Biblioteca / A Epístola aos Hebreus / O SACRIFÍCIO DE CRISTO É SUPERIOR AO SACRIFÍCIO DO DIA DA EXPIAÇÃO Capítulos 9–10:18

A Epístola aos Hebreus

O SACRIFÍCIO DE CRISTO É SUPERIOR AO SACRIFÍCIO DO DIA DA EXPIAÇÃO Capítulos 9–10:18

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 14 de 23

O SACRIFÍCIO DE CRISTO
É SUPERIOR AO SACRIFÍCIO DO DIA DA EXPIAÇÃO
Capítulos 9–10:18

Chegamos agora ao pináculo dos grandes contrastes da epístola – o sacrifício superior de Cristo. Os sacrifícios oferecidos no judaísmo do Velho Testamento eram temporários. Eles serviam ao propósito de apontar para o tempo em que Cristo viria e Se ofereceria a Deus como o supremo sacrifício pelo pecado (cap. 9:26). Seu único grande sacrifício é o cumprimento de todos os sacrifícios de animais oferecidos no altar judaico (cap. 10:1, 11-12). O sacrifício específico dos rituais judaicos que está diante do escritor nesses dois capítulos é a oferta pelo pecado no Dia da Expiação (Lv 16:1-34, 23:26-32). Os sacrifícios naquele dia eram considerados os maiores de todos os sacrifícios que eram oferecidos em seu calendário anual.

O Santuário Terrestre e suas Ordenanças Carnais

Vs. 1-7 – O escritor diz: “ORA também o primeiro (concerto) tinha ordenanças de culto divino, e um santuário terrestre. Porque um tabernáculo estava preparado, o primeiro, em que havia o candeeiro, e a mesa, e os pães da proposição; ao que se chama o santuário [o Santo lugar – TB]. Mas depois do segundo véu estava o tabernáculo que se chama o Santo dos Santos, Que tinha o incensário de ouro, e a arca do concerto, coberta de ouro toda em redor: em que estava um vaso de ouro, que continha o maná, e a vara de Aarão, que tinha florescido, e as tábuas do concerto; E sobre a arca os querubins da glória, que faziam sombra no propiciatório; das quais coisas não falaremos agora particularmente. Ora, estando estas coisas assim preparadas, a todo o tempo entravam os sacerdotes no primeiro tabernáculo, cumprindo os serviços; Mas no segundo só o sumo sacerdote, uma vez no ano, não sem sangue, que oferecia por si mesmo e pelas culpas [pelos pecados de ignorância – ARA] do povo”. Os primeiros cinco versículos do capítulo 9 são uma breve visão geral do santuário terrestre. Em seguida, nos vs. 6-7, o escritor descreve os principais “serviços” realizados pelos sacerdotes nesse sistema – particularmente o que acontecia no Dia da Expiação.

O modelo a que se refere é o tabernáculo no deserto, não o templo que Salomão construiu na terra de Canaã. Isto é evidente pelo fato de que menciona “um vaso de ouro, que continha o maná, e a vara de Aarão, que tinha florescido” estando na arca, ao passo que quando a arca foi colocada no templo essas duas coisas foram removidas (2 Cr 5:10). Usar o modelo do tabernáculo no deserto para ensinar seu ponto está de acordo com o contexto da epístola, sendo que é um livro do deserto onde o Cristão é visto em uma peregrinação espiritual ao céu.

O escritor menciona dez coisas que marcaram esse sistema terrestre: três no “Santo Lugar” (ARA) (o Santuário) e sete no “Santo dos Santos” (a parte mais interna do tabernáculo onde estava a presença de Deus). Algo que se destaca é que o altar de incenso não é mencionado aqui, mas sim o “incensário de ouro”, que os sacerdotes usavam naquele altar! Além disso, fala do incensário como estando no Santo dos Santos! Isso é interessante e instrutivo. Isso mostra que ele entendeu que o local apropriado de adoração (que o altar de incenso e o incensário de ouro representam) é na presença imediata de Deus – algo desconhecido no judaísmo, mas o privilégio do crente no Cristianismo. Isso indica que não é intenção de Deus que Seus redimidos O adorem à distância, fora do véu (Hb 10:19). O pátio (átrio) do tabernáculo (Êx 27:9-21) não é mencionado aqui porque o assunto em Hebreus é a aproximação do crente a Deus no interior do santuário. O pátio tem a ver com o testemunho do crente perante o mundo exterior.

O escritor observa que os sacrifícios oferecidos naquele dia cobriam apenas “pecados de ignorância” – ARA (v. 7; Lv 4:2; Nm 15:22-29) – que as versões King James e Almeida da Imprensa Bíblica do Brasil traduzem como “erros” das pessoas. O sistema legal não oferecia remédio para uma pessoa que cometesse “alguma coisa atrevidamente [à mão levantada – ARC]” (Nm 15:30-36 – ARA; Sl 19:13). Este fato é outra prova da fraqueza desse sistema. Na melhor das hipóteses, esses sacrifícios só podiam cobrir certos pecados – e esses eram apenas por um ano de cada vez, por meio dos rituais no Dia da Expiação e da “tolerância de Deus – TB” (Rm 3:25). Esses sacrifícios não podiam “tirar” os pecados de diante de Deus (Hb 10:3-4), como fez o único sacrifício de Cristo (Hb 9:26; 10:12-17).

A Grande Lição que o Modelo do Tabernáculo Ensina

Vs. 8-9 – No versículo 5, ele diz que não era “oportuno agora falar individualmente” (TB) dessas coisas (quanto ao seu significado típico), porque seu propósito em mencionar o modelo do tabernáculo era mostrar que ele ensina a grande lição de que o acesso à presença de Deus tinha sido fechado por causa do pecado. “O Espírito Santo” estava dando a entender “que ainda o caminho do santuário não estava descoberto enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo”. Já que as coisas no tabernáculo são “representações figurativas das coisas nos céus” (v. 23 – JND), o Espírito está ensinando que não há acesso para o homem à presença de Deus por causa da barreira que o pecado criou. A presença do “véu” (Êx 26:31-35), que o escritor chama de “segundo véu” (v. 3), restringindo a entrada no Santo dos Santos, indicou isso. Os sacerdotes aarônicos podiam entrar no Santo Lugar e ministrar, mas não tinham acesso ao Santo dos Santos – exceto o Sumo Sacerdote uma vez por ano, com sangue de uma vítima. Isso claramente ensina que o homem não pode ir diretamente a Deus; deve se aproximar d’Ele por meio de um mediador e esse por meio do sangue de um sacrifício.

Assim, a mensagem que o Espírito Santo está comunicando no tabernáculo é que o acesso à presença imediata de Deus não havia sido aberto enquanto o tabernáculo estava “ainda em pé” e reconhecido por Deus. Esta foi uma prova clara da insuficiência dos sacrifícios desse sistema legal. Não podiam “tornar perfeito o adorador” (TB) no sentido de purificar sua consciência da culpa (v. 9), nem abrir o caminho para a presença de Deus. (A maioria das versões em português traduzem que não poderia tornar perfeito “aquele que faz o serviço”, que se referia ao sacerdote, mas deveria ser “aquele que adorava” – JND, que é o ofertante). Aqueles sacrifícios foram instituídos por Deus, e não foram uma tentativa de aperfeiçoar o crente, mas sim, apontar para os “bens futuros” que viriam por Cristo, que aperfeiçoaria o crente (v. 11).

