UM PARÊNTESE – O Caminho de Fé
Capítulo 11:1-40
Até agora, na epístola, o escritor ensinou os crentes hebreus a abandonar as formas externas de religião terrena que tinham no judaísmo para algo melhor – o novo e vivo caminho de aproximação a Deus que foi introduzido por meio de Cristo. A isso entramos por meio de fé. De fato, tudo no Cristianismo deve ser feito no princípio de fé – “porque andamos por fé e não por vista” (2 Co 5:7). Portanto, para sair do judaísmo que é um sistema baseado no que se vê, se ouve e em rituais externos, e seguir um novo e vivo caminho no Cristianismo, que é em grande parte uma coisa espiritual, havia necessidade de fé. Neste capítulo, ele mostra que andar por fé não deve ser visto como algo novo, porque os santos desde o princípio dos tempos viveram por fé. Desde o início da história humana, o que agradou a Deus naqueles que vieram a Ele é que o fizeram por “fé” (v. 6). Assim sendo, esses crentes hebreus foram chamados a viver por fé na nova posição que haviam adotado no Cristianismo.
Ele então prossegue para dar uma longa lista de santos do Velho Testamento que viveram e morreram em fé, e assim encontraram a aprovação de Deus. O Espírito de Deus Se move por trás das atividades desses fiéis e mostra as marcas distintivas de fé que os impulsionaram ao longo da vida. Eles servem como exemplos do tipo de fé que os crentes hebreus deveriam ter. O capítulo 11, portanto, demonstra o grande princípio sobre o qual o homem celestial se move – fé.
O capítulo pode ser visto como um parêntese; as exortações (“deixemos...”) são retomadas no capítulo 12:1.
O que Fé Faz
Vs. 1-3 – Os três primeiros versículos são introdutórios. Ele começa dizendo: “Ora, a fé é o firme fundamento [a concretização – JND] das coisas que se esperam e a prova [convicção – JND] das coisas que se não veem”. Essa declaração não define exatamente o que fé é, mas sim o que fé faz. (Talvez João 3:33 defina melhor o que seja a fé – “Aquele que aceitou Seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro”). Fé faz com que “as coisas que se esperam” sejam tão reais quanto se as tivéssemos em nossas mãos agora. Isso nos dá a “prova [convicção – JND]” em relação às invisíveis coisas espirituais; assim, as coisas de Deus se tornam tão reais para nós como se as víssemos com nossos olhos naturais. De fato, cada coisa eterna que temos e as que teremos são adquiridas por fé – tudo o mais passará. Os “antigos” nos tempos passados obtiveram um bom “testemunho” por meio da vida por fé, e assim obteremos nós hoje.
O versículo 3 diz: “Pela fé, entendemos que os mundos, pela Palavra de Deus, foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente”. Isso mostra que fé nos faz entender as coisas que estão fora do entendimento da mente natural, pois afirma claramente aqui que o que é visto não tem sua origem nas coisas que aparecem aos nossos olhos naturais.
A menção do escritor da Palavra de Deus sendo usada na criação dos mundos aponta para Gênesis 1:3 – “E disse Deus ...” (Veja também Salmo 33:6). Esta é uma referência para a reconstrução da Terra e dos céus descritos em Gênesis 1:3-31. A palavra “criado” em grego (“katartizo”) significa “reparada” ou “consertada” (Strongs), ou “colocar em ordem novamente” (Liddell e Scott), ou “ajustada” (Nestle). A mesma palavra é traduzida por “consertar” na KJV em Mateus 4:21 e Marcos 1:19. Também é traduzido “restaurai” em Gálatas 6:1 (TB). Portanto, esse versículo indica que Deus consertou ou restaurou o que Ele havia criado anteriormente. O fato de que precisava ser consertado mostra claramente que ele havia entrado em um estado caótico (que Gênesis 1:2 descreve), pois Deus não criou a Terra naquele estado (Is 45:18).
Tendo declarado algumas observações introdutórias sobre fé, o escritor agora aponta para vários aspectos de fé que caracterizavam os santos do Velho Testamento que deveriam ser replicados nos Cristãos que trilham o caminho de fé. O resto do capítulo (vs. 4-40) é dividido em três grupos de santos do Velho Testamento:
- Santos antediluvianos (vs. 4-7) – Ilustram a fé que se aproxima de Deus com base em um sacrifício aceitável, e assim escapam ao julgamento que está vindo sobre este “presente século mal” (Gl 1:4; Rm 5:9). Eles demonstram a fé que salva.
- Santos patriarcais (vs. 8-22) – Ilustram a fé que se apodera do “mundo futuro” (Hb 2:5) e assim deixam de lado o mundo presente para caminhar nele como estrangeiros e peregrinos dele. Eles demonstram a fé que vê.
- Santos israelitas (vs. 23-40) – Ilustram a fé que está disposta a suportar a rejeição e a perseguição do presente século mal, porque se apegaram a coisas maiores pelas quais vale a pena sofrer. Eles demonstram a fé que sofre.
Assim, esses santos do Velho Testamento ilustram a fé que salva, a fé que vê e a fé que sofre. Estas são três coisas necessárias para viver a vida Cristã em um mundo que é oposto a Deus e a Cristo. É interessante notar que não há falhas registradas no capítulo. Não é que esses santos não tenham falhado; sabemos que suas vidas tinham muitas imperfeições. No entanto, o Espírito de Deus não Se concentra nisso, mas sim na bem-aventurança pela qual sua fé os levou a viver – que são as coisas invisíveis de Deus. Muitas coisas positivas sobre esses santos do Velho Testamento poderiam ter sido declaradas aqui, mas o escritor é levado a selecionar certas coisas que eram particularmente aplicáveis à situação que esses crentes hebreus estavam enfrentando. Os nomes de dezesseis santos do Velho Testamento são mencionados (metade deles são do livro de Gênesis), mas muitos mais estão implícitos sem serem nomeados. Cada um desses santos exibe o grande princípio implícito que o profeta Habacuque declarou: “O justo viverá por fé” (Hc 2:4; Hb 10:38 – JND).
Os Santos Antediluvianos
Vs. 4-7 – Nos primeiros três santos, vemos a fé que coloca o crente individual em um relacionamento correto com Deus. Esses exemplos ilustram a fé que se aproxima de Deus no terreno de um sacrifício aceitável e, portanto, escapa ao julgamento. É aqui que começa uma vida com Deus.
ABEL (v. 4)
Abel é um exemplo do entendimento divino que a fé dá e, portanto, ele trouxe “um sacrifício mais excelente” (ARA). Ele sabia que era pecador e que Deus é um Deus santo que não pode passar por cima dos pecados. Abel, portanto, veio a Deus no terreno de um sacrifício e uma vítima morreu como substituta em seu lugar. Sem dúvida, havia aprendido o que era aceitável a Deus pelo pecado original de seus pais no jardim do Éden, quando então a vida de um animal foi perdida, a fim de cobri-los com túnicas de pele (Gn 3:21). O sacrifício de Abel falou da morte de Cristo e do que ela realiza para a glória de Deus e para a bênção daqueles que creem. Assim, sua fé ilustra como um pecador pode encontrar favor com Deus e ser salvo.
