Exortações à Graça e à Liberdade Cristãs
(Capítulos 5-6)
Nos capítulos 3-4 somos ensinados que o crente é justificado à parte da lei e que misturar lei com princípios de graça é prejudicial à vida Cristã num sentido prático. Agora nos capítulos 5-6, o apóstolo exorta os gálatas à conduta Cristã correta no que diz respeito a essas verdades.
Sete Exortações
Nesta última seção da epístola existem sete exortações distintas à vida normal Cristã. Elas resumem a vida prática de um crente andando em graça. Estas exortações são acompanhadas de explicações e razões quanto ao porquê é dada atenção a elas. Esta é uma das muitas belezas do Cristianismo; não apenas somos exortados à vida Cristã correta, mas nos é dito o porquê. Não era assim no judaísmo; aos filhos de Israel era dito que fizessem o que Moisés os havia ordenado, sem explicações. Por vezes Moisés mesmo não sabia porque o Senhor queria que eles fizessem aquelas coisas. Mas isso não é assim no Cristianismo; temos um “culto racional [serviço inteligente – JND]” (Rm 12:1). Fazemos as coisas que Deus pediu para fazer com entendimento.
1) Permanecei Firmes na Liberdade Cristã
Cap. 5:1-15
O capítulo 4 terminou com aquilo que o crente é pela graça de Deus – “livre”. Isso atua como uma transição para o que se segue nestas exortações. Paulo começa com: “Estai [permanecei – AIBB], pois firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão”. Esta é uma exortação à firmeza na nossa posição e crença quanto à “fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos” (Jd 3 – AIBB). Isso requer um entendimento claro da verdade que Paulo apresentou nos capítulos 3 e 4. “Permanecer firme” na verdade deve necessariamente vir primeiro nas exortações dos capítulos 5 e 6; as que se seguem fluem a partir desta. É imperativo, portanto, que os gálatas estivessem firmados na fé Cristã – particularmente naquilo que pertence à liberdade do crente. Se eles estivessem firmes na verdade, os charlatões que os enganaram não teriam sido capazes de desviá-los para dentro do “jugo da servidão” (Jo 8:32).
A posição a que Paulo se refere aqui não é a nossa posição diante de Deus em Cristo pela fé em Sua obra consumada na cruz (Rm 5: 2; 1 Co 15:1; 1 Pe 5:12). Essa posição é uma coisa posicional que é perfeita e completa e nunca pode ser alterada. Portanto, não há exortação na Escritura em conexão com nossa posição em Cristo; é firme e certa em Cristo no alto. O “permanecer firme” mencionado aqui é algo prático em que alguém se mantém firme em suas convicções sobre a verdade (1 Co 16:13; Ef 6:11-14; Fp 1:27, 4:1; 1 Ts 3:8; 2 Ts 2:15).
Nos versículos seguintes (2-15), Paulo apresenta um número de razões pelas quais eles precisavam permanecer firmes na verdade.
a) Adotar a Lei com Efeito Nulifica a Obra Expiatória de Cristo
V. 2 – Para enfatizar a importância de se atender à exortação para “permanecer firme”, Paulo fala com todo o peso de sua autoridade apostólica, dizendo: “Eis que eu, Paulo, vos digo”. O ponto neste versículo é que a obra de Cristo é o único terreno verdadeiro de aceitação diante de Deus para o crente. Se uma pessoa tomar qualquer outro terreno para sua aceitação, ela, com efeito, nulifica o único terreno de expiação que existe.
Não foi dito aos gálatas pelos judaizantes que abandonassem sua fé Cristã, mas que acrescentassem a guarda da lei à obra de Cristo como um terreno adicional de aceitação para com Deus. Paulo mostra que isso é impossível. Ele diz: “se vos deixardes circuncidar (um termo que ele utiliza para se referir à adoção do sistema legal), Cristo de nada vos aproveitará”. Simplesmente não pode existir duas bases de aceitação para com Deus, duas salvações, dois caminhos de vida. A aceitação de um implica a rejeição do outro. Não pode haver nenhum comprometimento; qualquer desvio destrói todo o sistema de graça. Portanto, para os gálatas terem aceitado guardar a lei como seu terreno de aceitação, significava que eles haviam efetivamente rejeitado a obra expiatória de Cristo. A gravidade disso é impossível de ser exagerada. Se uma pessoa está confiando em guarda da lei para sua justificação e aceitação diante de Deus, então ela claramente não está descansando em fé na obra consumada de Cristo para sua justificação. Se este é o caso, essa pessoa absolutamente não é salva! Portanto, é como se Paulo estivesse dizendo: “Eu não penso que você quer adotar este terreno, porque se o fizer, estará se colocando na posição de uma pessoa que absolutamente não é salva!”
b) Adotar a Lei Coloca a Pessoa Sob a Maldição da Lei
V. 3 – Outra razão para “permanecer firme” naquilo que a graça realizou e não se embaraçar com a servidão do sistema legal é que aqueles que adotam o sistema legal se colocam sob a obrigação de fazer tudo o que a lei ordena. Paulo diz: “E de novo protesto [testemunho] a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei”. A pessoa se compromete em obediência ao sistema inteiro e é obrigada a guardar “toda a lei”. O problema aqui é que ninguém foi capaz de fazer isso! Além disso, falha em guardar a lei – o que é inevitável – traz sobre a pessoa a maldição da lei! Tiago confirma isso, dizendo: “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2:10).
Os gálatas (e muitos Cristãos hoje) precisavam entender que uma pessoa não pode adotar a lei de um modo fragmentado – selecionando e escolhendo quais partes quer reter e praticar. Se você adota o terreno da lei então você tem que tomar ele todo. Paulo tinha já declarado no terceiro capítulo: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (cap. 3:10)
Portanto, ao adotarem a lei, como seu terreno de aceitação, os gálatas não haviam apenas se desviado para longe do único real meio de aceitação diante de Deus (na obra consumada de Cristo), mas também tinham adotado aquilo que tão somente os condenava! Não é de se surpreender que Paulo tenha dito: “Ó insensatos gálatas” (cap. 3:1)
c) Adotar a Lei Priva a Pessoa do Benefício Assegurado Pela Graça
Vs. 4-6 – Outra razão para “permanecer firme” no que a graça realizou e não se embaraçar com o sistema legal é que ao adotar tal terreno o crente é separado de Cristo e das muitas bênçãos que possui n’Ele. Paulo diz: “Privados estais de todo benefício de Cristo como separados d’Ele, tantos quantos são justificados por lei” (v. 4 – JND). (Ele não estava querendo dizer que alguém pudesse realmente ser justificado pela lei, mas se referia àquilo que eles achavam que poderiam ser ao tentar guardar a lei). Cristo morreu para toda aquela ordem legal de coisas, e ao ressuscitar dos mortos, Ele está numa nova posição onde a lei não tem conexão alguma com Ele. O Cristão está associado com Cristo naquela nova posição, do outro lado da morte, e portanto, a lei não tem nenhum direito sobre ele também (Rm 7:1-6). Ao adotarem o terreno legal, os gálatas estavam (se isso fosse possível) se removendo do terreno Cristão, onde estão todas as suas bênçãos Cristãs. Eles tinham, com efeito, se “separado de Cristo” e de todas as coisas que Ele assegurou para eles na redenção!
