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As Epístolas de Paulo a Tito e Filemom

VERDADE E PIEDADE NOS SANTOS Capítulo 2

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 6 de 18

VERDADE E PIEDADE NOS SANTOS
Capítulo 2

Paulo passa a falar aos, por assim dizer, santos “comuns” na assembleia, que seriam aqueles sob os cuidados dos anciãos mencionados no capítulo 1. Vemos neste segundo capítulo que verdade e piedade são coisas que devem não apenas caracterizar os anciãos/presbíteros na assembleia, mas todos os santos – do mais velho ao mais novo. Visto que o Cristianismo não é apenas a verdade contida em nossa mente, mas algo que deve ser trabalhado na prática em todos os nossos relacionamentos na vida, Paulo passa a apresentar diante de Tito a conduta que deve ser esperada dos santos.

V. 1 – Ele diz: “fala o que convém à sã doutrina” Assim, existem certas “coisas” que “convém” (ou se ajustam adequadamente) à sã doutrina que Tito deveria enfatizar em seu ministério. Como mencionado, essas seriam coisas práticas que têm a ver com nossa caminhada e modos. O fim que Paulo tinha em vista era que os santos fossem marcados por boas obras (v. 14). A ordem aqui não é tanto para Tito ensinar publicamente essas coisas práticas na assembleia, embora certamente haja um lugar para isso, mas comunicar essas coisas aos santos em nível pessoal. Por isso, Paulo diz: “Tu, porém, fala...”, o que implica um nível de comunicação interativo. Vemos a partir disso que o trabalho de Tito foi em grande parte de caráter pastoral. Uma grande parte do trabalho de um pastor é falar com os santos frente a frente. Isso mostra que o ministério público não é, por si só, suficiente para atender a todas as necessidades que surgem entre o povo de Deus. Muita instrução prática é melhor transmitida pessoalmente.

Neste capítulo, Paulo examina as várias classes de pessoas que compõem uma assembleia normal e dá a Tito um breve resumo do que se espera de cada uma delas quanto ao seu comportamento. Essas coisas são tão aplicáveis a nós em nossos dias como eram para aqueles naquele dia.

OS VELHOS (v. 2)

Eram homens que tinham idade avançada, mas não eram anciãos/presbíteros – pois nem todos os homens mais velhos se qualificam ou aspiram a esse trabalho. Embora esses homens não estivessem no cargo de anciãos/presbíteros, a vida deles ainda deveria ser governada pela verdade e piedade. Paulo diz que eles deveriam ser “sóbrios, graves (sérios), prudentes [discretos – JND], sãos na fé [são em fé – JND], na caridade [amor – JND], na paciência [perseverança – TB]”. Ser “sóbrio” é ter uma visão adequada da vida e, assim, usar o tempo com sabedoria (Sl 90:12). Isto é especialmente verdade para uma pessoa idosa que não tem muito desse bem precioso. “Grave” é se portar com dignidade. Isso não significa que ele seja severo e mal-humorado. Ser “prudente” é ter controle próprio em todas as coisas. “São em fé” é ter uma confiança saudável e pessoal em Deus. Isso não é o mesmo que ser “são na fé” (cap. 1:13), que tem a ver com o entendimento sadio do conjunto da doutrina Cristã que nos foi entregue para guardar (Jd 3; 2 Tm 1:14). (Como regra, quando o artigo definido “a” está no texto em conexão com “fé”, está se referindo à revelação Cristã da verdade e, quando está ausente, está se referindo à energia interior da confiança da alma em Deus). Além disso, esses homens mais velhos deveriam ter um “amor” genuíno por todos os santos. Eles também deveriam ter “resistência” nas circunstâncias difíceis da vida. Isso incluiria os testes de suportar enfermidades em seu corpo, que ocorrem em seus anos em declínio. Eles deveriam suportar essas provações, em vez de reclamar delas e, assim, ser modelos para o rebanho.