Enquanto o tabernáculo estivesse em pé e fosse reconhecido por Deus, não poderia haver acesso direto à Sua presença. Tal ato requeria um sacrifício maior que pudesse, de uma vez por todas, aniquilar o pecado (vs. 11-12, 26). Até que o pecado tivesse sido tratado com um sacrifício que satisfizesse as reivindicações da justiça divina, sempre haveria uma distância entre Deus e o homem. Portanto, aproximar-se de Deus para adoração, até aquele momento, teria que ser por meio de um sistema de rituais e ordenanças que só mantinha o homem a uma distância de Deus. H. Smith disse: “Sob tal sistema, Deus ficava do lado de dentro e o homem ficava do lado de fora. O sistema judaico não podia abrir o céu para nós, nem podia nos tornar aptos para o céu” (The Epistle to the Hebrews, pág. 48).

O tabernáculo com o véu rasgado é “uma alegoria [figura – JND] para o tempo presente” quando o caminho para o Santo dos Santos foi aberto (Hb 10:19-22). Cristãos em geral e historicamente não entenderam que o velho sistema do tabernáculo do Velho Testamento é uma figura do verdadeiro santuário no qual os Cristãos agora adoram pelo Espírito. Em vez de vê-lo como uma figura, usaram o tabernáculo como um modelo para suas igrejas e emprestaram muitas coisas em um sentido literal daquela ordem judaica para seus locais de adoração e seus serviços religiosos. Ao fazer isso, perderam completamente o ponto de que Deus não quer uma mistura dessas duas ordens drasticamente diferentes e contrastantes (Hb 13:10).

V. 10 – O escritor afirma claramente que os rituais exteriores do judaísmo (“manjares, e bebidas, e várias abluções [lavagens – JND] e justificações [ordenanças – TB] da carne”) eram coisas provisórias, dadas a Israel “até o tempo de acertar [retificar] as coisas” (Tradução de W. Kelly). Não foram destinadas a serem usadas indefinidamente na maneira em que foram dadas a eles. “O tempo de acertar as coisas” não se refere apenas ao Cristianismo agora, mas também ao tempo em que o novo concerto será feito com Israel. J. N. Darby disse: “Certas coisas lhes foram impostas até o tempo da correção. Cristo veio como ‘o Sumo Sacerdote dos bens futuros’. A que isso se refere? Alguns podem achar uma dificuldade em saber se ‘futuros’ se refere ao que era futuro para os judeus, enquanto aquele tabernáculo estava em pé, ou para o que é agora futuro. Eu acredito em ambos. Tudo era novo em Cristo. Era para vir em uma nova fundação. A base é colocada para a total e perfeita reconciliação do homem com Deus” (Collected Writings, vol. 27, pág. 385).

O Sacrifício Superior de Cristo

Vs. 11-28 – O escritor agora contrasta o serviço que ocorreu no tabernáculo no Dia da Expiação com o que Cristo realizou em Sua morte na cruz. Assim, a grandeza da obra consumada de Cristo é abordada aqui com alguns detalhes.

Olhando para esta passagem com um olhar superficial, vemos que as duas coisas principais realizadas no Dia da Expiação tiveram seu cumprimento em Cristo. Primeiramente, havia sacrifícios oferecidos pelos pecados do povo. Isto teve seu cumprimento na morte de Cristo na cruz (vs. 11-22). Então o sumo sacerdote entrou no santuário com o sangue do sacrifício. Isto teve seu cumprimento na ascensão de Cristo ao céu depois que Ele ressuscitou dentre os mortos (vs. 23-28).

J. N. Darby delineia o que está diante de nós nesta passagem afirmando: “Aqui estão os três aspectos do resultado da obra de Cristo: o acesso imediato a Deus, uma consciência purificada e uma redenção eterna”. Ele acrescenta um quarto item incluindo uma herança eterna (Synopsis of the Books of the Bible, págs. 331, 334 – edição de Loizeaux). Estes são os principais pontos do capítulo.

DEU AO CRENTE ACESSO IMEDIATO A DEUS

Vs. 11-12 – Em primeiro lugar o escritor começa seu grande tratado sobre a grandeza do sacrifício de Cristo e as bênçãos que trouxe aos crentes, afirmando que Cristo Se tornou o “Sumo Sacerdote dos bens futuros”. Ele serve nessa qualidade em “um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos”, que é o próprio céu. Em um pequeno parêntese no final do versículo 11, diz: “Isto é, não desta criação”. Assim, deixa claro que não está se referindo a um santuário literal nesta “criação” material em que os sacerdotes ofereciam o “sangue de bodes e bezerros”, mas para o verdadeiro (real) santuário – “o Santo dos Santos” (ARA) no céu. O escritor diz que Cristo, depois de ressuscitar dos mortos, entrou “de uma vez para sempre” (TB) como um Homem glorificado. Isso é monumental; pois ao fazer isso, Ele abriu o caminho para o “Santuário [Santo dos Santos – ARA]” (v. 12) para a nova raça de homens sob Sua liderança. (A KJV, TB e a AIBB dizem que Ele entrou no “lugar santo”, mas deveriam traduzir como “o santo dos santos”, que é a presença imediata de Deus. O véu foi rasgado na morte do Senhor, então quando entrou no santuário celestial, estava na presença imediata de Deus – Hb 10:20).

O Senhor entrou no santuário celestial, nos é dito, “pelo Seu próprio sangue”. Nota: o escritor não diz que o Senhor entrou lá com o Seu próprio sangue. Alguns imaginaram que o Senhor realmente levou Seu sangue para o céu como um sinal de Sua obra consumada, mas isso é uma interpretação errônea da figura (Lv 16:13-14; Hb 9:7) e está levando-a além do que o Novo Testamento ensina. O Senhor fez propiciação na cruz, não no céu. “Pelo” Seu próprio sangue significa que Ele entrou na presença de Deus no céu em virtude da eficácia de Seu sacrifício.

O grande ponto que o escritor está trazendo aqui é que “o caminho do Santo dos Santos” – que ainda não tinha sido manifestado, enquanto o primeiro tabernáculo ainda estava de pé (v. 8 – JND) – foi agora aberto pela entrada de Cristo lá como um Homem. A aparição de Cristo no céu “perante a face de Deus” (v. 24) é um testemunho eterno de que o céu foi aberto ao crente. Em virtude do sangue de Cristo, o crente tem acesso ao verdadeiro santo dos santos no céu. O escritor não se ocupa desse privilégio aqui (que é retomado no capítulo 10:19), mas simplesmente declara o fato de que Cristo abriu o caminho para o santuário celestial. Isso é algo que todo o sangue que fluiu do altar judaico não podia fazer.