ENOQUE (vs. 5-6)
A fé de Enoque mostra que aqueles que vêm a Deus com fé têm um final maravilhoso para sua vida – são levados para a própria presença de Deus no céu! Como sabemos, Enoque foi “trasladado para não ver a morte” (Gn 5:22-24). Isso não acontecerá com todos os que creem, pois muitos morreram em fé e serão ressuscitados, mas todos os crentes irão estar com o Senhor. O que aconteceu a Enoque ilustra a correta esperança da Igreja – ser arrebatada da Terra na vinda do Senhor sem ver a morte (1 Ts. 4:17). Isso é chamado de “bem-aventurada esperança” (Tt 2:13). É o que esses crentes hebreus deveriam esperar ansiosamente. O escritor diz: “(Enoque) alcançou testemunho de que agradara a Deus.” O escritor, portanto, conclui que ele deve ter tido fé, pois, ele diz: “sem fé é impossível agradar-Lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que é Galardoador dos que O buscam”.
NOÉ (v. 7)
A fé de Noé o levou a responder às advertências de Deus e preparar-se para o julgamento que estava prestes a cair no mundo, aproveitando o abrigo que Deus designou na arca. As “coisas que ainda não se viam” referem-se à chuva que não caíra antes. Noé creu em Deus e construiu a arca, e ao fazê-lo, “condenou o mundo”, pois a arca contava a história de que o julgamento estava chegando. Da mesma forma, esses hebreus precisavam encontrar abrigo por meio de fé no único sacrifício de Cristo e, assim, estar a salvo do julgamento de seus pecados. Muitos o haviam feito, mas havia alguns que pareciam não ter feito assim.
Os Santos Patriarcais
Vs. 8-22 – Este segundo grupo de santos são os “pais” da nação de Israel (At 26:6; Rm 9:5, 11:28, 15:8, etc.) Eles são chamados “os patriarcas” – começando com Abraão (Hb 7:4) e descendo até os doze filhos de Jacó (At 7:8). Como mencionado, este grupo de santos ilustra a fé que se apodera do mundo vindouro e, consequentemente, deixa de lado as ambições neste presente mundo. Isso, por sua vez, os faz dispostos a andar como estrangeiros e peregrinos neste mundo.
ABRAÃO (v. 8)
Abraão ilustra a fé que responde ao chamado de Deus, embora tenha sido um chamado para algo que não podia ver com seus olhos. Ele foi “chamado ... para um lugar” de bênção que foi lhe prometido. Sua fé o levou a responder, e “saiu, sem saber para onde ia”. Isso pode parecer tolo aos olhos daqueles que observaram seus passos, mas era a vontade de Deus. O escritor menciona esse ponto porque era exatamente o que os crentes hebreus precisavam fazer em princípio. Abraão teve que deixar sua posição anterior em Ur dos caldeus e sair para um novo lugar que ele não tinha visto. Da mesma forma, os crentes hebreus ouviram o chamado de Deus no evangelho para sair de sua posição anterior no judaísmo para Cristo, mesmo que houvesse exteriormente muito pouco a se ver exteriormente no Cristianismo.
Vs. 9-10 – A fé de Abraão levou-o a ir a uma terra que lhe fora prometida, e ele e sua posteridade (“Isaque e Jacó”) eram felizes em viver lá como estrangeiros e peregrinos. Embora a terra de Canaã tivesse sido dada a ele por herança, Abraão não tentou tomar posse dela expulsando os povos de lá, mas viveu nela em separação deles. O que o sustentou foi sua fé. Estava olhando para algo não visível. O escritor nos diz que “(Abraão) esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o Artífice e Construtor é Deus”. Isto, nos é dito no capítulo 12:22, era a “cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial”. O que Abraão conhecia das coisas celestiais e eternas não nos é dito, mas elas cativaram seu coração e fizeram com que andasse em um caminho diferente dos outros homens.
Não só essas coisas invisíveis cativaram o coração de Abraão, como ele conseguiu transmitir as convicções de sua fé para sua posteridade. Isto é evidente pelo fato de que estavam também “habitando em tendas” (AIBB) – um sinal característico de um peregrino. Este foi um contraste marcante para Ismael e sua posteridade. Eles construíram para si “vilas” e “castelos” e nomearam alguns como “príncipes” (Gn 25:12-18). Estar contente em viver em uma tenda nos mostra que Abraão não tinha a intenção de se estabelecer nesse ambiente, nem tinha qualquer desejo de se distinguir no mundo. Semelhantemente, com esses crentes hebreus que estavam procurando se libertar de seus laços no judaísmo; se a magnitude de suas bênçãos espirituais em Cristo fosse abraçada, essas coisas os fariam abandonar as coisas externas da religião terrena.
SARA (vs. 11-12)
Sara ilustra a fé que confia em Deus apesar das impossibilidades naturais. Sua confiança estava na Palavra de Deus. Deus havia prometido um filho a Abraão e Sara, e eles creram n’Ele. Ele cumpriu a Sua Palavra, e Sara “recebeu a virtude de conceber [semente] e deu à luz já fora da idade”. Da mesma forma, tendo confiado no Senhor Jesus Cristo, esses crentes hebreus podiam contar com Ele para ajudá-los a superar dificuldades impossíveis no caminho de fé.
Vs. 13-14 – O escritor, então, resume o que caracterizou a fé desses patriarcas e a coloca diante dos crentes hebreus como modelo para a fé deles. Ele diz: “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas”. Isso não contradiz o capítulo 6:15, que afirma que Abraão recebeu a promessa. Estes versículos estão falando de duas coisas diferentes. Capítulo 6:15 está se referindo a Abraão recebendo um filho e tendo uma posteridade por meio dele; aqui no capítulo 11 são promessas em conexão com a herança em Canaã. Além disso, o “todos” ao qual o escritor se refere neste versículo são todos aqueles desse grupo de santos patriarcais. Se ele estivesse se referindo a todos mencionados até agora no capítulo, ele estaria contradizendo o que disse sobre Enoque que não morreu. Seu ponto em afirmar isso é que a fé desses antigos santos os levou a iniciar um caminho, e suas convicções a respeito eram tão profundas que continuaram nesse caminho até o fim de suas vidas – não voltaram atrás. Viveram e morreram pelo que a fé deles viu. Da mesma forma, os crentes hebreus precisavam desse tipo de fé e convicção a respeito do passo que haviam dado ao vir a Cristo e perseverar nisso.
O que impulsionou esses homens e mulheres ao longo da vida foi a fé deles. Essa fé viu as coisas que foram prometidas por Deus, embora elas estivessem “longe” no tempo. Eles foram “persuadidos” por elas e seguiram “abraçando-as” em seus corações e, como resultado, viveram uma vida que “confessou” em que os seus corações estavam envolvidos. O escritor diz que aqueles que traçam tais trajetórias mostram “claramente” que estão vivendo para outra “pátria”, e não para este mundo. Aqueles queridos santos do passado olharam para além das coisas que são visíveis e abraçaram coisas invisíveis, e isso produziu um efeito prático em suas vidas que os fez andar como “estrangeiros e peregrinos” neste presente século mal.
