeno simplesmente recusar comer uma refeição comum com crentes gentios, mas no fundo disso a “verdade do evangelho” estava sendo comprometida, e haveria grandes consequências práticas que colocariam em perigo a comunhão dos santos. Se as ações de Pedro seguissem sem que fossem contestadas, um círculo interno dentro da comunhão dos santos teria se desenvolvido – um tipo de aristocracia entre os irmãos. Criar-se-ia uma igreja dentro da Igreja. Isso implicava que existia algo como santidade e posição espiritual superiores entre os santos, e se os santos gentios quisessem ser admitidos neste círculo, teriam que se judaizar e obedecer aos requerimentos de Moisés. Isso é o que legalismo entre Cristãos frequentemente produz – um grupo de elite se desenvolverá dentro da comunhão dos santos. Tratava-se de algo divisório que precisava ser abordado imediatamente.

Pedro sabia muito bem disso porque o Senhor havia ensinado o contrário a ele quando estava no terraço de Simão, o curtidor. O Senhor havia a ele dito: “Não faças tu comum ao que Deus purificou” (At 10:15). Como todos às vezes fazemos, Pedro não viveu à luz da verdade que conhecia. Sua conduta revelava uma persistente convicção de superioridade dos judeus sobre os gentios. Isso mostra que enquanto os judaizantes haviam sido derrotados no concílio dos apóstolos em Jerusalém, a respeito de acrescentar a lei ao evangelho, o fermento do legalismo ainda estava operando na Igreja Cristã.

Vs. 15-18 – Nos versículos restantes do capítulo, Paulo registra um resumo de sua argumentação com Pedro quanto à lei em relação ao crente (A maioria dos expositores assumem que os versículos de 15 a 21 foram ditos a Pedro). Isso é apresentado aqui porque declara a própria essência de sua doutrina e atua como uma introdução para os próximos capítulos (3-4), onde ele expõe a verdade da justificação.

Paulo fez a Pedro uma segunda pergunta que expunha ainda mais a inconsistência de seu comportamento. Ele disse: “Nós, judeus por natureza, e não pecadores das nações, mas sabendo que um homem não é justificado sobre o princípio de obras de lei, mas pela fé de Jesus Cristo, nós também temos crido em Cristo Jesus, para sermos justificados sobre o princípio da fé de Cristo; e não de obras de lei; porque sobre o princípio de obras de lei nenhuma carne será justificada. Agora se ao procurarmos ser justificados em Cristo, nós somos também achados pecadores, é então Cristo um ministro de pecado?” (Gl 2:15-17 – JND). O ponto de Paulo aqui é que, se Pedro estava correto ao retornar à lei, então Cristo o havia guiado incorretamente ao recusar a lei em Atos 15. Mas isso era impossível; o Senhor não guiaria uma pessoa a fazer ambas as coisas. Paulo pergunta a Pedro: “Você está dizendo pelas suas ações que Cristo é um “ministro de pecado”? Paulo repele tal conclusão dizendo; “de maneira nenhuma”. O verdadeiro pecador ou transgressor não era Cristo, mas Pedro! Qualquer que fosse correto – abrir mão da lei ou retomá-la – uma coisa era certa, Pedro estava errado em um dos dois casos. Se Pedro estivesse certo agora (em retornar às observâncias legais), então suas ações anteriores estavam erradas. Se suas ações anteriores estivessem corretas, então ele estaria errado agora. Em qualquer um dos casos, ele permanecia como um transgressor.

Além da verdade aqui em questão, esta passagem efetivamente refuta a noção de que Pedro era o líder infalível da Igreja, como os católicos romanos ensinam. Pedro claramente errou aqui. Há uma lição para nós nisto: não devemos supor que pelo fato de um homem ser um líder em meio ao povo do Senhor, e honrado, que ele está sempre certo. Líderes também podem falhar.