Ao adotar tal posição eles tinham “caído da graça”. Observe que Paulo não diz: “da salvação tendes caído”; A Escritura é clara quanto à impossibilidade de um crente em Cristo perder sua salvação. No entanto, é muito possível para um crente “cair da graça” – isso é, naquilo que diz respeito a seu entendimento e prática. Portanto os gálatas tinham “caído” (em experiência) do lugar no qual a graça os havia colocado.
V. 5 – Paulo então dá um exemplo daquilo que eles tinham perdido ao caírem da graça. Ele diz: “Porque nós, por meio do Espírito, no princípio de fé, aguardamos a esperança da justiça” (v. 5 – JND). Ele fala disso como algo que é normal para alguém permanecendo em graça. Ele diz: “nós”; ele não podia dizer “vós” (como ele fez no versículo 4) porque havia uma dúvida quanto ao fato deles estarem ou não verdadeiramente em terreno Cristão, e quanto ao fato deles verdadeiramente possuírem esta esperança. Observe também que ele não diz que o Cristão aguarda por justiça – que era a posição do legalista – porque a justiça foi assegurada em Cristo (2 Co 5:21). O Cristão está esperando agora pela “esperança da justiça”, isso é, o estado glorificado, o qual será nosso no Arrebatamento. (Isto é o mais perto que chegamos da vinda do Senhor na epístola). Esperança na Escritura não é usada como se usa hoje – possuindo juntamente uma medida de incerteza – antes, trata-se de uma certeza adiada.
É “o Espírito” Quem infunde em nós esta esperança e nos dá sentimentos e desejos em acordo com ela. A posição Cristã normal é de expectação. No entanto, se uma pessoa adota o sistema legal como meio de obtenção de justiça e como sua regra de vida, o Espírito de Deus é impedido de gerar estes pensamentos e sentimentos Cristãos normais em sua alma. Quando uma pessoa toma para si a lei, ela normalmente abandona a vinda do Senhor como uma esperança. Isso mostra que existem algumas ramificações graves ao se adotar a guarda da lei.
Nos versículos 5-6 temos “esperança”, “fé” e “amor [caridade]”. Estes três elementos são necessários para viver a vida Cristã apropriadamente. Se um destes estiver faltando em nossa vida nosso andar prático será afetado. “Esperança” nos concede olhar adiante com confiança; “fé” e “amor” nos dão a energia para andar neste mundo que é oposto a Deus. Paulo diz que a fé é incitada pelo amor; e amor Cristão não pode ser produzido pelos rituais legais do judaísmo.
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Nos versículos 1-6 Paulo mostrou que ter a lei como a base para a justificação do crente coloca em dúvida sua posição perante Deus; agora nos versículos 7-15 ele mostra que este mal também afeta o estado do crente na Terra. Ele tocou neste assunto no capítulo 4, mas agora retorna a ele para enfatizar a necessidade de permanecer firme na verdade da liberdade Cristã.
d) Adotar a Lei Traz o Juízo Governamental de Deus
Vs. 7-10 – Paulo continua apresentando outra razão pela qual os gálatas deveriam “permanecer firme” naquilo que a graça realizou e não adotar o sistema legal. Aqueles que promovem tal erro entre os santos trazem sobre si o juízo governamental de Deus. Paulo diz: “Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade?” Eles tinham tido um bom começo em sua vida Cristã, mas alguém impediu seu progresso. Ao perguntar aos gálatas “quem” era que os tinha desviado, Paulo indicava que havia um certo líder do elemento judaizante que era particularmente responsável pelo abandono da verdade pelos gálatas. Ao fazer isso, Paulo estava rastreando o problema até a sua origem. Eles tinham absorvido má doutrina desse mestre.
Paulo diz: “Esta persuasão não vem daqu’Ele que vos chamou”. Isso mostra que esse movimento em direção ao sistema legal não era um movimento divino. O Senhor certamente não os havia persuadido a se voltarem para a lei.
Paulo queria que eles entendessem como isso começou. Alguns entre eles absorveram “um pouco de fermento” (uma figura do mal na Escritura) de uma fonte errada acatando a mistura de lei e graça; e assim, como o fermento se espalha pela massa, também a má doutrina havia se espalhado a outros, até que muitas assembleias naquela região da Galácia fossem levedadas por ela. Desta forma, Paulo ilustra como o fermento funciona. No versículo 10 ele diz: “aquele que vos inquieta”; e então no versículo 12 ele diz: “aqueles que vos andam inquietando”. Aparentemente o problema começou com uma pessoa que ensinava má doutrina, porém ela se espalhou rapidamente a outros que passaram a promovê-la. O ensinamento pervertido dos judaizantes havia afetado gravemente os gálatas; isso nos mostra o quão cuidadosos precisamos ser quanto àquilo que ouvimos (1 Ts 5:21). Paulo usa essa mesma figura do fermento no que se refere ao mal moral (1 Co 5:6-8); aqui em Gálatas o fermento é usado em conexão com o mal doutrinal. Ambos os males, moral e doutrinal, possuem um efeito corruptivo nos santos de Deus. Assim como o fermento, o mal nunca é estático; ele irá ganhar terreno entre os santos até que seja julgado.
Embora isso fosse verdade com relação àqueles que eram promotores do mal, Paulo não desejava implicar que todos os gálatas eram responsáveis no mesmo grau daqueles que ensinavam o erro. Ele disse: “Confio de vós, no Senhor, que nenhuma outra coisa sentireis [não tereis outro modo de pensar – TB]” (v. 10). Ele cria que o Senhor não iria permitir que a maioria dos gálatas fosse tão profundamente afetada por esse mal de maneira que não pudessem ser recuperados. Ele cria que eles poderiam ser libertados do lamaçal em que estavam presos. Isso mostra a atitude adequada de um que ministra a Palavra de Deus; ele deve proclamar a verdade em fé confiando que Deus irá fazer a verdade benéfica às almas e produzir resultados positivos.
Paulo, todavia, acrescenta: “mas aquele que vos inquieta, seja ele quem for, sofrerá a condenação [levará a culpa disso – JND]”. Ele sabia que Deus certamente iria executar juízo governamental sobre aqueles que eram responsáveis – especialmente o líder do movimento. Este princípio permanece assegurado: aquele que “corrompe” a casa de Deus, Deus julga (1 Co 3:17 – JND). Existem muitos que estão perturbando o povo do Senhor hoje com doutrinas e práticas errôneas, e eles vão levar seu juízo.
Podemos imaginar porque Paulo não exortou os gálatas a colocarem fora de comunhão os judaizantes e assim por um fim àquele elemento que estava operando em seu meio. Entretanto, no estado deles, isso teria sido impossível. Os judaizantes tinham uma base tão forte nas assembleias da Galácia que não havia poder naquelas assembleias para lidarem com eles – a maioria, senão todos, tinham sido enganados por estes falsos mestres e estavam apoiando o programa deles.
Quando este é o caso em uma assembleia, devemos, assim como Paulo fez, nos apoiar na soberania de Deus, e descansar no fato de que Deus irá lidar com aqueles que fazem o mal em Sua casa. Enquanto isso, eles podiam apelar ao Senhor acerca da questão. Paulo falou sobre isso aos coríntios. Ele disse que se eles não soubessem o que fazer com aquele que praticava o mal em seu meio, ou não tivessem poder na assembleia para exercer o julgamento necessário sobre tal pessoa, eles poderiam então ter encomendado a questão ao Senhor e “lamentado”. Deus poderia responder a súplica deles e fazer com que a pessoa “fosse tirada” pela morte (1 Co 5:2 – ARA; 1 Jo 5:16; 1 Pe 4:17). A resposta para tamanha fraqueza não é abandonar a assembleia, mas esperar por Deus na questão.
e) Adotar a Lei Remove o Escândalo da Cruz
Vs. 11-12 – Paulo havia tocado no caráter fermentador do ensino dos judaizantes; agora ele fala da natureza enganadora do ensinamento deles.
