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A Epístola aos Hebreus

QUARTA ADVERTÊNCIA CONTRA A APOSTASIA Capítulo 10:26-39

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 16 de 23

QUARTA ADVERTÊNCIA CONTRA A APOSTASIA
Capítulo 10:26-39

O Perigo de Pecar Intencionalmente

O escritor interrompe suas exortações para alertar sobre o perigo da apostasia mais uma vez. Na segunda metade do capítulo 10, ele adverte contra a apostasia (vs. 26-31), mas também encoraja os que têm fé a prosseguir (vs. 32-39). No décimo primeiro capítulo, continua a digressão dando exemplos daqueles que viveram pela fé nos tempos do Velho Testamento, antes de retomar suas exortações no capítulo 12:1.

Vs. 26-27 – Ele diz: “Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados”. O pecado intencional ao qual está se referindo aqui é a apostasia – o pecado predominante em toda epístola. Como já mencionado, a apostasia em que os hebreus estavam em perigo era a renúncia da fé Cristã e o retorno ao judaísmo. É algo que apenas um falso professante que nunca foi salvo faria.

Este versículo (v. 26) não está se referindo a um Cristão que retrocede e cai em pecado e assim perde sua salvação, como comumente pensado, porque os Cristãos não podem perder sua salvação (Jo 10:27-28, etc.) A pessoa em vista aqui é alguém que recebeu “o conhecimento da verdade” e, assim, foi iluminada por ela. Mas note: não diz que ela creu. Receber a verdade e crer na verdade são duas coisas diferentes. Alguns pensam que a palavra “(nós)” neste versículo indica que ele está falando de Cristãos, e consequentemente o escritor inclui a si mesmo. No entanto, como mencionado anteriormente, o uso do “nós” na epístola geralmente está se referindo aos compatriotas do escritor que eram judeus, como é o caso aqui.

Nem este versículo fala de um pecador que rejeita o evangelho. Rejeitar o evangelho certamente pode ser classificado como um pecado, mas não é o pecado em vista aqui. Essa pessoa é muito mais responsável do que o pecador que rejeita o evangelho. Ele adotou o evangelho externamente e professou ter acreditado, e depois jogou tudo fora. No capítulo 6, o escritor deixa claro que não há recuperação desse pecado intencional de apostasia. Onde poderia ser encontrado um sacrifício pelos pecados de um apóstata? Deus deixou de lado os sacrifícios judaicos e o apóstata, por si próprio, deu suas costas ao sacrifício de Cristo! Portanto, “já não resta mais sacrifício pelos pecados” de tal pessoa. Não há lugar para onde ele possa ir e nenhum sacrifício para o qual ele possa se voltar. Ele está condenado. J. N. Darby disse: “Seu sacrifício [o de Cristo] oferecido uma vez foi único. Se alguém que, após ter professado conhecer o seu valor, o abandonasse, não haveria outro sacrifício para o qual pudesse recorrer, nem jamais poderia ser repetido. Não restou mais sacrifício pelos pecados” (Synopsis of the Books of the Bible, em Hebreus 10). Tudo o que foi deixado para um apóstata é “uma certa expectação horrível de juízo” (v. 27). Tal pessoa se torna um “adversário” da verdade e, consequentemente, será devorado pelo irado juízo de Deus.

Vs. 28-31 – Para mostrar a seriedade da apostasia, o escritor compara esse pecado intencional com os pecados cometidos “à mão levantada [atrevidamente – ARA]” na velha administração e mostra que é algo muito “pior”. Sob a Lei, a pessoa que presunçosamente desconsiderasse uma simples injunção era executada “pela palavra de duas ou três testemunhas”. Um caso em questão foi a infração do homem que reuniu gravetos no dia de sábado (Nm 15:30-36). Ele foi apedrejado até a morte, porque fez isso presunçosamente! Não era um pecado de ignorância pelo qual uma oferta pelo pecado poderia ser aplicada e a pessoa poderia ser governamentalmente perdoada (Lv 4:2; Nm 15:27-29; Hb 9:7). O escritor então diz: “De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano [comum – JND] o sangue do testamento, com que foi santificado, e fizer agravo [insultar – JND] ao Espírito da graça?” (v. 29) Se não havia remédio para um pecado intencional sob a Lei, quanto mais no caso de um apóstata que peca “atrevidamente” (intencionalmente) contra a graça de Deus!

