EXORTAÇÕES PRÁTICAS
Capítulos 10:19-13:25
Entramos agora na parte prática da epístola. Baseado na verdade ensinada nos capítulos precedentes, o escritor exorta os crentes em conexão com seus privilégios e responsabilidades na casa de Deus. Segue-se nesta parte prática da epístola sete grupos de exortações indicadas nas formas imperativas dos verbos: “cheguemo-nos” (10:22), “retenhamos” (10:23), “consideremo-nos” (10:24), “corramos” (12:1), “retenhamos” (12:28), “Saiamos” (13:13) e “ofereçamos” (13:15).
Todo Cristão é Constituído um Sacerdote
O grande resultado de o crente ser “aperfeiçoado” (TB) pela obra consumada de Cristo (v. 14) é que todos os que creem são constituídos sacerdotes. O apóstolo Pedro e o apóstolo João confirmam isso (1 Pe 2:5, 9; Ap 1:6). Mesmo sem declará-lo em palavras reais, fica óbvio, pela linguagem que o escritor usa e as figuras que aplica aos crentes, que os vê como sacerdotes – tanto que não acha necessário afirmar esse fato. Em primeiro lugar, nosso sacerdócio está implícito na declaração “tendo um Grande Sacerdote sobre a casa de Deus” (v. 21). A existência de um Grande Sacerdote supõe que haja uma companhia de sacerdotes debaixo d’Ele. Em segundo lugar, o escritor nos exorta a agir como sacerdotes e nos aproximar da presença de Deus no santuário celestial (“cheguemo-nos” – v. 22). Isso só seria dito para aqueles que são sacerdotes. Em terceiro lugar, figuras tiradas da consagração dos sacerdotes aarônicos são aplicadas aos crentes no Senhor Jesus Cristo. Ele fala de nosso “corpo” sendo “lavado com água pura” (TB), o que foi feito para os filhos de Aarão (Êx 29:4; Lv 8:6). Então, fala de sermos “purificados [aspergidos – JND]” com sangue, o que também foi feito aos filhos de Aarão (Êx 29:19-20; Lv 8:24). Assim, o sacerdócio dos crentes está implícito ao longo da passagem.
O Novo e Vivo Caminho de Acesso ao Santo dos Santos
Cap. 10:19-22 – Visto que todos os crentes são sacerdotes, somos exortados: “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santuário [Santo dos santos – ARA], pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela Sua carne, e tendo um Grande Sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos ... ” Esta primeira exortação considera os crentes no Senhor Jesus como uma companhia de sacerdotes que têm privilégios e liberdades que os sacerdotes do Velho Testamento não tinham. Somos, portanto, encorajados a nos valer dessa tremenda liberdade de acesso à presença de Deus e a “entrarmos no santíssimo lugar” (AIBB) com “ousadia” no espírito de oração e louvor. Este grande privilégio é nosso devido à eficácia do “sangue de Jesus” – um sinal de Sua obra consumada.
O Senhor entrou no santuário celestial “pelo” (TB) poder (virtude) de Seu sangue (cap. 9:12), e agora podemos entrar “pelo” poder (virtude) de Seu sangue (cap. 10:19). Ele entrou fisicamente; nós entramos em espírito. Uma vez que não é possível para nós, na condição atual de nossos corpos, subir ao céu literalmente, é óbvio que o escritor quer dizer que isto deve ser feito em espírito, pois a verdadeira adoração Cristã é em “espírito” e de acordo com a nova revelação da “verdade” (Jo 4:23). Na velha administração levítica, as pessoas certamente oravam e adoravam a Deus, mas não tinham o entendimento quanto à aceitação (uma bênção Cristã) e, portanto, a liberdade que a obra consumada de Cristo dá aos crentes. O resultado foi que foram mantidos a uma distância consciente de Deus. Isso é exprimido no sistema do tabernáculo pelo fato de o povo adorar do lado de fora do santuário (Lc 1:10).