OBTEVE ETERNA REDENÇÃO

V. 12 – A segunda grande coisa realizada pela obra consumada de Cristo é que Ele efetuou “uma redenção eterna” para todos os que creem. Redenção tem a ver com libertação do julgamento dos nossos pecados, do pecado, de Satanás e do mundo. A versão King James acrescenta as palavras “para nós”. Mas essas palavras estão em itálico e isso significa que não estão no texto grego, mas foram fornecidas pelos tradutores por acharem que acrescentaria clareza. Infelizmente, isso limita a aplicação da eterna redenção aos Cristãos, perdendo o ponto. A grande obra redentora de Cristo é para todos os que têm fé – incluindo Israel sob o novo concerto e as nações gentias crentes no Milênio. O fato de que se diz que é “eterna” significa que essa grande bênção continua para sempre. Isto contrasta com o sangue dos sacrifícios oferecidos no sistema levítico no Dia da Expiação. O sangue desses sacrifícios só garantia uma expiação anual, enquanto o sangue do sacrifício de Cristo obteve a redenção eterna. O valor de Seu sacrifício, portanto, é incomensuravelmente maior que os sacrifícios no sistema levítico.

Assim, não apenas o céu foi aberto ao crente, mas todo impedimento para estar lá foi justamente atendido e removido pela redenção eterna assegurada por meio da obra consumada de Cristo.

PURIFICA A CONSCIÊNCIA DO CRENTE

Vs. 13-14 – A terceira coisa que o escritor focaliza que distingue o sacrifício de Cristo de todos os sacrifícios do Velho Testamento, é que purifica a consciência do crente. Isso tem a ver com o peso total da culpa do pecado como uma carga acusadora sendo retirada da consciência do crente. É uma coisa de uma vez por todas que ocorre quando uma pessoa descansa por fé na obra consumada de Cristo e é então selada com o Espírito Santo (Ef 1:13). Isso é algo que não era conhecido sob o sistema legal e, como resultado, os santos do Velho Testamento sempre carregavam consigo uma consciência de pecados (1 Rs 17:18; Sl 25:7, 11, 18, etc.) Eles não conheciam o perdão eterno dos pecados (At 13:39; Ef 1:7, etc.) que foi anunciado pela primeira vez após a redenção ser realizada (Lc 24:47). Isso tem a ver com o crente tendo um entendimento consciente de que seus pecados se foram de diante dos olhos de Deus judicialmente. O único tipo de perdão que os santos do Velho Testamento conheciam em seus dias era sob o aspecto governamental (Lv 4, etc.)

Para enfatizar a grande bênção de uma consciência purificada, o escritor aponta para um contraste impressionante entre os sacrifícios no sistema levítico e o sacrifício de Cristo. No sistema legal, “o sangue dos touros e bodes e a cinza de uma novilha, esparzida sobre os imundos” com água (Lv 16; Nm 19) preparou os filhos de Israel para se aproximar de Deus em adoração. Mas essas coisas purificaram meramente a sua “carne” (seus corpos físicos) em um sentido cerimonial. Em contraste com isso, o escritor pergunta: “quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, Se ofereceu a Si mesmo imaculado a Deus, purificará a vossa consciência das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” Assim, o sangue daqueles sacrifícios de animais purificou a carne dos adoradores sob o velho concerto, mas o sangue de Cristo purifica a consciência do crente. Esses rituais judaicos tornaram os adoradores naquele sistema cerimonialmente limpos, mas a obra consumada de Cristo torna os crentes judicial e eternamente limpos. Além disso, esses rituais judaicos tinham que ser repetidos anualmente para manter Israel em boa posição com Deus, enquanto a purificação da consciência do crente é uma coisa de uma vez por todas.

As três Pessoas da divindade são mencionadas no versículo 14 em conexão com a purificação da consciência do crente. Para os crentes judeus que já estiveram no sistema judaico, essa purificação da consciência deles era com relação às “obras mortas”. Isso foi mencionado anteriormente no capítulo 6:1 e se refere ao exercício pelo qual os filhos de Israel passaram todos os anos no Dia da Expiação ao afligir suas almas em arrependimento (Lv 16:29). Tais obras são agora uma coisa “morta” para o crente judeu que descansa por fé na obra consumada de Cristo. Seus pecados não são apenas cobertos por mais um ano – eles se foram para sempre! (1 Jo 3:5) Visto que Cristo realizou a redenção, tal prática agora não é mais necessária.

A tradução King James e as em português dizem: “para servirdes o Deus vivo”, mas deve ser traduzido “para adorardes o Deus vivo” (JND). Aproximar-se de Deus por meio de uma casta de sacerdotes em um sistema de rituais era considerado como um “serviço” naquela velha administração (Rm 9:4; Hb 9:6). Em contraste com isso, os Cristãos se aproximam do Pai pelo Espírito Santo, com base na obra consumada de Cristo; não é considerado como um serviço na Escritura, mas verdadeira “adoração” (Jo 4:23-24). Assim, sendo libertado em consciência, o crente nesta dispensação torna-se um adorador de Deus.

Ter uma consciência purificada é diferente de ter uma “boa consciência” (1 Tm 1:19). Como mencionado anteriormente, uma consciência purificada dá ao crente o entendimento de que o julgamento eterno de seus pecados foi resolvido na obra expiatória de Cristo. Sua consciência é assim silenciada para sempre quanto a este assunto. Uma boa consciência, por outro lado, tem a ver com o crente mantendo um bom estado de alma por meio do julgamento próprio enquanto anda aqui na Terra. Ter uma consciência purificada não significa que o crente não terá mais consciência de pecar se falhar no caminho. “Nunca mais teriam consciência de pecado” (cap. 10:2) não significa: “Não haveria mais percepção de pecados”. Se um Cristão permitir que um pensamento, palavra ou ação maligna não seja julgado, perderá uma boa consciência. É, portanto, perfeitamente possível que uma pessoa tenha uma consciência purificada e, ao mesmo tempo, não tenha uma boa consciência.

ASSEGUROU UMA HERANÇA ETERNA

Vs. 15-17 – A quarta grande coisa realizada no sacrifício de Cristo é a garantia de uma “herança eterna” para os crentes. Cristo, “o Mediador do novo concerto” (Hb. 8:6, 9:15, 12:24) por meio da “morte”, cumpriu o justo requisito necessário para afastar as “transgressões cometidas debaixo do primeiro pacto (concerto)” (AIBB). Romanos 3:25 nos diz que o julgamento dessas transgressões foi mantido em suspenso por meio da paciência de Deus, e quando Cristo veio, Ele suportou o justo juízo daqueles pecados em Sua obra expiatória na cruz. Porém, mais do que isso, a morte de Cristo também garantiu aos “chamados” (os crentes) “a promessa da herança eterna”.

A palavra “herança” é usada de duas maneiras no Novo Testamento: para indicar as coisas criadas deste universo, sobre as quais reinaremos com Cristo (Ef 1:11, 14, 18; Cl 3:24) e também para indicar a porção de bênçãos espirituais do crente em Cristo (At 26:18; Cl 1:12; 1 Pe 1:4). Já que as coisas materiais desta criação não são eternas (não duram para sempre, mas serão queimadas no final dos tempos – 2 Pe 3:7, 10), o aspecto da herança diante de nós nesta passagem tem de ser nossas bênçãos espirituais, porque se diz que é “eterna”. Portanto, aqueles que creem agora receberam não apenas a promessa, mas o que foi prometido – a herança eterna das bênçãos espirituais.

