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As Epístolas de Paulo a Tito e Filemom

VERDADE E PIEDADE NOS ANCIÃOS DA ASSEMBLEIA Capítulo 1

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 5 de 18

VERDADE E PIEDADE NOS ANCIÃOS DA ASSEMBLEIA
Capítulo 1

A Saudação

Vs. 1-4 – Paulo se apresenta como um “servo [escravo – ARA] de Deus” e um “apóstolo de Jesus Cristo”. Essa é a única epístola na qual ele se apresenta como um servo de Deus; ele geralmente fala de si mesmo como um servo de Cristo. Independentemente de qual seja, nem o Senhor Jesus, nem Deus, o Pai ordenou que alguém fosse Seu servo. É algo que o crente escolhe por sua própria vontade quando percebe que foi “comprado por bom preço” (1 Co 6:20, 7:23). O processo de exercício espiritual que leva o crente a essa entrega vem por meio do refletir no que Cristo sofreu na cruz para nos redimir e tornar cada um de nós um homem “livre” (1 Co 7:22a). Ele levou nossos pecados e o juízo deles em Seu próprio corpo no madeiro (1 Pe 2:24), e por meio de Seus sofrimentos expiatórios (Jo 18:11), fomos libertados do juízo que merecíamos. Quando temos consciência do custo da nossa liberdade, resolvemos não mais usar nossa liberdade para buscar nossos próprios interesses, mas para promover os interesses de Cristo. Voluntariamente nos alistamos no serviço de Cristo como Seu “servo [escravo – ARA]” (1 Co 7:22b). Este é puramente um exercício individual e uma decisão que uma pessoa toma por si mesma – ninguém pode fazer isso por ela. Ao afirmar que ele era “um servo de Deus”, Paulo estava indicando que havia passado por esse exercício e estava, com alegria, se colocando nas mãos de Deus para ser usado em Seu serviço da maneira que Ele desejasse.

Como “apóstolo de Jesus Cristo”, Paulo recebeu autoridade do Senhor e foi por Ele enviado a fazer uma obra por Ele (Mt 10:1, 5; 1 Cor 1:17). Um “servo” é alguém sob autoridade e um “apóstolo” é alguém com autoridade. Ele enfatiza seu apostolado aqui porque foi com isso que ele autorizou Tito a estabelecer anciãos em Creta. Se surgisse alguma dúvida entre os santos de lá, Tito poderia apresentar essa carta como prova.

Paulo continua sua saudação inicial afirmando que seu chamado e serviço eram “segundo a fé dos eleitos de Deus e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade”. O que caracterizou seu apostolado foi a verdade distinta relacionada ao Cristianismo. A “fé dos eleitos de Deus” refere-se à fé pessoal no coração dos verdadeiros crentes – os eleitos. Ela os traz a um relacionamento vivo com Deus e a possuir as verdades distintivas que marcam o Cristianismo. Por isso, Paulo acrescenta: “e o conhecimento da verdade”. J. N. Darby disse: “É um relacionamento pessoal com o próprio Deus; portanto, é a fé dos eleitos de Deus. Por isso, também é para todos os gentios, bem como para os judeus. Essa fé dos eleitos de Deus tem um caráter íntimo em relação ao próprio Deus. Ela repousa n’Ele; ela conhece o segredo de Seus conselhos eternos – aquele amor que fez dos eleitos o objeto de Seus conselhos. Mas há outra característica relacionada a ela, a saber, a confissão diante dos homens. Existe a verdade revelada pela qual Deus Se faz conhecido... Existe no coração a fé dos eleitos, a fé pessoal em Deus e no segredo do Seu amor; e há a confissão da verdade”. (Synopsis of the Books of the Bible, edição Loizeaux, vol. 5, págs. 239-240).