V. 20 – O escritor chama esse meio de aproximação à presença de Deus de o “novo e vivo caminho”. É “novo” porque não é uma alteração ou um adendo à velha ordem judaica, mas uma coisa inteiramente nova. A Cristandade, historicamente e atualmente, não entendeu isso. Os serviços da igreja em toda parte são compostos de uma mistura de adoração Cristã e a antiga ordem judaica de adoração. O resultado é um híbrido dessas duas ordens contrastantes, que não são nem verdadeiramente judaicas, nem verdadeiramente Cristãs. Essa ordem de aparência judaico-Cristã não é nada daquilo que Deus pretende para os redimidos pelo sangue de Cristo. De fato, Ele critica a ideia de misturar as duas ordens (Hb 13:10).
Essa nova ordem de adoração também é chamada de “viva”, porque a pessoa precisa ter uma nova vida (por meio do novo nascimento) para participar dela. Na ordem judaica do Velho Testamento, uma pessoa não precisava ter vida divina para desfrutar do que via e ouvia e da grandeza da adoração no templo; podia participar sem ser nascido de novo!
Este novo e vivo caminho Ele “nos consagrou [dedicou – JND], pelo véu, isto é, pela Sua carne”. Isto simplesmente significa que para podermos nos aproximar da presença de Deus como adoradores purificados, o véu (uma figura do corpo de Cristo) tinha que ser rasgado. Isto é, Cristo teve que morrer. Assim, não foi a Sua vida perfeita como Homem que abriu o caminho para nós à presença de Deus – foi a Sua morte. Além disso, esse privilégio que temos custou a Deus a entrega de Seu Filho. Saber isso deveria nos levar a tratá-lo com grande apreço. Nossa liberdade de acesso não é tão somente uma bênção, mas um privilégio baseado em nossas bênçãos.
V. 21 – Para nos encorajar a entrar na presença de Deus, o escritor nos lembra de que no Senhor Jesus Cristo temos “um Grande Sacerdote sobre a casa de Deus”. Como um “Sumo” Sacerdote, Ele está lá para nos ajudar, intercedendo por nós, mas como um “Grande” Sacerdote, Ele preside a casa de Deus e assim tem a responsabilidade de tudo o que acontece na casa. Isso corresponde ao papel que Aarão teve na antiga ordem levítica ao levar “a iniquidade das coisas santas” em “todas as ofertas” que os filhos de Israel trouxeram a Deus (Êx 28:36-38). Ele usava “uma mitra [turbante]” que tinha uma placa de ouro com as palavras inscritas: “SANTIDADE AO SENHOR” (ARF). Se algum dos filhos de Israel trouxesse inadvertidamente algo em suas ofertas que não estivesse de acordo com a ordem devida, Aarão suportaria a iniquidade disso, mas não o ofertante. Isso foi dado para encorajar as pessoas a virem com suas ofertas. Da mesma forma, no novo e vivo caminho, temos um Grande Sacerdote que conduz todas as nossas orações e louvores, e os apresenta a Deus perfeitamente (Hb 13:15; 1 Pe 2:5). E, se oferecermos algo em nossa adoração que não esteja de acordo com a verdade, Ele cuidará disso e removerá o que não é aceitável. (Compare com Levítico 1:15-16.) Ter um Grande Sacerdote sobre a casa de Deus servindo dessa maneira deveria nos encorajar a responder mais livremente à exortação “cheguemo-nos” para oferecer nosso louvor e adoração. Podemos fazer isso com confiança, sabendo que temos essa segurança contra falhas.
V. 22 – O escritor menciona então quatro coisas que capacitam o crente a se aproximar de Deus como sacerdote; duas têm a ver com a nossa posição perante Deus e duas têm a ver com o nosso estado.
Quanto à nossa posição, temos nosso “corpo lavado com água pura” (TB). Como já mencionado, essa é uma figura retirada da lavagem dos sacerdotes em sua consagração (Êx 29:4). Ela tipifica a limpeza que temos como resultado do novo nascimento (Jo 3:5, 13:10, 15:3). O Espírito de Deus aplicou a água da Palavra de Deus em nossas almas e assim comunicou uma nova vida para nós. O resultado é que estamos “limpos todo o tempo” porque essa nova vida é santa (Jo 13:10). Também temos nossos “corações aspergidos” (KJV). Esta é outra figura retirada da aspersão dos sacerdotes com sangue na sua consagração (Êx 29:20-21). Ela tipifica a limpeza judicial que temos por meio da fé na obra consumada de Cristo – da qual Seu sangue é um sinal. Isso resulta no crente tendo uma consciência purificada (Hb 9:14, 10:2). Assim, o crente no Senhor Jesus Cristo tem uma dupla limpeza, significada pelos dois agentes divinos de limpeza que fluíram do lado do Senhor na cruz – o sangue e a água (Jo 19:34).