V. 15 – O escritor acrescenta: “E se, na verdade, se lembrassem daquela (pátria) de onde haviam saído, teriam oportunidade de tornar”. Isto é, se permitissem que suas mentes permanecessem na velha pátria de onde tinham vindo (a Mesopotâmia), isso teria o efeito de arrastá-los de volta para ela em seu coração – e para aonde o coração vai, os pés o seguirão. Não demoraria muito para que eles voltassem para aquela terra. Mas não fizeram isso; mantiveram seus olhos e seus corações no que lhes havia sido prometido, e isso os motivou a continuar no caminho de fé. Isso serviu como advertência preventiva para esses crentes hebreus que estavam sob pressão para voltar ao judaísmo. Se mantivessem seus pensamentos sobre os dias de outrora no templo e suas conexões ali, etc., isso teria um efeito negativo sobre eles e, por fim, os atrairiam de volta a ele. Portanto, era importante que seguissem o exemplo dos patriarcas e mantivessem suas mentes fixas no que tinham em Cristo (Cl 3:1-2).
V. 16 – A fé daqueles antigos santos agiu como um telescópio espiritual que trazia as coisas celestiais à vista. Confiaram na Palavra de Deus quanto às promessas e desejaram “uma (pátria) melhor”, que era “celestial”, e assim Deus aprovou sua fé. Ele não se envergonhou de “Se chamar Seu Deus” e alegremente identificou a Si mesmo com eles. Não ficarão desapontados; Deus “preparou uma cidade” no alto para eles a qual alcançarão no dia de sua ressurreição. Até então, suas almas e espíritos desencarnados estarão com Cristo no alto (Fp 1:23).
Vs. 17-19 – Abraão é mencionado novamente para mostrar que Deus testa a fé. De fato, todos os que seguem o caminho de fé serão, cedo ou tarde, testados. A Abraão foi-lhe dito que oferecesse a seu filho Isaque – aquele que tinha esperado tanto e por quem as promessas seriam cumpridas. Humanamente falando, fazer isso não tinha sentido, mas Abraão não permitiu que o que ele não entendia impedisse sua obediência a Deus. E como resultado, diz: “Pela fé Abraão, sendo provado, ofereceu Isaque”. O teste para ele foi provar se estaria disposto a deixar aquilo que era muito querido para seu coração a fim de obedecer a Deus. Como sabemos, ele passou pelo teste maravilhosamente. Ele teria matado Isaque se o Senhor não tivesse intervindo (Gn 22:10-12). Mil coisas podem ter passado por sua mente a respeito de por que Deus iria querer isso, mas Abraão foi adiante sem agir de acordo com seus próprios pensamentos e preferências, e obedeceu a Deus.
O escritor continua nos dizendo como Abraão foi capaz de passar no teste de sua fé; “considerou que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar; e daí também, em figura, ele o recobrou”. Isso foi bastante notável, pois até aquele momento na história não havia nenhum registro conhecido de alguém ressuscitando dentre os mortos. Mesmo que Abraão não tenha realmente matado Isaque, ele recebeu crédito por acreditar na ressurreição e, de certo modo, ele “recobrou” Isaque dos mortos de maneira figurativa. O escritor foi levado pelo Espírito para definir este incidente diante dos hebreus como um exemplo para seguirem. O assunto que estavam enfrentando sobre deixar o judaísmo para o Cristianismo foi definitivamente um teste de sua fé. Eles amavam muito sua herança no judaísmo, mas estavam dispostos a deixar isso para obedecer a Deus? Colocariam a vontade de Deus diante de seus próprios desejos naturais? Abraão o fez, e foi o grande exemplo para eles.
ISAQUE (v. 20)
O escritor passa para a fé de Isaque. Ele diz: “Pela fé Isaque abençoou a Jacó e a Esaú no tocante às coisas futuras”. Nisso, Isaque é um exemplo de alguém que anda na luz do futuro, quando as promessas seriam realizadas. Da mesma forma, os crentes hebreus deviam ter a visão de Isaque e viver em vista da “esperança” Cristã (cap. 10:23). Olhar para frente em fé é uma coisa saudável para o peregrino que anda por fé; mantém seu coração e mente em “coisas futuras” e longe das coisas deste mundo.
JACÓ (v. 21)
Realmente não havia muito no início de vida de Jacó que fosse de fé, mas quando passou por várias circunstâncias e pelas disciplinas que Deus designou para ele, cresceu espiritualmente com sua idade. Em seus últimos dias, manifestou uma inteligência que a fé dá a um crente. De fato, de todos os patriarcas, apenas dele se diz que “adorou!” Ele fez isso “encostado à ponta de seu bordão”. Então “abençoou cada um dos filhos de José” com uma inteligência que mostrou que entendia algo do fim da primeira ordem do homem na carne e a introdução de uma nova ordem que viria – cruzando as mãos “propositadamente” (AIBB) ao abençoá-los (Gn 48:5-14). É difícil saber o quanto disso Jacó realmente entendeu, mas é algo que os crentes hebreus fariam bem em seguir. Toda a ordem de adoração no judaísmo, que serve ao primeiro homem, foi posta à parte por uma nova ordem de coisas segundo o novo homem em Cristo. Eles precisavam aceitar esse fato.
JOSÉ (v. 22)
José é outro exemplo de fé que olha para o futuro. Em vez de olhar para trás para seus dias de glória no Egito, olhou para a glória de Israel na terra de Canaã, e mostrou onde seu coração estava ao dar “ordem acerca de seus ossos”. Entendeu que não estaria vivo para ver isso, mas queria que seus ossos fossem enterrados naquele lugar que a fé dele havia estabelecido.
Os Santos Israelitas
Vs. 23-40 – Os santos deste terceiro grupo ilustram a fé que está disposta a suportar a rejeição e a perseguição do mundo porque se apossou de coisas maiores. Esses santos demonstram fé que sofre.
OS PAIS DE MOISÉS (v. 23)
Os pais de Moisés (Anrão e Joquebede) recusaram-se a seguir a massa dos israelitas no Egito que foram ordenados pelo rei a matar seus filhos do sexo masculino no rio (Êx 1:22). A fé deles os levou a se afastarem de seus irmãos nisto e a esconder seu filho de Faraó. Essa fé os levou a ir contra o que era considerado a coisa certa a fazer naquele dia. Entenderam completamente que isso poderia levá-los ao sofrimento e até à morte, mas “não temeram o mandamento do rei” e fizeram o que Deus queria que fizessem. Novamente, os crentes hebreus precisavam seguir esse exemplo de fé e ter a coragem de fazer a vontade de Deus, se separando da massa de seus irmãos judeus que haviam tomado uma posição contra Cristo – mesmo que isso os levasse ao sofrimento.