Falando hipoteticamente, ele diz: “Eu porém irmãos, se prego ainda a circuncisão, por que sou, pois, perseguido? Logo o escândalo da cruz está aniquilado”. Uma coisa que caracteriza a verdade do Cristianismo é que existe feroz perseguição contra ela, especialmente por parte dos judeus (1 Ts 2:14-16). Isso acontece porque a verdade do Cristianismo coloca inteiramente de lado o judaísmo e isso era ofensivo para os judeus. Mas se Cristãos adotassem o sistema legal, os judeus seriam menos hostis para com o evangelho, e a perseguição em grande parte cessaria. Os legalistas que estavam inquietando os gálatas estavam promovendo isto. Eles usaram isso como uma “isca” colocada diante dos gálatas para fazer com que aceitassem seu ensino. Eles ensinavam que se os crentes adotassem a lei, isso iria fazer com que “o escândalo da cruz” terminar, e assim, os gálatas escapariam da perseguição que enfrentavam diariamente. Desejar escapar da perseguição é compreensível; no entanto, perseguição é normal ao Cristianismo. Se obedecermos à verdade do evangelho é impossível evitar perseguição; a própria natureza do Cristianismo é contrária a tudo aquilo para o que o homem na carne se dispõe. Portanto, havia um elemento enganador no ensino dos judaizantes. Eles estavam apresentando uma falsa vantagem aos gálatas para que assim aceitassem seu ensinamento.
Vendo o efeito causado pelo mal dos judaizantes, Paulo desejou que estes, que estavam lançando os gálatas em confusão, se “cortassem fora a si mesmos” (v. 12 – JND). Ele desejou que eles se separassem dos santos, de maneira que os santos ficassem livres de suas influências. Hamilton Smith disse: “Seu amor (o de Paulo) pela verdade e bem-estar dos crentes o fez intolerante para com aqueles cujo ensinamento era destrutivo da verdade Cristã, roubando os santos da verdadeira liberdade e os levando a praticar aquilo que era inconsistente com o Cristianismo”.
f) Adotar a Lei Abre a Porta para a Manifestação da Carne na Vida do Crente
V. 13 – Outra razão para “permanecer firme” no que a graça realizou e não se voltar para os princípios legais da lei é que o legalismo abre a porta para a carne operar na vida do Cristão – exatamente aquilo que o legalista está tentando restringir. Guardar a lei não produz santidade, como os judaizantes supunham, mas, pelo contrário, excita a carne.
Ao confiar no Senhor para livrar os gálatas da lei (v. 10), Paulo sabia que haveria outro perigo muito real à espreita – o de cair na licenciosidade. Este era o ditado: “a vala no outro lado da estrada”. Alguns, que foram libertos de princípios legais, não foram cuidadosos quanto a isso e permitiram que o “pendulo” oscilasse longe demais, para o outro lado e deram liberdade para a carne agir em sua vida. Isso não é Cristianismo mais do que a guarda da lei. Paulo, portanto, achou necessário advertir os gálatas, afirmando: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne”. Isso mostra que é possível abusar da liberdade que a graça nos trouxe (Jd 4). Lembremo-nos de que a liberdade ensinada pela Escritura é libertação do pecado e não liberdade para pecar! Liberdade Cristã não é licença para a carne agir, mas liberdade para o Espírito operar na vida do crente. É liberdade para a nova vida se expressar, e não liberdade para a expressão da velha natureza. Portanto, Paulo acrescenta: “servi-vos uns aos outros pelo amor”. Amor é uma característica própria da nova vida. Se o Espírito de Deus tem liberdade na vida do Cristão, ela será manifestada em expressões práticas de amor entre os santos. A verdadeira liberdade Cristã resulta nessa feliz atividade.
Vs. 14-15 – Paulo então diz: “Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros”. Isto pode parecer contraditório com o que ele vem ensinando na epístola. Ele tem insistido que a lei não tem aplicação ao Cristão; mas agora ele vem e cita a lei e fala dela, aparentemente como sendo algo para o Cristão seguir! No entanto, os versículos 14 e 15 devem ser lidos juntamente. Paulo não está se contradizendo; ele está mostrando aos gálatas que eles estavam apenas enganando a si mesmos ao pensar que estavam guardando a lei. A lei demanda que a pessoa que está sob ela ame o seu próximo. Se os gálatas estivessem verdadeiramente guardando a lei, eles estariam fazendo isso. Mas eles estavam mordendo e devorando uns aos outros! Esta era a prova definitiva de que eles não estavam guardando a lei. Apenas ressalta seu argumento no capítulo 4 de que misturar lei e graça causa séria perda de discernimento a alguém. E se de fato estavam guardando a lei, pessoalmente provava que a lei não pode produzir santidade e amor na vida de uma pessoa! A lei demanda amor, mas não dá a capacidade de atender às suas demandas.
Tentar guardar a lei na verdade abre a porta para a carne na vida do Cristão; tal tentativa resultará em todos os tipos de manifestações carnais. Isso acontece porque o legalismo promove a justiça própria. Ficamos orgulhosos de que estamos guardando certas regras e regulamentos que estabelecemos para nós mesmos. Isso levará a acharmos falhas nos outros e a calúnias – particularmente contra aqueles que não consentem com as nossas ideias legalistas. Isso apenas produz contenda entre irmãos. Os gálatas eram um vivo exemplo disso. Eles haviam adotado a lei como uma regra de vida, pensando que isso aperfeiçoaria a santidade em sua vida, mas tudo o que ela fez foi excitar a carne. Paulo os alerta dizendo que era melhor que eles “tomassem cuidado (vede)” porque se aquele espírito prosseguisse sem ser julgado por algum período de tempo, os santos seriam “consumidos” uns pelos outros.
É um fato que o legalismo numa assembleia é destrutivo. Assembleias que possuem legalismo em seu meio são normalmente assembleias marcadas por contenda. Legalismo não produz feliz unidade e legítimo amor de um para com o outro, antes produz discussões, criticismo, brigas internas, etc. Hamilton Smith disse que ele tinha visto muitas assembleias que foram separadas e espalhadas por conta do legalismo.
2) Andai no Espírito
Cap. 5:16-26
A primeira exortação era para “permanecer firme” na verdade que a graça realizou para nós pela obra consumada de Cristo (v. 1). A próxima exortação é para “andar no Espírito” (v. 16). Esta ordem é significativa. Devemos permanecer firmes na verdade antes de podermos andar naquelas coisas de maneira prática. Isto confirma a verdade daquele antigo ditado: “Nossa doutrina forma o nosso andar”. C. H. Brown disse: “Você tem que crer corretamente antes de poder andar corretamente”. Quão verdadeiro é isto. A primeira exortação pertencia àquilo que a graça realizou para nós; essa segunda exortação tem a ver com o caminho da verdadeira santidade.