A Morte e Ressurreição de Cristo Aplicada ao Crente

Vs. 19-21 – Nos últimos três versículos do capítulo, Paulo apresenta um resumo da verdade que ensinava em seu evangelho em conexão com a morte e ressurreição de Cristo em relação à lei. Se esta verdade é propriamente apreendida, uma pessoa não terá dificuldade em enxergar que a lei não tem aplicação alguma ao crente que é “justificado em Cristo”.

Na argumentação de Paulo com Pedro sobre essa particular verdade, ele muda da primeira pessoa do plural para a primeira pessoa do singular – de “nós” para “eu”, “me” e “mim”. Quando se tratava da verdade da identificação do crente com a morte e ressurreição de Cristo, ele não pôde dizer “nós” porque as ações de Pedro colocavam em dúvida se ele havia ou não entendido esta verdade, que é algo extremamente pessoal. Paulo tinha apreendido o significado disso e podia falar dela por si mesmo, mas as ações de Pedro não indicavam que ele estava no melhor entendimento disso. Paulo diz que se ele edificasse novamente as coisas que havia destruído, ele seria um “transgressor” (v. 18). Infelizmente, isso era o que Pedro havia feito.

Isso leva Paulo a mostrar que enquanto que a lei não pode justificar uma pessoa, ela pode matá-lo! Ele diz: “Pois eu, mediante a lei, morri para a lei” (v. 19 – TB). Em Romanos 7:9-11 ele se estende neste assunto, dizendo: “E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado e eu morri; E o mandamento que era para vida, achei eu que me era para morte. Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele me matou”. Tal é a experiência de todo homem que ansiosamente tenta salvar a si mesmo guardando a lei. A lei o mata, e pronuncia a sentença de morte sobre ele. Em lugar de a lei dar vida, ela somente produz morte! Mas tendo morrido “mediante a lei” o crente então está morto “para a lei” (v. 19). Isto é, a lei não tem mais aplicação ao crente.

Novamente, em Romanos 7, Paulo diz: “Assim, meus irmãos, também vós estais [fostes tornados – JND] mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais doutro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, obravam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora estamos livres [desligados – TB] da lei, pois morremos para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” (Rm 7:4-6). A sentença de morte foi executada sobre o crente na Pessoa de Cristo. Morremos na morte de Cristo. E desde que a lei somente tem domínio sobre um homem enquanto ele vive (Rm 7:1), ela já não tem mais nada a dizer ao crente agora que ele está morto. J. N. Darby chamou a atenção que essa libertação do crente quanto à lei não surgiu por meio da morte da lei; é o crente que está morto. Já que você não pode fazer com que um homem morto guarde a lei, a lei não tem poder algum para tocar o Cristão. Ela o matou, e isso é tudo o que ela pode fazer. Portanto, na morte de Cristo, o crente é liberto da lei.

Uma antiga ilustração ajuda apreender isso melhor. Um homem foi executado por homicídio. Posteriormente foi provado que ele era culpado de vários outros homicídios. Mas a lei não tinha poder para tocá-lo. Ela já o havia matado, e não havia mais nada que ela pudesse dizer ou fazer para ele. Esta é a posição do Cristão em relação à lei de Moisés. Ela nos provou culpados e nos matou, e agora que nossa conexão com ela está cortada, a lei já não tem mais nada a nos dizer.

Paulo nos disse como ele morreu – “mediante a lei” (v. 19). Agora ele nos diz quando e onde ele morreu – na cruz de Cristo. Ele diz: “Já estou [fui] crucificado com Cristo” (v. 20). Nosso velho “eu” já se foi judicialmente diante de Deus na morte de Cristo. De fato, a epístola apresenta vários aspectos da morte de Cristo por várias razões:

  • No capítulo 1:4, a morte de Cristo coloca de lado meus pecados.
  • No capítulo 2:20, a morte de Cristo coloca a mim de lado
  • No capítulo 6:14, a morte de Cristo coloca o mundo de lado

 

A identificação do crente com Cristo não para na morte. Paulo segue dizendo: “e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. O crente também está identificado com Cristo no outro lado da morte – na vida em ressurreição (Jo 20:22; Fp 3:10). Aqui é onde o Cristianismo realmente começa – do outro lado da morte – isso é: da morte de Cristo. É na Sua ressurreição e ascensão que somos trazidos à nossa plena posição Cristã e em contato com nossas bênçãos espirituais, e é onde nossa vida está, “escondida com Cristo em Deus” (Cl 3:3).

