O Evangelho Defendido por Paulo (Capítulos 3-4)
No capítulo 1, Paulo falou da fonte do seu apostolado – vinha do próprio Senhor. No capítulo 2 ele falou do poder do seu apostolado – capaz de resistir aos judaizantes no concílio em Jerusalém e mesmo de repreender o apóstolo Pedro. Agora no capítulo 3, ele fala da mensagem do seu apostolado – o evangelho e as bênçãos que ele concede àqueles que creem nele.
Se os dois primeiros capítulos foram de caráter pessoal, os próximos dois capítulos (3-4) são de caráter polêmico (defendendo a fé por argumento).
A Bênção de Deus é sob o Princípio de Fé à Parte das Obras
O que a lei não pôde fazer e aquilo que a graça fez pelo crente é agora revelado. Neste capítulo, Paulo enfatiza principalmente os resultados positivos que o evangelho traz ao crente, os quais a lei não pode dar. No capítulo 4, ele enfatizará os efeitos negativos que o legalismo tem sobre o Cristianismo quando os dois são misturados.
Neste capítulo ele não apresenta aos gálatas a verdade do evangelho da maneira como está acostumado a ensinar, mas lhes apresenta razões sobre certos fatos irrefutáveis. Paulo comunica a verdade desta forma porque eles haviam se tornado insensíveis (“insensatos”) e ele queria que eles voltassem a pensar de maneira racional. Portanto, o capítulo é doutrinal, porém toma a forma de súplica, argumentação e perguntas.
Paulo apresenta quatro argumentos que provam irrefutavelmente que a bênção de Deus no evangelho é sobre a base de fé e não de obras. Ele argumenta a partir:
- da experiência dos próprios gálatas (vs. 1-5).
- da experiência de Abraão (vs. 6-9).
- do testemunho das Santas Escrituras (vs. 10-14).
- das bênçãos da promessa feita aos patriarcas do Velho Testamento que são incondicionais (vs. 15-25).
A Experiência dos Gálatas em sua Conversão a Deus
Cap. 3:1-5
V. 1 – Paulo começa fazendo seis perguntas aos gálatas com o propósito de abrir os olhos deles e alcançar a consciência. As respostas a estas perguntas são tão óbvias que ele não as declara.
Sua primeira pergunta é: “Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade?” Ele lhes pergunta “quem” era o responsável por esse erro no qual haviam entrado. Esta palavra no grego está no singular. Aparentemente havia uma pessoa em particular que era culpada. Ele pode ter sido um mestre preeminente, ou como alguns expositores sugerem, tratava-se do próprio diabo. Qualquer que fosse o caso, os gálatas tinham sido feitos presas de seus enganos. Paulo os chama de “insensatos” porque eles não parecem ter o senso espiritual para perceber que tinham sido enganados. Eram como homens “fascinados” sob um feitiço maligno.
Como na maioria dos casos de abandono, houve um curso que os tinha levado a engolir a mentira do diabo. Aparentemente os gálatas tiveram quatro os estágios:
Paulo prosseguiu, dizendo: “perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidentemente apresentado, crucificado entre vós” (v. 1 – KJV). Isto é o que Paulo tinha feito ao lhes apresentar o evangelho. Ele havia apresentado diante deles Cristo crucificado, e eles creram nesta mensagem para salvação da alma. Pregar Cristo crucificado era a essência da pregação de Paulo em todo lugar que ele foi (1 Co 2:2). É uma característica de um bom pregador ou mestre “apresentar” a verdade de forma “evidentemente” e clara. Falsos mestres são normalmente obscuros – particularmente aqueles arraigados ao legalismo. Independentemente de quão simples e claramente Paulo havia ensinado os gálatas, eles tinham tirado seus olhos de Cristo crucificado e estavam olhando para a lei a fim de obterem justificação e santidade. Eles perderam de vista o propósito e significado da cruz e engoliram uma mentira.
Somos Salvos por Fé
V. 2 – As próximas perguntas de Paulo recuam na história dos gálatas, desde a conversão até ao serviço deles para o Senhor. A própria experiência deles prova a loucura de guardar a lei para justiça. Paulo não questiona a salvação deles; ele toma por certo que eles possuíam o Espírito Santo. Os gálatas haviam “recebido” o Espírito (cap. 3:2); o problema deles é que não estavam sendo “guiados” pelo Espírito (cap. 5:18). Isto é instrutivo; embora tivessem sido salvos e selados com o Espírito Santo, eles se tornaram insensíveis, e foram enganados pelo inimigo das almas. Isso mostra que Cristãos verdadeiros não estão imunes aos ataques e sutis enganos do diabo. Crentes verdadeiros podem ser enganados por “espíritos enganadores e doutrinas de demônios” (1 Tm 4:1). Portanto, não é suficiente ter o Espírito habitando em nós para sermos guardados; devemos andar em comunhão com o Senhor.
Uma simples pergunta resolveria a questão no que diz respeito à salvação de uma pessoa ser ou não “pelas obras da lei”. Como os gálatas foram salvos? Receberam eles o Espírito Santo ao fazer obras da lei ou por crer no evangelho? Obviamente que foi por crer no evangelho. Ninguém jamais recebeu o Espírito por guardar a lei. A experiência dos próprios gálatas deveria tê-los ensinado que bênção vem “no princípio de fé” (v. 9 – JND) e não por guardar a lei.
Muitos Cristãos hoje estão orando para receberem o Espírito Santo, não percebendo que eles já possuem a habitação do Espírito. O Espírito faz Sua morada numa pessoa no momento em que ela crê no evangelho de sua salvação (Ef 1:13). As Escrituras nos dizem que se um crente entende que Deus é seu Pai e consegue elevar sua voz em oração a Ele, clamando: “Aba, Pai”, isso é uma prova de que ele tem o Espírito habitando nele (Rm 8:14-15; Gl 4:6).
Crescemos à Perfeição (Maturidade) Cristã por Fé
V. 3 – Mais duas perguntas são feitas. Elas endereçam outra falsa noção que os gálatas tinham – que perfeição Cristã pode ser alcançada pelas “obras da lei”. Muitos Cristãos hoje pensam isso. Eles irão admitir que um crente é justificado por fé, mas insistirão que ele deve guardar a lei depois de salvo como uma regra para sua vida; caso contrário (eles pensam) não haverá nada para impedir um crente de sair em direção a uma vida pecaminosa. Esta é a essência do legalismo. Legalismo é alguém intentar alcançar perfeição Cristã por meio do estabelecimento de regras e regulamentos para a carne, em lugar de ter a Cristo como a força motivadora em sua vida. Uma pessoa inclinada de tal forma pode fazer uso da lei de Moisés ou usar um conjunto de regras que ela impõe a si mesma, todavia em qualquer dos casos, maturidade Cristã não será produzida.
Paulo demonstra a falta de lógica disso perguntando: “Deus começa fazendo uma obra sob determinado princípio, e então a conclui sob um princípio oposto?” Se eles não puderam obter salvação por esforços carnais, como poderiam esperar crescer em santidade em direção à maturidade (“perfeição”) Cristã por meio de esforços carnais? A verdade é que a lei não justificará uma pessoa diante de Deus, e nem produzirá santidade num crente.
Pensar que o crente precisa da lei para guardá-lo de sair em direção ao pecado é não entender o poder da graça. Quando a graça de Deus toma conta da alma ela não o faz querer pecar; ela faz do crente um servo devoto do Senhor! Tal pessoa desejará andar no “Espírito”. Ela desejará mais de Cristo e viverá sua vida na esfera dos interesses de Cristo (Gl 5:16). Consequentemente, o poder do Espírito será manifesto em sua vida na forma de libertação das paixões malignas que emanam da natureza caída pecaminosa (Rm 8:2).
Sofremos por Causa da Nossa Fé
V. 4 – Os gálatas sofreram perseguição dos judeus por assumirem a posição Cristã, a qual é inteiramente baseada em fé. Paulo pergunta: “Será em vão que tenhais padecido tanto?” Todo aquele sofrimento que eles suportaram não serviu para nada? Aqueles que os tinham perseguido, que eram predominantemente seus irmãos judeus que estavam enganados, o fizeram porque os gálatas creram no evangelho em fé simples à parte da lei. Mas agora, ao se tornarem para a lei eles estavam como que dizendo que seus perseguidores, afinal, estavam certos!
Servimos ao Senhor por Fé
V. 5 – Depois que os gálatas foram salvos eles serviram ao Senhor como trabalhadores Cristãos. Alguém que ministrava entre eles, o fazia pelo Espírito e no Seu poder. A essência do ministério Cristão é dispensar a bênção do Espírito a outros. Isso seria tanto em doutrina como também poderia ser na operação de “maravilhas [milagres – ARA]”. (Havia dons milagrosos e sinais sendo manifestos naqueles primeiros dias do testemunho Cristão – Mc 16:17-18; Hb 2:4). A pergunta de Paulo aos gálatas era: “O poder para operar esses milagres vem de se guardar a lei ou pela “pregação [mensagem – TB] da fé?””. Obviamente que era por fé.
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Assim Paulo mostrou, a partir da própria experiência dos gálatas, que a vida Cristã, do começo ao fim, é baseada no princípio de fé, e não tem nada a ver com guardar a lei (2 Co 5:7).
