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A Epístola aos Hebreus

PRIMEIRA ADVERTÊNCIA CONTRA A APOSTASIA Capítulo 2:1-4

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 6 de 23

PRIMEIRA ADVERTÊNCIA CONTRA A APOSTASIA
Capítulo 2:1-4

O Perigo de se Desviar da Palavra Falada pelo Filho

V. 1 – Depois de uma longa digressão desde o versículo 1:2b até o final do capítulo 1 (em que o escritor fala das glórias de Cristo), ele nos traz de volta à Palavra falada pelo Filho. Ele diz: “Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas”. O grande perigo para alguns entre os hebreus era o de se desviar do terreno Cristão que tinham tomado e voltar ao judaísmo. Tal coisa seria apostasia. O escritor usa o pronome “nos” aqui, não para indicar crentes no Senhor Jesus Cristo, mas aqueles que eram de origem judaica, aos quais o escritor inclui a si mesmo. (Isso é característico das epístolas Cristãs hebraicas – Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, embora possa haver algumas exceções).

V. 2 – O escritor faz uma comparação entre “a palavra falada pelos anjos” na concessão do concerto da lei (At 7:53) e a palavra que foi “falada pelo Senhor” quando Ele veio aos judeus em Seu primeiro advento. Ele lhes pede que considerem que se a palavra dos anjos na Lei contra os ofensores era “firme (não poderia ser revogada e anulada), e toda transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição”, quanto muito mais severo seria o juízo se eles negligenciassem a palavra falada pelo Senhor que é uma Pessoa infinitamente maior! Como eles poderiam escapar do juízo certo que cairia sobre eles se eles voltassem atrás? Assim, a palavra de Cristo é superior à dos anjos.

Ele diz: “como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação”. A “grande salvação” que o Senhor anunciou em Seu ministério terreno não é a salvação eterna da alma anunciada no evangelho da graça de Deus (At 20:24), como comumente pensado, mas uma libertação temporal para a nação, dos seus inimigos. Naquela época, os judeus estavam cativos dos romanos que os governavam em sua própria terra, e eles precisavam muito desse tipo de libertação. O Senhor Jesus foi enviado por Deus como “um Chifre de Salvação” (Lc 1:68-71 – original grego) de Deus para a libertação da nação. Ele veio “apregoar liberdade aos cativos” que estavam sob o jugo romano (Lc 4:18-19). Essa foi uma das bênçãos externas prometidas à nação no evangelho do reino que o Senhor anunciou (Mt 4:23; Mc 1:14). Após Sua entrada em Jerusalém, o povo gritou “Hosana” (que significa “Salve agora!”) e esperou grandes coisas d’Ele nesse sentido (Mt 21:15). Mas os líderes conduziram o povo a rejeitá-Lo, e essa grande salvação de seus inimigos foi, portanto, adiada. Se os judeus tivessem recebido a Cristo, Ele teria salvado a nação libertando-os de sua escravidão. A nação teria evitado sua destruição em 70 d.C. e teria sido abençoada por Deus como prometido nos escritos de seus profetas.

O escritor também diz que a promessa desta salvação temporal de seus inimigos foi “confirmada” ao povo pelos apóstolos (Hb 2:3; At 3:19-21) também pelo “testemunho” do próprio Deus nos milagres que acompanharam a pregação desse evangelho (Hb 2:4; At 3:6-10, 5:15-16, etc.) Assim, a nação provou “a boa Palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro” (Hb 6:5 – ARA).

Esta “grande salvação (nacional)” em Hebreus 2:3 não poderia ser a salvação espiritual das “almas” anunciadas no evangelho da graça de Deus hoje (1 Pe 1:9; At 16:31, etc.), porque diz que foi “primeiro” falado pelo Senhor quando esteve aqui na Terra. O evangelho que o Senhor pregou era o evangelho do reino (Mt 4:23; Mc 1:14). Aquela mensagem O apresentou como o Rei e Messias de Israel que viria à nação em seu tempo de necessidade e os salvaria de seus inimigos, e estabeleceria Seu reino em poder e glória. Foi só depois que os judeus formalmente rejeitaram a Cristo, e enviaram um homem (Estêvão) a Deus com a mensagem: “Não queremos que Este reine sobre nós” (Lc 19:14; At 7:54-60), que o evangelho da graça de Deus foi anunciado ao mundo (At 11:19-21, 13:46-48, 15:14, 20:24, 28:28).