Para enfatizar isso, o escritor menciona três coisas terríveis neste versículo que um apóstata faz quando renuncia à fé Cristã e retorna ao judaísmo. Primeiramente, ele pisa “o Filho de Deus!” Assim, não rejeita moderadamente a Cristo –ele decididamente O rejeita da maneira mais depreciativa. Tal maneira de rejeição é uma afronta à grandeza de Sua Pessoa. Em segundo lugar, considera “profano o sangue da aliança com que foi santificado”. Ao tomar o terreno Cristão, um crente que meramente professa é exteriormente santificado no que os estudiosos da Bíblia chamam de “santificação relativa”. (Veja Rm 11:16; 1 Co 7:14 e 2 Tm 2:21). Ser separado desta maneira não significa que uma pessoa é salva, mas que está em uma posição favorecida por meio de sua identificação com a companhia Cristã. O “sangue do novo concerto” foi derramado na cruz (Mt 26:28). A obra de Cristo estabeleceu o fundamento para a elaboração do novo concerto com Israel num dia vindouro. Nesse meio tempo, Seu sangue santifica todos os que fazem uma profissão de fé n’Ele, desse modo exterior. Renunciar à profissão que se fez é tratar “o sangue” de Cristo como “coisa profana”. Isto é uma desconsideração chocante daquilo que é extremamente precioso aos olhos de Deus e aos olhos de todos os que foram redimidos por ele! (1 Pe 1:18) Em terceiro lugar, o apóstata insultou “o Espírito da graça” – a Pessoa divina que veio de Deus para transmitir muitas verdades maravilhosas para nós e para nos conceder muitas bênçãos também maravilhosas.

É desnecessário dizer que ser culpado dessas coisas é muito mais sério do que ser culpado de recolher gravetos no dia de sábado! Se um julgamento severo foi executado contra um infrator sob a Lei por uma ofensa tão simples, certamente será imposto contra uma pessoa que faz essas coisas terríveis. Assim, o julgamento será proporcional à gravidade do pecado.

Vs. 30-31 – Enquanto naturalmente nos afligimos com tal incredulidade descarada, devemos abster-nos de julgar todos aqueles que apostatam. O apóstata deve ser deixado para ser tratado por Deus. Assim, o escritor nos dá uma palavra de advertência: “Minha é a vingança, Eu darei a recompensa, diz o Senhor”. E novamente: “O Senhor julgará o Seu povo”. Sua palavra final de advertência é: “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo”. Esta declaração solene foi calculada para falar à consciência de qualquer um que estivesse meramente professando crer, que estivesse pensando em se retirar da companhia Cristã e retornar ao judaísmo.

Três Coisas que Não Devemos Perder de Vista

Cap. 10: 32-39 – Os versículos finais do capítulo são cheios de encorajamento para aqueles que eram verdadeiros crentes. Eles estavam sofrendo perseguição da massa incrédula da nação. Sob essa pressão, estavam ficando cansados e duvidosos no caminho. Era imperativo que esses irmãos continuassem com perseverança no caminho de fé. Com o fim de encorajá-los, o escritor passa a definir três coisas diante deles que não deveriam perder de vista. Se essas coisas fossem mantidas brilhando intensamente diante de suas almas, certamente seriam motivados a continuar no caminho. Essas três coisas farão o mesmo por nós.

1) TEMOS “UMA POSSESSÃO MELHOR E PERMANENTE”

Vs. 32-34 – “Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições. Em parte, fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações e, em parte, fostes participantes com os que assim foram tratados. Porque também vos compadecestes dos que estavam nas prisões e com gozo permitistes a espoliação dos vossos bens, sabendo que, em vós mesmos, tendes nos céus uma possessão melhor e permanente.”

A primeira coisa que o escritor não queria que perdessem de vista era as grandes possessões espirituais que tinham em Cristo. Essas bênçãos e privilégios são extremamente preciosos e estão muito acima de qualquer coisa que os judeus tiveram no judaísmo. Na verdade, são as mais altas bênçãos conferidas que Deus já deu (ou dará) a qualquer uma das Suas criaturas! Assim, por meio da graça, os Cristãos têm um lugar especial diante de Deus que todos os outros em Sua família abençoada não têm, por meio de sua ligação com Cristo pela habitação do Espírito Santo. Por isso, são chamados “a igreja dos primogênitos” (Hb 12:23). (O termo “primogênito” refere-se a ter a preeminência sobre os outros.) Os Cristãos não poderiam ser mais abençoados (Ef 1:3).

Esses crentes hebreus já haviam tido uma perspectiva correta sobre essas coisas espirituais quando foram “iluminados” pela primeira vez e salvos pelo evangelho e precisavam ser relembrados dessa forma de pensar. Por isso, ele diz: “Lembrai-vos, porém, dos dias passados ...”. Quando partiram pela primeira vez no caminho Cristão, entenderam que a porção deles em Cristo era algo especial e consideraram um privilégio terem sido julgados como dignos de sofrer por essas coisas. Como resultado, eles alegremente suportaram “grande combate de aflições”. Quando foram publicamente envergonhados por seus compatriotas, sendo “feitos espetáculo com vitupérios e tribulações”, aceitaram isso sem retaliação, porque entenderam que era tudo parte do sofrimento por Cristo. Mesmo quando seus “bens” (posses materiais) eram saqueados pela hostilidade dos outros, aceitavam esses contratempos “com gozo”. A razão pela qual eram capazes de suportar essas coisas de maneira tão notável era que sabiam que tinham “uma possessão melhor e permanente” em Cristo. Como resultado, viram que por essas coisas valia a pena viver e sofrer.