A mente legalista que não entende a verdadeira liberdade Cristã tentará aperfeiçoar santidade por meios legalistas. Isso é o que os gálatas estavam fazendo. Paulo agora mostra a eles o caminho de Deus de santidade e consagração; ele apresenta a maneira ordenada por Deus de restringir a carne. É simplesmente essa: “Andai no Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne”. Que declaração simples da verdade é esta! Não há necessidade da complicada aderência aos mais de 600 mandamentos, estatutos e ordenações da lei; o poder para santidade na vida Cristã é por meio do Espírito Santo. A responsabilidade do crente, portanto, é “andar no Espírito” e o resultado será a santidade prática.
Três Maneiras em que um Cristão Pode Viver em Relação a Carne
- Por lei – numa falha tentativa de restringir a carne.
- Por libertinagem – deixando a carne se manifestar livremente e fazer o que agradar a ela.
- Por liberdade do Espírito – na qual a carne é restringida por poder divino.
Portanto, liberdade Cristã é ameaçada pelo legalismo, pervertida pela permissividade, e somente é aperfeiçoada pelo andar no Espírito.
Quando Paulo disse “Andai no Espírito” ele não estava se referindo ao recebimento e possessão do Espírito de Deus. Todos crentes possuem o Espírito Santo habitando neles (1 Ts 4:8; Tg 4:6; 1 Jo 3:24), mas nem todos Cristãos necessariamente “andam no Espírito”. Isso é uma espécie de afirmação abstrata que necessita de mais explicação. “Andar” significa seguir o curso diário da vida. Andar “no Espírito” significa ter nossa ocupação diária na esfera “das coisas do Espírito”, que são os interesses de Cristo na Terra (Rm 8:5). Isso significa que devemos usar nosso tempo lendo as Escrituras, orando, cantando hinos, lendo ministério são, ouvindo são ministério gravado, meditando nestas coisas durante o dia, indo nas reuniões de assembleia, visitando e encorajando outros Cristãos (comunhão), exercitando nosso dom conforme a direção do Senhor, engajando-nos com trabalho de evangelismo, servindo ao Senhor com boas obras, etc. Quando nos ocupamos com essas coisas em comunhão com Deus, estamos andando no Espírito. Quando vivemos nessa esfera, o Espírito de Deus estará livre para trabalhar em nós e por meio de nós, e Seu poder estará presente para restringir a carne. O resultado será que “não cumpriremos as concupiscências da carne”.
Romanos 8 se estende no assunto da libertação do crente da atividade da natureza caída pecaminosa. Os quatro primeiros versículos daquele capítulo apresentam o princípio de libertação da carne. O Espírito de Deus vem habitar no crente para dar a ele poder e liberdade da “lei do pecado e da morte”. (Esta é uma expressão técnica usada para indicar a operação da velha natureza – a carne). Para efetuar esta vitória sobre a carne, Deus introduz um novo princípio na vida do crente, chamado “a lei do Espírito de vida em Cristo Jesus”. O Espírito de Deus, habitando no crente, supera os desejos da carne de maneira que ele já não é mais um escravo das tendências dela.
Para ilustrar isso, pense na lei científica da gravidade; todo objeto está sendo atraído para baixo, em direção ao centro da Terra por uma força invisível chamada gravidade – isso acontece por toda a Terra. É chamada lei ou princípio da gravidade. Segure qualquer objeto sólido; um livro, por exemplo; eleve-o à distância de um braço estendido, solte-o, e ele cai no chão. Ele cairá no chão todas as vezes que você fizer o experimento; trata-se de um princípio universal. Agora no que se refere à natureza pecaminosa, também se trata de um princípio universal, o qual está presente em todos os seres humanos. Tal princípio quer fazer uma coisa – puxar a pessoa abaixo, em direção ao pecado.
Levando nossa ilustração um pouco adiante, vamos supor que queremos alterar as coisas de modo que, quando soltássemos o livro da nossa mão, ele não mais caísse no chão sob a força da gravidade. Então, amarramos ao livro alguns balões cheios de gás hélio (que é mais leve que o ar) em quantidade suficiente para que a força levantadora proveniente dos balões seja maior do que o peso do livro; quando soltarmos o livro da nossa mão, ele irá subir em vez de cair em direção ao chão. Isso acontece não porque a lei da gravidade foi removida, mas porque introduzimos sobre o livro uma lei ou princípio mais poderoso.
Isso ilustra o que Deus fez pelo crente. A natureza caída não é removida quando uma pessoa é salva. Não estaremos livres desse inimigo interno até que o Senhor venha. Aprouve a Deus nos deixar aqui neste mundo com a natureza caída ainda em nós (e o estado de nossa alma é constantemente testado por ela), porém Ele fez completa provisão para vivermos acima do poder desta coisa maligna. O poder do Espírito Santo em nós, chamado “o Espírito de vida em Cristo Jesus”, assim como o gás hélio, foi introduzido em nossa vida para se sobrepor a força da natureza pecaminosa, de maneira que possamos viver livres das atividades da carne. Este é o modo de Deus para santidade.
Em Romanos 8:5-14, Paulo apresenta o modo como libertação continuada pode ser obtida. Ele explica que existem dois domínios, ou esferas nas quais uma pessoa pode viver; uma esfera que pertence à carne, e uma esfera que pertence ao Espírito. Ele fala de uma esfera como sendo “as coisas da carne” sem entrar em detalhes, porém todos sabemos após qual tipo de coisa a carne se inclina. Ele diz: “os que são segundo a carne inclinam-se para as [põem sua mente nas – TB] coisas da carne”. “Por a mente” em alguma coisa significa “dar atenção a algo”. Esse é o lugar onde o perdido vive: ele não conhece outro domínio, porém é possível que Cristãos também vivam nessa esfera. Então ele menciona uma segunda esfera – “as coisas do Espírito”, novamente sem apresentar especificações. Como já mencionado, estas seriam coisas que têm a ver com os interesses de Cristo.
Estas duas esferas são exatamente o oposto uma da outra. Seus interesses são polos opostos. Uma serve aos interesses próprios e a outra serve aos interesses de Cristo. Uma estrada, por assim dizer, se estende a partir de cada uma dessas esferas as quais levam para longe uma da outra. Uma leva àquilo que é verdadeiramente “vida e paz”, e a outra leva à “morte”. O apóstolo não está falando da morte física aqui, mas de morte moral na vida do crente. Morte, como sabemos, sempre traz a ideia de separação. Neste versículo ela se refere à separação em nosso elo de comunhão com Deus.
Então em Romanos 8:12-13, Paulo apresenta uma sóbria conclusão dizendo: “Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes [colocardes na morte – JND] as obras do corpo, vivereis”. Seu ponto é simples: se vivermos (andarmos) na esfera da carne, podemos esperar que isso irá gerar morte. Quando alimentamos a carne, ela irá se manifestar em nossa vida e nos dominar, e destruirá nossa comunhão com o Senhor no processo. Mas se vivermos na esfera do Espírito, o Espírito tomará o controle de nossa vida e então teremos poder o bastante para viver uma vida santa para a glória de Deus. Cada Cristão tem uma escolha quanto à esfera em que ele quer viver, e isto constantemente nos testa em relação ao quanto de Cristo realmente queremos.