O argumento apresentado aqui é que o efeito prático da verdade do Cristianismo no coração de uma pessoa produz piedade1 em sua vida. Portanto, Paulo diz que o conhecimento da revelação Cristã da verdade é “segundo a piedade”. Isso mostra que verdade e piedade caminham juntas. Ser sadio na doutrina nunca é considerado pelo apóstolo como um fim em si mesmo; a verdade recebida tem em vista um efeito prático de piedade na vida do crente. Essas duas coisas se complementam. Paulo enfatiza repetidamente a sã doutrina nesta epístola, com o objetivo de produzir vida santa nos santos.

(Vs. 2-3) – Paulo acrescenta: “Em esperança da vida eterna2, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos: Mas a Seu tempo manifestou a Sua Palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador”. Isso mostra que a recepção da verdade do Cristianismo coloca o crente na esperança de coisas mais excelentes ainda por vir. “Em esperança da vida eterna2” não significa que esperamos ter essa vida e que não saberemos se a temos ou não até estarmos diante do trono de Deus no último dia. Esse é um erro católico romano que rouba o crente da certeza de sua salvação e da paz que Deus deseja que ele tenha. Isso nega as afirmações claras da Escritura que declara nossa segurança eterna (Jo 10:28-29, etc.) Na Bíblia, “esperança” não é usada da mesma maneira em que é usada no português moderno. Usamos a palavra em nossos dias para nos referir a algo que gostaríamos que acontecesse, mas não temos garantia de que acontecerá. Na Bíblia, esperança é uma certeza adiada. É algo que definitivamente vai acontecer – apenas não sabemos quando. Há expectativa com certeza relacionada a ela.

Em Romanos 5:2, Paulo fala da “esperança da glória de Deus”, que se refere à futura glorificação do crente na vinda do Senhor (o Arrebatamento). É algo que o crente aguarda com certeza. Esse fim glorioso de estar com Cristo e ser como Ele em um estado glorificado é a esperança do Cristão. Quando no princípio cremos no evangelho e recebemos o Senhor Jesus Cristo como nosso Salvador, fomos colocados na esperança de nossa final glorificação. Paulo se refere a isso em Romanos 8:24, afirmando que “em esperança fomos salvos”. Ou seja, somos salvos em esperança ou em vista do estado completo e final de glorificação que ainda está por vir (1 Co 15:49; Fp 3:21; 1 Jo 3:2).

Aqui em Tito 1:2, nossa esperança tem em vista a “vida eterna2”. Isso vai além da glorificação mencionada em Romanos 5:2, para estar lá no céu naquele estado glorificado desfrutando de comunhão com o Pai e o Filho! Para entender isso corretamente, precisamos entender que, em conexão com os Cristãos, existem dois aspectos dessa vida mais abundante: Primeiro, refere-se à vida divina no crente como uma possessão presente, pela qual ele desfruta de comunhão consciente com o Pai e o Filho (Jo 17:3) por meio da habitação do Espírito Santo (Jo 4:14). Esse aspecto é encontrado nos escritos de João (Jo 3:15-16, 36, etc.). Segundo, é vista como a esfera da vida para a qual o crente está se dirigindo em sua jornada ao céu. Portanto, também existe um aspecto futuro. Esta é a maneira pela qual Paulo e Judas falam sobre a vida eterna (Rm 2:7, 5:21, 6:22, 23; Gl 6:8; 1 Tm 1:16, 6:12, 19; Tt 1:2, 3:7; Jd 21). Nesse sentido futuro, a vida eterna é vista como um ambiente de vida espiritual, onde tudo é luz, amor e justiça, e onde a comunhão com o Pai e o Filho é desfrutada em sua plenitude. Portanto, o primeiro aspecto tem a ver com a vida que habita em nós, e o segundo é a vida na qual um dia iremos habitar.