Mas, infelizmente, sendo bombardeados com a oposição, estavam se desencorajando no caminho e perdendo suas convicções iniciais. Por isso, vem esta exortação do escritor. Seu remédio para eles era retornar à sua forma de pensar inicial que eles tinham como novos Cristãos – mas não para retornar ao judaísmo. Precisavam se restabelecer em suas convicções, considerando novamente o que havia sido colocado em suas mãos. Então mais uma vez perceberiam que era um grande privilégio ter recebido aquelas coisas preciosas.

Da mesma forma, para nós, nada nos motiva mais a prosseguir no caminho de fé com mais convicção do que ter consciência do que foi colocado em nossas mãos. Se tomarmos um momento para contar nossas muitas bênçãos em Cristo, o que nos diferencia de todas as outras criaturas abençoadas de Deus, veremos imediatamente que realmente nos foi dado algo especial. Seria subestimar dizer que é um privilégio ser um Cristão.

2) O SENHOR ESTÁ VINDO MUITO EM BREVE

Vs. 35-37 – “Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão. Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa. Porque ainda um poucochinho de tempo, e O que há de vir virá e não tardará”. A segunda coisa que esses crentes hebreus não deveriam perder de vista era que o Senhor viria em breve — em “um poucochinho de tempo [bem pouco tempo – TB]” E, Ele irá trazer uma recompensa especial com Ele para aqueles que fizeram a “vontade de Deus” (Ap 22:12).

Trazer a vinda do Senhor como ele faz aqui foi certamente calculado para motivar esses queridos crentes a continuar no caminho até aquele momento, pois para a fé, ela não estava longe. Da mesma forma, a iminência de Sua vinda deve nos motivar a continuar no caminho. Se eles esperassem que o Senhor viesse em seus dias, quanto mais deveríamos nós que vivemos muitos séculos depois? Não vai demorar muito agora! A versão King James diz “tardará”, mas deveria ser “atrasará” (JND). O Senhor tardou (esperou) por quase 2.000 anos, porque não era ainda o tempo de o Pai enviá-Lo. Mas quando chegar a hora, Ele não Se atrasará para vir e nos levar para casa. (Compare Sl 19:5.)

3) RECUAR DESAGRADA AO SENHOR

Vs. 38-39 – “Mas o justo viverá da [por – JND] fé; e, se ele recuar, a Minha alma não tem prazer nele. Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma”. A terceira coisa que esses queridos irmãos não deveriam perder de vista era que, se escolhessem recuar no caminho de fé, isso desagradaria ao Senhor.

Nestes versículos, o escritor fala sobre os que podem “recuar”, o que “qualquer homem” (KJV) (crentes incluídos) pode fazer, e sobre os que “se retiram para perdição” (apostasia) que somente os crentes meramente professos podem fazer – renunciando a sua profissão de fé em Cristo. Ambas as coisas têm a ver com afastamento, mas uma (apostasia) é infinitamente pior. Como mencionado anteriormente, os verdadeiros crentes não podem apostatar da fé, mas podem ser afetados pela corrente da apostasia que opera na Cristandade nestes últimos tempos (1 Tm 4:1), levando-os a desistir de certos princípios e práticas que já tiveram.

Toda pessoa que está pensando em recuar no caminho – mesmo que pense que é apenas um pouco – precisa ser lembrada de que, ao fazer isso, traz à questão a possibilidade da correção do Senhor. Ele ama Seu povo e não permitirá que siga em um caminho de injustiça ou de comprometimento sem exercer disciplina em suas vidas para trazê-los de volta (Hb 12:5-11; Os 2:6-7). Assim, recuar no caminho muitas vezes traz problemas indesejados em nossas vidas e, portanto, não deve ser visto como uma opção. A vida no caminho de fé é difícil o suficiente sem que nós tragamos problemas adicionais em nossas vidas por meio de nossa negligência e desobediência.

A única coisa lógica a fazer é seguir no caminho e buscar a graça de Deus para suportar as dificuldades e problemas que vêm de viver em obediência à Sua Palavra. O escritor cita Habacuque 2:4 para mostrar que “o justo” deve viver “por fé” (JND), pois é normal para o filho de Deus, independentemente da dispensação em que vive, como o próximo capítulo (11) mostra. Portanto, há a necessidade de andar “em temor, durante o tempo da vossa peregrinação”, sabendo que, se desagradarmos o Senhor de alguma forma, poderemos “invocar” nosso Pai a trazer um julgamento governamental em nossas vidas para nos corrigir (1 Pe 1:17).