Vs. 17-18 – Voltando para o nosso capítulo, o apóstolo nos diz que haverá uma luta constante com a carne na vida do crente se ele não andar no Espírito. Isso não precisa ser assim, porque Deus fez completa provisão para vivermos acima das propensões da carne, como já indicamos. Ele descreve esta luta – que todos conhecemos muito bem – dizendo: “a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis”. Tendo uma nova vida com novos desejos pelas coisas de Deus, o crente naturalmente deseja fazer a vontade de Deus, porém se ele não andar no Espírito, a carne estará ativa e ele não será capaz de fazer as coisas que a nova vida deseja. O resultado é que há uma luta (um conflito) na alma e o crente frequentemente experimenta falha. Isso leva à frustração. Muitos Cristãos não conhecem nada além dessa desapontadora e recorrente experiência em sua vida. Alguns são tão desencorajados que eles culpam a Deus por isso, pensando que o Cristianismo funciona apenas na teoria, mas não na prática. Todavia, o problema é que eles não estão andando no Espírito.
Este conflito de alma não é exatamente o mesmo de Romanos 7:14-24, que contempla uma pessoa com a nova vida, porém sem a habitação do Espírito Santo. Ela luta para fazer o bem, mas falha porque não possui o poder para fazê-lo – que consiste em ter o Espírito. Tampouco deveria ser este conflito confundido com o de Efésios 6:10-12, o qual tem a ver com o crente combatendo os enganos dos espíritos malignos nas regiões celestiais. Eles estão lá tentando estragar o nosso desfrutar de nossas bênçãos espirituais em Cristo. Gálatas 5:17 descreve um conflito contra a carne que é resultante do crente não estar andando no Espírito; enquanto que Efésios 6:10-12 descreve um conflito que ocorre quando o crente está andando no Espírito.
Paulo acrescenta: “Mas se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei”. Ele mostra que se andamos em Espírito, iremos experimentar vitória sobre a carne, e isso será realizado sem a lei. A lei não poderia jamais produzir uma vida santa. Deus nunca intentou que produzisse. O meio de santidade de Deus está em andar no Espírito. A graça dá ao crente vida e o Espírito Santo; se o crente anda no Espírito e é guiado pelo Espírito, ele irá viver para a glória de Deus.
“Obras” e “Fruto”
Vs. 19-21 – Seja a permissividade imoral ou debates irados, o crente precisa entender que tudo isso é proveniente de uma mesma fonte – a carne. Paulo, portanto, segue a falar das “obras da carne”. Ele lista 16 coisas que emanam da carne.
- Males morais, que são voltados contra o próprio indivíduo – o “eu” – “prostituição [fornicação], impureza, lascívia [licenciosidade]” (v. 19).
- Males espirituais, que são voltados contra Deus – “idolatria, feitiçarias [magias]” (v. 20a).
- Males sociais, que são voltados contra o homem – “inimizades [ódio], porfias [contendas], emulações [ciúmes], iras, pelejas [contenções], dissensões [disputas], heresias [escolas de opinião, ou partidos], invejas, homicídios, bebedices, glutonarias” (vs. 20b-21).
Paulo acrescenta: “e coisas semelhantes a estas” indicando que esta não é, de forma alguma, uma lista completa. Um crente pode falhar e a carne pode se manifestar em uma ou mais destas coisas, porém elas não o caracterizam. Por outro lado aqueles que “praticam” estas coisas habitualmente não são filhos de Deus e “não herdarão o reino de Deus”.
Vs. 22-23 – Paulo passa a falar sobre o “fruto do Espírito”. Quando estamos andando no Espírito, estas maravilhosas características serão vistas em nossa vida. Frequentemente as chamamos de “frutos” (plural) do Espírito, mas elas são na verdade o “fruto” (singular) em nove partes. Talvez não sejamos todos mestres e pregadores dotados, mas todos podemos manifestar o fruto do Espírito. As nove coisas que Paulo lista aqui, como descrevendo o caráter normal Cristão, são na realidade características morais do próprio Cristo. Portanto, o crente que anda no Espírito manifestará Cristo em sua vida.
- “amor, gozo, paz” são talvez voltadas para Deus (v. 22).
- “longanimidade, benignidade, bondade” são voltadas para o homem – para com outros (v. 22).
- “fé [fidelidade], mansidão, temperança [controle próprio]” são voltadas para o próprio indivíduo (vs. 22-23).
Paulo acrescenta: “contra estas coisas não há lei”. Isso não significa que a lei é contrária a estas excelentes qualidades morais, mas significa que não existe lei que pode produzir estas características próprias de Cristo num crente; elas somente são produzidas pelo Espírito de Deus quando o crente anda no Espírito.
A mudança óbvia de palavras, de “obras” (ao descrever a carne) para “fruto” (ao descrever o Espírito), tem a intenção de trazer o pensamento de que vontade e energia humanas estão envolvidas com um e de que a energia passiva do Espírito está envolvida com outro. Ao chamar aquelas coisas carnais de “obras” Paulo indica que a vontade do homem é operante ao fazê-las, e de que o homem é, portanto, responsável por elas. A carne tem as suas obras, porém ela não produz fruto algum para Deus. Ao chamar aquelas coisas que são produzidas pelo Espírito de “fruto”, isso indica que aquelas qualidades excelentes de Cristo não são um resultado de nosso esforço, mas o resultado do silencioso trabalho de Deus no crente. Se ao Espírito é dado o Seu devido lugar na vida do crente, Seu poder irá manter a carne sob controle e irá formar as belezas morais de Cristo nele.
Vs. 24-25 – Em conclusão, Paulo diz: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências”. Isso significa que a posição que tomamos ao professarmos ser Cristãos envolve a aceitação do juízo de Deus sobre a carne. Por fé vemos nossa carne julgada na cruz de Cristo. Paulo então diz: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito”. Nossa posição Cristã é “viver no Espírito”, e desde que isso é assim, a prática normal no Cristianismo é “andar no Espírito”. Portanto, para sermos consistentes com o estado Cristão normal, devemos andar no Espírito, porque vivemos no Espírito. Em relação a isso, F. B. Hole disse: “Um pássaro não pode ter a sua vida no ar e mesmo assim ter todas suas atividades debaixo d’água. Um peixe não pode ter sua vida na água e ainda assim ter suas atividades sobre a terra. E Cristãos não podem ter sua vida no Espírito e suas atividades na carne”. Portanto, nosso andar deve certamente estar de acordo com a nossa vida no Espírito.
O Sr. Darby escreveu uma nota de rodapé7 em sua tradução indicando o uso de duas palavras diferentes para “andar” nesta parte prática da epístola. Em Gálatas 5:16 a palavra se refere a nossa conduta geral de vida, enquanto que em Gálatas 5:18, 25, 6:16 se refere à regra característica de nossa vida.
V. 26 – O comentário final de Paulo, em relação ao andar no Espírito revela, o estado triste no qual os gálatas haviam caído. A falsa busca por santidade por meio da lei tinha apenas dado lugar a carne em seu meio. A vida nas assembleias da Galácia havia se degenerado em um carnal competição, cada um procurando superar o outro em santidade, numa tentativa de atingir uma espiritualidade superior. Portanto, a palavra cautelosa de Paulo é, “Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos [provocando-nos – TB] uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” Aprendemos com isso que a carne irá até mesmo se encurvar para usar as coisas de Deus para colocar-se acima dos outros. Que isto seja um aviso para nós.
Paulo tocou em duas grandes coisas que resultam no crente que anda “no Espírito”:
- Temos vitória sobre os desejos da carne (vs. 16-21).
- As características de Cristo são vistas em nós (vs. 22-23).
Estas são as duas coisas que os legalistas estavam tentando alcançar ao guardar a lei, porém somente falharam.