Sobre este ponto em Hebreus 2:3, H. Smith disse: “Na sua interpretação estrita, a salvação da qual o escritor fala não é o evangelho da graça de Deus como apresentado hoje, nem contempla a indiferença de um pecador em negligenciar o evangelho. Ainda assim, uma aplicação neste sentido certamente pode ser feita, pois deve ser verdade que não pode haver escapatória para aquele que finalmente negligencia o evangelho. Aqui é a salvação que foi pregada pelo Senhor aos judeus, pela qual um caminho de escape do juízo, prestes a cair sobre a nação, foi aberto para o remanescente crente. Esta salvação foi posteriormente pregada por Pedro e os outros apóstolos nos primeiros capítulos de Atos, quando eles disseram: “Salvai-vos desta geração perversa”. Este testemunho foi dado por Deus com “maravilhas, prodígios e sinais”. O Evangelho do Reino será novamente pregado após a Igreja ser completada” (The Epistle to the Hebrews, pág. 12-13).

J. N. Darby também disse: “É a pregação de uma grande salvação feita pelo próprio Senhor quando esteve na Terra; não o evangelho pregado e a Igreja reunida após a morte de Cristo. Este testemunho, portanto, prossegue pelo Milênio sem falar da Igreja, um fato a ser notado não apenas nesses versículos, mas em toda a epístola” (Collected Writings, vol. 28, pág. 4).

 

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A Importância da Morte de Cristo

Cap. 2:5-18 – As observações do escritor ao ajuntamento hebraico como um todo continuam aqui com o tema da superioridade de Cristo sobre os anjos. Como mencionado anteriormente, o grande ponto no capítulo 1 é magnificar as glórias de Cristo como o Filho de Deus. Agora no capítulo 2, o escritor traz as glórias de Cristo como o Filho do Homem. O capítulo exulta em Sua morte – vendo como realmente é – um triunfo para Deus e para o homem. Isso era importante para os judeus entenderem, porque tinham sido condicionados a pensar que a morte era uma derrota. A esperança de todo judeu era viver para sempre na Terra “no mundo vindouro” – o Milênio (Sl 133:3; Is 65:22; Dn 12:2; Mc 10:17; Lc 10:28). Em suas mentes a morte sinalizava a derrota. Eles não podiam aceitar a ideia de que seu Messias morreria, mesmo que suas próprias Escrituras afirmassem que isso aconteceria com Ele (Sl 16:10, 22:15; Is 53:8-9; Dn. 9:26). Por isso, eles precisavam ver que a morte e ressurreição de Cristo foi realmente uma coisa vitoriosa que realizou muito para a glória de Deus e para a libertação e bênção do homem.

Quatro Razões Por Que Cristo Se Fez Um Homem, Sofreu e Morreu

Desse modo, o escritor passa a apresentar quatro grandes razões por que Cristo Se fez um Homem, sofreu e morreu. (Veja The Collected Writings of J. N. Darby, vol. 21, págs. 383-385; vol. 23, pág. 255; vol. 28, págs. 41-42; Notes and Jottings of J. N. Darby, pág. 240.) Se era para realizar grandes coisas para Deus e o para homem por meio da Sua morte, Ele devia, necessariamente, Se tornar um Homem. O escritor, portanto, apresenta Cristo neste capítulo como “o Filho do Homem”, que enfatiza Sua humanidade. A mensagem fundamental que o Espírito de Deus gostaria que obtivéssemos desses quatro pontos é que elas são coisas que nenhum anjo poderia fazer. Isso, novamente, confirma a superioridade de Cristo sobre os anjos.

1) CRISTO VEIO PARA JUSTIFICAR DEUS COM RELAÇÃO À QUEDA DO HOMEM E COMEÇAR UMA NOVA RAÇA DE HOMENS POR MEIO DA QUAL O PROPÓSITO DE DEUS SERÁ CUMPRIDO

Vs. 5-13 – O escritor explica que Deus propôs que “o mundo vindouro” (o Milênio) estivesse sob o domínio do homem. Isso é algo que nunca foi dito sobre os anjos. Deus fez anjos para servir, mas não para governar. Assim, o escritor diz: “Porque não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos” (v. 5). A única criatura que Ele fez para governar foi o homem. No entanto, sua queda tornou-o absolutamente incapaz de governar em qualquer sentido adequado (Ec 7:29). Em seu estado caído, não está apto para o propósito para o qual foi criado. Se Deus usasse o homem em seu estado caído para governar o mundo vindouro, o homem apenas o estragaria como fez com o mundo presente. Assim, a entrada do pecado aparentemente frustrou o propósito de Deus para o homem.