MOISÉS (vs. 24-28)
A fé de Moisés exibe essa mesma vontade de aceitar o sofrimento por fazer a vontade de Deus. O escritor diz: “Pela fé, Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, Escolhendo, antes, ser maltratado [sofrer aflição – JND] com o povo de Deus do que por, um pouco de tempo, ter o gozo do pecado; tendo, por maiores riquezas, o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa. Pela fé, deixou o Egito, não temendo a ira do rei; porque ficou firme, como vendo o invisível”. Como era o caso com os patriarcas no versículo 13, havia uma ordem moral aos exercícios de fé de Moisés que o levou a desistir de sua posição no Egito. A providência o colocou na corte do Faraó, mas a fé o levou para fora.
Tendo uma visão do prêmio da divina “recompensa”, Moisés foi capaz de ter uma correta estimativa dos “tesouros do Egito”, que eram apenas coisas vãs. Isso o levou a participar da sorte do sofrido e aflito povo de Deus. Isso é muito surpreendente; ele desistiu de uma posição significativa no Egito, e “o gozo do pecado” que a acompanhavam, para identificar-se com o povo sofredor de Deus. Escolheu sofrer com eles! O que o levou a fazer isso? “Considerou” (ARA) o opróbrio relacionado com os filhos de Israel ser “maiores riquezas” do que os tesouros do Egito! O escritor ressalta que essa reprovação era do mesmo caráter que “o vitupério de Cristo” que os crentes hebreus estavam enfrentando. F. B. Hole pergunta: “Se a glória do Egito não é para ser comparada ao vitupério de Cristo, como ela ficará em comparação à glória de Cristo?” (Hebrews, pág. 53). O escritor nos diz que Moisés foi capaz de suportar a dificuldade que veio com essa posição de reprovação porque sua fé viu aqu’Ele que é “invisível”, e isso o motivou.
A lição disso para os crentes hebreus era que eles também precisavam manter seus olhos n’Aquele que é “invisível”. Para a pessoa sem fé, isso é absurdo. Ele pergunta: “Como você pode olhar para algo invisível?” Mas a fé vê coisas invisíveis (2 Co 4:18). Mesmo que Cristo tenha voltado para o céu e não seja mais visto fisicamente, manter os olhos de fé n’Ele e no que temos n’Ele, nos dá a perseverança de que precisamos para continuar no caminho. Os crentes hebreus precisavam perceber que o opróbrio de Cristo, que estavam suportando nas mãos de seus irmãos incrédulos, era um privilégio (At 5:41; Fp 1:29). O passo que a fé deles os levou a tomar, identificando-se com Cristo, seria recompensado (premiado) num dia vindouro.
OS FILHOS DE ISRAEL (vs. 29-30)
O escritor, então, aponta para a situação em que os filhos de Israel se encontravam, o que os levou à passagem milagrosa deles pelo Mar Vermelho. Estavam sendo perseguidos pelo faraó e seu exército, e não havia para onde se escapar. Em frente estava o Mar Vermelho e de ambos os lados havia montanhas intransponíveis! Sua situação parecia sem esperança, mas Deus interveio e os libertou abrindo um caminho através do mar, que “intentando os egípcios, se afogaram”.
O encorajamento que esses crentes hebreus deviam tirar disso era que mesmo que a situação deles parecesse completamente impossível, Deus estava lá, e abriria um caminho no meio da perseguição, etc. Precisavam ter a fé que os filhos de Israel tinham e continuar seguindo a direção de Deus. Uma lição que poderiam tirar desse incidente é que Deus sabe como tratar com os perseguidores de Seu povo.
Então, tendo entrado na terra de Canaã, “caíram os muros de Jericó” diante dos filhos de Israel (v. 30). (É digno de nota que a jornada de 40 anos no deserto de Israel é totalmente ignorada.) O escritor nos diz que os muros caíram por conta da fé deles! Mais uma vez, circunstâncias aparentemente impossíveis foram superadas simplesmente confiando em Deus – o Deus das circunstâncias.
RAABE (v. 31)
O escritor segue para Raabe – uma crente gentia. Ela olhou para frente e viu o julgamento chegando, e com fé abandonou a posição em que estava, identificando-se com a nova coisa que Deus estava fazendo na terra com os filhos de Israel. Raabe é trazida porque sua situação, em princípio, era semelhante à dos hebreus. Como estava acontecendo a ela e a seu povo, o julgamento estava chegando aos judeus nacionalmente. Isto foi devido à sua rejeição de Cristo (Sl 69:22-28; Mt 22:7; Lc 12:58-59; 1 Ts 2:14-16). Uma destruição literal estava prestes a cair sobre a nação pelos exércitos romanos, e esse julgamento não estava muito longe! Na verdade, caiu em 70 d.C., que foi de cerca de 7 curtos anos após a epístola ter sido escrita. Portanto, não havia muito tempo para esses crentes judeus permanecerem em Jerusalém. A coisa mais prudente era fazer o que Raabe fez e abandonar sua posição anterior, sobre a qual estava o julgamento de Deus e se identificar com a companhia Cristã, saindo “fora do arraial” (Hb 13:13).
GIDEÃO, BARAQUE, SANSÃO, JAFTÉ, DAVI, SAMUEL E OS PROFETAS (v. 32)
O escritor então reúne vários outros santos do Velho Testamento e nos diz que faltaria “tempo” para falar deles detalhadamente. Esses homens são conhecidos na Escritura por suas fraquezas e falhas tanto quanto por sua fé. O encorajador a ver aqui é que, embora a fé deles fosse imperfeita, Deus aprovou suas ações em fé e ajudou-os a ter sucesso. Assim, mesmo que nossa fé seja fraca e tenhamos falhado no caminho, Deus ainda aprova se agimos e quando agimos em fé. Então, a questão não é quanta fé nós temos, mas em Quem nossa fé repousa. Ver esses mencionados entre os fiéis santos do Velho Testamento deveria encorajar todos nós.
O Poder e Perseverança da Fé
Vs. 33-40 – Nos versículos finais do capítulo 11, o escritor refere-se a um número de outros santos anonimamente, talvez para economizar “tempo”. Ele os coloca em dois grupos:
- Aqueles que foram livrados de suas circunstâncias difíceis pela misericórdia de Deus. Suas histórias ilustram o poder da fé (vs. 33-35a).
- Aqueles que não foram livrados das circunstâncias adversas que enfrentaram, mas receberam a graça de passar por elas. Suas histórias ilustram a perseverança da fé (vs. 35b-38).
AQUELES QUE FORAM LIVRADOS POR MISERICÓRDIA
Vs. 33-35a – Quanto ao primeiro grupo de santos, o escritor diz: “os quais, pela fé, venceram reinos” (Josué), “praticaram a justiça” (Ezequias), “alcançaram promessas” (Salomão e Israel – 1 Rs 8:56), “fecharam as bocas dos leões” (Daniel), “apagaram a força do fogo” (Sadraque, Mesaque e Abede-Nego), “escaparam ao fio da espada” (Jeremias), “da fraqueza tiraram força” (Sansão), “na batalha se esforçaram” (os Macabeus – Dn 11:32), “puseram em fuga os exércitos estrangeiros” (exército de Gideão), “mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos” (a pobre mulher de Sarepta e a rica mulher de Suném). Como mencionado, esses exemplos ilustram o poder da fé que trabalha para libertar os santos de Deus de suas provações.