O Exemplo de Abraão Sendo Considerado Como Justo
Cap. 3:6-9
V. 6 – Paulo passa então a falar de Abraão. Seu caso é tanto mais convincente, porque Abraão era aquele que, acima de todos os outros, era mais altamente estimado pelos mestres judaizantes. Eles se vangloriavam de que Abraão era seu pai e se vangloriavam nele como seu grande exemplo (Jo 8:39). O argumento deles era baseado no fato de que Deus tinha dito a Abraão que ele fosse circuncidado – e não apenas ele, mas também a sua família inteira, da qual eles reivindicavam pertencer (Gn 17:24-26).
Paulo, portanto, os apanha no próprio terreno deles. Como então Abraão foi considerado como justo diante de Deus? Ele simplesmente “creu em Deus” (Gn 15:6). E quando foi ele considerado como justo? Antes da lei ser dada! Ele nem mesmo ouviu falar da lei de Moisés em seus dias, e ainda assim foi considerado como justo “no princípio de fé” (v. 7 – JND). Além disso, Abraão foi considerado como justo antes de ser circuncidado! Vemos a partir disso que a circuncisão e a lei não tinham nada a ver com o fato dele ser considerado como justo.
Isso não deveria ser uma surpresa para nós porque a bênção de Deus no princípio de fé sempre foi Seu modo de trazer o homem à bênção. Desde o próprio início de Suas tratativas com o homem Ele somente o abençoou no princípio de fé. Hebreus 11:4 confirma isso: “Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou o testemunho de que era justo”.
Vs. 7-8 – Os judaizantes imaginavam que pela sua (suposta) obediência à lei mosaica eles tinham se tornado herdeiros espirituais das promessas feitas a Abraão. Paulo, todavia, salienta que é somente por fé que uma pessoa se torna um filho de Abraão. Ele diz: “Sabei, pois, que os que são da fé [no princípio de fé – JND] são filhos de Abraão”. Não somente as bênçãos prometidas a Abraão foram cumpridas por fé, mas todos seus “filhos” são abençoados neste princípio também. Isso inclui crentes judeus como também gentios que iriam crer. Paulo dá suporte a este pensamento citando Gênesis 12:3, que diz: “Todas as nações serão benditas em ti”. Isso nos mostra que a promessa feita a Abraão era, em princípio, uma predição do evangelho. Ao ler esta citação de Gênesis 12:3 podemos ficar pensando como Paulo encontrou tal significado nesta passagem, todavia o Espírito Santo, que escreveu aquele versículo no Velho Testamento, o fez com a intenção de que víssemos que o evangelho (o qual é baseado no princípio de fé) estava nesta passagem. Não saberíamos disto se Paulo não tivesse, sob inspiração divina, nos explicado este significado encoberto.
O Testemunho das Santas Escrituras
Cap. 3:10-14
Os judaizantes estavam também reivindicando que as Escrituras do Velho Testamento os apoiavam. Eles imaginavam que as Escrituras davam suporte a ideia deles de que a lei deveria ser guardada para que uma pessoa fosse considerada como justa. Paulo, portanto, volta-se para a lei e para os profetas para mostrar que não havia verdade em tal ideia. Aquelas pobres almas pensavam que a Palavra de Deus suportava sua posição, mas na verdade a Escritura provava justamente o contrário. Isso mostra o quão cegos eles estavam. E, infelizmente, aqueles líderes cegos tinham levado os cegos gálatas para a cova deles. (Mt 15:14).
As Santas Escrituras, portanto, tornaram-se a próxima testemunha de Paulo em sua tese para provar que uma pessoa pode apenas ser considerada justa no princípio de fé. Quatro citações são feitas por Paulo para mostrar a falta de lógica em se dirigir à lei para bênção. Na verdade, em alguns poucos versículos (vs. 6-16) ele faz citações das Escrituras do Velho Testamento não menos do que sete vezes.
- V. 6 – Gênesis 15:6
- V. 8 – Gênesis 12:3
- V. 10 – Deuteronômio 27:26
- V. 11 – Habacuque 2:4
- V. 12 – Levítico 18:5
- V. 13 – Deuteronômio 21:23
- V. 16 – Gênesis 13:15
V. 10 – Moisés e Habacuque são citados como representando a lei e os profetas. O que eles têm a dizer sobre isso? Deuteronômio 27:26 é trazido primeiro para mostrar que a lei demandava perfeição. Moisés disse: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las”. O ponto aqui é que uma pessoa deve permanecer guardando “todas” as injunções contidas na lei; havia uma maldição sobre aquele que não o fizesse. Não era suficiente guardar a lei por um dia, ou por uma semana, ou um mês; uma pessoa deveria continuar a guardar a lei por toda a sua vida! Tampouco pedia a lei ao homem para tentar guardar seus mandamentos – dar à lei a sua melhor tentativa não seria o suficiente. Ela demandava estrita e perfeita obediência. Alguém sob a lei tinha que guardar seus mandamentos em todos os pontos completa e totalmente. Tiago confirma isto, dizendo: “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2:10).
Mas isso é exatamente o que ninguém foi capaz de fazer. Se as pessoas fossem justificadas sob o princípio de guardar os mandamentos, então ninguém jamais seria abençoado! No entanto, a Escritura é clara de que os santos do Velho Testamento que estavam sob a lei foram abençoados e estão no céu agora. Assim sendo, como então eles foram abençoados? E em quais bases eles foram para o céu?
V. 11 – Habacuque é o próximo a ser citado a fim de se responder a estas perguntas: Ele mostra que fé era o princípio sob o qual os filhos de Deus foram abençoados naqueles tempos antigos – mesmo que estivessem debaixo da lei! Ele diz: “o justo viverá pela fé” (v. 11 – ARA). Isso é citado três vezes no Novo Testamento, e em cada vez a ênfase está numa parte diferente do versículo. Em Hebreus 10:38 a ênfase está na palavra “fé”, porque o assunto ali é o andar no caminho de fé, como mostra o capítulo 11 da mesma carta. Em Romanos 1:17 a ênfase está na palavra “justo”, pois a epístola é uma tese sobre justificação. Aqui em Gálatas 3:11 a ênfase está na palavra “viverá” porque o ponto que é salientado aqui pelo apóstolo é o de que alguém sob a lei deve continuar por toda a sua vida a viver em obediência à lei. Uma pessoa justa sob a lei, nos tempos do Velho Testamento, era abençoada de Deus por conta de sua fé, e não por conta de suas tentativas débeis e imperfeitas de guardar a lei.
V. 12 – Paulo acrescenta: “A lei não é no princípio de fé” (v. 12 – JND), isso é, a lei não demanda fé; ela demanda obediência. Moisés é citado novamente: “o homem que fizer estas coisas, por elas viverá” (ver também Rm 10:5). A pessoa sob a lei é responsável por viver sua vida de acordo com aqueles mandamentos. A promessa conectada com isso era de que a pessoa “viveria”. O Senhor, quando falando ao doutor da lei que O havia tentado, confirmou isto, dizendo: “faze isso, e viverás” (Lc 10:28). Todavia isso trata-se de um preceito teórico que é impossível de ser alcançado pelo homem na carne. A história confirma este fato, visto que não existe ninguém daqueles tempos antigos vivendo hoje. Isso solidifica o argumento. Alcançar justiça diante de Deus no princípio de se guardar a lei (obras) ainda não foi conseguido por ninguém! Sob esse fundamento, ninguém da raça humana chegará ao céu.
Existem na realidade apenas duas religiões neste mundo. Uma diz: “FAÇA”, e a outra diz: “FEITO”. FAÇA é o que todos os credos e religiões requerem – incluindo guardar a lei, mas FEITO é o que o evangelho anuncia. Cristo consumou a obra de redenção, e tudo o que temos de fazer é crer em tal obra e então somos salvos. A lei diz: “Faça e viva”. A graça diz: “Creia e viva”.
Vs. 13-14 – O Testemunho das Escrituras do Velho Testamento mostrou a incapacidade da lei de abençoar. Ela pode somente amaldiçoar. Agora, nestes próximos versículos, vemos o triunfo da graça de Deus em Cristo. Paulo não nos deixa sem esperança. Ele nos diz: “Cristo nos redimiu para fora da maldição da lei” (v. 13 – JND). Redenção significa colocar em liberdade alguém que está sob servidão. “Nos”, neste versículo, se refere aos crentes judeus, pois os gentios nunca estiveram formalmente debaixo da lei. A morte é a penalidade por violar a lei. Cristo, como o grande Substituto, tomou o lugar daqueles que violaram a lei e sofreu a devida punição (Sl 88; Is 53:8). Ele redimiu aqueles debaixo da lei ao pagar a pena de morte que a lei demandava. A maldição de Deus caiu sobre Ele, e aqueles que creem colhem o benefício disso.
A tradução galesa diz: “Cristo nos redimiu completamente...”. O crente é totalmente liberto da lei. O ponto aqui é que não existe tal coisa como estar parcialmente sob a lei. A Escritura não dá suporte à ideia de que a obra de Cristo na cruz redime o crente parcialmente e que o crente faz o resto guardando a lei.
Observe também que a Escritura não diz que Cristo redimiu o homem da maldição da lei ao guardar os dez mandamentos perfeitamente durante o tempo de Sua vida. Isso é um erro antigo na Cristandade. É verdade que Cristo guardou a lei perfeitamente durante a Sua vida, mas a Sua perfeita obediência à lei não foi imputada a nós que cremos. Não é este o meio pelo qual somos considerados justos. Se Sua vida perfeita pudesse nos considerar justos, qual seria então o propósito de Seus sofrimentos na morte?