O escritor da epístola, em seguida, cita o Salmo 8 para mostrar que Deus enfrentaria este dilema por ter Cristo vindo e assumido a humanidade para a glória de Deus. Ele Se tornaria um Homem e assumiria as responsabilidades que o primeiro homem se sujeitou, indo à morte e fazendo expiação pelo pecado. Ao ressuscitar dos mortos, Cristo Se tornaria a Cabeça da raça da nova criação de homens que seria perfeitamente capaz de governar no mundo por vir, como Deus propôs. Esta é a primeira grande razão pela qual Cristo Se tornou um Homem.

V. 6 – O Salmo 8:4 diz: “que é o homem [em hebraico: Enosh], para que te lembres dele?” (AIBB). O salmista se maravilha com a graça de Deus que se ocupa com os homens. A palavra aqui para “homem” no hebraico é “Enosh”. Ela indica o estado fraco e frágil do homem – implicando sua condição caída e degenerada. Estamos realmente agradecidos por Deus ter Se atentado à nossa raça caída. “Se Deus pensasse apenas em Si mesmo e para Si recolhesse o Seu espírito e o Seu sopro, toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó” (Jó 34:14-15 – ARA). Deus teria sido justo ao fazer isso, mas nós, como raça, estaríamos perdidos para sempre. O escritor continua sua citação do Salmo 8, dizendo: “... E o filho do homem [em hebraico: adam], para que o visites?”. Isto se refere à visita de Deus à raça humana em misericórdia na Pessoa do Filho (Lc 1:78). Em vez de pensar somente em Si mesmo e nos deixar perecer em nossos pecados, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito” para que não perecêssemos (Jo 3:16). Mas aqui, notemos, o salmista usa uma palavra diferente para “homem” no hebraico a partir do que ele havia usado anteriormente. Aqui é “Adão”, que não carrega as conotações de “Enosh”. Isso significa que quando Cristo visitasse a raça humana, ao Se tornar um Homem, não estaria no degenerado estado “Enosh”. Assim, em Sua encarnação, Ele participaria da humanidade (espírito, alma e corpo), mas não em humanidade caída. Vemos disso o quão cuidadosamente a Palavra de Deus protege a humanidade sem pecado de Cristo. O Senhor Jesus não tinha uma natureza caída pecaminosa, como o resto dos descendentes de Adão; Ele tinha uma natureza humana santa.

Vs. 7-8a – Ao Se tornar um Homem, Cristo condescendeu a tomar um lugar “um pouco menor do que os [inferior aos – JND] anjos” porque os homens são uma ordem de seres na criação de Deus que são inferiores aos anjos. No capítulo 1:4, o escritor disse que Cristo é “mais excelente do que os anjos”. Essas declarações não se contradizem; um enfatiza Sua divindade e a outra Sua humanidade. Assim, ao descer para Se juntar à humanidade, o Senhor passou pelos anjos e tomou sobre Si a descendência de Abraão (v. 16). Sendo um Homem, aceitou limitações da criatura (embora, Ele próprio, não fosse uma criatura) e caminhou por este mundo em humilde dependência e obediência a Seu Pai. O Salmo não fala de Sua morte, mas passa por ela para nos falar de Sua posição atual como elevado ao alto – “de glória e de honra O coroaste”. O Salmo também diz: “e O constituíste sobre as obras de Tuas mãos. Todas as coisas Lhe sujeitaste debaixo dos pés”. Sendo que este é um salmo referente ao Milênio, isto ainda não aconteceu. Refere-se à intenção de Deus de que o homem governe o mundo vindouro na Pessoa de Cristo. Naquele dia, Ele terá publicamente domínio sobre todos como um Homem glorificado.