Em João 19:34, o “sangue” é mencionado antes da “água”, porque está registrando o fato histórico; enquanto em 1 João 5:6-8, a água é colocada antes do sangue, porque se refere à ordem de sua aplicação na vida dos homens. Um é o lado de Deus e o outro é o do homem. Perante os olhos de Deus, o sangue deve vir primeiro. É requerido para que os homens sejam abençoados. Todas as obras de Deus pela Sua Palavra e Seu Espírito no novo nascimento dependem de Cristo e têm em vista Cristo entrando no mundo e pagando o preço pelo pecado – do qual fala o sangue. J. A. Trench disse: “Um dos soldados com uma lança perfurou o Seu lado, e imediatamente saiu ‘sangue e água’ (Jo 19:34). Esta é a ordem histórica, e nela vem o sangue em primeiro lugar, como base de tudo para a glória de Deus e nossa bênção. Na ordem de aplicação para nós, como diz João em sua epístola (1 Jo 5:6), a água vem primeiro: ‘Este é aqu’Ele que veio por água e por sangue ... ’ e é o Espírito que dá testemunho” (Scripture Truth, vol. 1, pág. 22).
O escritor menciona então duas coisas práticas que são necessárias para o crente atuar na presença de Deus como sacerdote. Ele fala da necessidade de ter “um verdadeiro coração”, que é um coração que julgou a si mesmo (1 Co 11:28, 31). Por outro lado, um coração cheio de malícia que cobre seu real estado não é um coração verdadeiro. Assim, precisamos ter um coração “verdadeiro” quando nos aproximamos de Deus em adoração (Hb 10:22) e um coração “honesto” quando lemos Sua Palavra (Lc 8:15). O escritor também menciona ter “inteira certeza da fé”. Isso não se refere à certeza da salvação, mas à confiança que temos em nos aproximar de Deus em fé porque temos uma dupla limpeza e nos julgamos a nós mesmos.
Assim, as duas primeiras coisas (“corpos lavados” e “corações aspergidos”) fazem de nós sacerdotes e as duas segundas (“um verdadeiro coração” e “inteira certeza de fé”) nos tornam sacerdotais. Os dois primeiros estão relacionados com a nossa posição diante de Deus e os dois últimos têm a ver com o nosso estado de alma. Os dois últimos podem explicar por que há ocasiões em que apenas alguns irmãos exercitam seu sacerdócio audivelmente em uma reunião – alguns dos sacerdotes presentes podem não estar em estado sacerdotal para fazê-lo. A resposta não é estabelecer uma casta de homens para fazer a oração pública, etc., como é feito na Cristandade, mas julgar a nós mesmos para que o Espírito de Deus seja livre para nos conduzir nas reuniões em oração pública e louvor.
Retendo Firme a Confissão da Nossa Esperança
V. 23 – A próxima exortação tem a ver com a perseverança em nossa confissão pública da fé em um mundo que se opõe a ela. Ele diz: “firmes guardemos inabalável a confissão da nossa esperança” (TB). Uma brilhante “esperança” de alcançar o estado glorificado com Cristo no alto havia sido colocada diante desses santos hebreus. Eles não deveriam abandonar essa esperança, “porque Fiel é O que prometeu”. (vs. 36-37). O fato de que haveria tal exortação dada a esses crentes hebreus mostra que estavam sob tremenda pressão para afastar-se da posição Cristã que haviam adotado publicamente.
O fato de essa exortação, “retenhamos firmes”, seguir a exortação anterior de “achegarmo-nos”, nos dá a chave de como seremos capazes de efetuá-la. Se realmente nos valermos do nosso privilégio de nos aproximar da presença de Deus, receberemos a força espiritual e convicção que nos permitirão enfrentar oposição no caminho. Se os crentes vacilam, geralmente é porque negligenciaram o privilégio de se aproximar da presença de Deus.