Em um parêntese nos versículos 16-17, o escritor explica que, de uma maneira similar entre os homens, um “um testamento” somente tem “força” pela “morte do testador”. Isto é, aquele que fez o testamento deve morrer antes que suas condições entrem em vigor. (A palavra grega é corretamente traduzida como “testamento” na KJV porque está falando dela como uma vontade. Em outro lugar, deve ser traduzido como “concerto”, o que é uma coisa diferente). O argumento do escritor aqui é que a herança eterna de bênçãos espirituais chegou até nós por meio da morte de Cristo.

COLOCOU O FUNDAMENTO PARA A PURIFICAÇÃO DAS COISAS CELESTIAIS

Vs. 18-28 – Outra coisa que o sacrifício de Cristo assegurou é o estabelecimento do fundamento para a purificação futura do universo dos efeitos do pecado. João Batista se referiu a isso quando disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29). Isso é algo que ainda está por acontecer.

Quando o primeiro concerto foi “consagrado [inaugurado – JND]”, tudo conectado com o tabernáculo foi aspergido com sangue. Moisés aspergiu “o altar” (Êx 24:6), “o livro” que continha os termos do concerto (não mencionado em Êx 24), e sobre “todo o povo”. Ele também aspergiu “o tabernáculo, e todos os vasos do ministério”. (Essas duas últimas coisas não existiam na inauguração do primeiro concerto em Êxodo 24; o tabernáculo e seus vasos ainda não haviam sido feitos. Portanto, isso deveria ter sido feito algum tempo depois). A aspersão de sangue purificou o tabernáculo em um sentido cerimonial. O escritor acrescenta: “E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão” (v. 22). Assim, cada aspecto de remissão (perdão) sob o velho concerto só poderia ser feito por meio da vida de um animal sendo perdida e seu sangue sendo derramado. Ele diz “quase todas as coisas” porque houve uma exceção. Em Levítico 5:11-13, havia uma permissão feita para um homem pobre trazer uma oferta de manjares (que não tinha sangue) no lugar de uma oferta pelo pecado, e seria aceita por ele, e assim o homem seria perdoado. Isso tipifica uma pessoa sendo abençoada por meio de fé simples, mesmo que não tivesse um entendimento claro da obra consumada de Cristo, da qual Seu sangue é um sinal. Isso incluiria crianças e pessoas como Cornélio (antes de conhecer o apóstolo Pedro – At 10) que têm fé, mas não tiveram o evangelho explicado a elas.

O escritor então explica que era necessário que essas “representações figurativas [cópias – W. Kelly] das coisas nos céus” (Êx 25:40 – JND) fossem “purificadas” pela aspersão de sangue dos sacrifícios de animais, então também deve todo o universo (do qual o tabernáculo é uma réplica) ser purificado pelos “sacrifícios melhores” na morte de Cristo (v. 23). (W. Macdonald afirma que o uso do plural na descrição do único sacrifício de Cristo é uma figura de linguagem conhecida como “o plural da majestade”). Essa é uma referência ao aspecto mais amplo da morte de Cristo, que o escritor já mencionou no capítulo 2:9. Cristo não somente morreu para aniquilar os pecados de todos os que creem, mas também provou a morte por “todas as coisas”. Isto porque a presença do pecado e Satanás no universo as contaminaram (Jó 15:15, 25:5) e, portanto, precisam ser purificadas. Cristo pagou o preço por sua purificação em Sua morte na cruz, e um dia purificará todos os vestígios do pecado na criação. Isso não acontecerá até que o Estado Eterno seja alcançado e o último inimigo (a morte) seja destruído (1 Co 15:26). Assim, enquanto o sangue de touros e bodes purifica as representações figurativas do santuário celestial, o sangue de Cristo é o meio pelo qual Ele purificará os lugares celestiais.

Três Aparições

Vs. 24-28 – O escritor então resume os pontos precedentes em três diferentes aparições de Cristo – no passado, no presente e no futuro.

Em primeiro lugar, Cristo “apareceu” (Seu primeiro advento) com o propósito de resolver toda a questão do pecado de uma vez por todas pelo sacrifício de Si mesmo. Nosso escritor diz: “mas, agora, na consumação dos séculos, uma vez Se manifestou [apareceu – KJV], para aniquilar o pecado pelo sacrifício de Si mesmo” (v. 26). Assim, Cristo veio ao mundo para lidar com toda a eclosão do pecado na criação. Como mencionado, Sua morte expiatória na cruz lançou as bases para sua completa remoção (Jo 1:29). “Aniquilar o pecado” é uma declaração abrangente. Inclui os pecados dos crentes (1 Jo 3:5), mas vai além disso, para absorver todos os efeitos e comportamentos que o pecado causou na criação. J. N. Darby disse: “Qual é o significado de Hebreus 9:26, ‘Cristo aniquilou o pecado pelo sacrifício de Si mesmo?’ Creio que se estende aos novos céus e nova Terra, onde habita a justiça. Assim também, ‘O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’. A obra que realiza isso está feita, mas o poder ainda não foi revelado” (Collected Writings, vol. 27, pág. 198). W. Kelly disse: “Chegará o dia em que os novos céus e a nova Terra exibirão o poder reconciliador do sacrifício de Cristo, pois todo traço de pecado terá desaparecido do mundo. E esta é a força plena de João 1:29, como também do nosso versículo 26” (The Epistle to the Hebrews, pág. 178). Assim, atualmente o pecado tem sido tirado de diante de Deus em um sentido judicial na morte expiatória de Cristo, mas em um dia vindouro será expulso do universo, quando então os céus e a Terra serão “purificados” (v. 23).

“A consumação dos séculos” refere-se ao encerramento dos quarenta séculos (o número de testes divinos na Escritura) em que o homem na carne foi testado por Deus. Este período correu desde a queda do homem até a cruz de Cristo. O teste chegou ao fim porque o homem em carne e osso tem provado ser, em todos os sentidos, um completo fracasso. Como resultado, Deus pôs fim a toda essa ordem de humanidade caída e “condenou o pecado na carne” na morte de Cristo (Rm 8:3). Ele agora começou uma nova raça de homens por meio de Cristo em ressurreição em Quem cumprirá o Seu propósito de glorificar a Cristo no mundo vindouro.

Em segundo lugar, Cristo agora aparece no céu diante de Deus por nós, onde prossegue em Seu serviço de intercessão sacerdotal (v. 24). O escritor diz: “Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer [aparecer – JND], por nós, perante a face de Deus”. O escritor repete o que já declarou no versículo 11 – que Cristo não entrou no santuário feito pelo homem na Terra, que era apenas uma figura do “verdadeiro”, mas no próprio santuário celestial. Assim, Ele nos representa diante de Deus. Já que permanecerá para sempre como um Homem, nossa posição diante de Deus nunca poderá mudar! Sua obra de intercessão é exercida em favor dos crentes, com vistas a salvá-los, na prática, dos perigos espirituais no caminho de fé (Rm 8:34; Hb 7:25).