V. 8b – O escritor interrompe citando o Salmo 8 neste ponto porque esse salmo vê o domínio de Cristo como sendo limitado a “todas as coisas” na Terra e no mar. O Velho Testamento não vai além do lado terreno do reinado do Messias. No entanto, o Novo Testamento revela que o domínio de Cristo será sobre uma gama muito maior de coisas, incluindo coisas no céu (Ef 1:10; Fp 2:10). Portanto, sob inspiração, o escritor acrescenta: “nada deixou que Lhe não esteja sujeito”. Isso vai além do alcance do Salmo 8 e abrange todo o universo. Uma vez que isso ainda está no futuro, ele afirma que a manifestação pública disso não é vista atualmente no mundo – “Mas, agora, ainda não vemos que todas as coisas Lhe estejam sujeitas”.

V. 9 – Embora ainda não vejamos Cristo reinar publicamente sobre o universo, os olhos de fé O veem “coroado de glória e de honra” à destra de Deus. Este é o lugar onde Ele está agora como um Homem glorificado. O escritor continua a nos dizer por que Cristo foi feito um pouco menor que os anjos – foi “por causa da paixão da morte”. Isso também é algo que o Salmo 8 não menciona. Isso mostra que, ao entrar no lugar do homem e Se tornar um Homem, Cristo assumiu as responsabilidades que vieram com isso. Por isso, tornar-Se Homem era provar “a morte por todas as coisas” (JND). Esse é o aspecto mais amplo da obra de Cristo na cruz. É isso que cuidou de toda a eclosão do pecado e do estrago que ele causou na criação. Isso nos mostra o quão longe os efeitos do pecado têm ido; não só tocou a raça de Adão, mas também toda a criação inferior sob ele. Por isso, Cristo morreu não apenas pelos homens, mas também pelo que o pecado causou na criação.

Se Cristo como um Homem deve reinar sobre a herança – que é toda coisa criada no céu e na Terra – Ele deve obter o direito a ela por Sua aquisição na cruz. É por isso que diz que Cristo provou a morte por “todas as coisas” (JND). Ele comprou “o campo” (“o campo é o mundo” inteiro – [o cosmo, no grego]); isso inclui tanto homens quanto coisas (Mt 13:38, 44). Consequentemente, Ele pagou o preço pelo direito de possessão do mundo inteiro e tudo que está no mundo.

V. 10 – Se é para Deus, “para Quem são todas as coisas e mediante Quem tudo existe”, ter o Seu propósito cumprido no mundo vindouro, de ter a criação sob o governo do homem, terá que ser por meio de uma nova raça de homens. Mas, para que esta nova raça exista, primeiro deve ter uma Cabeça. Colossenses 1:18 afirma que quando o Senhor Jesus Cristo ressuscitou “de entre os mortos” (ARA), Ele Se tornou o “princípio” (e, portanto, Cabeça) desta raça da nova criação (Ap 3:14). O escritor de Hebreus refere-se a isto, afirmando que se Deus fosse trazer “muitos filhos” (uma nova raça de homens) para “glória”, o “Capitão [Autor]” (o Senhor Jesus Cristo) teria primeiro de ser feito “perfeito”. Isso se refere à ressurreição e glorificação de Cristo (Lc 13:32; Hb 5:9). Isso mostra que tinha que haver uma Cabeça glorificada antes que pudesse haver uma raça glorificada debaixo d’Ele. Todos os que creram no evangelho e, assim, estão “em Cristo” fazem parte dessa raça da “nova criação” (2 Co 5:17; Gl 6:15; Ef 2:10). Enquanto Cristo está presentemente glorificado, a nova raça sob Ele ainda não foi levada à glória – isto é, ser levada a uma condição glorificada. Essa mudança aguarda o momento do Arrebatamento (Fp 3:21; 1 Ts 4:15-17).

O que é surpreendente sobre isso é que quando Cristo ressuscitou dos mortos e subiu aos céus como um Homem, Ele passou pelos anjos pela segunda vez, e levou a humanidade para um lugar muito acima dos anjos! É-nos dito que quando Ele entrou nos céus como um Homem, Ele Se assentou em um lugar “acima [muito acima – TB] de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” (Ef 1:21). (Principado e poder etc. são seres angélicos.) Assim, a Cabeça desta nova raça está em um lugar acima dos anjos, e como os crentes estão “em Cristo” (2 Co 5:17), estão naquele lugar também! Isto significa que há agora toda uma raça de homens sob Cristo que é superior aos anjos! A primeira ordem do homem foi feita um pouco abaixo dos anjos, mas essa nova raça de homens sob Cristo não é um pouco maior que os anjos – é “muito acima” (TB) dos anjos! Os homens nesta nova raça são agora a mais alta ordem das criaturas de Deus. Somos dessa nova ordem de humanidade agora. Atualmente, não parece ser assim porque ainda estamos em nossos corpos de humilhação (Fp 3:21), que são parte da velha ordem de humanidade, mas “assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:49; 1 Jo 3:2). Isto é, há um dia chegando quando seremos glorificados como Cristo (Rm 8:17, 30) e assim seremos adequados para reinar com Ele no mundo vindouro.