AS VELHAS (vs. 3-5)

As irmãs mais velhas, “semelhantemente”, deveriam ter “comportamento como convém àquelas que dão testemunho das coisas sagradas” (JND). Como nos homens mais velhos, as irmãs mais velhas deveriam ser modelos em seu comportamento. Elas deveriam ter o controle de duas coisas em particular que certamente teriam um impacto negativo em seu testemunho e trabalho pessoal – suas línguas e seus apetites. Elas não deveriam ser “caluniadoras” e não deveriam ser “dadas a muito vinho”. Essas coisas podem muito bem ter caracterizado a vida delas quando não eram convertidas – sendo que os cretenses eram caracteristicamente mentirosos (a língua) e glutões preguiçosos (o apetite) – mas essas coisas não tinham lugar na vida delas como Cristãs. A indulgência própria4 é inadequada para os Cristãos, e especialmente para as irmãs mais velhas; deveria ser substituída por serem “mestras do que é correto” (JND).

Tendo abordado o caráter que deve marcar as mulheres idosas no versículo 3, Paulo descreve o trabalho que elas devem fazer ao ensinar as irmãs mais novas nos versículos 4-5. Esse é em grande parte um “ministério ausente” na Igreja hoje.

AS JOVENS (vs. 4-5)

Vale ressaltar que, quando Paulo segue em suas instruções para as irmãs mais novas, não diz a Tito que se dirija diretamente a elas, mas, pelo contrário, isso deveria ser feito por intermédio das irmãs anciãs. W. Kelly disse: “Podemos observar a maneira sábia e santa pela qual este [Tito] é instruído a advertir as moças, não diretamente, mas por meio das anciãs” (The Epistles of Paul to Titus and Filemom, pág. 52). Isso é instrutivo; ensina-nos que os irmãos não têm um ministério para com as irmãs em nível pessoal – especialmente as irmãs mais novas. Tito deveria ter cuidado para não causar uma impressão errada às pessoas do sexo oposto. Muitos equívocos e danos resultaram de irmãos que não deram ouvidos aos sábios conselhos de Paulo aqui.

O apóstolo toca em sete coisas nas quais as irmãs mais velhas deveriam instruir as irmãs mais novas:

A primeira foi que elas deveriam ser carinhosamente “apegadas aos seus maridos” (JND). Elas não deveriam ser independentes de seus maridos na tomada de decisões importantes.

Elas também deveriam ser afetuosamente “apegadas aos seus filhos” por estarem com eles e não os deixar passar sem supervisão.

Quanto ao seu caráter, elas deveriam ser “moderadas [discretas – JND]” que significa ter discernimento nas coisas práticas da vida – por exemplo, lidar com dinheiro etc.

Elas também deveriam ser “castas” e, assim, evitar qualquer sugestão de impureza, vestindo roupas provocantes e se comportando de maneira imprópria.

Elas deveriam ser “boas donas de casa [diligentes no trabalho doméstico – JND]”. Isso significa que os deveres domésticos não deveriam ser negligenciados. Um lar arrumado e organizado é um bom testemunho; reflete o Deus da ordem a Quem representamos. Essa exortação censura o caráter nacional de preguiça dos cretenses (v. 12).

Elas deveriam ser “boas”. Isso cobriria uma infinidade de atos de bondade.

Por fim, elas deveriam estar “sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada”. Assim, elas deveriam reconhecer a liderança de seus maridos e estar sujeitas a eles (Ef 5:22-23). Elas deveriam “governar a casa” (1 Tm 5:14), mas não governar seus maridos!

OS JOVENS (vs. 6-8)

Paulo passa a dar uma palavra aos rapazes. Ele diz: “Exorta semelhantemente os mancebos a que sejam moderados. Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra incorrupção, gravidade, sinceridade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se envergonhe, não tendo nenhum mal que dizer de nós”. Ao incluir Tito em seus comentários aos homens mais jovens, mostra que Tito também era um irmão mais novo – embora provavelmente não seja tão jovem quanto Timóteo. Tito deveria ensinar os rapazes por meio de exemplo, mostrando-se como um “exemplo”.