A citação neste versículo (v. 13) de Deuteronômio 21:23 é ligeiramente diferente do que está escrito em Deuteronômio. O versículo diz: “porquanto o pendurado é maldito de Deus”. Mas em Gálatas, o Espírito de Deus nos dá um significado mais amplo, dizendo: “Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro”. Isso incluiria os gentios. O ponto aqui é que se os gentios se colocassem sob a lei, eles iriam sentir sua maldição também! Mas por outro lado, se gentios possuem a fé de Abraão eles entrariam na “bênção de Abraão” (v. 14). Isso não significa que crentes hoje herdam aquilo que foi prometido a Abraão literalmente – isto é, bênção material na terra de Canaã (Gn 13:14-15). O Espírito de Deus ao escrever isto é cuidadoso em dizer que esta bênção é “em Cristo Jesus” (v. 14 – JND). Este termo refere-se a Cristo glorificado à destra de Deus. As bênçãos do Cristão estão em um Homem ressurreto e glorificado que está à destra de Deus pela “promessa do Espírito”. Estas são bênçãos espirituais alcançadas “pela fé”.
A Imutabilidade da Promessa de Graça Feita a Abraão
Cap. 3:15-25
Até então, Paulo demonstrou que a bênção de Deus é por fé e não por obras da lei a partir da experiência dos gálatas (vs. 1-5), a partir do exemplo de Abraão (vs. 6-9), e a partir do testemunho das Escrituras (vs. 10-14). Agora ele se volta para uma ilustração da vida cotidiana. Num parêntese ele diz: “como homem falo”. Ele compara a imutabilidade de um “testamento” feito em assuntos humanos com a imutabilidade do concerto que Deus fez com Abraão.
Este ponto no argumento era necessário em vista do fato de que alguns estavam prontos para admitir que Abraão foi considerado como justo por fé, mas argumentavam que Deus apenas operou naquele princípio até o momento em que a lei foi dada. Portanto, nesta série de versículos a seguir, Paulo mostra que a promessa em graça feita a Abraão e à sua Semente não era uma coisa temporária. A entrega da lei não alterou ou adicionou condições a essa grande promessa de Deus. Ela era permanente e imutável, e não poderia ser afetada pela subsequente entrega da lei.
V. 15 – Paulo prossegue em mostrar que esse princípio no qual Abraão foi abençoado era de fato permanente e imutável. Seu ponto é simples: em assuntos humanos, um “testamento” é assinado e selado e ninguém pode o “colocar de lado ou acrescer a ele outras disposições” (v. 15 – JND). Uma pessoa não pode vir mais tarde e alterar o documento adicionando ou removendo algo dele. E se testamentos humanos não podem ser violados, muito menos o de Deus! Mesmo assim, em essência, isso é o que aqueles que adicionam a lei à graça estão tentando fazer.
Vs. 16-18 – Além disso, o apóstolo cuidadosamente salienta que quando foi feita a promessa, ela foi feita “à Semente” (singular) de Abraão, e não “às sementes” (plural) (v. 16 - JND). A ausência da letra “s” muda completamente o significado da passagem. Gênesis 13:15 e 22:18 não se referem à família imediata de Abraão, mas ao Senhor Jesus Cristo que viria a partir da posteridade de Abraão. Ele é o Descendente direto de Abraão (Mt 1:1; Lc 3:34). Novamente, não saberíamos disso lendo o relato em Gênesis, mas o Espírito de Deus assim nos diz aqui. O ponto que aprendemos disso é que Deus prometeu abençoar “todas as nações” – judeu e gentio de igual modo – por meio de Cristo. E que a promessa era incondicional. “Deus a deu em graça a Abraão” (v. 18 – JND). A promessa não requereu obras de obediência legal. A vinda da lei 430 anos mais tarde não alterou a promessa.
Se as promessas feitas a Abraão estão agora condicionadas à chegada da lei mosaica, então elas deixam de ser um gracioso favor de Deus e tornam-se algo que alguém merece. Paulo diz: “Porque se a herança é no princípio de lei, já não é no princípio de promessa”. Porém ele segue a dizer: “Mas Deus a deu em graça a Abraão” (v. 18 – JND).
As promessas originais em graça foram dadas à parte da lei e serão cumpridas à parte da lei. A promessa de bênção dada a Abraão passou por baixo das tratativas dispensacionais de Deus com Israel e voltou à superfície quando a redenção foi realizada. A lei não traz as bênçãos da promessa; elas foram asseguradas pela morte e ressurreição do Senhor Jesus.
O Propósito da Lei
Vs. 19-20 – Neste ponto de sua argumentação Paulo se desvia um pouco para responder algumas perguntas que ele antecipa que as pessoas iriam fazer. A primeira é: “Logo, para que é a lei?” Este seria provavelmente o argumento que seus opositores lhe lançariam. Eles diriam: “Se a justificação é somente por fé, então qual era o objetivo de Deus em dar a lei? Ela não tem nenhum propósito real!” A isto Paulo responde: a lei “foi ordenada por causa das transgressões”. Alguns têm erroneamente entendido que isto significa que a lei foi dada para ajudar a refrear o pecado no homem. Todavia, a lei não foi dada como meio de controlar ou restringir o pecado na vida dos homens. A lei não tem o poder de fazer isso – seja em incrédulos ou em crentes. Essa ideia errônea estava no alicerce da doutrina dos judaizantes. Muitos Cristãos hoje têm essa ideia também. Eles pensam que a lei irá restringir o mal em sua vida, e por esta razão, se colocam sob ela. No entanto, a lei não tem poder para restringir o mal na vida de uma pessoa. Ela não dá à pessoa uma natureza que deseja guardar suas ordenanças, nem dá à pessoa o poder para cumpri-las.
A resposta de Paulo aqui indica que a lei foi trazida para realçar os pecados e fazê-los conhecidos como “transgressões”. Antes da lei, os homens estavam transgredindo em seu viver iníquo, mas suas práticas iníquas não eram conhecidas como transgressões, porque a consciência deles não estava totalmente iluminada a respeito de todas aquelas ofensas. Em outro lugar, Paulo disse: “porque onde não há lei, também não há transgressão” (Rm 4:15; 5:13). Há duas coisas na Escritura que estão intimamente relacionadas nesta conexão – ofensas e transgressões. Uma ofensa é passar por cima de um limite conhecido, mas uma transgressão é um consciente afastamento de Deus, tanto no coração como nos caminhos de uma pessoa. Ambas as coisas foram trazidas à luz mediante a entrega da lei. A lei traçou uma linha definida na consciência dos homens quanto ao que era certo e o que era errado, aumentando assim sua culpa. Se você tem um menino que está acostumado a ficar correndo pelas ruas e se misturando com pessoas indesejáveis, trata-se de um mau hábito. Mas se você o proibir de sair com essas pessoas, e então ele o faz novamente, isso já é uma transgressão. O que é muito pior do que um mau hábito.
O propósito da lei, portanto, é iluminar a consciência e fazer com que o pecado “se fizesse excessivamente maligno” (Rm 5:20, 7:13). Se isto é entendido propriamente, uma pessoa aprenderia o quão completamente sem esperança é o caso ela, e isso a pressionaria quanto a sua necessidade da graça de Deus. A lei foi dada como uma medida temporária “até que viesse a Posteridade [Semente – TB] (Cristo) a Quem a promessa tinha sido feita” (v. 19), e Ele realizasse a redenção (Gl 4:4-5).
É importante notar que não há nada de errado com a lei em si mesma. A lei é “santa, justa, e boa” (Rm 7:12). Ela tem sua aplicação própria, não para pessoas justas, mas para os transgressores (1 Tm 1:8-10). O propósito da lei é de revelar o pecado; “porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20). A lei não pode remover o pecado ou guardar um pecador ou um crente de pecar, mas ela revela o verdadeiro caráter do pecado. Da mesma forma como um espelho é utilizado para mostrar a uma pessoa que ela está com o rosto sujo – sua função não é lavar o seu rosto.
A lei “foi ordenada por meio de anjos, pela mão de um mediador” (TB). À primeira vista, Paulo parece estar se gloriando na lei, mas é justamente o contrário. Isso demonstra a inferioridade da lei em relação à promessa. A promessa veio diretamente de Deus a Abraão, mas a lei veio por uma mediação dupla. Portanto, a promessa permanece num plano mais elevado.
No caso do concerto mosaico, ele foi estabelecido por meio de um “mediador” porque havia duas partes envolvidas – Jeová e Israel. Os “anjos” agiram da parte de Jeová (Sl 68:17 – KJV; At 7:53), e Moisés serviu como “mediador” da parte do povo. (A mediação de Cristo é algo completamente diferente e não está em vista aqui). O fato de que havia duas partes, indica que existiam condições envolvidas, e obediência imposta a tais condições. O mediador está lá para certificar-se de que ambas as partes cumpram sua parte do acordo. Tal era o caso quando da entrega da lei. No entanto, no caso da promessa de Deus a Abraão, Ele era a única parte ativa. Não havia necessidade de um mediador. A promessa feita à Semente (Cristo) depende inteiramente daqu’Ele que prometeu – o próprio Deus. Esta era a força da promessa – tudo dependia de Deus. A lei colocou obrigações sobre o homem que ele é incapaz de guardar, enquanto que na graça Deus toma conta de todas as coisas para a bênção do homem.
V. 21 – Paulo antecipa uma segunda questão de seus opositores: “Logo, a lei é contra as promessas de Deus?” Esse era outro argumento que seus opositores lhe lançariam. Eles iriam dizer: “Isso soa como se você estivesse dizendo que a lei está em oposição às promessas”. Paulo responde: “De nenhuma sorte”. A lei teve seu propósito, e a graça tem o seu propósito também; uma não entra em conflito com a outra.