Usamos a palavra “vida” nessas duas maneiras em nossa linguagem no dia a dia. Podemos falar de uma planta, um animal ou um ser humano como tendo vida neles. Mas também falamos da vida como um elemento ou esfera em que uma pessoa pode habitar – por exemplo, “vida no campo”, “vida na cidade”, “vida na assembleia” etc. Assim, podemos desfrutar a vida eterna agora pelo Espírito, mas então habitaremos nessa esfera da vida em seu sentido mais pleno quando formos glorificados. Esses dois aspectos da vida foram ilustrados em um mergulhador do fundo do mar. Ele trabalha debaixo d’água, mas respira ar por meio de um tubo, o que o mantém vivo. É como o crente que possui a possessão presente da vida eterna. Vivendo neste mundo, vivemos, nos movemos e temos nosso ser em um elemento ao qual não somos naturalmente adequados, pois pertencemos à nova criação e somos pessoas celestiais. Assim, não somos do mundo, mas somos sustentados pelo nosso “tubo” da comunhão com o Pai e o Filho enquanto estamos no mundo. Quando o trabalho do mergulhador é concluído, sai da água para o elemento que lhe é natural e, retirando o capacete e o traje de mergulho, respira o ar sem esse aparelho. Da mesma forma, quando nosso trabalho for completado aqui na Terra e formos levados para casa no céu, estaremos na esfera da vida eterna para a qual estaremos perfeitamente adequados.

Portanto, ao afirmar que o que temos em Cristo é “em esperança da vida eterna2”, Paulo está indicando que nosso destino não é apenas ser glorificado, mas ser encontrado como tal em plena comunhão com o Pai e o Filho no céu – que é a essência dessa vida. Isso é algo que Deus “prometeu antes dos tempos dos séculos”. Isso mostra que a vida eterna estava nos pensamentos de Deus antes de Ele criar o mundo. Parece que a comunhão das Pessoas divinas na eternidade passada era tão doce e preciosa que Deus queria que outros experimentassem esse gozo também. Então, Ele prometeu que, no “tempo próprio” (AIBB) (tempos Cristãos), quando feita a expiação e o Espírito Santo concedido, os crentes no Senhor Jesus Cristo teriam essa oportunidade (1 Jo 1:3).

A possessão presente desta vida pode ser referida como “vida eterna” e o aspecto futuro como “vida eterna2”. Somos gratos à tradução de J. N. Darby3 que distingue essas coisas – embora ele negligencie observar a vida eterna como tal em 1 Jo 3:15, 5:11, 13, 20. No entanto, a tradução de Kelly distingue.

A Missão de Paulo

A manifestação da revelação especial da verdade Cristã havia sido “confiada” a Paulo por “Deus, nosso Salvador”. Depois de receber essa comissão, ele usou toda a sua energia para proclamá-la. É significativo como ele usa o termo “Salvador” nesta epístola; aplica a Deus e ao Senhor Jesus, enfatizando assim a deidade do Senhor.

Paulo enfatiza seu apostolado aqui porque foi como apóstolo que oficialmente autorizou Tito a nomear anciãos. Isso mostra que Paulo não estava apenas escrevendo uma carta pessoal para Tito; era um documento oficial que Tito poderia apresentar aos santos de Creta, mostrando de onde vinha sua autoridade para nomear anciãos. Ele poderia então agir como delegado de Paulo entre eles, sem que houvesse dúvida da autoridade com que estava investido.

Ordenando Anciãos

V. 5 – A primeira responsabilidade de Tito era estabelecer uma liderança forte em cada uma das assembleias em Creta, nomeando homens que tivessem peso moral para liderar os santos no caminho da justiça e que defenderiam a verdade quando confrontados com ataques. Paulo diz: “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei”. Tito deveria fazer isso, não escolhendo amigos e partidários que ele favorecia, mas reconhecendo aqueles a quem Deus havia levantado pelo Espírito Santo e designar a esses (At 20:28). Assim, a escolha dos homens para liderar nessas assembleias não era de Tito, mas de Deus. Ele conheceria esses homens por suas qualificações morais (1 Tm 3:1-7; Tt 1:5-9) e pelo trabalho que eles estavam fazendo para se dedicar aos cuidados dos santos e ministrar para eles (1 Co 16:15-16; 1 Ts 5:12-13; 1 Tm 5:17).