AQUELES QUE NÃO FORAM LIVRADOS, MAS RECEBERAM GRAÇA
Vs. 35b-38 – O escritor então diz: “uns ...” Isso nos leva ao segundo grupo de santos que não foram livrados de suas difíceis circunstâncias, mas sua fé fez com que triunfassem em suas provações – ainda mais brilhantes que o primeiro grupo. Deus lhes deu a graça de passar por suas provações triunfalmente, mesmo que isso os levasse à morte (Tg 4:6). Os que encabeçam a lista desses santos dignos são aqueles que “foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição”. Isto é, esses queridos crentes receberam de seus perseguidores oferta de livramento ao custo de se comprometerem com concessões. Se eles se retratassem, seriam livrados. Mas a fé deles não aceitou o livramento nesses termos, e isso os levou à morte. Por mais tenebrosa que possa ter sido para eles aquelas difíceis circunstâncias, seu futuro é certamente brilhante. Eles obterão “uma melhor ressurreição” na vinda do Senhor (o Arrebatamento).
Ele diz: “E outros experimentaram escárnios” (isto é, Neemias – Ne 4:1-3) e “açoites” (os servos dos filhos de Israel – Êx 5:16), “e até cadeias e prisões” (José, Miqueias, Jeremias, etc.), “foram apedrejados” (Zacarias – 2 Cr 24:21), “serrados” (Isaías), “tentados” (isto é, Jó), “mortos com a espada” (Urias – Jeremias 26:23), “perambulavam em peles de ovelhas e de cabra” (Elias), “desamparados, aflitos e maltratados” (profetas no tempo de Elias – 1 Rs 18:4, 19:10). O escritor acrescenta, em seguida, em um parêntese – “dos quais o mundo não era digno”. Isto é certamente verdade. Este grupo de santos ilustra a perseverança da fé. Eles pareciam como perdedores que foram derrotados por seus inimigos, mas realmente suas vidas eram triunfos de fé. O céu tem o registro correto e Deus o declarará no dia de Cristo.
Vs. 39-40 – Em resumo, ele diz: “E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa”. Esse “testemunho” era verdadeiro para todos os santos do capítulo. Eles não viveram para ver o reino do Messias de Israel, mas viveram e morreram em fé, e assim todos tiveram a aprovação de Deus. Não perderam nada, pois terão sua parte no lado celestial do reino milenar quando forem ressuscitados (Dn 7:18, 22, 27 – JND; Mt 13:43; Hb 12:22 -24).
Ao usar os pronomes “nós” e “eles”, o escritor distingue a porção de bênçãos que os santos do Velho Testamento tinham daquilo que os Cristãos têm. Ele diz: “Deus providenciou algo melhor para nós, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados”. Isso mostra que Deus tem diferentes porções de bênção para os vários grupos de crentes em Sua grande família. Nem todos são abençoados da mesma forma – alguns têm uma porção celestial e alguns têm uma porção terrena (Ef 3:15). Ao contrário do ensino equivocado dos Teólogos Reformados (Teologia do Pacto), a família de Deus não consiste apenas da Igreja (Cristãos) – que pensam que é composta de todos os crentes desde o início até o fim dos tempos. Existem santos do Velho Testamento que serão ressuscitados com uma porção celestial de bênção (“espíritos dos justos aperfeiçoados”) e então há Cristãos (“a Igreja dos primogênitos”) que também têm uma porção celestial de bênção, mas distintamente diferente e muito superior ao que os santos do Velho Testamento têm (Hb. 12:23). Nosso verso (40) claramente indica essa distinção, chamando nossa porção Cristã de “alguma coisa melhor”. Isto é devido à nossa incomparável conexão com Cristo pela habitação do Espírito Santo, que nos torna Seu corpo e noiva (Ef 5: 30-32; Ap 19:7). Então, haverá também o remanescente redimido de Israel (Ap 7:1-8) e os gentios crentes (Ap 7:9) que povoarão o lado terreno do reino milenar. Esses santos terão uma porção terrena de bênção em conexão com Cristo, o Messias de Israel.
O fato de a companhia Cristã ser chamada de “primogênitos” (que indica preeminência) mostra que a Igreja tem um lugar na grande família de Deus que é superior aos outros (Hb 12:23). Foram escolhidos para uma bênção especial pela graça soberana de Deus, não porque são melhores do que os outros em Sua família, mas porque Deus propôs mostrar “a glória da Sua graça” e “as riquezas da Sua graça” perante o mundo (Ef 1:6-7; 2:7) e eles são simplesmente os troféus de Sua graça.
O versículo 40 também indica que os santos do Velho Testamento serão ressuscitados no mesmo momento que os santos do Novo Testamento que morreram em Cristo forem também ressuscitados. Ele diz: “para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados”. Ser “aperfeiçoado” refere-se ao nosso corpo sendo glorificado. Os santos de Deus ainda não foram aperfeiçoados dessa maneira (Fp 3:12), o que ocorrerá na vinda do Senhor – o Arrebatamento (Fp 3:20-21).
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DOIS MEIOS QUE DEUS USA PARA NOS ESTIMULAR A BUSCAR A CRISTO
Capítulo 12
As exortações práticas (os verbos na forma imperativa – “deixemos”) agora são retomadas. O escritor diz: “Portanto, nós também, pois, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço [peso – ARA] e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência [perseverança – AIBB], a carreira [corrida – JND] que nos está proposta, olhando para Jesus, Autor e Consumador [Líder e Completador – JND] da fé, O qual, pelo gozo que Lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-Se à destra do trono de Deus”. No capítulo 11, vimos vários elementos de fé exibidos na vida dos santos do Velho Testamento, mas agora no capítulo 12, o escritor volta nossa atenção para Alguém que é muito maior do que todos juntos – o próprio Cristo. É como uma pessoa passando por um museu de belas artes. Ele examina e aprecia as várias pinturas enquanto caminha pelos corredores, mas então ele se depara com a obra-prima que ultrapassa todas as outras. Da mesma forma, os santos do Velho Testamento exibiam certos aspectos admiráveis de fé, mas muitas vezes com alguma fraqueza e até mesmo falha. Mas quando chegamos a Cristo, vemos todos os aspectos da fé exibidos perfeitamente. Ele está colocado diante de nós neste capítulo como um Objeto para nossa fé e como um Exemplo para nossos pés em nosso caminho terreno.
Como os crentes hebreus corriam o risco de se cansar no caminho e afundar sob a pressão de suas provações, o escritor é levado pelo Espírito a falar de duas grandes coisas que Deus emprega para nos motivar a seguir a Cristo:
1) Somos atraídos pelo deslumbre de Cristo em glória (vs. 1-4).
2) Somos guiados pelas provações da vida que Deus usa como disciplinas no treinamento de Seus filhos (vs. 5-11).