Os jovens deveriam ser “moderados”, o que tem a ver com o bom senso em todas as coisas – tanto espirituais quanto naturais.

Eles também deveriam mostrar “incorrupção” na doutrina. Ser sólido na doutrina requer diligência, acompanhando vários assuntos da Escritura com um estudo cuidadoso (1 Tm 4:6; 2 Tm 2:15).

Eles também deveriam ser marcados pela “gravidade”. A chocarrice5 não teria lugar na vida deles se esperassem que os santos os levassem a sério.

Por fim, quanto ao seu discurso, eles deveriam falar em linguagem “sã”, para que aqueles que se opusessem à verdade não tivessem motivo para condená-los.

OS SERVOS (vs. 9-15)

Paulo inclui uma palavra para os empregados domésticos. Ele diz a Tito: “Exorta os servos a que se sujeitem a seus senhores, e em tudo agradem, não contradizendo; não defraudando [furtando]; antes, mostrando toda a boa lealdade, para que, em tudo, sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador”. Esses servos eram escravos. Como escravos Cristãos, eles deveriam prestar testemunho de Cristo por meio de seu comportamento, enquanto trabalhavam para seus senhores terrenos. Se eles se comportassem de maneira piedosa, estando sujeitos a seus senhores e agradando-os bem – “não contradizendo” ou “furtando” – esses servos “adornariam a doutrina de Deus nosso Salvador em todas as coisas”. Assim, o lado prático da verdade do Cristianismo seria visto em ação e seria um poderoso testemunho prestado para o Senhor. A conduta piedosa embeleza a doutrina que defendemos.

É interessante e instrutivo o modo como Paulo trata o assunto da escravidão em suas epístolas (Ef 6:5-9; Cl 3:22-25; 1 Tm 6:1-2). É algo que Deus nunca pretendeu para o homem; foi introduzido por homens perversos visando ganho por meios desonestos. No entanto, ao escrever para os escravos Cristãos, Paulo não os incentiva a que se esforcem em se livrar dessa situação. Em vez disso, ele diz a eles como se comportar nessa situação em que se encontram, para que o testemunho da graça de Deus no evangelho seja promovido. Isso ocorre porque o Cristianismo não é uma força para corrigir injustiças sociais no mundo; esse não é o objetivo do evangelho. Quando o Senhor veio em Sua primeira vinda, Ele não tentou reformar o mundo retificando seus erros sociais e políticos. Ele fará tudo isso no dia vindouro, quando intervier no julgamento em Sua Aparição. Então, tudo que estiver errado neste mundo será corrigido (Is 40:3-5). Consequentemente, os Cristãos não foram chamados para consertar o mundo, mas para esperar pelo dia vindouro. Devemos deixar o mundo como está e anunciar o evangelho que chama homens para fora dele para ir ao céu. Portanto, não há instrução nas epístolas para que os Cristãos consertem os erros da escravidão – ou qualquer outra injustiça social no mundo. Isso ocorre porque estamos “no” mundo, mas não somos “do” mundo (Jo 17:14). O Senhor disse que, se Seu reino fosse “deste mundo”, Seus servos lutariam por essas causas (Jo 18:36). Mas, como não somos deste mundo, deixemos “o caco entre outros cacos de barro” (Is 45:9).