Visto que havia uma forte oposição de um certo conteúdo judaizante entre os cretenses (cap. 1:10-11), esses homens precisavam ser colocados naquele cargo por nomeação oficial, para que não houvesse dúvida sobre a liderança deles na assembleia. Como mencionado na Introdução, isso é algo que não pode ser feito hoje simplesmente porque não há apóstolos ou delegados de um apóstolo na Terra para fazê-lo. Mas ainda podemos reconhecer aqueles que são moral e espiritualmente qualificados para liderar os santos e seguir sua orientação. Ao fazermos isso, a mesma coisa será realizada de forma não oficial.

Parece que Paulo foi chamado abruptamente de Creta e, ao sair, deixou trabalho por fazer. Ele não declara porque saiu, mas encarregou Tito de concluir esse trabalho em sua ausência. A delegação de Paulo a Tito não prova que exista algo como Sucessão Apostólica – outro erro católico romano. A tarefa dada a Tito pelo apóstolo Paulo foi para um determinado lugar e por um determinado tempo. Ele não tinha ordens de Paulo para levar essa autoridade a outro lugar ou transmiti-la a outras pessoas.

As Qualificações dos Anciãos

Vs. 6-9 – Paulo passa a esboçar as qualidades morais e espirituais que um ancião deve ter. Antes de examinar essas coisas, seria bom observarmos que Paulo usa as palavras “anciãos” (AIBB) e “presbíteros [bispos]” de forma intercambiável aqui. (Compare também At 20:17 com At 20:28 e 1 Pe 5:1 – JND com 1 Pe 5:2 – JND). Isso mostra que esses termos se referem ao mesmo cargo. Quando “ancião” é usado, enfatiza a maturidade e a experiência que o homem deve ter; quando “presbíteros [bispos]” é usado, está se referindo ao trabalho que ele faz ao supervisionar e cuidar do rebanho. Paulo então declara os requisitos morais necessários de um ancião/presbítero:

SUA VIDA PÚBLICA

Quanto à sua vida pública diante do mundo (v. 6a), ele deveria ser “irrepreensível [livre de toda acusação contra ele – JND]” (1 Tm 3:7).

SUA VIDA FAMILIAR

Quanto à vida em família (v. 6b), ele deveria ser “marido de uma mulher”. Ou seja, ele não deveria ser um polígamo. Um polígamo poderia ser salvo pela graça de Deus e estar à mesa do Senhor, mas ter mais de uma esposa o excluiria deste trabalho na assembleia. Seus múltiplos casamentos não representariam adequadamente a ordem moral que Deus instituiu na criação a respeito do casamento (Mc 10:6-9). Nem refletiria o modelo de Cristo e da Igreja (Ef 5:24-32). Ele também deveria ter “filhos crentes não acusados de falta de limites ou rebeldia” (JND). Assim, ele deveria ter uma família que cresse no evangelho e que seguisse o caminho da fé Cristã de maneira ordenada.

SUA VIDA EM ASSEMBLEIA

Quanto à sua vida na assembleia (vs. 7-9), ele deveria ser “irrepreensível [livre de toda acusação contra ele – JND]” entre seus irmãos. Se os santos devem respeitá-lo como “despenseiro da casa de Deus”, eles devem, necessariamente, ver piedade e consistência em sua vida.

Se ele deve realizar seu trabalho de supervisão de forma bem sucedida, ele não deve ser caracterizado pelos seguintes traços negativos: “soberbo [cabeça dura – JND]”, “iracundo [impetuoso – JND]”, “nem dado ao vinho”, “nem espancador [violento – ARA]” e “nem cobiçoso de torpe ganância [visando ganho por meios desonestos – JND]”. Assim, ele não deve ser dominador, ou ter mau temperamento, ou gostar de álcool, ou ser violento ou comprometer princípios para ganhar dinheiro.