Ele segue a dizer que se Deus tivesse a intenção de que a lei provesse justiça ao homem, Ele a teria dotado de poder para “vivificar” aquele que cumprisse suas imposições. Mas não existe tal lei. A lei instrui, insiste, demanda, e até mesmo ameaça; e quando quebrada condena o transgressor, mas ela não dá vida ou justiça. Como mencionado, a lei não foi dada para este propósito.
Mesmo quando Deus deu a lei, Ele indicou ao Seu povo que bênção nunca viria por meio dela. Isso é ilustrado num acontecimento registrado em Deuteronômio 27:11-26. Moisés, aquele que deu a lei, instruiu a Israel a reunir seis das doze tribos no monte Gerizim “para abençoarem” e as outras seis no monte Ebal “para amaldiçoar”. É significativo que as seis tribos no monte Ebal proferiram suas maldições, mas as seis tribos no monte Gerizim ficaram caladas! Elas nunca abençoaram. Por quê? O acontecimento está registrado nas Escrituras para ilustrar o fato de que A LEI NÃO PODE ABENÇOAR; ela pode somente amaldiçoar.
Corra João e viva, a lei ordena vá,
No entanto, nem pernas ou mãos há;
Excelentes novas o evangelho traz,
Estimas-me voar e asas me dás.
V. 22 – A Escritura, de maneira geral, conclui que “todas as coisas” foram “encerradas” “debaixo do pecado” (v. 22 – JND). Isso foi para que “a promessa no princípio de fé de Jesus Cristo, pudesse ser dada àqueles que creem” (v. 22 – JND).
A Lei Como um Carcereiro e Como um Tutor
Vs. 23-25 – A lei, portanto, serviu para um duplo propósito. Em primeiro lugar, a lei foi como um severo carcereiro que manteve Israel num cárcere. A lei os manteve sob custódia (“encerrados” e “guardados”) das nações que os cercavam até que veio o tempo quando “aquela fé” seria revelada, quando a redenção foi realizada (v. 23). Os judeus foram mantidos separados das nações pelos diversos regulamentos da lei quanto ao casamento, alimentação, propriedade, etc. “Aquela fé” é a revelação Cristã da verdade que veio a nós, por meio da morte e ressurreição de Cristo e da vinda do Espírito Santo (como regra geral, na Escritura, quando o artigo “a” está antes da palavra “fé”, refere-se à revelação da verdade Cristã. E quando o artigo não é usado, está se referindo à energia interior da confiança de uma pessoa em Deus). Observe que Paulo diz: “(nós) estávamos guardados debaixo da lei”. Ele fala em nome dos judeus nacionalmente, pois os gentios nunca estiveram debaixo da lei; ela era uma coisa imposta pelos crentes entre os gálatas por eles próprios, que eram de descendência gentia.
Em segundo lugar, a lei foi como um “aio [tutor – JND]” (v. 24). Observe novamente que Paulo diz: “nos serviu de aio [tutor]”. Isto se refere aos judeus, mas se entendida corretamente, a lei instruirá a todos quantos se atentarem para ela. A lei pode nos ensinar sobre a santidade de Deus e sobre a depravação moral do homem. As palavras: “para nos conduzir a” na versão Almeida Revista e Corrigida não estão no texto grego original. Tais palavras induzem ao erro, e podemos entender a partir delas que a lei tem o poder de trazer uma pessoa a Cristo. No entanto, a lei nunca irá levar uma pessoa ao Senhor Jesus para salvação – somente a graça pode fazer isso. O texto deve ser lido: “De maneira que a lei nos serviu de aio até Cristo” (JND). Os judeus estavam sob a lei “até” o tempo da morte e ressurreição de Cristo por meio das quais a redenção foi realizada e a revelação Cristã da verdade foi revelada (Gl 4:3-6).
Infelizmente, aqueles que estão debaixo do concerto legal não aprenderam esta lição ensinada pelo aio (tutor). Eles ainda pensam que podem guardar as demandas da lei para sua bênção. Isso é um testemunho ao fato de quão depravado o homem na carne é. Depois de todos esses anos debaixo do tutor, a carne não aprendeu a simples lição de que não há “bem algum” no homem (Rm 7:18). Isso não é uma falha do aio, porque ele é “santo, justo e bom” (Rm 7:12). O problema está no material que o aio está instruindo – o homem na carne – o qual é incorrigível. Isso apenas mostra o quanto a raça humana realmente depende da graça de Deus para lhe prover redenção.
O trabalho de um aio é ensinar. A lei ensina:
- A santidade de Deus.
- A total depravação do homem na carne.
A Posição do Cristão no Céu e na Terra
Cap. 3:26-29
O apóstolo agora fala do lugar do Cristão diante de Deus no céu e diante dos homens na Terra, em virtude da realização da redenção. Essa nova posição é resultante da vinda “da fé” (Jd 3). Paulo menciona isso para enfatizar um contraste marcante entre aquilo que uma criança3 de Deus sabia até então sob o sistema legal com aquilo que o Cristão tem agora por graça.
Uma Nova Posição Diante de Deus no Céu Como Filhos
V. 26 – Primeiramente, Paulo diz: “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus”. Na ordem da nova criação, aos Cristãos foi dado um especial lugar de “filhos”4 na família de Deus por meio da fé. Filiação é a mais elevada bênção conferida que temos em relação ao Pai. A palavra no grego significa “lugar de filho” e refere-se ao ato de Deus nos colocar diante de Si mesmo na mesma posição de Seu próprio Filho! Paulo se prende nesta bênção em particular porque ela enfatiza a proximidade e liberdade que o Cristão possui na presença de Deus, as quais aqueles no judaísmo não tiveram. A lei foi introduzida por uma dupla mediação – os anjos e Moisés – indicando que o homem naquele sistema estava a certa distância de Deus. O evangelho por outro lado, traz o homem para perto de Deus, à mesma posição na qual o próprio Filho está.
Deus poderia nos ter colocado no lugar privilegiado dos anjos eleitos, ou mesmo ter nos levantado à elevada posição de um arcanjo, mas Ele escolheu nos dar um lugar muito mais elevado e muito mais abençoado do que o deles. Fomos colocados no lugar de Seu Filho! Filiação é uma posição na família de Deus que foi reservada para aqueles que são salvos por graça durante este tempo presente pelo chamado do evangelho. Abraão, Isaque, Jacó e todos os santos do Velho Testamento são parte da família de Deus como suas crianças, porém eles não possuem esse favorecido lugar de filhos (Gl 4:1-7 – JND). Como parte da família de Deus, os Cristãos são “crianças” de Deus (Rm 8:16 – JND), porém eles também são “filhos” de Deus (Rm 8:14). Além disso, nossa filiação é em “Cristo Jesus” (v. 26). Essa expressão refere-se à posição de aceitação do Cristão diante de Deus no Homem ressurreto. Estar “em Cristo” significa estar no lugar de Cristo diante de Deus. Todo o favor e aceitação que descansam n’Ele, na presença de Deus, é também nossa porção, porque estamos em Seu lugar. A grande bênção da “filiação” é compartilhar:
- O lugar de favor do Filho (Ef 1:6).
- A vida do Filho – vida eterna (Jo 17:2).
- A liberdade do Filho diante do Pai (Rm 8:14-16).
- A herança do Filho (Rm 8:17).
- A glória do Filho (Rm 8:18; Jo 17:22).
Uma Nova Posição Diante dos Homens na Terra por Meio do Batismo
V. 27 – Em segundo lugar, os Cristãos não somente possuem uma nova posição diante de Deus no céu, mas eles estão em uma nova posição na Terra por meio do batismo. Paulo diz: “Porque todos quantos fostes batizados em [para – JND] Cristo já vos revestistes de Cristo”. Observe que existe uma diferença nas expressões “em Cristo” e “de Cristo”. Por fé somos colocados numa nova posição diante de Deus “em Cristo” (v. 26), porém por meio do batismo nos revestimos “de Cristo” e estamos numa nova posição diante dos homens na Terra (v. 27).
Quando somos batizados, colocamos o distintivo, ou vestimos o uniforme Cristão, e desse modo nos identificamos com a posição Cristã na Terra. A ordenança do batismo tem a ver com desassociação e associação. Uma pessoa que é batizada é formalmente desassociada da antiga posição em que uma vez esteve na Terra (seja no paganismo ou no judaísmo) e é formalmente associada com uma nova posição – o terreno Cristão. Este novo terreno não tem nada a ver com a segurança da bênção eterna de uma pessoa, todavia a coloca declaradamente num lugar limpo na Terra.
Muitas versões traduzem este versículo da seguinte forma: “batizados em Cristo”, porém deveria ser traduzido: “batizados para Cristo” (JND). O apóstolo acabou de nos dizer no versículo 26 que uma pessoa está “em Cristo” por fé. Ele não poderia estar sugerindo que o batismo com água coloca alguém nesta posição diante de Deus porque isso negaria toda a força do seu argumento na epístola – de que nossa aceitação diante de Deus pode somente ser por fé. Batismo é um ato – algo que uma pessoa pode fazer ou se submeter. Se o batismo colocasse alguém neste elo vital em Cristo, então uma pessoa poderia ser salva pelas suas obras! A palavra deve ser traduzida como “para”, a qual se refere à identificação. Pelo batismo com água somos identificados com Cristo em Sua morte e em Sua ressurreição. Isso nos coloca, professadamente, num novo terreno na Terra.