Paulo sabia o quanto era importante para os Cristãos manter um bom testemunho diante do mundo. Sua grande preocupação com os escravos Cristãos era que eles se comportassem de maneira correta, para que “o nome de Deus e a doutrina” não fossem “blasfemados” (1 Tm 6:1). Esses escravos crentes não deveriam fugir (como Onésimo fez antes de ser salvo – Fm 15), mas permanecer em sua posição na vida e glorificar a Deus diante de seus senhores, tratando-os com respeito genuíno, e “não servindo só na aparência, como para agradar aos homens”. Se servissem com “simplicidade de coração, temendo a Deus”, seriam um poderoso testemunho da realidade da fé que tinham em Cristo (Cl 3:22). Assim, eles deveriam trabalhar para seus senhores “de todo o coração, como ao Senhor”, pois, na realidade, estavam servindo a “Cristo, o Senhor” (Cl 3:23-24). Isso mostra que, independentemente de onde o crente se posicione quanto a sua situação na sociedade, ele ainda tem uma oportunidade de testemunhar por Cristo. Não podemos todos ser missionários, mas todos podemos compartilhar o evangelho com aqueles com quem interagimos em nossa vida diária e, assim, servir ao Senhor dessa maneira.

Três Grandes Motivadores
para uma Vida Piedosa

Vs. 11-15 – Relacionado à palavra “Porque” do versículo. 11, Paulo traz três grandes motivadores para a vida piedosa:

  • O ensino da graça de Deus (vs. 11-12).
  • A iminência da vinda do Senhor (v. 13).
  • O grande preço que o Senhor pagou para nos redimir da vida de pecado (v. 14).

 

Esses motivadores da vida piedosa são enfatizados aqui pelo apóstolo, porque era o que faltava aos santos de Creta. Eles foram verdadeiramente convertidos, mas havia pouco ou nenhum arrependimento em relação aos seus velhos hábitos.

O ENSINO DA GRAÇA (vs. 11-12)

Tendo mencionado “a doutrina de Deus, nosso Salvador” (v. 10), Paulo amplia o que há nesses próximos versículos. Ele diz: “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens. Ensinando-nos que, renunciando [tendo rejeitado – JND] à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente”. Esta é uma declaração abrangente de o que é o Cristianismo e o que ele faz para aqueles que creem no evangelho. Deus em graça tornou a salvação disponível para todos os homens por meio do envio de Seu Filho ao mundo. Aqueles que O recebem por fé são ensinados a negar a impiedade e as concupiscências mundanas e a viver uma vida santa neste presente século mau.

“A graça de Deus” é o nosso grande professor aqui. A graça é a concessão de favor imerecido a beneficiários que não o merecem. Isso é exatamente o que Deus fez pela raça humana. Pela bondade e amor de Seu coração, Ele encontrou um caminho por meio da morte de Seu Filho para trazer “salvação” ao homem. Aqueles que creem no Senhor Jesus Cristo e O recebem como seu Salvador são assim libertados da justa punição de seus pecados. Desse modo, somos instruídos, por esse ato de favor divino, sobre o que Deus pensa do pecado – ele odeia com ódio divino! É abominável para Sua natureza santa. Ele, portanto, certamente não quer que continuemos praticando o pecado. O crente é levado a se perguntar: “Como posso continuar fazendo essas coisas que Deus odeia e me salvou delas?” Essa lógica simples levará todo crente sóbrio a renunciar à sua vida anterior entregue “à impiedade e às concupiscências mundanas” para que agora “vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente” O verbo “renunciar” está no tempo aoristo do grego, indicando que essa renúncia à antiga vida do crente deve ser uma coisa feita de uma vez por todas. A tradução de J. N. Darby enfatiza isso ao traduzir o verbo como “tendo renunciado”. Assim, a graça de Deus se manifestou para todos os homens, mas apenas ensina aqueles que recebem a salvação que ela traz.