Quanto aos traços positivos, um ancião/presbítero deve ser: “dado à hospitalidade”, “amigo do bem”, “moderado”, “justo”, “santo [piedoso – AIBB]” e “temperante”. Assim, seu lar deve ser aberto aos santos (Rm 12:13), ele deve se envolver pessoalmente com coisas boas e proveitosas (cap. 3:14) e se portar com dignidade e sobriedade em todos os assuntos (Ec 10:1). Ele também deve ser marcado pela justiça, piedade e controle próprio.

Por fim, mas não menos importante, ele também deve manter firme “a fiel Palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar [encorajar – JND] com a sã doutrina, como para convencer [refutar – JND] os contradizentes” (v. 9). Isso mostra que um ancião/presbítero deve conhecer a verdade e ter “um conhecimento prático” da Palavra de Deus, para poder “refutar” (JND) aqueles que se opõem a ela (1 Tm 3:2 – “apto a ensinar”). Nota: ele deve refutar os opositores, não por argumentos inteligentes fundamentados em inteligência humana, mas “pela sã doutrina” (2 Tm 2:14-15).

Observe também: nada é dito aqui (ou em qualquer outro lugar na Escritura) sobre a eloquência de um ancião, sua educação secular, sua perspicácia nos negócios ou seu status social na vida. Os Cristãos mundanos podem fazer muitas dessas coisas, pensando que são qualidades necessárias para um líder, mas essas coisas não são o que tornam um ancião/presbítero capaz. De fato, o sucesso nas coisas seculares pode ministrar ao orgulho de uma pessoa e dar a ele uma falsa sensação de importância. Sua capacidade como ancião não é medida pelo seu sucesso nos negócios, mas por sua espiritualidade e sabedoria prática.

Mestres Judaizantes

Vs. 10-13a – Paulo passa a falar da oposição que Tito e os santos de Creta enfrentaram. Ele diz: “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância. Um deles, seu próprio profeta, disse: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres [glutões – AIBB] preguiçosos. Este testemunho é verdadeiro”. A necessidade de verdade e piedade na assembleia era óbvia; homens carnais estavam agindo mal entre os santos por seus próprios interesses egoístas. Eles eram faladores e enganadores indisciplinados e vaidosos que se apresentavam como mestres, mas, na realidade, estavam levando os santos à escravidão legal e ao erro. Foi, de modo geral, o trabalho de um elemento dos mestres judaizantes, que Paulo chama de “a circuncisão”. Enquanto professava um zelo pela Lei e pela santidade cerimonial, seu verdadeiro motivo era o ganho vil (“torpe ganância”). O que eles estavam realmente fazendo era defraudar os santos! Paulo diz que convinha “tapar a boca” dos tais porque estavam “ensinando o que não convém”. Esses homens definitivamente precisavam ser silenciados.

Juntamente com o problema dos maus ensinamentos, os cretenses eram marcados por certos traços nacionais indesejáveis que eles carregavam em sua vida Cristã desde seus dias de não convertidos. Para comprovar isso, Paulo cita um de seus próprios profetas – Epimênides, que viveu no século VI a.C. (Ver Concise Bible Dictionary, pág. 777.) Ele disse que os cretenses sempre eram “mentirosos”, “bestas ruins” e “glutões preguiçosos”. Paulo diz: “Este testemunho é verdadeiro”. Ele não diz que esse homem era um profeta de Deus, mas um “seu próprio” profeta. Isso mostra que os falsos profetas podem falar coisas corretas quando servem ao propósito deles. Ele cita o profeta para mostrar que o caráter dos cretenses era famoso. Mesmo aqueles que não eram salvos podiam ver! Esses cretenses eram verdadeiros crentes, mas não se preocupavam com o seu andar e modos como Cristãos. Talvez eles pensassem que isso não importava. É triste dizer que hoje existem muitos como eles na profissão Cristã. Desnecessário dizer que seu caráter nacional, que eles deveriam ter renunciado quando foram salvos, teve um efeito negativo em seu testemunho Cristão diante do mundo.