3) Restaurar os que São Surpreendidos em Alguma Falta
Cap. 6:1
A primeira exortação de Paulo aos gálatas no capítulo 5:1-15 foi baseada no fato de que a posição Cristã e aceitação diante de Deus não são por guardar a lei. Sua segunda exortação no capítulo 5:16-26 mostra que a conduta Cristã também não é sustentada pela guarda da lei. Agora no capítulo 6, ele mostra que tampouco o serviço Cristão é realizado por meios legalistas. As exortações restantes neste capítulo têm a ver com o crente guiado pelo Espírito, manifestando amor e cuidado por outros em verdadeiro serviço Cristão. Legalismo tende a aprisionar as afeições de uma pessoa e fazer com que ela não pense nos outros, porém a graça, operando no crente que anda no Espírito, o levará a se sacrificar pelo bem dos outros. O que se segue neste capítulo são coisas que somente a graça levaria uma pessoa a fazer.
V. 1 – O resultado inevitável de uma pessoa andar em princípios legais é a falha. Paulo mostrou que a lei não irá restringir a carne na vida do crente, mas somente irá excitá-la, e assim, fazer com que ele falhe. Ele irá cair em qualquer uma das coisas mencionadas no capítulo 5:19-21, e necessitará de restauração. É adequado, portanto, que a próxima exortação de Paulo seja: “Irmãos, se algum homem for tomado em alguma falta, vós, que sois espirituais, restaurai o tal num espírito de mansidão, considerando a ti mesmo, para que não sejas também tentado” (v. 1 – JND)
Observe que ao crente “tomado em alguma falta” não é dito para que se restaure a si mesmo; o ônus e responsabilidade de recuperá-lo estão sobre seus irmãos. Mas quem entre seus irmãos deveria fazê-lo? Paulo diz: “vós, que sois espirituais, restaurai o tal”. Uma pessoa espiritual não é necessariamente aquela que conhece muito da verdade, ou aquele que é dotado em pregar e em ensinar, mas aquele que anda no Espírito. A maneira pela qual aquele que é espiritual deve restaurar uma irmã ou irmão caído é “num espírito de mansidão”. Mansidão envolve não ofender. Precisamos ser especialmente cuidadosos para não ofendermos o caído em nossa tentativa de alcançá-lo. Isso requer sabedoria, a qual flui somente da comunhão com o Senhor. Não iremos alcançar a pessoa apontando o dedo para ela. Censurar ou intimidar o caído não irá restaurá-lo, mas somente o leva para mais longe. F. C. Blount disse: “Você não pode lavar o pé de seu irmão com um porrete. Você o fará ficar todo roxo, porém isso não irá limpá-lo”. Paulo acrescenta: “considerando a ti mesmo, para que não sejas também tentado”. Isso nos fala de juízo próprio. Devemos ir ao caído no espírito de havermos julgado nós mesmos, estando ciente de que poderíamos ter feito exatamente a mesma coisa. O efeito da restauração numa pessoa será impedido se formos a ela com um espírito de justiça própria.
Paulo especificou três coisas quanto a este trabalho de recuperação do caído:
- Quem deve fazê-lo – aqueles que são “espirituais”.
- O que deve ser feito – “restaurai o tal”.
- Como deve ser feito – “num espírito de mansidão, considerando a ti mesmo”.
Observe que ele não diz: “vós que sois legalistas, restaurai o tal”, porque um Cristão cuja vida é ordenada em linhas legalistas provavelmente usará princípios legalistas na tentativa de restaurar a pessoa caída, e isso não irá produzir restauração. A lei cobra obediência e condenará a mínima falha em cumprir suas demandas, todavia ela é incapaz de restaurar o crente – apenas a graça pode fazê-lo. Também não é dito aos que são “espirituais” para que corrijam a carne na pessoa que caiu, porque a carne não pode ser corrigida – nem por lei, nem por graça; a carne é incorrigível. O crente tomado em alguma falta apenas será colocado no caminho correto pela percepção de sua posição de liberdade diante de Deus em graça e pelo andar no Espírito – a essência das duas grandes exortações no capítulo 5.
4) Levar as Cargas uns dos Outros
Cap. 6:2
A graça não somente nos levará a buscar o caído (v. 1), mas também nos levará a ajudar nossos irmãos que estão sob cargas (fardos) da vida (v. 2). Portanto, Paulo diz: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo”. Estas “cargas” são as provações, sofrimentos, enfermidades, etc., que uma pessoa experimenta na vida. Seu ponto aqui é que devemos ser sensíveis àquilo que nossos irmãos estão passando e procurar aliviá-los de alguma forma, se pudermos. Isso pode ser os confortando, dando conselhos, ou ajudando em alguma questão prática – mesmo se for num sentido financeiro. Cristãos, neste sentido, devem ser carregadores de cargas, porque somos “guardadores de nossos irmãos” (Gn. 4:9).
Ao carregarmos os fardos de outros, cumprimos “a lei de Cristo” – a qual é viver pela regra que Ele viveu quando estava aqui na Terra. Sua vida inteira foi despendida em sacrifício pelos outros. A lei de Cristo é a regra da nova criação.
Sacrificar-se ao ajudar outras pessoas é algo que aqueles presos pelo legalismo normalmente não irão pensar em fazer. Um espírito crítico frequentemente se manifesta quando há uma necessidade evidente. Em vez de carregar os fardos de outros, a mente legalista criticará a pessoa por estar em tal situação. Tais pessoas tendem a perturbar a paz e a unidade prática na assembleia local ao invés de promovê-las.
Os gálatas eram zelosos da lei, mas infelizmente, eles tinham a lei errada diante de si, eles precisavam da “lei de Cristo”.
5) Provar sua Própria Obra Fazendo-a
Cap. 6:3-5
Outras tendências naqueles que vivem linhas de pensamentos legalistas são o orgulho e o ciúme. A próxima exortação de Paulo trata disso. Ele diz: “Porque se alguém cuida ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Mas prove cada um a sua própria obra, e terá glória só em si mesmo, e não noutro”. Quando estabelecemos regras para nós mesmos, e as seguimos de alguma forma bem-sucedida, podemos nos tornar orgulhosos disso. Podemos acreditar que estamos fazendo essas coisas para o Senhor, porém se elas emanam da carne religiosa, há uma grande probabilidade de que produzirão um espírito de ciúme e competitividade para com os outros.
O remédio de Paulo para isso é que “cada um” deveria estar diante do Senhor quanto àquilo que Ele quer que seja feito. Ele deveria “provar a sua própria obra” fazendo-a no temor de Deus, sem olhar ao redor para aquilo que outros estão fazendo. É algo formoso servir ao Senhor com humilde contentamento e possuir um senso secreto de Sua aprovação no trabalho que é feito. A pessoa que faz isso terá “glória só em si mesmo e não noutro”. Isso é algo que uma pessoa legalista não tem, e uma das razões é porque ela tenta regular a vida de outros de acordo com seus princípios. Ela imagina que paz e aprovação vêm de outros seguirem suas ideias e isso a leva a interferir na vida e serviço dos outros para o Senhor.
Paulo acrescenta: “Porque cada qual levará a sua própria carga”. A palavra “carga” neste versículo no grego é diferente daquela usada no versículo 2, embora ambas sejam traduzidas “carga” na versão Almeida Revista e Corrigida. No versículo 2, a palavra refere-se a fardos que podemos carregar pelos outros; aqui no versículo 6, refere-se ao fardo que carregamos no cumprimento de nosso serviço para o Senhor. Existem dificuldades e provações que são peculiares ao particular serviço que nos foi dado a fazer que outros não podem carregar por nós. Se eles o fizessem, estariam fazendo o nosso trabalho. Portanto, cada um de nós tem que carregar “sua própria carga”.