Nota: era a vontade de Deus que Cristo fosse aperfeiçoado “pelos sofrimentos” (TB). Isso se refere ao que Ele passou quando andou neste mundo. Estes não foram os sofrimentos expiatórios do Senhor, mas os sofrimentos que O prepararam para ser nosso Sumo Sacerdote. Ele agora é capaz de Se compadecer de Seu povo que está passando por sofrimento e provas no caminho de fé porque Ele sentiu o mesmo (v. 18).

V. 11 – O escritor continua mostrando quão perfeitamente aqueles da raça da nova criação são adequados a Cristo. Ele diz: “Porque, assim O que santifica (Cristo) como os que são santificados (os Cristãos), são todos de um”. Isto se refere àqueles da nova raça sendo da mesma natureza e espécie como o próprio Cristo. “Todos de um” não está se referindo à unidade do corpo de Cristo, nem está falando da unidade na família de Deus, mas da nossa singularidade de espécie com Cristo na nova criação. Assim, Cristo e Seus irmãos são de uma mesma posição e espécie.

Um exemplo da singularidade de espécie é quando a esposa de Adão foi trazida a ele. Ele tinha visto todos os vários tipos de criaturas passarem diante de si; cada uma era “conforme a sua espécie” (Gn 1:21, 24-25). Não havia, no entanto, nenhuma encontrada entre elas que fosse da espécie de Adão, e assim, todas essas eram inadequadas para ele. Mas quando Deus levou a mulher a Adão, ele viu alguém que era da sua própria espécie e disse: “Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2:23). Longe de ser o pensamento, mas se Adão tivesse sido forçado a tomar uma outra criatura para ser sua esposa, teria se envergonhado, mas quando Deus lhe trouxe a mulher, que era de sua espécie, ele ficou muito feliz. Da mesma forma, somos “um” em espécie com Cristo nesta nova ordem de humanidade e, portanto, inteiramente adequados a Ele. Por isso, Ele “não Se envergonha de lhes chamar irmãos”.

É importante notar, no entanto, que, embora Ele não tenha vergonha de nos chamar de “irmãos”, a Palavra de Deus nunca diz que devemos chamá-Lo de nosso “Irmão mais velho” ou outros termos de familiaridade. Lembremo-nos de que Ele é “o Primogênito entre muitos irmãos” (Rm. 8:29). Como tal, Ele tem um lugar de preeminência entre os outros na raça e há uma glória especial que pertence somente a Ele – que é o que o “Primogênito” indica. É uma “glória” que veremos, mas não é compartilhada conosco (Jo 17:24). As palavras do Senhor para Maria indicam este lugar especial que pertence a Ele. Ele disse: “Subo para Meu Pai e vosso Pai; Meu Deus e vosso Deus” (Jo 20:17). Ele não disse “nosso” Pai e “nosso” Deus, mas menciona a Si mesmo em relação a Seu Pai e Seu Deus separadamente dos crentes, mostrando que Ele tem um lugar de distinção na raça da nova criação. Assim sendo, devemos ter cuidado para não falar com Ele ou sobre Ele em termos de familiaridade.

Vs. 12-13 – Três passagens das Escrituras do Velho Testamento são citadas para mostrar a plena identificação de Cristo com Seus irmãos neste novo relacionamento. Enquanto Cristo deve ser distinguido como o Proeminente na nova criação, estas citações servem para provar quão completamente o Santificador e os santificados estão unidos.