Uma Parte na Raça da Nova Criação
Vs. 28-29 – Em terceiro lugar, a lei produzia toda a sorte de distinções nacionais e sociais, mas todas essas distinções foram colocadas de lado na nova posição em Cristo do Cristão. Como parte da oração matinal de um homem judeu ortodoxo ele iria agradecer a Deus por não ser um gentio, um servo, ou uma mulher. Estas três coisas eram claramente distintas como sendo inferiores em relação ao lugar que um homem tinha no judaísmo. Porém no Cristianismo estas distinções já não existem. “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”.
Como parte da raça da nova criação, não apenas estamos “em Cristo” (v. 26), mas também somos “de Cristo” (v. 29). Isso significa que a própria substância de nossa vida e essência de nosso ser é “de” o mesmo caráter daqu’Ele que é o Cabeça da raça. Portanto, a raça de redimidos da nova criação é da mesma “espécie” do próprio Cristo (comparar Gn 1:21-25, 2:23). Somos “todos de um” tipo, de uma espécie, com Ele e, portanto, completamente adequados a Ele como Seus eternos companheiros (Hb 2:11).
Os gálatas estavam enganados em pensar que se guardassem a lei eles seriam “semente de Abraão” (v. 29 – JND). Pelo contrário, Paulo conclui seus argumentos neste capítulo declarando que somos semente de Abraão por crer no Senhor Jesus para salvação. (A “semente” aqui não é Cristo pessoalmente, como nos versículos 16 e 19). Como resultado, somos “herdeiros conforme a promessa” (v. 29b), e também:
- Somos filhos de Deus “em Cristo” por meio da fé (v. 26).
- Revestimos-nos “de Cristo” por meio do batismo com água (v. 27).
- Somos “de Cristo” na nova criação (v. 29a).
- Somos herdeiros “com Cristo” em relação à bênção prometida a Abraão (v. 29b; Rm 8:17 – ARA).
Sumário dos Princípios que Paulo Apresentou até Agora na Epístola
Voltar-se para a lei para justiça e salvação contradiz certos fatos e doutrinas Cristãs que são inegáveis, pois negligencia:
- o fato de que o Cristão está morto para a lei (cap. 2:19-21).
- o testemunho da história dos próprios gálatas – que tinham sido salvos à parte da lei (cap.3:1-5).
- o exemplo de Abraão que foi considerado justo antes da lei (cap. 3.6-9)
- o testemunho da Escritura como apresentado na lei e nos profetas – Moisés e Habacuque – de que a lei não pode abençoar, mas somente amaldiçoar (cap. 3:10-12).
- a obra de Cristo e a diminui pois ela redime aqueles sob da lei (cap. 3:13-14).
- o fato de que a bênção conectada com a promessa é no princípio de fé à parte da lei (cap. 3:15-25).
As Tristes Ramificações de se Misturar Lei e Graça
(Capítulo 4)
No capítulo 3, Paulo defendeu a verdade do evangelho por meio de vários argumentos doutrinais convincentes. No capítulo 4, ele agora mostra que existem alguns sérios efeitos de caráter prático que resultam de se misturar lei e graça – todos os quais prejudiciais ao Cristão. O capítulo 3 mostrou o que a graça produz; agora o capítulo 4 apresenta o que o legalismo produz.
O próprio Senhor (em Seu ministério terreno) advertiu que se lei e graça fossem ligadas de alguma forma, isso levaria a um desastre na prática Cristã. Ele disse “Ninguém deita remendo de pano novo em vestido velho; doutra sorte o mesmo remendo novo rompe o velho e a rotura fica maior; e ninguém deita vinho novo em odres velhos; doutra sorte, o vinho novo rompe os odres e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; o vinho novo deve ser deitado em odres novos” (Mc 2:21-22). Os novos princípios aos quais a graça nos trouxe no Cristianismo devem ser praticados num cenário completamente novo, à parte dos princípios e práticas do sistema legal do judaísmo.
Sete Mães
No capítulo 3, Paulo nos apresentou o testemunho de vários homens: Abraão – o pai daqueles que creem, Moisés – aquele quem deu a lei, e Habacuque – um profeta. A verdade foi desenvolvida, por assim dizer, do lado paternal. Já no capítulo 4, Paulo desenvolve a verdade do lado maternal. Neste capítulo, as mulheres são proeminentes. Ele menciona não menos do que sete mães. Elas são:
- Maria, a mãe do Senhor (v. 4).
- O próprio Paulo (v. 19).
- Agar, a mãe de Ismael (v. 22).
- Sara, a mãe de Isaque (v. 22).
- Jerusalém terrena (v. 25).
- Jerusalém celestial, a mãe de todos nós (v. 26).
- O Espírito Santo, dando à luz a todos que são livres (v. 29).
Homens na Escritura normalmente nos fala do lado posicional na verdade, enquanto que mulheres frequentemente indicam o desenvolvimento moral da verdade na alma. Quando pensamos em uma mãe na Escritura, pensamos na verdade sendo trabalhada moral e praticamente nas vidas. Portanto, o que está diante de nós agora, no capítulo 4, está mais relacionado com os efeitos morais e práticos de se misturar lei e graça. Paulo mostra que estas duas coisas simplesmente não irão funcionar praticamente na vida de um Cristão. Ele demonstra isso de três formas diferentes neste capítulo: por uma ilustração a partir dos costumes de um lar judaico (vs. 1-11), por uma experiência pessoal em suas próprias interações com os gálatas (vs. 12-20), e por uma alegoria do Velho Testamento (vs. 21-31).
Os Que São Governados pelo Sistema Legal Perdem a Liberdade de Sua Filiação
Cap. 4:1-11
O primeiro resultado negativo de se misturar lei e graça é a perda da liberdade de nossa “filiação”. Isto é uma coisa prática. Nunca podemos perder nosso lugar como filhos diante de Deus, mas a liberdade que acompanha aqueles que estão nesta posição de privilégio, pode ser perdida.
Paulo introduziu o assunto da filiação Cristã no capítulo anterior para enfatizar a posição superior que os crentes agora possuem como resultado da vinda da fé. Filiação, como já vimos, é uma das bênçãos distintas no Cristianismo (cap. 3:25-26). Ele volta-se agora para um costume de um lar judaico para ilustrar a diferença da posição favorecida de “filiação” na família de Deus como oposta a diminutiva posição de um “menino [criança – JND]” na família.
Vs. 1-3 – Os santos nos tempos do Velho Testamento, sob a lei, são assemelhados a crianças em um estado de infância, sob “tutores [guardadores] e curadores [intendentes]”. Eles estavam numa posição onde os princípios elementares da religião judaica eram impostos sobre eles e isso atendeu à condição de imaturidade espiritual deles, sendo necessária a disciplina e cuidado constante da lei. Paulo diz: “Assim também nós, quando éramos crianças estávamos mantidos em servidão debaixo dos elementos do mundo” (JND) – isto é, a religião mundana (terrena) do judaísmo. Três coisas caracterizavam os santos em sua posição no Velho Testamento: Eles não conheciam a Deus como seu Pai, a obra de redenção ainda não havia sido realizada, e o Espírito de Deus ainda não havia sido dado. Os rituais e cerimônias que caracterizavam aquela religião terrena haviam sido designados para aqueles que estavam naquela posição diminuta.
Vs. 4-5 – Na “plenitude do tempo” (v. 4 – ARA), quando o período de provação para o homem na carne se completou (4.000 anos ou 40 séculos desde Adão até Cristo), “Deus enviou Seu Filho”. A vinda de Cristo colocou um fim nas três coisas que caracterizavam aqueles do Velho Testamento. A encarnação de Cristo resultou na revelação do Pai (Jo 1:18); a morte de Cristo trouxe redenção (1 Pe 1:18-19); a ascensão de Cristo resultou na descida do Espírito Santo (At 2:33). Portanto, quando uma pessoa aceita o testemunho do Pai e o Filho e descansa em fé na obra consumada de Cristo para sua salvação, ela é habitada com o Espírito Santo, e dessa forma é capacitada a desfrutar a liberdade e os privilégios de um filho adulto na família de Deus.
Paulo indica que aqueles que foram convertidos do judaísmo por crerem no evangelho são como “crianças” que amadureceram. Elas deixaram aquela posição de um menor, e estão agora numa posição de “filhos” na família de Deus. O Bar Mitzvá judaico ilustra isso. Numa família judaica, quando um menino atinge a idade de 13 anos, ele é formalmente elevado da posição de criança na família para a posição de filho; a partir de então ele desfruta de maiores liberdades e privilégios na família. Esta mudança de posição ilustra a posição de um Cristão na família de Deus como oposta à daqueles em terreno judaico nos tempos do Velho Testamento. Isso é verdade para ambos, tanto crentes judeus como crentes gentios. Observe que quando Paulo diz: “a fim de (nós) recebermos a adoção de filhos” no versículo 5, tal expressão refere-se a crentes judeus, e quando ele diz: “E porque (vós) sois filhos” no versículo 6, essa expressão refere-se a crentes gentios.