Em terceiro lugar, no Arrebatamento, Cristo “aparecerá” do céu para libertar os crentes da destruição que o pecado causou na Terra (violência, doença, sofrimento, tristeza, morte, etc.) tirando-os dela e levando-os para a casa do Pai no céu (v. 28). Atualmente, os crentes no Senhor Jesus Cristo têm que andar pelas circunstâncias corruptoras que o pecado tem causado porque a criação ainda não foi “purificada”, e isso os lançou ao Senhor em busca de Sua ajuda sumo sacerdotal (v. 23). A esperança dessa criação é que seja tirada completamente dessa cena corrompida quando Cristo vier (Jd 21) antes que Ele Se ocupe a limpá-la por julgamento. Assim, não esperamos condições melhores e mais “cor-de-rosa” na Igreja, nem esperamos condições melhores e mais “cor-de-rosa” no mundo – nós “O esperamos” na Sua vinda. Esta é a esperança Cristã normal. Portanto, a vinda do Senhor “a segunda vez” é vista como uma “salvação” pela qual os crentes aguardam ansiosamente, se estiverem em um estado correto de alma (Rm 5:9, 8:23-25, 13:11, 3:20).

(Até que chegue aquele momento, Deus fez uma provisão para escaparmos da “corrupção que pela concupiscência está no mundo” sendo “participantes da natureza divina” em um sentido prático (2 Pe 1:4). Ou seja, nascidos de novo, temos a capacidade de desfrutar das coisas divinas – as mesmas coisas de que o próprio Deus desfruta. Quando estamos assim ocupados, participamos daquilo que Sua natureza desfruta e temos comunhão com Ele. Ao estarmos ocupados com essas coisas celestiais, atrações e tentações do pecado que nos cercam por todos os lados perdem seu poder sobre nós, e assim escapamos dessas corrupções).

O versículo 26 se refere ao lado da obra expiatória de Cristo conhecida como propiciação (Rm 3:25; Hb 2:17; 1 Jo 2:2, 4:10). Tem a ver com a reivindicação da natureza santa de Deus, satisfazendo plenamente os clamores da justiça divina relativos à eclosão do pecado. O versículo 28 refere-se ao outro lado da obra expiatória de Cristo – substituição. Isso tem a ver com o fato de Cristo tomar o lugar do crente no julgamento e levar “em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro” (1 Pe 2:24). J. N. Darby disse: “Em Hebreus 9:26, 28, temos duas coisas: ‘afastar [aniquilar – ARC] o pecado’ e ‘levar [tirar – ARC] os pecados’, assim como temos a oferta pelo pecado e o bode expiatório no dia da expiação” (Collected Writings 21, pág. 198).

O versículo 27 é um lembrete solene de que, por causa do pecado, o homem está destinado a morrer (Rm 5:12), e após a morte haverá uma paga pelos seus pecados pessoais no julgamento divino. O escritor afirma isso claramente: “aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo (julgamento)”. No versículo 28, ele se apressa em dizer que esse perigo de julgamento foi posto de lado para todos os que creem. No entanto, é de se notar que Ele não levou os pecados de todos os homens, mas dos “muitos” que creem. Aqueles que não crerem sofrerão o julgamento de seus pecados. Por isso, “Cristo tendo sido oferecido uma vez para levar os pecados de muitos” (JND), e como resultado, eles “não virão a julgamento” (Jo 5:24 – JND; Rm 8:1).

O versículo 28 é uma correlação entre o Dia da Expiação e a grande obra de Cristo na expiação. Em Israel, quando o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos com sangue naquele dia, as pessoas ficavam fora esperando que ele reaparecesse. Poderia haver algum receio da parte deles, pois o sumo sacerdote poderia ter entrado lá de alguma forma errada, o que resultaria em sua morte imediata. No entanto, após a sua reaparição no pátio do tabernáculo, o povo podia respirar aliviado, sabendo que tudo estava bem. De um modo semelhante, Cristo foi para o santuário celestial em virtude de Seu sangue, e os crentes (“que O esperam”) estão agora esperando por Ele para reaparecer “pela segunda vez sem pecado” para “salvação” deles. A diferença é que estamos esperando pelo Senhor sem qualquer receio ou temor do que possa ter acontecido com Ele. O testemunho da Escritura nos dá a certeza de que Ele está “vivendo sempre” na presença de Deus “para interceder” por nós (Hb 7:25). E “como Ele é” aceito na presença de Deus, “assim somos nós também neste mundo” (1 Jo 4:17).

Quando o Senhor vier pela segunda vez (o Arrebatamento), será “sem pecado”. Isto é, quando Ele vier, não será para resolver a questão do pecado porque foi tratada e resolvida para a glória de Deus em Seu primeiro advento. Sua segunda vinda será para a salvação final dos crentes – a ida deles para casa no céu em um estado glorificado (Fp 3:21). Nota: eles não estão esperando a morte, a porção comum dos homens, mas estão como os “que O esperam para salvação”. Assim, haverá alguns que não terão o encontro universal do homem com a morte.

O Crente Aperfeiçoado

Cap. 10:1-18 – No capítulo 9, o escritor falou do sangue de Cristo purificando a consciência do crente (v. 14), agora neste capítulo ele volta para explicar como isso é obtido. Assim, o décimo capítulo é o resumo (ou conclusão) das coisas apresentadas no nono capítulo. Ele coloca diante de nós a maneira pela qual o crente está preparado para a presença de Deus, e assim habilitado a entrar no santuário celestial com santa ousadia, como um adorador purificado.

A parte doutrinal do capítulo (vs. 1-18) tem três assuntos em conexão com o grande sacrifício de Cristo. Todas as três Pessoas da Divindade (a Trindade) estão envolvidas em assegurar a bênção da salvação para o crente:

  • A vontade de Deus – a fonte de nossa bênção (vs. 1-10).
  • A obra de Cristo – o meio pelo qual somos abençoados (vs. 11-14).
  • O testemunho do Espírito – nos traz ao conhecimento consciente de nossa bênção (vs. 15-18).

 

Assim, esses versículos nos ensinam que a vontade de Deus foi realizada pela obra de Cristo na cruz, e o testemunho do Espírito nos dá um entendimento inteligente dela. J. N. Darby resumiu da seguinte forma: “Eu estava cheio de pecado; era necessário alguém pensar em mim, era necessário alguém fazer a coisa requerida, e então alguém para me dizer o efeito ... em primeiro, há a vontade de Deus – ‘na qual vontade’, etc., em segundo, há a obra pela qual ela é feita – ‘pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez ...’, em terceiro, há o conhecimento disso dado a mim” (Collected Writings, vol. 27, pág. 386).

A Vontade de Deus

Vs. 1-10 – Em resumo do capítulo anterior (9), o escritor mostra que, com a vinda de Cristo (Seu primeiro advento), os sacrifícios do sistema levítico foram suplantados por Seu único grande sacrifício. Por isso, a “sombra dos bens futuros” deu lugar à verdadeira essência que ela representa na obra consumada de Cristo. Nos tempos do Velho Testamento, a luz de Deus estava brilhando sobre Cristo, e todas as formas e cerimônias, incluindo os sábados semanais, eram apenas sombras projetadas por Ele. Visto que Ele mesmo veio e assim cumpriu esses tipos, essas sombras deram lugar à verdadeira substância. Assim sendo, o sistema levítico, com suas formas e rituais, serviu ao propósito de apontar adiante para Cristo e agora esse sistema não é mais necessário.