A primeira citação do Velho Testamento é do Salmo 22:22: “declararei o Teu nome a Meus irmãos; louvar-Te-ei no meio da congregação”. A palavra “congregação” neste versículo não se refere à Igreja como em outras partes do Novo Testamento (Mt 16:18, etc.) Se estivesse falando da Igreja, então a Igreja estaria no Velho Testamento – mas isso contradiz Romanos 16:25; Efésios 3:3-5; Colossenses 1:24-26. A palavra “assembleia” no Salmo 22 está se referindo a toda companhia celestial de santos dos tempos do Velho e do Novo Testamento, que serão ressuscitados e glorificados em um dia vindouro. J. N. Darby comentou: “A assembleia não é encontrada na Epístola aos Hebreus, salvo em uma alusão a todos os incluídos na glória milenar no capítulo 12” (Synopsis of the Books of the Bible, on Hebrews 1-2). Na nota de rodapé de sua tradução em Hebreus 9:11 diz algo semelhante: “A Epístola aos Hebreus, embora endereçada aos Cristãos sobre os mais preciosos assuntos, não entra na própria posição da Igreja: uma vez se refere à Igreja como estando no céu no capítulo 12” (versão de notas completas). Veja Collected Writings of J. N. Darby, vol. 10, pág. 245.

O ponto da citação não é ensinar que a Igreja está no Velho Testamento, mas mostrar que depois que a redenção fosse completada, o tema do louvor de Cristo e dos redimidos seria um em entendimento quanto ao que Ele realizou em Sua morte. J. N. Darby disse: “O versículo 12 é uma citação do Salmo 22:22, onde Jesus em ressurreição toma o lugar de Líder do louvor de Seus irmãos. Nossos hinos de louvor devem, portanto, estar de acordo com os d’Ele. Ele passou pela morte por nós; e se nossa adoração expressa incerteza e dúvida em vez de gozo e segurança no sentido de redenção consumada, não pode haver harmonia, mas discórdia com a mente do céu” (Collected Writings, vol. 27, pág. 343). O Senhor conduz o louvor dos remidos hoje nestes tempos Cristãos, quando os santos estão reunidos porque Ele e os remidos são um em seu tema de louvor, se estiverem em comunhão com Ele.

A segunda citação é de Isaías 8:17 (a versão Septuaginta): “n’Ele ponho a Minha confiança”. Tendo Se tornado um Homem, Cristo aceitou as limitações da criatura (embora não sendo Ele mesmo uma criatura) e assim vive em expressa dependência de Deus. Uma vez que Ele permanecerá um Homem para a eternidade, Ele sempre terá um lugar de sujeição ao Pai junto com Seus irmãos.

A terceira citação é de Isaías 8:18. “Eis-Me aqui a Mim, e aos filhos que Deus Me deu”. Novamente, isso é citado em prol do princípio envolvido; não ensina que somos filhos de Cristo. Somos “filhos de Deus” (Jo 1:12; Rm 8:16; 1 Jo 3:1) e, como tais, somos “co-herdeiros com Cristo” (Rm 8:17 – ARA). Esta citação mostra que o Santificador e os santificados são um em natureza, tendo a mesma vida.

Assim, somos um com Ele em nosso louvor a Deus, em nossa dependência de Deus e em termos a mesma vida e natureza.

Em resumo, esta passagem (vs. 5-13) mostra que Deus foi plenamente justificado com relação à queda do homem, e que Seu propósito concernente ao domínio do homem no mundo vindouro será realizado por meio de uma nova raça de homens sob Cristo. Tudo isso é algo que nenhum anjo poderia cumprir e, portanto, a superioridade de Cristo sobre eles é aqui distinguida.

2) CRISTO VEIO ANULAR O PODER DO DIABO SOBRE A MORTE

Vs. 14-15 – O escritor segue em frente para dar uma segunda razão pela qual Cristo Se tornou Homem e morreu – foi para anular o poder do diabo sobre a morte. Ele diz: “Portanto desde que os filhos têm carne e sangue comum, também Ele semelhantemente participou destas coisas, para pela morte destruir [anular – JND] aquele que tinha o poder da morte, isto é, ao diabo” (TB).

Antes da morte e ressurreição de Cristo, Satanás empunhava “o poder da morte” sobre os homens, fazendo-os temer o que estava além da morte. Ele usou o medo da morte (“o rei dos terrores” – Jó 18:14) a seu favor e manteve os homens em servidão e medo. O poder da morte que Satanás tem não significa que ele tenha o poder de tirar a vida de uma pessoa. Ele não pode matar quem ele quiser; só Deus mantém o poder da vida e da morte em Suas mãos (Dn 5:23; Jó 2:6). Ninguém morre sem que Ele permita. O poder da morte que Satanás usou nos homens é o temido poder da morte – seu elemento de medo.