O crente não apenas escapa do juízo na morte de Cristo, mas em sua identificação com Cristo em ressurreição ele torna-se um vaso para expressão do novo “eu”, o qual é Cristo vivendo nele. Não é que Cristo pessoalmente habita no corpo físico de crentes (como faz o Espírito Santo), mas antes, a vida de Cristo está no crente. O ponto aqui não é tanto que devemos viver para Cristo, mas antes que devemos viver Cristo. O caráter de Cristo deve ser visto em nós.

Além disso, esta vida é para ser vivida “por fé, a fé do Filho de Deus” (Gl 2:20 – JND). Observe que não é fé no Filho de Deus, mas “a fé do Filho de Deus”. Isso significa que em cada passo da nossa vida Cristã devemos exibir o mesmo tipo de fé que o próprio Senhor exibiu quando andou neste mundo. O artigo “na” (v. 20 – ARC) antes da palavra “carne” não deveria estar no texto quando se refere à vida que o Cristão agora vive. Isto implicaria viver após as sugestões da natureza pecaminosa, e negaria todo o ponto da passagem. Não vivemos a nova vida “na carne”, mas antes “em carne”, o que simplesmente significa em nosso corpo humano.

Deus sabe que a nova vida, em que devemos viver por fé, precisa de um objeto para sustentar nosso interesse. Portanto, Ele nos deu um novo Objeto para nossa vida – o “Filho de Deus”. Ele é mais do que suficiente para preencher e satisfazer nosso coração e mente. Note que este Objeto não é a lei de Moisés, mas uma Pessoa viva – Cristo. A fé enxerga a Cristo, o Filho de Deus, e olha para Ele; e, na medida em que estamos ocupados com Ele, como nosso Objeto, receberemos poder do Espírito de Deus para fazer as coisas que são agradáveis a Deus (Rm 8:4).

Não apenas temos um novo Objeto para nosso coração, mas temos também um novo motivo para uma conduta Cristã. Ele diz: “O qual me amou, e Se entregou a Si mesmo por mim”. Observe também que Ele nos amou, e provou Seu amor entregando-Se a Si mesmo na Cruz. Eu verdadeiramente vivo, mas por quão grande custo! Tal amor gera amor em nosso coração, o qual produz obediência em nossa vida. Esta não é uma obediência legalista, mas uma obediência que é nascida a partir de devoção de coração a Cristo. Quando aquilo que Cristo fez por nós faz morada em nosso coração, é então produzida uma resposta de obediência em nossa vida que a lei jamais poderia produzir. Tal amor é a fonte da devoção na vida do crente.

Os oponentes da graça irão argumentar que se a lei não tivesse parte na vida do crente, não haveria restrições para uma conduta pecaminosa. Alguém poderia crer no Senhor Jesus para salvação e então seguir em uma vida de pecado. Paulo mostra aqui que existem novos princípios na vida do crente que o motivam – não a pecar – mas a viver uma vida piedosa.

Quatro Novas Coisas na Vida do Crente

Assim, como resultado da identificação do crente com Cristo em ressurreição, existem agora quatro grandes coisas que governam sua vida. O crente tem:

1) Uma nova vida – “Cristo vive em mim”.
2) Um novo poder – “fé”.
3) Um novo Objeto – o “Filho de Deus”.
4) Um novo motivo – “o Qual me amou”.