Em Números 4:19 há uma figura desses dois tipos distintos de fardos. “Aarão e seus filhos virão e a cada um porão no seu ministério [serviço] e no seu cargo [fardo]”. Literalmente, o “serviço” dos levitas se refere ao seu trabalho quando o tabernáculo era erigido e o povo se chegava a Jeová com seus sacrifícios; o “fardo” de cada levita refere-se ao seu trabalho de transportar o tabernáculo em suas jornadas para um novo lugar. Aarão é um tipo de Cristo aqui, que está presentemente dispensando a cada crente um “serviço” para ser feito para Ele e um “fardo” para carregar para Ele. Ambos, o “serviço” que temos para executar, assim como o “fardo” conectado com a realização daquele serviço, são as coisas que nós mesmos temos que carregar, e ninguém pode carregar esse fardo por nós – o Senhor nos dará graça para isso (Tg 4:6). No entanto, é interessante notar que em relação ao primeiro tipo de fardo, no versículo 2, os filhos de Israel deram aos levitas “carros” e assim os ajudaram a carregar seus “fardos” (Nm 7:3-8), mas eles não puderam ajudar os levitas em seu “serviço” no tabernáculo, porque somente a eles era permitido manipular os vasos santos.
6) Comunicar com Aqueles que Ministram a Palavra
Cap. 6:6-9
Até então neste capítulo tivemos a graça para com o caído (v. 1), graça para com um irmão sob fardos (v. 2), graça em relação ao nosso trabalho para o Senhor (vs. 3-5), e agora vemos graça Cristã para com um irmão que está engajado em ensinar a Palavra de Deus aos santos (vs. 6-9).
Paulo diz: “E o que é instruído [ensinado – TB] na palavra reparta [comunique – JND] de todos os seus bens com aquele que o instrui [ensina – TB]”. O ponto aqui é que aqueles que recebem o benefício do ministério da Palavra por meio de um dos dons no corpo de Cristo (a saber, um mestre) possuem a responsabilidade pessoal de “repartir [comunicar]” com ele as coisas materiais. Essa é a maneira pela qual Deus suporta o ministério de Sua Palavra entre Seu povo. Paulo não faz menção alguma de estabelecimento de um sistema no qual o pregador possui uma folha de pagamento fixa – tal como é praticado na maioria das denominações hoje. Comunicar na forma de que Paulo fala aqui é puramente num nível pessoal, porém tal comunicação também deveria ser feita num nível coletivo de igual forma. Filipenses 4:14-16 indica que assembleias deveriam estar exercitadas quanto a ministrar financeiramente àqueles que ensinam e pregam a Palavra.
Nos versículos 7-8, Paulo introduz o princípio do governo de Deus para encorajar os gálatas a comunicarem aos servos do Senhor. Ele mostra que nas tratativas governamentais de Deus existe algo como semear e ceifar. Ele não tem apenas juízos disciplinares para corrigir o Seu povo, mas tem também favores governamentais (num sentido prático), se eles fazem o bem. Portanto, semear e ceifar possuem resultados tanto positivos como negativos. Esses versículos são normalmente tomados em um sentido negativo e usados como um aviso, mas o contexto é de um sentido positivo do governo de Deus. Paulo está nos encorajando a semear no Espírito, porque certamente iremos ceifar de uma forma positiva. É verdade que se semearmos na carne iremos “ceifar a corrupção”, mas também é verdade que se semearmos no Espírito iremos “ceifar a vida eterna”. Desde que isso é assim, a conclusão de Paulo é: “não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos”. Isso era uma exortação necessária aos gálatas porque a mente legalista, por não entender a verdadeira liberdade Cristã, normalmente é mesquinha com posses materiais.
Paulo tinha outra razão para trazer o assunto do governo de Deus. Os oponentes da graça argumentavam que se a lei não tivesse parte na vida do crente, não haveria restrições quanto a uma conduta pecaminosa. Uma pessoa poderia crer no Senhor Jesus para salvação e então entregar-se à uma vida pecaminosa e ainda assim ela seria aceita por Deus. Paulo mostra aqui que embora o crente seja sempre aceito (Ef 1:6), ele não ganha nada em viver pecando. Se um filho de Deus escolhe viver após a carne, existe algo como o governo do Pai na vida de Seus filhos disciplinando aqueles que voluntariamente pecam no caminho. Um crente não consegue seguir pecando em sua vida sem pagar um preço de sofrimento sob as mãos do Pai. O medo de ficar sujeito a Seu juízo governamental em nossa vida deveria ser uma forte motivação para julgarmos a carne e andarmos no Espírito (1 Pe 1:16-17). Nosso problema é que semeamos na carne e então oramos por uma má colheita! Todavia, nada passa despercebido aos olhos de Deus; Ele toma a conta de tudo e trata conosco segundo Seu grande amor e perfeita sabedoria. Um de nossos hinos corretamente diz: “Todos os Seus atos para conosco são puro amor”.
Se temos semeado na carne não devemos desistir em desespero e pensar que não há esperança em seguir adiante. É importante perceber que embora haja o juízo governamental em relação com os nossos feitos errados, há também o perdão governamental para com aqueles que se arrependem e julgam a si mesmos (1 Jo 1:9; Tg 5:15).
Se Deus vê um espírito humilhado e contrito em nós, Ele pode tirar de sobre nós (perdoar) o juízo disciplinar que havia colocado sobre nós. Todos experimentamos Sua misericórdia de uma ou outra forma. O Sr. Grant disse: “Não procede a ideia de que Deus não pode intervir e nos livrar daquilo que necessariamente seria o fruto de tal semeadura, se tão somente houver verdadeiro julgamento próprio quanto a tal mau proceder na alma; porque para um Cristão a sega de tal semeadura tem por objetivo produzir julgamento próprio, e se a julgamos antes, pode ser que não haja necessidade alguma de colhê-la”. Portanto, se falharmos, julguemo-nos a nós mesmos de maneira que possamos ser restaurados e experimentarmos Seu perdão governamental; pode ser que não nos seja necessário ceifar aquilo que semeamos. Há misericórdia com o Senhor.
7) Façamos o Bem a Todos
Cap. 6:10
A última exortação de Paulo é: “façamos o bem a todos”. “Todos” é uma palavra bem ampla, alcançando mesmo aqueles que estão fora da comunidade Cristã. Isso mostra claramente que devemos ter um interesse no bem-estar dos outros; é a disposição normal do coração que é “confirmado com graça” (Hb 13:9 – ARA). Tal graça para com os perdidos pode ser o meio pelo qual se abra uma porta para alcançá-los com o evangelho. John Wesley adequadamente disse: “Faça todo o bem que puder, de todas as formas que puder, a todos quantos puder, enquanto puder”.
Legalismo, por outro lado, tende a produzir uma disposição interna que olha somente para si mesmo e para seus próprios interesses. Alguns estão tão presos com o legalismo que nem mesmo pensariam em orar por aqueles que estão fora da assembleia – muito menos em ajudá-los. A mente legalista que não está estabelecida em verdadeira liberdade Cristã não será rica em boas obras para com os outros.