A boa notícia é que Cristo não somente levou os nossos pecados em Seu próprio corpo no madeiro, como nosso Emissário do pecado (1 Pe 2:24), mas Ele também foi à morte e despojou o diabo de seu poder para aterrorizar o filho de Deus com a morte. Ele agora está vitorioso do outro lado da morte declarando: “Eu Sou o que vivo; fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do inferno [hades – TB]” (Ap 1:18 – AIBB). Assim, Cristo venceu a morte soltando suas “ânsias” ou elemento de medo (At 2:24) para o crente iluminado que enfrenta a morte. Ele desceu ao “pó da morte” para conquistá-la (Sl 22:15) e deixou apenas “a sombra da morte” para o filho de Deus passar (Sl 23:4). Podemos ser chamados a passar pela cena da morte, mas seu “aguilhão” foi retirado; podemos enfrentar a morte sem medo (1 Co 15:55).

A versão King James diz que o Senhor morreu para “destruir” o diabo, mas deveria ser traduzido como “anular” (JND). (Veja também 2 Tm 1:10 – JND). O diabo claramente não foi destruído; ele ainda está fazendo sua má obra hoje de enganar os homens, etc. Sua destruição não ocorrerá até que o Milênio tenha terminado seu curso, quando ele for lançado no lago de fogo (Ap 20:10). O que este versículo 14 está nos dizendo é que o poder do diabo para aterrorizar os crentes foi anulado ou cancelado. Satanás, normalmente, não perturba os incrédulos à medida que estes seguem seu caminho de vida para uma eternidade perdida. Vendidos sob o seu engano, muitos olham para a morte sem alarme, embora imediatamente após passarem por ela, haja um tormento absoluto para eles (Lc 16:22-23). O salmista observa isso, afirmando: “não há apertos na sua morte” (Sl 73:4). Da mesma forma, o Senhor ensinou que Satanás (“o valente [homem forte – JND]”) faz tudo o que pode para manter “seus bens” (TB) (pessoas perdidas) “em paz” (Lc 11:21 – JND).

Nota: pelo fato de Cristo Se tornar um homem para ganhar esta vitória sobre Satanás, existem duas palavras diferentes usadas no versículo 14, que são usadas para resguardar Sua Humanidade sem pecado. Quando fala dos “filhos”, diz que eles são “participantes” de carne e sangue. A palavra no grego traduzido por “participantes” (koinoneo) significa um compartilhamento comum e igual em alguma coisa. Neste caso, o compartilhamento deles na humanidade. Isso é verdade para todos os homens; todos eles participam plenamente da humanidade – descendo até a natureza pecaminosa. No entanto, quando fala de Cristo Se tornar um Homem, o Espírito de Deus leva o escritor a usar uma palavra diferente ao dizer que Ele “tomou parte” (JND) (meteko) no mesmo. Esta palavra no grego indica um compartilhamento em algo sem especificar o grau que o compartilhamento alcança. Portanto, enquanto Cristo Se tornou um homem plenamente (em espírito, alma e corpo), Sua participação na Humanidade não foi tão longe a ponto de tomar parte do estado caído do homem, porque Ele não tinha uma natureza caída pecaminosa.

V. 15 – Ele continua e diz: “e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão”. Todos aqueles que experimentaram essa libertação não poderiam ser os santos do Velho Testamento, como muitos supõem. Eles viveram centenas, até mesmo milhares de anos antes de Cristo conquistar essa vitória ao morrer e ressuscitar dos mortos. Eles viveram com medo da morte e morreram nesse estado de escravidão, e nunca tiveram livramento disso enquanto vivos. É claro que, uma vez que passaram pela cena da morte, imediatamente ficaram em “paz” e em estado de felicidade (Is 57:1-2). Todos esses estão se regozijando com o Senhor agora em seu estado desencarnado. Mas aqueles de quem o escritor fala foram libertados deste medo pela morte e ressurreição de Cristo. Eles teriam que estar vivos na Terra no momento em que Ele ressuscitou dos mortos. Este teria que ser o remanescente crente dos discípulos, a primeira geração de crentes na Igreja. Eles eram judeus crentes no terreno do Velho Testamento quanto ao seu entendimento e, portanto, viviam com “medo da morte”. No entanto, aprenderam, por meio do evangelho, da vitória de Cristo sobre o poder de Satanás na morte (2 Tm 1:10) e, assim, foram libertados desses temores. Quando eles foram mais tarde chamados a passar pela morte como Cristãos, eles podiam enfrentá-la sem medo. De fato, todos que creem em Cristo depois de Sua morte e ressurreição, e que foram iluminados pelo evangelho quanto a essas coisas, têm essa mesma confiança.