Teólogos adeptos da teologia do pacto nos dizem que “a plenitude do tempo” (v. 4 – ARA) é a mesma coisa que a “plenitude dos tempos” de Efésios 1:10. Eles creem que quando o Senhor Jesus veio a este mundo em Sua primeira vinda Ele introduziu a “dispensação [administração – JND] da plenitude dos tempos” – a qual é o Milênio. Portanto, de acordo com os ensinamentos deles, estamos no Milênio agora! Todavia, estas duas expressões não são iguais, “a plenitude do tempo” em Gálatas 4 está no singular, enquanto que em Efésios 1:10 está no plural. A “plenitude dos tempos” tem a ver com a culminação dos caminhos de Deus com o homem na dispensação final (o Milênio), quando a glória de Deus será exibida no reino de Cristo e a Igreja; como mencionado, “a plenitude do tempo” tem a ver com a provação do homem na carne sendo completada depois de 40 séculos de teste. Em Gálatas 3:16, Paulo já havia mostrado que a ausência da letra “s” muda consideravelmente o significado da passagem, o mesmo acontece nesta passagem. Podemos ver a partir disso como o não atentar para detalhes importantes na Escritura pode levar ao erro. Devemos ler a Escritura “preceito após preceito; linha após linha” (Is 28:10 – JND), prestando grande atenção aos seu menores detalhes.
Na versão Almeida Revista e Corrigida o versículo 5 diz: “a fim de recebermos a adoção de filhos”. Esta última parte do versículo poderia ser traduzida como “filiação”5, pois é a mesma palavra usada para “adoção” no grego (conforme nota de rodapé em Rm 8:15 na tradução de JND). Alguns imaginam que, assim como existem duas maneiras de crianças serem introduzidas em nossa família terrena (por nascimento ou adoção), assim também Deus também tem duas maneiras de trazer pessoas à Sua família. No entanto, isto não é verdade. Existe apenas uma forma de entrar na família de Deus – pelo novo nascimento. Adoção é uma promoção de alguém que já está dentro da família para a posição superior de filiação.
No sentido em que a palavra “crianças” é usada em Gálatas 4, pessoas tornam-se “crianças” por meio do novo nascimento, e então se tornam “filhos” ao receberem o Espírito. O apóstolo João não usa a palavra “crianças”6 (1 Jo 2:1, 3:7, 18, etc. – JND) num sentido diminutivo como Paulo faz aqui. Nos escritos de João, “crianças” de Deus são vistas como tendo o Espírito (1 Jo 2:20; 3:24, 4:13), e, portanto, refere-se àqueles a quem Paulo chama de filhos. “Crianças” nos escritos de João estão na posição Cristã completa na família de Deus, mesmo aqueles que João classifica como “filhinhos” (recém-convertidos) estão nesta posição (1 Jo 2:18). João os santos de “filhinhos” porque a ênfase em suas epístolas está na vida eterna e no relacionamento que temos com o Pai em afeição; ele não usa o termo “filhos” – embora a versão Almeida Revista e Corrigida traduza “crianças” como “filhos” erroneamente em sua epístola.
V. 6 – Todas as três Pessoas da Divindade são encontradas neste versículo garantindo a liberdade de filiação aos crentes. Paulo diz: “Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai”. Esta bênção tremenda é a possessão comum de todos os crentes – tanto aqueles que eram judeus como aqueles que eram gentios. Isto é visto no uso do pronome “nós” no versículo 5, que indica crentes judeus, e dos “vós” no versículo 6a, que indica crente gentios. Na última parte do versículo 6, ele une os dois juntos dizendo “nossos”.
A ênfase aqui não está tanto na bênção e posição de filiação, mas nos privilégios práticos conectados com isso. É “o Espírito de Seu Filho” clamando em nosso coração. Isso é, o Espírito nos dá a consciência desta revelação, e a resultante ousadia para nos achegarmos ao Pai com a mesma intimidade que o próprio Filho de Deus Se achega a Ele. Isso é indicado na expressão: “Aba, Pai”. Estas são as mesmas palavras que o Senhor usou quando falou com Seu Pai (Mc 14:36).
- “Aba” indica intimidade
- “Pai” indica inteligência
A liberdade de filiação é a de se achegar a Deus como nosso Pai “livremente se dirigindo a Ele” (JND) em todas as nossas orações e louvores (1 Tm 4:5 – JND). Isso não significa que podemos ser irreverentes quando falando com Deus – devemos sempre nos achegarmos a Ele reverentemente. Mas podemos fazer isso com franqueza e intimidade porque somos filhos.
V. 7 – O apóstolo esclarece o fato de que este maravilhoso privilégio de filiação deve ser exercitado individualmente, dizendo: “és filho”. Observe que tal expressão está no singular. Enquanto uma companhia de crentes, somos todos “filhos de Deus” (Gl 3:26), mas o exercício prático de nossa liberdade diante do Pai é inteiramente uma questão individual. O que isso significa é que não podemos desfrutar das liberdades da filiação por outra pessoa, e vice-versa; é algo que devemos experimentar individualmente. “Herdeiro de Deus” também é mencionado no singular aqui, talvez pela mesma razão.
Vs. 8-11 – Tendo declarado este maravilhoso privilégio de filiação, o apóstolo agora aponta para o retrocesso dos gálatas. Eles haviam sido salvos e estavam na posição de filhos, porém tinham voltado para a lei. Uma pessoa sob a lei se achega a Deus por meio de um sistema de formas, cerimônias e rituais, os quais a colocam numa certa distância de Deus. Este era o caso do judaísmo, que era uma religião dada por Deus projetada para um povo terreno que não tinha a posição de filiação. Aqueles que viviam no tempo do Velho Testamento se achegavam a Deus desta forma porque “ainda o caminho do santuário [santo dos santos – ARA] não estava descoberto” (Hb 9:8). Ao se dirigirem para esse sistema legal os gálatas perderam a liberdade de sua filiação. O retrocesso deles não era em sua posição diante de Deus como filhos – isto é algo imutável – mas em sua conduta como filhos. Não podemos jamais perder nossa posição de filiação, mas podemos perder a liberdade dela – e este era o problema dos gálatas.
Antes de serem convertidos eles serviram “aos que por natureza não são deuses” e estavam em sujeição a essas falsas deidades escravizantes (v. 8). Isso mostra que, enquanto havia alguns entre eles que eram de descendência judaica, a maioria dos gálatas eram gentios convertidos. E agora, depois de serem salvos, ao se voltarem para a lei, estavam retornando à servidão dos “rudimentos [princípios – JND] fracos e pobres” da religião terrena. A diferença era que o sistema legal mosaico era uma religião de cerimônias e rituais ordenada por Deus, enquanto que a adoração pagã possuía rituais corruptos. Ambas tinham rituais e cerimônias que ficavam entre o adorador e a deidade que ele adorava. Portanto, para um Cristão adotar agora o judaísmo – mesmo tendo sido uma religião ordenada por Deus – é colocar-se em servidão (At 15:10) e perder sua liberdade como um filho.
Isto aconteceu em grande medida na Cristandade. Adoração formal e estruturada veio a ser aceita em muitas denominações como sendo o ideal de Deus, e tomou o lugar da liberdade de filiação que Cristãos possuem de se achegarem a Deus. Na maioria dos casos, esta ordem semi-judaica teve suas raízes no catolicismo e nas igrejas reformadas que surgiram do catolicismo quando crentes tinham pouca luz quanto à revelação Cristã da verdade. Naqueles dias, eles tinham acabado de sair das trevas do catolicismo e não entendiam a verdadeira natureza e chamado da Igreja. Eles (como muitos fazem hoje) creram que a Igreja é o Israel espiritual, e que todas as promessas de Deus para os patriarcas do Velho Testamento se cumpriram hoje na Igreja num sentido espiritual. Sendo assim, eles não veem nada de errado em se misturar ideias judaicas de aproximação de Deus com adoração Cristã.
Consequentemente, em lugar de se achegarem a Deus na liberdade de filiação “livremente se dirigindo a Ele” em oração espontânea, Cristãos nesses sistemas foram reduzidos ao uso de livros de oração e programas de adoração pré-arranjados. A linguagem usada nesses livros de oração indica um povo adorando a Deus a certa distância. A partir disso vem a ideia de se “fazer uma reza”, que é a recitação de uma oração previamente escrita. Nestes sistemas, Deus é tratado como “nosso Pai celestial” como se Ele estivesse bem longe nos céus – embora as Escrituras digam que Cristãos estejam assentados em lugares celestiais na mais próxima posição de Deus possível que uma criatura poderia ter (Ef 2:6). Cristãos estão numa posição onde nenhum sacerdote de ordem aarônica jamais pôde estar – na imediata presença de Deus, no santuário celestial, o verdadeiro “santo dos santos” (Hb 10:19 – ARA). Estando em tal lugar de proximidade de Deus é adequado que nos dirijamos a Ele simplesmente como “Pai”. Além disso, salmos do Velho Testamento são utilizados para expressar os sentimentos de Cristãos em suas orações e louvor. Os salmos, como sabemos, estão cheios de expressões que indicam que o adorador não tem a certeza de salvação e aceitação diante de Deus por meio da obra consumada de Cristo. O grande efeito de Cristãos adotarem estas expressões é que a liberdade de filiação na presença de Deus, o Pai é, na prática, perdida inteiramente. Os que assim fazem acabam essencialmente se aproximando de Deus no terreno do Velho Testamento.
Grupos Cristãos que possuem maior luz e entendem que a adoração Cristã formal nas grandes igrejas eclesiásticas da Reforma não é o ideal de Deus, também podem perder a liberdade de filiação na presença do Senhor. Se o espírito de legalismo penetrar em tal ajuntamento de Cristãos, isso se fará evidente pelas orações dos santos sendo rígidas e cheias de chavões frequentemente repetidos.