Provocando Uns aos Outros ao Amor e às Boas Obras
Vs. 24-25 – A próxima exortação aborda a necessidade de encorajamento mútuo. Ele diz: “E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos [provocarmos – JND] ao amor e às boas obras”. Isso mostra que não precisamos apenas aproximar-nos de Deus, mas também precisamos nos aproximar uns dos outros. Em tempos de perseguição e tentação de recuar, há uma necessidade particular de companheirismo e encorajamento entre os santos.
Precisamos do apoio mútuo dos outros crentes, mas não o teremos se não mantivermos “as pisadas do rebanho” (Ct 1:8 – ARF). Já que somos o “guardião” de nossos irmãos (Gn 4:9), temos a responsabilidade de zelar pelo estado uns dos outros e de advertir, se necessário, quando alguém começa a se desviar (Pv 24:11-12). Contudo, isso será difícil de fazer se negligenciarmos as reuniões para o ministério e a comunhão (At 2:42). Por isso, o escritor prossegue dizendo: “não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns; antes, admoestando-nos [encorajando-nos – JND] uns aos outros; e tanto mais quanto vedes que se vai aproximando aquele dia”. Abandonar a reunião dos santos é um sinal claro de afetos em declínio. Geralmente precede a pessoa deixar a assembleia completamente. As seguintes coisas são sinais indicadores que geralmente acompanham aqueles que saem da assembleia.
Sinais que Costumam Marcar Aqueles que Deixam a Assembleia
- Começam a frequentar as reuniões cada vez menos.
- Se apegam às deficiências dos santos, concluindo que não há amor ali.
- Há uma falta de separação do mundo em seus aspectos seculares ou religiosos – ao mesmo tempo, acusando aqueles que caminham separados de serem legalistas.
- Alegam que não estão sendo alimentados nas reuniões – reuniões às quais geralmente não frequentam.
- São facilmente ofendidos.
- A doutrina deles sobre o centro de reunião é alterada para abrir a porta para justificarem sua saída.
Em vista dessa tendência de recuar, o escritor enfatiza a necessidade de encorajar “uns aos outros, e tanto mais”, quanto vemos que “vai se aproximando aquele dia”. Há uma grande necessidade de a verdade doutrinária ser ministrada entre os santos, pois é o meio pelo qual somos estabelecidos (1 Tm 4:16; 2 Tm 2:15), mas essa exortação mostra que não podemos negligenciar o ministério prático; ele encoraja os santos a continuarem. À medida que nos aproximamos do “dia” em que o Senhor aparecerá para endireitar o mundo por meio do julgamento (Is 26.9), haverá uma necessidade crescente desse tipo de serviço na casa de Deus. As coisas continuarão a ficar moral e espiritualmente mais tenebrosas até aquele momento. De fato, o momento mais sombrio de toda a história humana será justamente aquele que antecede o dia em que Cristo aparece (Mt 24:29-30). A apostasia na profissão Cristã já começou (1 Tm 4:1; 2 Ts 2:7), e, portanto, encorajar uns aos outros é muito mais necessário. Embora os verdadeiros crentes não possam apostatar, eles podem ser arrastados pela corrente da apostasia atuante na profissão Cristã e começar a desistir de certos princípios e práticas que uma vez sustentaram. Este é um perigo real.
Como mencionado, o “dia” ao qual o escritor se refere aqui é o da Aparição de Cristo. O Sr. Darby disse: “O ‘dia’ falado aqui não é o Arrebatamento da Igreja, mas a Aparição” (Collected Writings, vol. 27, pág. 400). W. Kelly disse: “Como está em vista aqui a responsabilidade, é ‘o dia’ ou a Aparição do Senhor que se segue, quando nossa fidelidade, ou a falta dela, será manifestada” (The Epistle to the Hebrews, pág. 191). S. Ridout disse: “Aqueles santos cujos olhos foram ungidos poderiam dizer: ‘O fim de todas as coisas está próximo’. Eles sabiam que Cristo havia aparecido na consumação dos séculos (Hb 9:26); que logo chegaria o dia em que os Seus inimigos seriam colocados debaixo dos Seus pés (Hb. 10:13); e quando viram aquele dia se aproximando, se estimularam uns aos outros ainda mais. O que diremos, então, nós que vivemos séculos depois? Quão mais perto está esse dia para nós!” (Lectures on the Book of Hebrews, pág. 207).
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~