Essas duas coisas podem ser distinguidas como: persuadir e abandonar. A primeira envolve nossas afeições e a segunda corrige nossos espíritos. Estas são coisas necessárias para o peregrino no caminho de fé.
Correr a Carreira com Perseverança
V. 1 – A exortação neste capítulo é “corramos, com paciência [perseverança – AIBB], a carreira que nos está proposta”. Assim, o caminho de fé é visto como uma “carreira [corrida – JND]” que devemos “correr com perseverança”. Correr implica energia espiritual e perseverança implica resistência. Estes são dois elementos necessários para uma corrida bem-sucedida. Se somos crentes no Senhor Jesus Cristo, estamos na corrida. No entanto, todos os que estão na corrida podem não estar correndo, devido à falta de energia e perseverança. Assim, todo Cristão precisa entender desde o início que o caminho de fé não é uma corrida de arrancada, mas uma corrida de longa distância que se prolonga pela duração de nossas vidas.
O escritor começa lembrando os crentes hebreus que eles estavam cercados por “uma grande nuvem de testemunhas”. Esses são os santos do Velho Testamento mencionados no capítulo 11. Eles não são testemunhas no sentido de espectadores. Ou seja, não estão no céu olhando para nós, observando o que estamos fazendo. Os santos que morreram e foram para o céu ainda não foram glorificados. Estão lá em suas almas e espíritos, mas não em seus corpos, os quais aguardam a ressurreição. Por isso, não veem o que está acontecendo na Terra (Jó 14:21; Ec 9:5). Os santos do Velho Testamento são testemunhas no sentido de que registram o fato de que uma pessoa pode viver com sucesso por fé na Terra com a aprovação de Deus. Estas testemunhas estão lá para nos encorajar pelo seu exemplo. Eles andaram no caminho de fé antes de nós e alcançaram o objetivo. Enfrentaram todos os tipos de oposição no caminho e por fé superaram esses obstáculos. Assim, elas são a prova de que o caminho de fé pode ser conduzido para a glória de Deus.
Como existem muitos obstáculos para a corrida, nos é dito para que “deixemos” tudo o que impede nosso progresso. Os dois principais obstáculos que o escritor menciona são: embaraços (impedimentos – TB) e pecados. Estes devem ser eliminados se quisermos correr a corrida com sucesso. Da mesma forma, quando um corredor se prepara para uma corrida a pé, ele se desfaz de tudo que é supérfluo que irá impedi-lo. Precisamos fazer o mesmo nesta corrida espiritual.
Um “embaraço” é algo que não é moralmente errado em si mesmo, mas, ainda assim, nos atrasa na corrida. O embaraço específico que o escritor provavelmente tinha em mente aqui é a armadilha da religião terrena no judaísmo. Mas poderia ser qualquer busca terrena que cativa a atenção de nosso coração e demanda nosso tempo e energia. Mesmo que tal coisa não seja pecaminosa, ela tende a nos distrair de Cristo em glória e trazer nossos pensamentos e mentes para a Terra. Seja o que for, precisa ser deixado de lado. Da mesma forma, um corredor não entra em uma corrida a pé com um pesado par de botas e uma mochila nas costas. Não é porque essas coisas são contra as regras da corrida, mas porque vão ser um embaraço a mais que irá atrapalhá-lo. Nota: remover embaraços em nossas vidas é algo que Deus não faz; é algo que Ele quer que nós mesmos façamos.
Podemos acrescentar que a exortação aqui é deixar de lado “todo” o embaraço, porque pode haver uma série de coisas em nossas vidas que nos sobrecarregam. Nossa tendência é poupar o objeto que nos é mais querido e deixar de lado qualquer outra coisa, e depois nos contentar em ter feito a vontade de Deus. Mas geralmente é a coisa mais querida para nós que é o embaraço maior em nossa vida e o que precisa ser tratado acima de tudo. Este exercício nos desafia e revela onde realmente estão nossas afeições. Visto que nossos corações são enganosos (Jr 17: 9), podemos sequer perceber que há um peso em nossa vida. Da mesma forma, uma pessoa pode não sentir um peso quando está sentada, mas quando se levanta e começa a correr fica evidente. Assim, a maneira mais simples de descobrir um peso em nossa vida é correr – para colocar energia em seguir a Cristo seriamente. Tem sido sugerido que existem três sinais indicadores que revelam a presença de um embaraço em nossa vida:
- Nós estamos inquietos sobre tal coisa e falta paz em relação a ela.
- Nós nos encontramos defendendo tal coisa e argumentando a favor dela quando surge em nossa conversa.
- Nós buscamos pessoas – particularmente os mais velhos, os chamados irmãos “espirituais” – esperando que nos digam que tal coisa não é errada.
O escritor também menciona que “pecado” deve ser posto de lado. O “pecado que tão de perto nos rodeia”, do qual ele fala aqui, não é um certo pecado constante que podemos ter, que com frequência nos derrota, mas o princípio do pecado (que é a iniquidade ou fazer a nossa vontade) em ação em nossa vida. Nada nos atrapalhará mais rapidamente do que a vontade própria; esta vontade deve ser julgada. O grande pecado na epístola aos Hebreus é a “incredulidade”, que se não for julgado por uma pessoa que é um mero professo, a levará à apostasia (Hb 3:12).
V. 2 – Para superar esses obstáculos e ter a energia necessária para conduzir a corrida com perseverança, o escritor nos aponta para Cristo em glória como o Objeto de nossa fé. Colocar de lado os embaraços e pecados não é suficiente para garantir o sucesso no caminho de fé. Embora tais exercícios sejam necessários, são coisas negativas que não sustentam o crente no caminho. A fé deve ter um objeto a ser buscado. Assim, o escritor diz: “Olhando para Jesus”. A nota de rodapé da Tradução JND diz: “Isto significa, desviar o olhar de outras coisas e fixar os olhos exclusivamente em Um”. Olhando para Cristo onde Ele está no alto preenche o coração com coisas que pertencem àquela esfera. Isto, por sua vez, age como um poder positivo em nossas vidas e nos estimula a buscar essas coisas, ao invés do que é meramente terrestre. Assim, enquanto os santos do Velho Testamento são um encorajamento para nós no caminho de fé, eles não são o nosso objetivo. Nota: ele não diz: “Olhe para as testemunhas”. Nós as temos como exemplos atrás de nós, mas Cristo é o Objeto que Deus coloca diante de nós para Quem devemos olhar. Nisto, temos uma vantagem distinta sobre os santos do Velho Testamento. Eles não tinham Cristo no alto como um objeto, como nós temos. Ele ainda não havia vindo em Seus dias e, portanto, não estava assentado à direita de Deus para que olhassem e O buscassem em fé.