Vs. 10-11 – Os gálatas desviaram-se entrando em cerimônias e rituais rudimentares de religião terrena. Estavam guardando “dias, e meses e tempos, e anos”. Fazendo isso, estavam se voltando para um sistema que os colocaria, na prática, no terreno do Velho Testamento. Esta era uma grande preocupação para o apóstolo. Ele disse: “Receio de vós, que não haja trabalhado em vão para convosco”. Isso significa que ele temeu por eles no que diz respeito à vida espiritual deles, porque estavam num caminho totalmente errado. Além disso, Paulo viu seu “trabalho” despendido com eles como sendo de nenhum efeito.
Em suma, o primeiro ponto de Paulo no capítulo 4 é que se um Cristão mistura princípios de lei com graça, ele irá se colocar sob a “servidão” da religião terrena e perderá a liberdade de sua filiação na presença do Pai.
Os Que São Governados pelo Sistema Legal Tornam-se Frios e sem Empatia
Cap. 4:12-20
O apóstolo agora passa a falar de outro efeito negativo resultante de se misturar lei e graça – o crente torna-se frio e sem empatia em suas interações com outros. Paulo aponta para a própria conduta dos gálatas para com ele como uma prova disso. Isso mostra que se um Cristão vive sob princípios legalistas, isso não afetará somente sua liberdade na presença de Deus, mas também afetará sua conduta entre seus irmãos.
V. 12 – Paulo começa rogando-lhes: “sejais como eu”. Ele está falando aqui daquilo que ele era na prática – completamente liberto da lei. Ele queria que eles tivessem a mesma liberdade que ele tinha. Ele também diz: “porque também eu sou como vós”. Isto é, em posição eles eram como Paulo era, porque todos crentes estão na mesma posição diante de Deus como filhos. Existe um princípio importante que Paulo emprega aqui que não podemos perder. O princípio é: Não podemos esperar ter poder sobre outros para guiá-los para fora de algo se nós mesmos não estivermos limpos disso. Paulo podia rogar aos gálatas para que se livrassem da lei porque ele próprio estava liberto dela. Então ele acrescenta: “nenhum mal me fizestes”. Embora estivesse triste com o retrocesso deles, ele queria assegurar-lhes de que não estava pessoalmente ofendido pelas suas ações recentes para com ele.
Vs. 13-16 – Paulo volta ao princípio da experiência deles e lhes mostra o que o legalismo havia feito na vida deles. Como recém-convertidos, os tenros brotos da graça começaram a se desenvolver neles, e isso era muito bonito. Isso pôde ser observado no seu genuíno amor e cuidado para com o apóstolo. Ele tinha uma “fraqueza na carne”, alguma doença (talvez com os seus olhos) que era uma verdadeira prova para ele no serviço ao Senhor. Todavia, eles não o “desprezaram” nem o “rejeitaram” com “desdém” por conta disso, antes o trataram com ternura e o receberam “como um anjo de Deus” (v. 14 – JND). O cuidado deles para com ele chegou ao ponto em que, se fosse possível, arrancariam seus próprios olhos para lhe dá-los. Porém agora, voltando-se para a lei, aqueles tenros brotos de graça haviam sido expulsos deles. Os gélidos ventos do legalismo fizeram com que seus corações se esfriassem para com ele – a tal ponto que ele agora estava sendo tratado como um inimigo! Ele diz: “Fiz-me acaso vosso inimigo dizendo a verdade?” Tal é o triste e lamentável resultado que um espírito legalista produz; ele enfraquece e restringe o fluxo das afeições de um crente para com os outros.
O ponto de Paulo é claro; legalismo tende a fazer do crente frio e sem empatia. Alguém que vive em linhas legalistas geralmente faltará com graça em suas interações com outros, tenderá a ser severo em suas ações em lugar de ser gracioso. Normalmente tomará uma linha dura em questões que se levantam na assembleia, em vez de adotar uma linha mais branda e graciosa. Não estamos dizendo que tais pessoas não possuam momentos graciosos, porém o que as caracterizam é a insensibilidade, dureza e, frequentemente, um espírito crítico. Isso é normalmente apontado para aqueles que não aderem às suas regras e regulamentos.
Outra coisa que pode ser aprendida a partir disso é que a doutrina de uma pessoa afeta sua conduta. Má doutrina leva à má prática (2 Tm 2:16). No caso dos gálatas eles haviam se encharcado de má doutrina em relação à lei, e isso produziu má conduta.
Os Que São Governados pelo Sistema Legal Perdem seu Discernimento
Cap. 4:17-19
Paulo agora se atém em outro triste resultado de se misturar lei e graça, que é: Aqueles que vivem por princípios legalistas perdem seu discernimento espiritual. Novamente, os gálatas eram uma prova viva disso. Paulo toca em ao menos três coisas que indicam que eles tinham perdido sua sensibilidade espiritual.
V. 17 – Primeiramente, eles não discerniram os motivos malignos que estavam operando nos mestres judaizantes em seu meio. A fim de expor estes motivos encobertos Paulo falou em grande clareza de discurso: “Eles têm zelo por vós, não como convém [corretamente – JND]”. Os legalistas haviam impressionado os gálatas com o seu zelo; fizeram uma exibição de devoção e exercício espirituais e os santos na Galácia foram enganados por isso. Isso mostra que eles estavam bem desprovidos de discernimento. Infelizmente, estes falsos mestres tinham desígnios para levarem os gálatas para longe do apóstolo e após si mesmos. Paulo, portanto, foi adiante e disse: “querem excluir-vos de nós para que sejais zelosos após eles” (v. 17 – JND). Era evidente que eles estavam buscando por seguidores (At 20:30) e, infelizmente, os gálatas caíram em sua armadilha. Como isso aconteceu? Ao misturar a lei com o Cristianismo eles se tornaram insensíveis aos movimentos destes obreiros malignos que consequentemente os enganaram.
Muitos queridos Cristãos hoje têm sido enganados desta forma. Um obreiro Cristão cheio de energia e entusiasmo aparecerá e os impressionarão com uma exibição de piedade e devoção e eles se deixarão levar por isso. Frequentemente quando pessoas são impressionadas de tal forma, é porque não estão firmadas na fé (Cl 2:7). Em Romanos 16:25, Paulo nos diz que existem duas coisas que são necessárias para “confirmar [estabelecer – JND]” o crente, elas são: ter entendimento do seu “evangelho”, e ter entendimento da “revelação do mistério”. Estarem firmados nestas coisas teria ajudado os gálatas a detectar o erro e refutar os avanços dos mestres judaizantes.
V. 18 – Paulo explica que zelo é bom, mas ele deve ser “naquilo que é correto” (v. 18 – JND). Zelo nas coisas de Deus não é suficiente; ele deve ser de acordo com a verdade. Uma pessoa pode ser sincera acerca de algo, mas ser sinceramente errada. O teste não é o quão entusiástica uma pessoa é, mas antes se o que ela apresenta é a verdade. Isto mostra que não podemos julgar a mensagem que uma pessoa traz meramente pela conduta externa dela. É verdade que a vida dos servos deveria estar de acordo com a mensagem que eles trazem (1 Ts 2:1-8), mas mais importante que tudo, eles têm que trazer a verdade. Muitos têm sido enganados simplesmente porque homens são zelosos e sinceros. Em outro lugar Paulo diz: “com suaves palavras e lisonjas” eles “enganam os corações dos símplices” (Rm 16:18). “Julguemos”, portanto, “todas as coisas”, retendo “o que é bom [correto – JND]” (1 Ts 5:21 – ARA).
Vs. 19-20 – Uma segunda coisa que provava que o discernimento dos gálatas tinha sido afetado de forma prejudicial era que eles não conseguiram discernir os motivos legítimos do apóstolo Paulo, que era genuíno em seu amor e cuidado pelo bem-estar espiritual deles. Ele desejava o bem e a bênção deles, porém eles não discerniam isso e estavam tratando Paulo como um inimigo!
Em vista do estado confuso deles, Paulo suplica-lhes, como suas queridas “crianças” pelas quais “ele sentia novamente as dores de parto até que Cristo” fosse “formado” neles. Ele sentiu como se ele tivesse que começar novamente com eles, porquanto tinham regressado de tão terrível forma. Ele usa a figura de uma criança no ventre de sua mãe para expressar a servidão restritiva do legalismo no qual estavam; quando uma mulher dá à luz, sua criança é libertada. Paulo falou dos seus trabalhos com eles como uma mãe sentindo as dores de parto para dar à luz crianças à verdadeira liberdade Cristã. Este era um verdadeiro exercício maternal. Ele não apenas deu à luz aos seus convertidos, mas também criou aqueles crentes recém-nascidos com as verdades simples da Escritura (1 Ts 2:7-8). Com os gálatas, Paulo teve que sentir as dores de parto “de novo”, porque ele já o tinha feito quando eles eram recém-convertidos. Ele os havia libertado da servidão do paganismo, e agora teria que fazer isso de novo libertando-os da servidão do legalismo.
Vemos aqui como Cristo é formado nos santos – por meio do ensino sadio. Doutrina correta leva à prática correta. Uma coisa é estar “em Cristo” (cap. 3:26), outra coisa é ter “Cristo ... formado” em você (cap. 4:19). Esta última tem a ver com o lado moral da verdade tendo seu efeito prático no crente, de maneira que as características de Cristo – tal como graça, benignidade, paciência, amor, etc. – são vistas nele. Maturidade Cristã é ser como Cristo, mas infelizmente, isso tinha sido impedido nos gálatas pelo legalismo.
Em vista do retrocesso deles, Paulo queria estar com eles e “mudar” sua “voz” para mostrar-lhes exatamente o quão preocupado ele estava. Ele estava “perplexo” quanto à maneira em que eles tinham se afastado para tão longe do caminho e não pareciam perceber isso. Da mesma forma devemos ficar profundamente entristecidos – e mesmo justamente irados quando alguém desvia uma pessoa do caminho (2 Co 11:29).