A IMINÊNCIA DA VINDA DO SENHOR (v. 13)

Paulo menciona a vinda do Senhor. Isso também nos motivará a viver piedosamente. Ele diz: “Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo”. Essa “bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória” são eventos escatológicos6 que estão para ocorrer. São as duas partes da segunda vinda do Senhor. A bem-aventurada esperança é o Arrebatamento, quando o Senhor vier para levar Seus santos ao céu (Jo 14:2-3; 1 Ts 4:15-18). Isso ocorrerá antes do período de 7 anos da tribulação. O Aparecimento da glória é a revelação pública de Cristo com Seus santos perante o mundo após a grande tribulação (Zc 14:5; 1 Ts 3:13; Jd 14). Nessa ocasião, Ele “com justiça há de julgar o mundo” (At 17:31) e estabelecerá Seu reino milenar (Ap 11:15). Para um Cristão, essas coisas são muito mais que meros eventos proféticos. O Arrebatamento ocorrerá quando Cristo, nosso “Noivo”, vier nos levar daqui para a casa do Pai (Mt 25:6; Jo 14:2-3), momento em que estaremos formalmente unidos a Ele nas “bodas do Cordeiro” (Ap 19:7-10). Isso gera afeições nupciais em nosso coração (Ap 22:17). O apóstolo João nos diz que ter essa esperança de estar com Ele e ser como Ele nos faz querer nos purificar “como também Ele é puro” (1 Jo 3:3). Assim, se a iminência da vinda do Senhor para nós for mantida corretamente em nosso coração, afetará nossa vida praticamente e nos motivará a viver piedosamente – pois nenhum Cristão sóbrio quer ser encontrado fazendo algo duvidoso quando o Senhor vier nos chamar ao lar (Lc 12:35-40).

A Aparição de Cristo também é mencionada, porque, quando entendida adequadamente, também terá um efeito prático em nossa vida. A Aparição de Cristo é o momento em que os resultados de nossa vida serão exibidos diante do mundo na forma de recompensas. É perfeitamente possível perdermos uma recompensa por termos vivido descuidadamente (Ap 3:11) e, portanto, poderíamos ficar, diante d’Ele, “envergonhados na Sua vinda” (1 Jo 2:28 – ARA). Esse fato nos motiva a viver de uma maneira que alcance a aprovação do Senhor naquele dia (2 Co 5:9). Assim, ambos os aspectos de Sua vinda são colocados diante de nós como motivação para viver uma vida piedosa.

Alguns pensam que a bem-aventurada esperança (o Arrebatamento) e a Aparição de Cristo são um e o mesmo evento. Essa é uma doutrina errônea que existe há muitos séculos. Faz parte da Teologia Reformada (do Pacto). Em apoio a isso, muitas versões modernas traduzem esse versículo 13 como sendo um evento. Seu raciocínio para fazer isso é baseado em uma regra na gramática grega. A regra é que, quando existem dois substantivos conectados pela conjunção “e”, se o primeiro substantivo tiver o artigo “o”, mas o segundo não, então o segundo substantivo se refere à mesma coisa que o primeiro e é uma descrição adicional disso. Como esse versículo tem apenas um “o” em conexão com a bem-aventurada esperança e a gloriosa Aparição, alguns tradutores e estudantes da Bíblia concluíram que estão se referindo à mesma coisa.

W. Kelly abordou esse assunto, mostrando que há exceções a essa regra. As seguintes observações são retiradas de The Bible Treasury, vol. 3, pág. 32: “Pergunta: Uma nota incorreta indaga se essa ‘bem-aventurada esperança’ é equivalente ou distinta de ‘o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo’. Resposta: Eu entendo que a forma da frase em grego (um artigo para os dois substantivos conectados) não os identifica necessariamente, mas apenas os une em uma classe comum. Compare 2 Tessalonicenses 2:1, onde a mesma construção ocorre. No entanto, ninguém sustentaria que ‘vinda de nosso Senhor Jesus Cristo’ é a mesma coisa que ‘nossa reunião com Ele’. Devem ser consideradas, penso, como juntamente associadas na mente do Espírito Santo, embora em si mesmas sejam assuntos distintos. Pode ajudar alguns a entender melhor Tito 2:13, se eles tiverem em mente que o verdadeiro sentido é “o aparecimento da glória” – em contraste com a graça que já apareceu (“se há manifestado” – v. 11). Essa “bem-aventurada esperança” me parece ainda mais próxima e mais pessoal para o coração”. Portanto, há exceções a essa regra na gramática grega que exigem discernimento de nossa parte sobre onde e quando elas se aplicam. Como sabemos de outras passagens que o Arrebatamento e a Aparição de Cristo são eventos distintos, segue-se logicamente que seria assim aqui em Tito 2:13.