Quanto a Cristo ser nosso Exemplo, Ele andou no caminho de fé perfeitamente, desde o início até o fim de Sua vida, e assim é verdadeiramente “o Autor e Consumador da fé”. O que O motivou no caminho foi “gozo que Lhe estava proposto”. Seu gozo era duplo: em primeiro lugar, era Seu gozo fazer a vontade de Deus para a glória de Deus (Sl 40:8; Jo 4:34). Isso Ele fez com perfeição. Como resultado, e como uma marca de Sua aprovação, Deus O ressuscitou dentre os mortos e O colocou à Sua própria mão direita (Sl 110:1; Fp 2:9-11). Em segundo lugar, o Senhor olhou para o momento em que Ele estaria unido à Igreja (Seu corpo e noiva), pela qual Ele Se entregou na morte (Ef 5:25-27), e isso também encheu Seu coração de gozo. Essa perspectiva O sustentou no caminho e permitiu que Ele suportasse “a cruz” e desprezasse a “afronta”. É improvável que o escritor estivesse se referindo à obra de Cristo na cruz para fazer expiação, porque O coloca diante de nós como nosso Exemplo, e certamente não podemos segui-Lo ao fazer expiação. Sua morte na cruz aqui está mais em conexão com Ele sendo o justo Mártir. Nisso Ele é o Exemplo de perseverança. Ele perseverou em obediência a Deus apesar de toda oposição e completou Seu percurso e agora “assentou-Se à destra do trono de Deus”.
Vs. 3-4 – O escritor diz: “Considerai, pois, aqu’Ele que suportou tais contradições dos pecadores contra Si mesmo, para que não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos. Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado”. Ele queria que contemplássemos as circunstâncias extremamente difíceis que o Senhor suportou nas mãos dos pecadores. Ele foi ao limite em fazer a vontade de Deus. Ele “resistiu até ao sangue”. Isto é, Se recusou a abandonar a vontade de Deus, e isso Lhe custou a vida! Ele preferiria morrer a desobedecer! Que Modelo é para nós!
Os crentes hebreus deviam “considerar” aqu’Ele que tanto suportou, porque ainda não tinham sido chamados para ir tão longe. Da mesma forma, seguindo o exemplo do Senhor, devemos viver e servir a Deus com o pensamento de agradá-Lo (Hb 13:21) e, um dia, ouvir o Senhor dizer: “Muito bem, servo bom e fiel ... entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25:21). Precisamos ter esse tipo de compromisso com a vontade de Deus, mesmo que isso signifique que nossa vida termine em martírio.
As Disciplinas de um Pai Amoroso
Vs. 5-11 – Os outros meios que Deus usa para manter nossos pés no caminho são as provações que encontramos na vida. As provações da vida são usadas por Ele para produzir um duplo efeito em nós; ambos têm em vista a glória de Deus e nossa bênção.
De um lado, Deus toma as provações da vida, e com maravilhosa sabedoria, amor e habilidade, as tece em Seu treinamento de nossos espíritos. Foi dito acertadamente que Deus tem mais a fazer em nós do que por meio de nós (em serviço). Ele usa as provações e as dificuldades para trazer à luz certos aspectos da carne que podem estar operando em nós dos quais não temos consciência. Assim, nos é dada a oportunidade de julgar essas coisas e, como resultado, tornar-nos “participantes da Sua santidade” (v. 10). Do outro lado, Deus usa as mesmas provações para nos conformar à imagem de Seu Filho (Rm 8:29). No ardor das provações, Ele produz semelhança de Cristo em nós. Assim, as características morais de Cristo – compaixão, ternura, mansidão, humildade, etc. – são formadas em nós.
Deus propôs-Se a encher o céu com pessoas que são exatamente como o Seu Filho, e assim este trabalho de conformidade moral é necessário. Como o escultor, a quem, na inauguração de uma das suas obras (uma estátua de um leão), foi perguntado como produziu uma obra de arte tão magnífica; ao que respondeu: “Eu apenas desbastei tudo o que não se parecia com um leão!” Similarmente, Deus está trabalhando em cada um de Seus filhos com a imagem de Seu Filho diante de Seus olhos, e está desbastando tudo o que neles não se assemelha a Seu Filho. Assim, os sofrimentos e as provações por que passamos no caminho estão sendo usados por Ele para remover as arestas e, às vezes, isso pode ser doloroso. Entretanto, se o produto acabado é que somos tornados mais semelhantes a Cristo, então esses sofrimentos que são “por um pouco”, valem a pena (1 Pe 5:10 – ARA).
O lado das coisas que está particularmente diante de nós neste capítulo é o primeiro – a remoção de coisas carnais em nossos espíritos e em nossos caminhos, por meio da qual, na prática, nos tornamos mais santos. Os que ensinam sobre a Bíblia chamam isto de “Santificação Prática ou Progressiva”. Precisamos ter em mente que estamos na escola de Deus e, como tal, estamos sob Seu treinamento divino – assim como um pai amoroso treina seu filho (Jó 36:22). Seu objetivo conosco é nos tornar companheiros adequados para o Seu Filho. Ele nos ama tanto que não nos deixará no estado moral do início quando nos salvou. Assim, Sua escola tem muito a ver com efetuar mudanças morais nos crentes. Além disso, Deus quer que nós participemos com Ele nesta obra. Se estivermos dispostos a cooperar e formos exercitados sobre nosso andar e caminhos, o processo será bem-sucedido.
Assim sendo, o escritor explica o propósito divino por trás desta obra. Ele diz: “E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, e não desmaies quando por Ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois, então, bastardos e não filhos. Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas Este, para nosso proveito, para sermos participantes da Sua santidade. E, na verdade, toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas, depois, produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (vs. 5-11). Assim, vemos que Deus está buscando produzir “o fruto pacífico da justiça (prática)” em nós.
Duas Maneiras de Não Reagir
V. 5 – Ele começa falando de duas maneiras pelas quais não devemos reagir quando uma provação entra em nossas vidas, pois se reagirmos erroneamente, não nos beneficiaremos dela. Em primeiro lugar temos: “não desprezes” (v. 5a). Isso se refere a menosprezar a dificuldade e reputá-la como sendo nada. Podemos dar de ombros ao julgamento e dizer: “Isso acontece com muitas pessoas; não é grande coisa”, mas ao fazer isso, perderemos o que Deus tem para nós. Então, em segundo lugar temos: “não desmaies” sob ela (v. 5b). Isso se refere a ficar abatido e de coração carregado e, consequentemente, desistir. Essa reação muitas vezes resultará em reclamações, o que, em essência, está questionando a sabedoria dos caminhos de Deus conosco – e isso nunca é uma coisa boa.
As Ações Corretivas de Deus
V. 6 – Deus usa tanto castigo quanto açoite em Seu treinamento divino. Estas são coisas ligeiramente diferentes. O castigo é uma correção relacionada à remoção de falhas de caráter que podemos ter; não tem a ver com nenhum pecado em particular em nossa vida. O açoite, por outro lado, é uma correção ligada a pecados evidentes com os quais podemos estar seguindo nossa própria vontade. É um julgamento governamental direto que Deus designa para nos levar ao arrependimento, que, se alcançado, pode ser suspenso. (Ver Collected Writings de J. N. Darby, vol. 26, págs. 261-262).