V. 21 – Uma terceira coisa que indicava que o discernimento dos gálatas tinha sido afetado é o claro fato de que eles não estavam discernindo aquilo que a lei estava realmente dizendo. Paulo argumenta com eles dizendo: “Dizei-me, os que quereis estar debaixo da lei, não ouvis vós a lei?” Os gálatas haviam se tornado tão insensíveis que não estavam ouvindo aquilo que a lei estava demandando, tão pouco estavam percebendo aquilo que a lei tinha produzido na vida deles. Isso mostra que eles tinham perdido seu discernimento.
Esta evidência pode ainda ser vista em Cristãos que se colocam debaixo de princípios legais nos dias de hoje. Se você fosse apresentar-lhes os perigos do legalismo, eles honestamente não iriam entender do que você está falando. Uma influência cegante na sua mente legalista os faz bastante insensíveis para todo raciocínio lógico. Eles normalmente recusarão qualquer exortação dada a eles por pessoas preocupadas, imaginando que estão sendo fiéis ao Senhor.
A prova de que os gálatas tinham se tornado insensíveis por meio de seu entusiasmo com a lei é testemunhada pelo fato de que:
- Eles não conseguiram discernir o verdadeiro caráter dos judaizantes que estavam operando entre eles (vs. 17-18).
- Não conseguiram discernir o legítimo caráter de Paulo de genuíno amor e preocupação pelo bem-estar espiritual deles (vs. 19-20).
- Não conseguiram discernir o que a lei estava realmente dizendo e fazendo com eles (v. 21).
Os Que São Governados pelo Legalismo Tornam-se Uma Fonte de Contenda Entre Seus Irmãos
Cap. 4:22-31
Paulo passa a falar de outro triste resultado de se misturar lei e graça. O qual é: Aqueles que vivem nos princípios do concerto legal perseguirão aqueles que andam em graça e serão uma fonte de contenda entre seus irmãos. Novamente, os gálatas eram uma prova viva disso; eles estavam se mordendo e devorando uns aos outros (Gl 5:15)
Para demonstrar este efeito devastador da mistura de princípios de sistema legal com graça, Paulo se volta para uma “alegoria” do Velho Testamento. Os gálatas afirmavam entender a lei mosaica e estavam desejosos de ser confinados pelos seus preceitos; então certamente eles puderam ver a força de uma ilustração extraída de um dos livros de Moisés. A alegoria ilustra a incongruência que existe entre a lei e o evangelho e o inevitável antagonismo entre aqueles que são governados por princípios legalistas e os que andam em graça.
Vs. 22-23 – A alegoria apresenta Sara e seu filho em oposição com Agar e seu filho. Essas duas mulheres tinham dois relacionamentos totalmente diferentes com Abraão, os quais produziram resultados completamente distintos. Os dois filhos ilustram a diferença entre a servidão que existe no sistema legal e a liberdade no Cristianismo.
Vs. 24-27 – As duas mães representam dois concertos: Sara o novo concerto da graça, e Agar o antigo concerto da lei. “Agar” refere-se ao “monte Sinai”, o qual gera “filhos para servidão” e corresponde àquilo que “Jerusalém” é presentemente – o sistema legal. Por outro lado, a “livre” (Sara) vivia na casa de Abraão como sua esposa escolhida. Ela corresponde à “Jerusalém que é de cima” (Jerusalém celestial) – o inteiro sistema de graça divina. Ela é a mãe daqueles que permanecem na graça. Paulo cita Isaías 54:1 para enfatizar a liberdade que a graça traz. Quando a lei foi imposta no monte Sinai ninguém irrompeu em cânticos. Mas quando a graça alcançar a nação de Israel, num dia vindouro, haverá alegria e cânticos. “Canta alegremente, ó estéril, que não deste à luz: exalta de prazer com alegre canto”. Nota: Este gozo que a graça traz não é um resultado de suas obras e esforços; aqueles que “não” estão “de parto” são os que darão à luz suas crianças naquele dia!
Paulo então ensina uma lição muito tocante a partir desta alegoria. A “escrava” (Agar), que era uma serva na casa de Abraão vivendo sob ordens e regulamentos pertencentes ao seu papel naquela familia, podia somente dar à luz a um escravo (Ismael) – um que era tal como ela. Isso é o que a lei irá produzir – escravos! No entanto, Deus não quer escravos no Cristianismo – isso é, aqueles que são governados por regras e regulamentos. Temos notado que aqueles que são governados por princípios legalistas parecem abordar a conduta Cristã como uma questão de dever ao invés de um feliz privilégio. Por outro lado, a “livre” (Sara) vivia na casa de Abraão como a sua esposa escolhida. Ela deu à luz a um filho (Isaque) que não era um escravo, mas herdeiro de tudo quanto Abraão possuía. Ela é uma figura do que a graça produz; ela gera aqueles que andam na feliz liberdade e privilégio de filiação. Isso é o que Deus quer no Cristianismo.
O resultado dos dois filhos nascidos sob dois princípios opostos e habitando na mesma casa era que “aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que era segundo o Espírito” (v. 29). Os dois meninos não podiam viver juntos pacificamente; Ismael zombava da verdadeira semente, Isaque. A conclusão à qual Abraão chegou (por meio da sugestão de Sara) foi que o escravo-servo deveria dar lugar ao filho. A decisão, portanto, foi: “Lança fora a escrava e seu filho”. Ambos tinham de ir.
- Agar corresponde à lei.
- Ismael corresponde à carne sob a lei.
Vs. 28-31 – Paulo faz uma aplicação poderosa a partir disso. Desde que os gálatas insistiam em seguir o exemplo de Abraão, Paulo aponta para uma coisa que Abraão fez e que eles precisavam seguir – ele lançou fora a serva e seu filho! Eles precisavam lançar fora a lei (como regra de vida) e a carne que desejava viver sob a lei. A coisa foi “mui má [dolorosa – JND]” para Abraão – e isso provavelmente também era para os gálatas – mas Abraão o fez (Gn 21:9-14). Agora era a vez dos gálatas o fazerem também.
A perseguição de Ismael a Isaque ainda existe hoje, como Paulo disse: “assim é também agora” (v. 29). Estes dois princípios opostos de lei e graça não podem habitar juntos na Igreja. Aqueles governados por princípios legalistas serão contrários àqueles que vivem em graça, e serão uma fonte de contenda e divisão entre seus irmãos. O que temos observado é que assembleias que são marcadas por aqueles que vivem nesses dois princípios opostos são assembleias divididas; a unidade prática é constantemente ameaçada. É um fato triste que o legalismo alimente a contenda e a divisão entre os santos de Deus. A razão é que aqueles que vivem em linhas legalistas estão na verdade vivendo o Cristianismo “segundo a carne” – embora não vejam isso. Aqueles que andam na graça são o objeto da hostilidade e criticismo deles porque não andam pelas suas regras e regulamentos.
Se permitirmos o pensamento de que nosso favor com Deus seja o resultado de nosso bom andar e esforços para agradar o Senhor (a essência do legalismo), duas coisas negativas inevitavelmente resultarão. Em primeiro lugar, desenvolveremos uma postura de justiça própria de estarmos orgulhosos por estarmos guardando nossas regras e regulamentos. Em segundo lugar, faltaremos com graça em nossas interações com outros e nos tornaremos críticos daqueles que não aderem nossas regras. Isto certamente irá promover contenda e divisão entre irmãos.
Aqueles que insistem em princípios legalistas para governo dos santos manifestam:
a) Falta de entendimento da maneira pela qual Deus desenvolve crescimento espiritual nas almas. Espiritualidade e santidade não podem ser alcançadas ao se insistir em restrições legalistas impostas sobre crentes. Pode parecer funcionar por um tempo, porém tais meios não irão produzir resultados positivos e duradouros em Cristãos.
b) Falta de fé para confiar em Deus para realização de uma obra real em nossa alma de verdadeira espiritualidade e piedade. Esta falta de fé é manifesta em sua tentativa de realizar o trabalho de Deus em almas pelos meios carnais do legalismo.
V. 31 – O capítulo 3 terminou com o crente sendo visto como “semente” de Abraão, no que se refere a sua posição diante de Deus. O capítulo 4 encerra com o crente sendo visto como “crianças” de Sara no que diz respeito ao andar prático entre os homens. No entanto, é bem possível ser semente de Abraão, mas viver como filho de Agar! Este era o erro dos gálatas.
Resumo das Tristes Ramificações de se Misturar Lei e Graça
Assim, no capítulo 4, Paulo nos ensinou que existem alguns perigos sérios e práticos em se misturar lei e graça. Os resultados são devastadoramente destrutivos, não apenas na vida do crente individualmente, mas também na assembleia coletivamente. Afeta também a vida pessoal do Cristão na presença de Deus, assim como sua vida entre seus irmãos. Em suma, viver nos princípios do sistema legal:
- Vs. 1-11 – Coloca o crente em servidão, fazendo-o perder a liberdade de sua filiação na presença de Deus.
- Vs. 12-16 – Enfraquece e restringe a manifestação das afeições de um crente para com outros.
- Vs. 17-21 – Causa uma perda de discernimento no crente e impede o desenvolvimento do caráter de Cristo ser formado nele.
- Vs. 22-31 – Leva uma pessoa a perseguir aqueles que vivem na liberdade da graça, e ser assim uma fonte de contenda entre irmãos.