Paulo acrescenta que a graça Cristã e as boas obras devem ser “principalmente aos da família da fé” (v.10 – ARA). Isso mostra que nossa primeira responsabilidade é para com os nossos irmãos, mas também não devemos nos esquecer daqueles fora da família da fé.
Sumário das Exortações Práticas nos Capítulos 5-6
- Nulifica a obra expiatória de Cristo – v. 2.
- Coloca a pessoa debaixo da maldição da lei – v. 3.
- Priva a pessoa do benefício assegurado pela graça – vs. 4-6.
- Traz o juízo governamental de Deus – vs. 7-10.
- Remove o escândalo da cruz, o qual é normal ao Cristianismo – vs. 11-12.
- Abre a porta para a manifestação da carne na vida do crente – vs. 13-15.
Os Motivos do Apóstolo Paulo em Contraste com os dos Judaizantes
Capítulo 6:11-16
Nas observações finais de Paulo o vemos descobrindo seu coração diante dos gálatas, esperando que eles enxergassem que seus motivos eram puros. Ele não queria nada além daquilo que era para a glória de Deus e para bênção dos gálatas. Ao mesmo tempo, ele expôs os motivos encobertos dos judaizantes que desviaram os gálatas do caminho.
V. 11 – Paulo escreveu com suas próprias mãos apenas duas de suas epístolas inspiradas– Gálatas e Filemon (Gl 6:11; Fm 19). As outras foram ditadas para alguém que as escreveu, e então ele colocou suas saudações finais aos endereçados, de seu próprio punho, desta forma autenticando-as. (2 Ts 3:17).
Ele aponta para o fato de que ele havia escrito esta epístola com “grandes letras”. Isso até pode ter sido porque ele tinha uma visão deficiente e não podia enxergar bem (Gl 4:15), mas muito provavelmente ele tenha escrito assim para enfatizar a importância de sua mensagem. A gravidade do erro no qual os gálatas haviam caído requeria que ele pessoalmente escrevesse a eles, e isso com ênfase – portanto, o uso de grandes letras. Seu sério e sincero desejo para com os gálatas era de que eles fossem libertados dos ensinamentos dos mestres judaizantes. Ele não tinha nenhum motivo encoberto ao insistir com eles a respeito da liberdade Cristã. Isso deve ter mostrado a eles que ele não tinha nada além do bem deles diante de si; seus motivos eram puros.
Vs. 12-13 – Por outro lado os falsos motivos dos judaizantes eram totalmente egoístas e interesseiros. Paulo, portanto, passa a falar destes charlatões que haviam enganado os gálatas, dizendo: “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne...” Isso é tudo que os esforços dos judaizantes buscavam – dar à carne algo em que se gloriar.
Paulo indica que havia talvez duas razões para as atividades judaístas deles. Em primeiro lugar, eles estavam procurando um caminho mais fácil do que aquele que é normal ao Cristianismo. Ao adotar a lei (isso é, sendo circuncidados), os judeus incrédulos seriam muito mais tolerantes à mensagem Cristã. Aqueles que acatavam o judaísmo queriam evitar sofrer “perseguição por causa da cruz de Cristo” (v. 12). Isso foi oferecido aos gálatas como sendo algo positivo. Já que nenhum Cristão deseja sofrer dessa forma, não foi difícil fazer os gálatas aceitarem o legalismo por essa razão.
Em segundo lugar, os judaizantes estavam buscando seguidores, e estavam usando a lei para conseguirem isso. Paulo diz: “Esses querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne”. Possuir seguidores ministrava ao orgulho religioso dos judaizantes, mas isso também era um meio de obter uma vida mais confortável (2 Co 2:17 – ARA – “mercadejando [negociando com – JND] a Palavra de Deus”). Este falso motivo está operando hoje. Aqueles que são governados pelo legalismo frequentemente são marcados por reunir seguidores após si. Pode não parecer ser assim, mas dado suficiente tempo, isso se tornará evidente. E eles irão invariavelmente fazer uso de princípios e práticas legalistas para trazerem as pessoas sob seu controle. Eles até podem crer que estão genuinamente ajudando as pessoas, mas na verdade trata-se da carne operando nas coisas de Deus. Esta não é a maneira de Deus de santidade e consagração.
V. 14 – Em contraste com as tentativas carnais dos judaizantes, Paulo diz: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. Eles se gloriavam na carne; Paulo se gloriava na cruz que colocou um fim à carne. Ele não tinha desejo algum pelo favor do mundo que havia crucificado o Senhor Jesus. Novamente, isso mostra o caráter legítimo de Paulo.
V. 15 – Em contraste com as tratativas judaístas desses falsos obreiros, Paulo fala da verdadeira posição Cristã. Como um resultado da morte e ressurreição de Cristo e da descida do Espírito Santo, Cristãos estão agora numa nova posição diante de Deus “em Cristo Jesus”. Como parte da raça da “nova criação”, “nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão” (v. 15 – JND).
V. 16 – Paulo desejou que houvesse “paz” sobre todos Cristãos que andavam segundo a “regra” da nova criação. Essa nova regra é a lei de Cristo mencionada no versículo 2. Para aqueles que querem andar segundo regras e regulamentos, esta é a regra para eles; esta é a única regra que Cristãos devem seguir. Paulo fala de duas companhias de crentes:
- “eles” – crentes de entre a incircuncisão (gentios) que estão agora na Igreja.
- “o Israel de Deus” – crentes de entre a circuncisão (judeus) que estão agora na Igreja. Eles são um “resto [remanescente – ARA] de acordo com a eleição da graça” entre a nação de Israel que possui fé (Rm 11:5).
Ele também desejou que misericórdia fosse mostrada ao “Israel de Deus”. O ímpeto de suas observações na epístola foi repreender Cristãos por tomarem para si a lei de Moisés, e ele sabia que seria especialmente difícil para aqueles que cresceram no judaísmo, abrir mão do velho sistema legal. Portanto, ele desejou que os santos nas assembleias da Galácia mostrassem a eles misericórdia e paciência nesta questão.
Desejos Finais do Apóstolo
V. 17 – O grande desejo e oração de Paulo eram que “ninguém” o “inquietasse” fazendo a obra do inimigo colocando os santos sob a servidão da lei. Ele tinha pago um preço para os santos obterem a verdade e não queria que eles a perdessem. Ele disse: “porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”. Isso é uma referência aos açoitamentos, apedrejamentos, etc., que ele havia sofrido por conta do evangelho. Se alguém ousasse questionar a legitimidade de seu amor e cuidado pelos santos, tudo o que eles tinham de fazer era olhar para essas marcas – elas eram provas de seu sincero amor por eles. Isso era algo que os judaizantes não podiam mostrar, porque eles não haviam sofrido nada.
V. 18 – Conhecendo a tendência do coração humano, Paulo percebeu que havia uma grande chance de que os gálatas pudessem se sentir ofendidos ao falar com eles tão severamente – então ele lhes dá uma palavra final de advertência – “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito”. Paulo desejou que eles não se sentissem ofendidos com o que ele disse, mas que aceitassem a correção com um espírito correto. É tão fácil para nosso espírito ficar irritado quando alguém nos corrige, porém se reagirmos de tal modo, não iremos obter o benefício da correção.
Outra característica dessa epístola – que a torna diferente das outras epístolas de Paulo – é que ele não saúda ninguém ao terminá-la. Ao fazer isso, estava mostrando a eles que ele não podia ter comunhão, enquanto eles retivessem esse sério erro doutrinal.