Os crentes de Creta são um excelente exemplo de como o caráter nacional e a cultura natural podem entrar na assembleia. Certos comportamentos particulares não Cristãos podem se manifestar na vida de um crente, e às vezes isso é desculpado dizendo: “É a cultura deles” – como se fosse algo tolerado por causa da história de uma pessoa. Pode muito bem ser uma característica de sua cultura nacional, mas isso não justifica sua presença entre os santos na assembleia. Se esse comportamento não estiver de acordo com os padrões e modos morais de Deus, não terá lugar na vida de um Cristão. Não é para ser desculpado, mas antes julgado como não característico de um Cristão. Quando uma pessoa é salva, deve haver uma “regeneração” de caráter moral em sua vida, que é parte integrante da salvação de sua alma (cap. 3:5). Os hábitos e modos anteriores de nossa vida antiga devem ser lavados, e os padrões de Deus e os modos morais de comportamento adotados como nosso ideal. Infelizmente, essa regeneração moral estava ausente entre os santos de Creta.

O Remédio

Vs. 13b-14 – Paulo diz que a resposta para esses faladores indisciplinados e vaidosos foi para que eles fossem repreendidos “severamente, para que sejam sãos na fé”. O fato de Paulo dizer que eles poderiam ser corrigidos e tornados sãos na fé mostra que alguns desses mestres judaizantes poderiam ser verdadeiros crentes, mas estavam terrivelmente confusos. Um Cristão sério pode ser corrigido, mas o homem natural que não tem vida divina não pode ser corrigido (Jo 8:43; 1 Co 2:14). Aqueles que tinham vida precisavam de correção, não de excomunhão. Eles não deviam dar “ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens”; tais noções apenas confundem as pessoas e as “desviam da verdade”.

Vs. 15-16 – Paulo passa a falar dos mestres judaizantes que não eram crentes verdadeiros. Ele diz: “Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis: antes o seu entendimento e consciência estão contaminados. Confessam que conhecem a Deus, mas negam-No com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados [inúteis – JND] para toda a boa obra”. Essa observação sobre todas as coisas serem “puras” para “os puros” tem sido frequentemente mal utilizada e usada para significar que as coisas que são ímpias podem ser usadas pelos crentes e eles não serão contaminados por isso, se sua mente for santa. Isto é falso. Certamente os Cristãos ficarão contaminados por coisas profanas. É por isso que Paulo disse aos filipenses que buscassem tudo que era “amável” e “puro” etc. (Fp 4:8). O que ele está falando aqui é que, como os puros (verdadeiros crentes) se deleitam com a pureza, os profanos (incrédulos) também se deleitam com o que é impuro, porque “seu entendimento e consciência estão contaminados”. Seus processos mentais são depravados; portanto, seus pensamentos seguem linhas carnais, e deleitam-se com isso. O argumento de Paulo aqui levanta a questão: “Como essas pessoas poderiam estar em condições de liderar os santos na ‘verdade, que é segundo a piedade’?” (cap. 1:1) Não é possível.

Esses enganadores precisavam ser identificados como tais e expostos. Eles seriam conhecidos por suas ações, pois a prática deles não combinaria com o que professavam. “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-No com as obras”. Paulo não diz a Tito para corrigi-los, como faz com os do versículo 13. Isso ocorre porque eram infiéis que eram “abomináveis e desobedientes”. Eles eram incorrigíveis e “reprovados”. Algumas traduções interpretam os réprobos como “desqualificados” (NVI). Por suas más doutrinas e más práticas, eles realmente se desqualificaram de ter algum lugar na assembleia.