 

Paulo conclui dizendo: “Não coloco de lado a graça de Deus; porque se a justiça é por lei, então Cristo morreu para nada” (v. 21 – JND). O propósito todo da morte de Cristo cai por terra como desnecessário se a justiça pode ser obtida por se guardar a lei. Se existisse uma maneira legítima de pecadores serem salvos e terem uma posição justa diante de Deus, por que Deus teria enviado Seu Filho à cruz e permitido que Ele sofresse insondáveis agonias? Cristo poderia ter sido poupado de todo aquele sofrimento para fazer a expiação. Sugerir que haveria na verdade outro meio de salvar pecadores (isto é, pela lei deles) e que ainda assim Deus fez Cristo sofrer no Calvário, é lançar um enorme insulto ao coração de Deus. Isso também despreza a grandiosidade da obra de Cristo. Estas são sérias ramificações que resultam de se ensinar que a justiça pode ser obtida pelo guardar da lei.

A Nova Vida Não Precisa de Lei

O erro de tentar acrescentar a lei à graça é assumir uma premissa que é totalmente falsa. Colocar a nova natureza sob a lei é supor que existe alguma coisa na nova vida que quer fazer o errado. Mas não existe nela tal impulso. A nova vida não deseja nada além de fazer a vontade de Deus, e, portanto, tudo o que ela precisa é instrução quanto a isso. Deus nos deu as Escrituras para que possamos conhecer a Sua vontade, e também nos deu o Espírito Santo para nos dar o poder de fazê-la. Na medida em que o crente olha para Cristo e é assim capacitado pelo Espirito Santo, ele irá fazer aquelas coisas que serão agradáveis a Sua vista. Ele irá cumprir os “justos requerimentos (morais) da lei” sem estar debaixo da lei (Rm 8:4 – JND). Na verdade, ao viver a vida de Cristo, o crente irá muito além dos padrões morais da lei, como exibido na vida do Senhor, enquanto andou aqui.

Logo, pensar que a lei é necessária para guiar a nova vida, manifesta uma grosseira falta de entendimento da lei e da nova natureza no crente. A lei não pode corrigir a carne, e a nova vida não precisa da lei.

 

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Não devemos perder a linha de raciocínio de Paulo na defesa de seu apostolado. A razão para mencionar este terceiro encontro com Pedro é mostrar que Paulo não era nem um pouco inferior a ele, mesmo que Pedro fosse reputado como sendo o principal apóstolo. O ponto que os gálatas precisavam entender aqui era que não somente Pedro tinha sido repreendido por Paulo, mas que Pedro aceitou a correção! A segunda epístola de Pedro mostra que ele tinha recebido a correção de Paulo e que também se beneficiou dela (2 Pe 3:15-16). Os gálatas podiam aprender do exemplo de Pedro; se Paulo tinha o poder de corrigir o principal apóstolo, então certamente ele tinha o poder de os corrigir. Portanto, eles deveriam estar desejosos de receber a correção de Paulo quanto à posição e prática Cristã à parte da lei, como Pedro fez.

Resumo dos Três Encontros de Paulo com Pedro

1) Seu primeiro encontro responde à falsa acusação de que Paulo era um pregador renegado que não estava no mesmo passo com os apóstolos. Havia, de fato, perfeita harmonia entre ele e Pedro e os outros na Judeia (cap. 1:18-24).
2) Seu segundo encontro responde à insinuação de que Paulo era deficiente em seu entendimento da revelação Cristã e, portanto, não poderia haver confiança em sua pregação. Esse relato estabelece que os outros apóstolos não podiam acrescentar algo a Paulo quanto ao entendimento da verdade. Eles reconheceram isto e deram-lhe “as destras em comunhão” em sua pregação e ensino (cap. 2:1-10).
3) Seu terceiro encontro responde à acusação de que ele não tinha autoridade como um apóstolo. O relato em Antioquia estabelece o fato de que a autoridade de Paulo como um apóstolo não era inferior à de Pedro, e isso foi demonstrado em sua repreensão a Pedro (cap. 2:11-21).

 

Isso prepara o palco para a defesa do evangelho que Paulo pregava nos próximos dois capítulos. Ao entender estes fatos a respeito de seu apostolado, os gálatas estariam prontos para receber o ensino de Paulo quanto à verdade da liberdade Cristã separada da lei.