F. B. Hole disse: “Pode ser que, pela ‘bem-aventurada esperança’, o apóstolo tenha indicado a vinda do Senhor para Seus santos, da qual ele escreve aos tessalonicenses em sua primeira epístola (cap. 4:15-17), e se assim for, temos ambas, a Sua vinda para e a Sua vinda com os Seus santos, diante de nós como nossa esperança no versículo 13” (Epistles, vol. 2, pág. 189). Assim, “graça” apareceu no primeiro advento de Cristo (v. 11) e “glória” ainda está para aparecer no Seu segundo advento (v. 13).

O GRANDE PREÇO QUE O SENHOR PAGOU PARA NOS REDIMIR (v. 14)

Paulo passa a dar talvez o maior de todos os motivadores para uma vida piedosa – o preço extraordinário que o Senhor pagou para nos redimir. Ele diz: “O qual Se deu a Si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade [ausência de lei – JND], e purificar para Si um povo Seu especial, zeloso de boas obras”. O que mais o Senhor poderia ter dado para nos salvar do que dar a “Si mesmo?” Esse fato é mencionado pelo menos dez vezes na Escritura (Mt 20:28; Gl 1:4, 2:20; Ef 5:2, 25; 1 Tm 2:6; Tt 2:14; Hb 7:27, 9:14, 26). Que sacrifício! É a mente de Deus que isso produza resposta em nós. Quando reservamos um tempo para considerar o quanto custou ao Senhor nos redimir – a agonia de Seus sofrimentos expiatórios – responderemos com apreciação e gratidão, e isso se evidenciará em devoção de coração a Ele. Isso criará em nós um desejo de agradá-Lo e fazer algo por Ele por causa do que Ele fez por nós. Como o salmista, perguntaremos: “Que darei eu ao Senhor por todos os Seus benefícios para comigo?” (Sl 116:12 – ARA) Sabendo que Deus odeia o pecado, o crente de coração correto será exercitado para abandonar toda “rebeldia” (JND) e começará a aperfeiçoar a santidade em sua vida (2 Co 7:1; 1 Tm 4:7).

Paulo prossegue dizendo que é intenção de Deus que os Cristãos sejam Seu povo “especial, zeloso de boas obras”. Isso mostra que o objetivo do Cristianismo não é criar um vácuo na vida das pessoas; a rebeldia deve ser substituída pela vida piedosa manifestada na realização de boas obras. Isso mostra que aqueles que são os destinatários da graça salvadora de Deus devem ser louvados por sua conduta.

V. 15 – O capítulo termina com uma reafirmação das responsabilidades de Tito. Paulo diz; “Fala disto, e exorta e repreende com toda a autoridade”. Há uma ordem moral aqui. Primeiro, Tito deveria “falar” das coisas que convém a um comportamento Cristão, mas se isso não fosse recebido, ele deveria “exortar” os santos a respeito dessas coisas. Isso implica em usar mais força. Se ainda não estava sendo recebido, então Tito deveria “repreender” com “toda a autoridade”, pois ele fora comissionado com autoridade apostólica para insistir nessas coisas.

Quanto à conduta de Tito, Paulo disse: “Ninguém te despreze”. Ele deveria ter o cuidado de andar de maneira correta em todas as coisas, para que ninguém tivesse uma justa causa para desconsiderar seu ministério.