O sistema do tabernáculo era uma “alegoria” (cap. 9:9) e uma “sombra” (cap. 10:1) das coisas espirituais nos céus, mas não era “a imagem exata” daquelas coisas. Ao afirmar isso, o autor deixa claro que não devemos pensar que cada vaso e peça do mobiliário no tabernáculo necessariamente tenha uma contrapartida nos céus. Tais ideias levam a interpretações místicas.

O ponto principal nos versículos iniciais do capítulo 10 é que os sacrifícios oferecidos naquele sistema terreno não podiam realmente “tirar os pecados” de diante de Deus, nem poderiam “aperfeiçoar os que a eles se chegam” quanto à sua consciência. De fato, esses sacrifícios não foram dados para esse propósito. Como mencionado, foram dados para apontar para a época em que Cristo viria como o definitivo “sacrifício pelo pecado” (Hb 10:12; Is 53:10; Rm 8:3; 2 Co 5:21).

Em contraste com a incapacidade daqueles muitos sacrifícios do Velho Testamento que não podiam aperfeiçoar um crente, o escritor diz que os adoradores no Cristianismo são “purificados uma vez” pela simples fé na obra consumada de Cristo. Ao recebê-Lo como Salvador, o crente é purificado para sempre! Isso nunca precisa ser repetido! O resultado prático desta grande bênção é que o crente não tem “mais consciência dos pecados”. Como mencionado em nossas observações sobre o capítulo 9:13-14, aquele que tem uma consciência de pecados vive no pavor de que Deus um dia o leve a julgamento por seus pecados. Não ter mais consciência dos pecados é ter esse temor do julgamento removido para sempre, entendendo que a questão de nossos pecados foi resolvida em justiça por Deus no sacrifício de Cristo, e que nunca entraremos em julgamento. Como mencionado no capítulo 9, ter uma consciência purificada é uma bênção que os Cristãos têm que os santos do Velho Testamento sob o sistema levítico não tinham.

O escritor raciocina que, se aqueles sacrifícios oferecidos no Dia da Expiação tirassem os pecados de diante de Deus, teriam “deixado de se oferecer” (v. 2). Mas desde que eram oferecidos “a cada ano”, é clara a evidência de que não conseguiam tirar os pecados. O ritual do Velho Testamento no Dia da Expiação cobria seus pecados (o significado de “expiar” na língua hebraica) em virtude da paciência de Deus (Rm 3:25), mas esse ritual não podia tirar os pecados. O sangue de “touros”, que fazia uma expiação anual pelos sacerdotes naquele sistema (Lv 16:6-14) e sangue de “bodes”, que fazia expiação anual pelo resto dos filhos de Israel (Lv 16:15-22) simplesmente não poderiam tirar pecados. Tal só poderia ser realizado por meio da morte de Cristo (1 Jo 3:5). F. B. Hole disse: “Os sacrifícios do Velho Testamento eram como uma nota promissória. Eles tinham valor, mas serviam para aquilo que apontavam. Eram apenas um pedaço de papel; o sacrifício de Cristo é como o ouro fino. Em Levítico, o valor relativo deles é apontado. Em Hebreus, descobrimos que seu valor é apenas relativo e não intrínseco. Eles nunca podiam tirar pecados. Por isso, neles Deus não teve prazer, e a vinda de Cristo foi uma necessidade” (Hebrews, pág. 42).

Os judeus, no entanto, recusaram-se a aceitar que Cristo era o grande cumprimento da sombra. Eles se apegavam às formas externas e rituais do judaísmo, embora a própria essência de que essas coisas falavam tivesse sido cumprida. Foi uma ignorância voluntária. Preferir a Lei a Cristo é como preferir um retrato de alguém ao invés da pessoa representada no retrato! Em relação aos hebreus que professamente assumiram a posição Cristã, é difícil entender como alguém desejaria deixar a realidade em Cristo e voltar às cópias. Ou, porque alguém iria querer deixar um Sumo Sacerdote perfeito servindo no santuário celestial e retornar a um sacerdote falho que servia no santuário terrestre. No entanto, isso foi evidentemente uma tentação para alguns dos hebreus.

Vs. 5-7 – Visto que o sangue de touros e bodes não podia satisfazer as exigências da justiça divina em relação aos pecados, foi a vontade de Deus que um sacrifício aceitável fosse feito para realizar isso em algum momento da história do homem. O escritor cita o Salmo 40 para mostrar que era o conselho de Deus antes da fundação da Terra que Cristo viesse ao mundo como o divino Emissário do pecado, e por Seu único sacrifício, resolvesse a questão do pecado para a glória de Deus e para a bênção do homem. Ele diz: “Pelo que, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo Me preparaste”. Isto significa que o Senhor veio com um entendimento completo de que as reivindicações da justiça divina não poderiam ser satisfeitas por aquelas ofertas levíticas, e para ser o Emissário do pecado do homem, Ele teria que Se tornar um homem. Assim, um “corpo” humano foi preparado para Ele por Deus, o qual Ele tomou em Sua encarnação (Lc 1:35). E “pela oferta do corpo de Jesus Cristo”, foi feito um sacrifício que tirou o pecado de “uma vez para sempre” (v. 10 – TB).

“Corpo Me preparaste” é uma citação do Salmo 40:6 na versão Septuaginta (uma tradução grega das Escrituras do Velho Testamento do terceiro século a.C.), como também as outras citações do Velho Testamento na epístola. Podemos nos perguntar por que o Espírito de Deus levaria o escritor a citá-lo como tal quando sua tradução nas Escrituras Hebraicas é: “os Meus ouvidos abriste”. No entanto, ao escrever as Escrituras do Novo Testamento, é prerrogativa do Espírito alterar isso que Ele mesmo originalmente inspirou no Velho Testamento, pois Ele é o Autor divino. Da mesma forma, se fôssemos observar uma das pinturas de Rembrandt, e ao contemplá-la, pensarmos que ficaria melhor se acrescentássemos alguns toques de tinta aqui e ali – tal coisa seria totalmente inaceitável. No entanto, se o próprio Rembrandt entrasse e olhasse para o seu trabalho, e decidisse adicionar um toque de tinta à sua pintura, seria aceitável porque ele é o artista original. Da mesma forma, o divino Autor das Escrituras tem todo o direito de apresentar um determinado texto de maneira diferente no Novo Testamento. Eles não se contradizem, porque ter “ouvidos” é ter um “corpo”. O Salmo 40:6 enfatiza a obediência de Cristo como um Servo, portanto, é apropriadamente “ouvido”. Hebreus 10:5 enfatiza Cristo entregando-Se a Si mesmo como um sacrifício, e aí é dito “corpo”.

A declaração: “Não Te deleitaste em holocaustos e sacrifícios pelos pecados” (v. 6 – TB) seria particularmente difícil de aceitar para os judeus abrigados no judaísmo. Eles sabiam que aquelas ofertas foram dadas por Deus e que Ele ficou satisfeito quando foram oferecidas. Elas eram “de cheiro suave ao Senhor” (Lv 1:9, 13, 17, etc.) Qualquer ideia de que Deus não estava satisfeito com elas seria uma coisa difícil para um judeu aceitar. No entanto, sendo que esta é uma citação de suas próprias Escrituras (Sl 40:6), os judeus são forçados a admitir que esta não era uma ideia estranha que o escritor da epístola inventou. Suas próprias Escrituras afirmam que chegará um tempo em que essas ofertas e sacrifícios não serão mais requeridos (“não requeres – ARA”). Isso só pode ser explicado pela vinda do Messias e pela oferta de Seu grande sacrifício, como atestam muitas passagens da Escritura.