Três Coisas Necessárias para Tirar Proveito das Provações
Vs. 6-11 – O escritor passa a tocar em três coisas que são necessárias para tirarmos “proveito” de nossas provações. Em primeiro lugar, precisamos entender que o amor divino está por trás de tudo que entra em nossas vidas. Por isso, ele diz: “porque o Senhor corrige o que ama” (v. 6). Nunca nos esqueçamos de que a mão que segura a vara de correção tem a marca do prego que a traspassou! Podemos não entender o porquê e o para quê do que está acontecendo em nossa vida, mas podemos ter certeza de que a mão que castiga é movida por um coração que ama. Verdadeiramente Deus tem o nosso bem em vista em tudo o que Ele permite em nossas vidas, pois “o caminho de Deus é perfeito” (Sl 18:30). Podemos ter certeza, portanto, de que Ele não cometeu um erro naquilo que permitiu que acontecesse conosco. Sem essa confiança em Deus, é improvável que tiremos qualquer proveito de nossas provações.
Em segundo lugar, ele diz que precisamos estar em sujeição “ao Pai dos espíritos” (v. 9). Isso se refere a um espírito de submissão que se curva sob a poderosa mão que tem “ordenado” a provação em nossa vida (Jó 23:14). É uma disposição da nossa parte que permite que Ele faça a Sua obra em nós, como argila na mão de um oleiro. Ter um espírito submisso é nossa maneira de reconhecer que Sua sabedoria e Seus caminhos conosco são corretos e bons, e que aceitamos que Ele sabe o que é melhor para nós. Lutar contra uma provação manifesta um espírito não julgado que não se beneficia da provação. Nota: Ele é chamado de “o Pai dos espíritos”. Isso significa que é o Divino Instrutor de nossos espíritos e, como tal, está buscando formar um espírito correto em nós. Isso mostra que não está apenas interessado no que fazemos, no que diz respeito ao certo ou ao errado; Ele também está interessado em nossa atitude. Isso é o que vemos em Daniel – ele tinha “um excelente espírito” (Dn 5:12, 6:3).
Em terceiro lugar, precisamos ser “exercitados” sobre o que acontece em nossa vida. Quando uma provação vem em nossa direção, não devemos dizer: “Como posso me tirar disso?” Mas sim: “O que posso tirar disso?”. Em tempos de provações, precisamos examinar nossos corações e rever nossas vidas, pedindo ao Senhor que nos mostre o que Ele está tentando nos ensinar (v. 11). Eliú encorajou Jó a fazer isso em sua provação. Suplicou-lhe que dissesse ao Senhor: “o que não vejo, ensina-mo Tu; se fiz alguma maldade, nunca mais a hei de fazer?” (Jó 34:32). Se o Senhor nos mostra algo em nossas vidas que é inconsistente com a Sua santidade, devemos julgar isso e continuar (1 Co 11:31). Desta forma, nos tornamos “participantes da Sua santidade” (v. 10).
Encorajamento para Prosseguir no Caminho de Fé
Vs. 12-15 – Com Cristo diante de nossas almas (vs. 1-4) e Deus trabalhando para o nosso bem nos bastidores de tudo o que ocorre em nossas vidas (vs. 5-11), o escritor continua a dar alguns simples incentivos para acompanhar as observações anteriores. Ele diz: “Portanto, levantai as mãos cansadas e os joelhos vacilantes” (AIBB). As mãos cansadas e os joelhos vacilantes são uma descrição de alguém desencorajado. Este era evidentemente o estado de alguns dos santos hebreus naquele tempo. Seu remédio é simples; levante as mãos que estão cansadas. Levantando “mãos” (figurativamente falando) tem a ver com a oração (1 Tm 2:8). “Joelhos” também estão associados com a oração (At 9:40, 20:36, 21:5; Ef 3:14). Por isso, ele os encoraja a orar. Tiago fala da mesma forma: “Está alguém entre vós aflito? Ore” (Tg 5:13). Entrar na presença de Deus dessa maneira revitaliza nosso poder espiritual e nos ajuda a vencer o desencorajamento. Em Sua presença, recarregamos nossas baterias espirituais e obtemos energia renovada para continuar no caminho.
V. 13 – Então ele diz: “e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja se não desvie inteiramente; antes, seja sarado”. Isso mostra que, em momentos de desencorajamento, precisamos ter um cuidado especial com o que fazemos e para onde vamos, porque, se nossos pés vagarem, mesmo que seja um pouquinho, nosso mau exemplo pode levar outros a tropeçar. Assim, precisamos manter nossos pés no caminho mais agora do que nunca. Não podemos fazer “veredas direitas” para os pés de outras pessoas, mas podemos cuidar aonde nossos pés vão e, assim, ter cuidado para não desencorajar os outros. Evidentemente, havia alguns entre esses crentes hebreus que estavam claramente tendo dificuldades em sua caminhada, a quem denomina de coxo (“o que manqueja”, figurativamente falando). Estes eram especialmente vulneráveis. Seu desejo por eles era que não saíssem do caminho, mas, em vez disso, fossem sarados. Se os mais fortes andassem em um caminho reto, após o Senhor Jesus, seriam um encorajamento para os mais fracos, e talvez pudessem conduzi-los à cura.
V. 14 – Deveriam seguir “a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (v. 14). Isso, novamente, é santificação prática. O contexto do capítulo 12 indica que, na maneira como fala disso aqui, ver o Senhor é com os olhos da fé, como mencionado no versículo 2. (Veja também o capítulo 2:9). Portanto, se não tivermos o cuidado de seguir santidade prática em nossas vidas, perderemos a visão de Cristo no alto e certamente nos desviaremos em nossas almas. A santificação prática é uma das três coisas indispensáveis mencionadas na epístola. Elas são:
- Sem “sangue” não há remissão de pecados (cap. 9:22).
- Sem “fé” é impossível agradar a Deus (cap. 11:6).
- Sem “santificação” nenhum homem verá o Senhor (cap. 12:14).
Nota: “paz” e “santidade” são encontradas juntas no versículo 14. Se estiverem separadas, será uma paz falsa, porque não podemos (corretamente) ter paz à custa da santidade.
V. 15 – Ele acrescenta: “tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem”. Isso mostra que se perdermos o gozo das coisas que a graça de Deus nos trouxe, e entrarmos em mau estado de alma, provavelmente iremos causar problemas, espalhando nossa infelicidade entre nossos irmãos. Uma “raiz de amargura” é alguma queixa ou insatisfação que cresce subterraneamente (por assim dizer) na alma de uma pessoa. Mas depois de algum tempo, vem à tona e afeta os outros. Uma pessoa que é amarga desta maneira geralmente irá procurar por aqueles que são de um espírito semelhante, e derramará suas queixas sobre eles. O resultado é que “muitos” são contaminados. Judas Iscariotes é um exemplo disso. Sua queixa de Maria ungir o Senhor com meio quilo de nardo (por achar que era um desperdício) foi uma raiz de amargura que afetou os outros apóstolos, que se deixaram levar por isso, criticando-a também (Jo 12:3-8). Assim sendo, o escritor aconselha os crentes hebreus a observarem diligentemente contra tal coisa brotando no meio deles e tomando cuidado para não se deixarem influenciar por ela.
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