V. 7 – O Salmo 40 é citado para mostrar que Cristo é a grandiosa realização de todos esses sacrifícios. Ele descreve Sua devoção ao cumprimento da vontade de Deus: “Eis aqui venho (no princípio do livro está escrito de Mim), para fazer, ó Deus, a Tua vontade”. O “livro” não é a Bíblia, mas uma referência figurativa ao conselho de Deus sobre a vinda de Cristo ao mundo para fazer expiação. Ao citar o Salmo, o Espírito de Deus propositalmente deixa de fora as palavras: “Deleito-Me”. Isso porque o Salmo 40, em sua interpretação primária, tem a ver com a morte de Cristo como o supremo holocausto. Como o holocausto, fazer a vontade de Deus era algo em que o Senhor Se deleitava – mesmo que isso significasse ir para a morte. Contudo, o assunto em Hebreus 9-10 é o sacrifício de Cristo como a oferta pelo pecado na qual Ele foi “feito pecado” (2 Co 5:21). Como oferta definitiva de pecado, sofreu indizíveis agonias sob o julgamento de Deus quando levou nossos pecados em Seu próprio corpo no madeiro. Aqueles sofrimentos expiatórios não eram deleites para Ele, mas permaneceu na cruz em obediência à vontade de Deus a fim de aniquilar o pecado. Assim, a frase “deleito-Me” é abandonada quando o salmo é aplicado à oferta pelo pecado.

Nos versículos 8-9, o Salmo 40 é citado uma segunda vez, mas por uma razão diferente. Nesta ocasião, está em conexão com a remoção de todo o sistema levítico. O escritor menciona as quatro ofertas principais em Levítico 1-6 como a soma do sistema levítico, e depois fala da vinda de Cristo ao mundo para tirá-lo. Isso mostra que o sacrifício de Cristo foi a consumação e o encerramento da administração levítica. Assim, o Salmo 40 é citado por duas razões: em conexão com a vinda de Cristo ao mundo para tirar os pecados de uma vez por todas (vs. 4-7) e também em conexão com Sua vinda para tirar “a primeira” ordem de aproximação a Deus (o sistema levítico). Este último ponto foi necessário para “estabelecer a segunda” ordem sob o novo concerto. Simplificando, o segundo não pôde ser estabelecido enquanto o primeiro ainda estava funcionando.

V. 10 – O grande resultado da vontade de Deus sendo feita é que fomos “santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo feita uma vez para sempre” (TB). Em virtude desta grande obra de Cristo, Deus separou (que significa santificação) crentes para bênção eterna.

A Obra de Cristo

Vs. 11-14 – O escritor, então, concentra-se na obra consumada de Cristo, em primeiro lugar, naquilo que realizou para a glória de Deus e, então, no que realizou para a bênção do crente.

Quanto ao lado de Deus, diz: “E assim todo sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar pecados; mas Este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre [em perpetuidade – JND] à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os Seus inimigos sejam postos por escabelo de Seus pés”. O “único sacrifício” de Cristo satisfez tão completamente as exigências da justiça divina em relação ao pecado que Ele tinha todo o direito de Se assentar à destra de Deus. De fato, depois que a obra foi feita, Deus O convidou para assentar-Se lá – “Assenta-Te à Minha mão direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés” (Sl 110:1). Isso mostra que as reivindicações da justiça divina foram mais do que satisfeitas; Deus foi glorificado pela obra que Cristo realizou na cruz.

O contraste entre os sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes levíticos e o grande sacrifício de Cristo não poderia ser maior. Ao oferecer esses sacrifícios do Velho Testamento, o trabalho do sacerdote nunca era final. Era um trabalho inacabado. Esses sacrifícios tiveram que ser repetidos várias vezes. O fato de não haver cadeira entre os móveis no tabernáculo significa isso. Por isso, o escritor diz: “todo sacerdote aparece [permanece em pé – JND] cada dia, ministrando ...” Nos 1.500 anos em que o sistema levítico esteve em vigor e operando, muitos milhares de sacrifícios de animais foram oferecidos – mas nenhum deles, nem todos combinados, poderia “tirar pecados”. Em contraste com isso, depois de oferecer Seu único sacrifício, Cristo “assentou-Se em perpetuidade” (JND) à destra de Deus, significando assim que a obra da expiação foi finalmente concluída. Assim, a obra de Cristo na cruz é uma obra “consumada” (Jo 19:30). Os contrastes são abundantes aqui. Aqueles sacerdotes ficavam em pé; este Homem assentou-Se. Eles ofereciam frequentemente; Ele ofereceu uma vez. Seus sacrifícios cobriam pecados por mais um ano; Seu sacrifício tirou os pecados eternamente.

A versão King James (e as em português ARC, ARF e AIBB) diz que Ele Se assentou à direita de Deus “para sempre”, mas isso poderia levar a engano se tomarmos a palavra em seu sentido comum. Isso significaria que Ele nunca mais Se levantaria do trono de Deus. Mas isso é problemático porque a Escritura diz que Ele Se levantará e voltará para nos levar ao céu, e depois, julgará o mundo com retidão. Uma tradução melhor diz “em perpetuidade” (JND). Isso significa que, em conexão com a expiação pelo pecado, Ele está assentado lá ininterruptamente; nunca precisará Se levantar e tratar com o pecado novamente. Sua obra na cruz resolveu a questão do pecado. Assim, a perpetuidade tem um senso de finalização conectado a ela. O Salmo 110:1 é então citado: “daqui em diante esperando até que os Seus inimigos sejam postos por escabelo de Seus pés” – confirmando que Cristo, de fato, um dia Se levantará do trono de Deus para voltar e julgar o mundo.

Quando os céus foram “abertos” para que Estêvão olhasse, ele viu Cristo “em pé à mão direita de Deus” (At 7:56). Isso não contradiz Hebreus 10:12. O Senhor estava em pé naquele momento por um motivo diferente. A oportunidade ainda estava sendo estendida aos judeus para receber a Cristo como seu Messias. Ele ficou lá pronto para retornar à Terra para estabelecer o reino, como declarado nos profetas do Velho Testamento, se eles apenas se arrependessem e se convertessem (At 3:19-20). Aqui em Hebreus 10, o assunto é a obra consumada de Cristo na expiação. Ele está assentado à direita de Deus porque a obra foi concluída. O fato de que aqui Ele está assentado nos diz que a oferta a Israel, de ter o reino naquele tempo, havia sido rescindida.

V. 14 – Tendo falado sobre o que a obra de Cristo fez para a glória de Deus, o escritor fala então do efeito imediato que Sua obra tem sobre o crente. Ele diz: “Pois com uma só oferta tem aperfeiçoado para sempre [em perpetuidade – JND] aos que são santificados”. Os “santificados” são aqueles a quem Deus separou para abençoar, ou seja, os crentes. Eles precisam que sua consciência seja aperfeiçoada se forem permanecer em liberdade na presença de Deus como adoradores. Isso vem por meio do entendimento e de crer na obra consumada de Cristo. É realmente um fato grandioso que enquanto Cristo Se assenta à direita de Deus em “perpetuidade” (v. 12 – JND), o crente é aperfeiçoado em “perpetuidade”! (v. 14). Um é dependente do outro. Uma obra perfeita foi feita por uma Pessoa perfeita para tornar os crentes perfeitos. Este aperfeiçoamento da consciência do crente é algo que aqueles que tinham fé sob o velho concerto não possuíam. [Há outro aspecto de perfeição que os crentes obterão quando o Senhor vier no Arrebatamento (Fp 3:12; Hb 11:40, 12:23) – a glorificação deles – (Rm 8:17, 23, 30; Fp 3:21). Contudo, esse não é o assunto aqui.]

O Testemunho do Espírito

Vs. 15-18 – O testemunho do Espírito é mencionado a seguir como sendo o meio pelo qual o crente sabe que foi abençoado por meio da obra consumada de Cristo. O escritor diz: “E disto nos dá testemunho também o Espírito Santo”. Este “testemunho” que o Espírito dá não é um sentimento caloroso que Ele cria no coração do crente – como alguns dizem, “eu tenho um ardor em meu peito”, mas é o que Ele tem dito nas Escrituras. A maneira pela qual sabemos que somos “santificados” (separados para Deus para bênção) e “aperfeiçoados” por meio da morte de Cristo é pela nossa aceitação por fé do que o Espírito declarou nas Escrituras sobre os crentes.

O aspecto da obra do Espírito Santo ao qual o escritor está se referindo aqui não é Sua habitação – embora isso seja certamente verdadeiro para todo crente nesta dispensação (1 Ts 4:8; Ef 1:13, 4:30, etc.) Note cuidadosamente: ele diz que o testemunho do Espírito é “para” nós (“no-lo testifica”), não em nós. Assim, são afirmados fatos que o Espírito fez nas Escrituras, não sentimentos subjetivos produzidos em nós. Não deveríamos ficar atentando aos nossos sentimentos para ter certeza de nossa bênção, pois nossas emoções e sentimentos estão sempre mudando. É somente o que o Espírito de Deus tem “dito [dito antes – KJV]” na Palavra de Deus que nos dará essa certeza. (Romanos 8:16 fala de o Espírito testificar “com o nosso espírito” e 1 João 5:10 fala de se ter o testemunho “em si mesmo” – mas esses são aspectos diferentes que não estão sendo vistos aqui).

Ao afirmar “dito antes” (v. 15 – KJV), o escritor está se referindo ao que o Espírito Santo escreveu outrora em Jeremias 31 a respeito das bênçãos espirituais do novo concerto. Como essa é uma das epístolas judaico-Cristãs, as bênçãos em vista são particularmente as bênçãos do novo concerto, em vez das distintas bênçãos Cristãs “em Cristo”, mencionadas nas epístolas de Paulo (Ef 1:3). Essas bênçãos do novo concerto não são exclusivas para os Cristãos, mas são propriedade comum de todos os nascidos de Deus que creem em Cristo – incluindo os remanescentes redimidos de Israel e os gentios crentes no dia milenar vindouro (Ap 7). Uma vez que os termos do novo concerto foram citados extensamente no capítulo 8, o autor não vê que seja necessário citá-los novamente aqui. Por isso, ele os abrevia, enfatizando uma bênção em particular – “Dos seus pecados e das suas iniquidades não Me lembrarei mais” (TB). “Pecados” são atos que fizemos e “iniquidades” são as disposições pecaminosas de nosso coração (Sl 41:6, 66:18, 78:37-38; Is 32:6, 59:7; Mt 23:28; At 8:22-23). Isso mostra que Deus assumiu todo o nosso caso – desde a concepção de nossos atos pecaminosos em nossos corações até os atos reais – e tratou com isso completamente na obra expiatória de Cristo. Assim, Ele não apenas remove nossos pecados de nossas consciências, mas também remove cada lembrança deles de Sua mente!

Notemos que ele não coloca nenhuma qualificação sobre os tipos de pecados que são perdoados aqui, como foi o caso sob o concerto legal. Sob esse sistema, somente “pecados de ignorância” (ARA) poderiam ser perdoados (Hb 9:7), e somente de maneira governamental. Em contraste com isso, os pecados que o sacrifício único

de Cristo pode perdoar – e perdoar eternamente – não são apenas pecados de ignorância, mas os pecados intencionais também! “O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 Jo 1:7). Quão maravilhoso é, de fato, porque ninguém pode alegar ter pecado apenas ignorantemente!

Muitas pessoas pensam que a declaração “Dos seus pecados e das suas iniquidades não Me lembrarei mais” (TB) significa que Deus Se esquece os pecados do crente. No entanto, “não Me lembrarei mais” não é o mesmo que Se esquecer. Podemos usar clichês cativantes como: “Nossos pecados são perdoados, esquecidos para sempre”, mas isso inadvertidamente liga uma fraqueza humana ao trato de Deus com nossos pecados. A verdade é que Deus tem uma base justa sobre a qual Ele agiu para aniquilar nossos pecados – a obra consumada de Cristo. Com base nisso, Ele pode conscientemente removê-los de Seus pensamentos quanto ao julgamento eterno porque o preço foi pago por eles na morte de Cristo. Este é um ato divino de justiça, não uma fraqueza humana do esquecimento. Relacionar a fraqueza humana a Deus quanto a essa questão implica que Ele tratou com nossos pecados de uma maneira descuidada. Tomado literalmente, não dá ao crente qualquer confiança real de que seus pecados foram tratados adequadamente. Se Deus Se esqueceu deles, talvez Se lembre deles novamente algum dia! E daí como ficaria? Alguém escreveu para J. N. Darby perguntando sobre isso em conexão com Hebreus 10:17. Ele respondeu: “Não é como se Deus tivesse esquecido as coisas, mas que não Se lembra delas – mantendo-as em Sua mente e sendo contra elas de qualquer forma” (Letters, vol. 3, pág. 371).

O tribunal de Cristo mostra que Deus ainda tem um registro de toda a nossa vida, incluindo nossos pecados. Naquele momento, as coisas “boas” e “más” em nossas vidas serão revisadas. Isso incluirá as coisas feitas antes de sermos salvos, pois a revisão será de coisas feitas em nossos corpos, e certamente estávamos em nossos corpos antes de sermos salvos (2 Co 5:10). Esta revisão não poderia ser feita se Deus excluísse partes de nossas vidas da Sua memória. A resposta simples é que Ele ainda tem conhecimento do que somos e do que fizemos, mas baseado na eficácia da obra consumada de Cristo, não mais Se lembrará deles para julgamento.

V. 18 – A conclusão de toda essa discussão a respeito do superior sacrifício de Cristo, que o escritor seguiu cuidadosamente nos capítulos 9 a 10, é que, uma vez que agora existe a “remissão” eterna dos pecados na obra expiatória de Cristo, “não há mais”, portanto, necessidade das ofertas levíticas de pecado para serem sacrificadas. Ficaram obsoletas.

Esta declaração encerra a parte doutrinal da epístola.

 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~