Novamente, isso mostra que a morte de Cristo é uma coisa triunfante, não uma derrota. E é algo que nenhum anjo poderia fazer.

3) CRISTO VEIO PARA FAZER PROPICIAÇÃO PELOS NOSSOS PECADOS

Vs. 16-17 – A terceira razão pela qual Cristo Se tornou Homem e morreu foi para “fazer propiciação pelos pecados do povo” (TB). Isto, naturalmente, refere-se ao Seu “único sacrifício pelos pecados” na cruz para salvar aqueles que creem (cap. 10:12). Para conseguir isso, Cristo teria que ser “feito semelhante a Seus irmãos” (AIBB) – isto é, tornar-Se um Homem. (Esses não são Seus irmãos na raça da nova criação mencionada nos versículos 11-12, mas Seus compatriotas de relacionamento natural – os judeus.) Ele tomou “a descendência de Abraão” e Se tornou um Homem nessa linhagem com o propósito de ir para a cruz para fazer propiciação. Propiciação é o lado de Deus da obra de Cristo na cruz que atende às exigências da justiça divina em relação ao pecado e aos pecados, e assim reivindica a santidade de Deus (Rm 3:25; 1 Jo 2:2; 4:10).

A versão King James diz que Cristo fez “reconciliação pelos pecados do povo”, mas esta é uma tradução equivocada. Deveria dizer “propiciação pelos pecados do povo” (TB). Um Deus santo, como o nosso Deus é, nunca Se reconciliará com o pecado! (Essa tradução equivocada também está em Lv 16:20 – KJV). Novamente, a obra de Cristo em fazer propiciação é uma coisa triunfante e algo que um anjo não poderia fazer.

O versículo 17 nos apresenta o sacerdócio de Cristo pela primeira vez na epístola. Comparando este versículo com Romanos 8:34, aprendemos que há duas funções em Seu sacerdócio:

  • Fazer propiciação pelos pecados do povo – uma obra feita uma única vez.
  • Fazer intercessão pelo Seu povo – uma obra contínua.

 

Da mesma forma, os sumos sacerdotes do Velho Testamento tinham uma função dupla em seu ofício: Primeiro, no Dia da Expiação, o sumo sacerdote vestia suas vestes sagradas de “linho” e oferecia um sacrifício (uma oferta pelo pecado) fora do santuário no altar de bronze (Lv 16:6, 9). Este é um tipo da morte de Cristo na cruz para fazer propiciação pelos pecados do povo. Então, depois de oferecer um sacrifício para fazer expiação pelo povo, o sumo sacerdote entrava no santuário e se trocava vestindo suas vestes de “glória e beleza”, nas quais ministrava perante o Senhor. Este é um tipo do atual serviço de Cristo no alto na presença de Deus intercedendo por Seu povo que está passando por este mundo. Os versículos 17 e 18 mostram que Cristo é o antítipo dessas duas coisas.

4) CRISTO SE TORNOU UM HOMEM PARA SER UM COMPASSIVO SUMO SACERDOTE

V. 18 – A quarta razão pela qual Cristo Se tornou Homem e morreu foi para que Ele pudesse ser um Sumo Sacerdote compassivo. O escritor diz: “Porque, naquilo que Ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados”. Ao passar por este mundo indo para a cruz, Cristo sofreu sendo tentado de todas as formas que um homem justo poderia ser tentado, qualificando-Se assim para ser um “misericordioso e fiel Sumo Sacerdote”. Sendo assim preparado pelos sofrimentos ao ofício do sumo sacerdócio (v. 10), Cristo atualmente intercede por Seu povo enquanto passa pelo mesmo mundo maligno pelo meio do qual Ele passou. Sendo um Homem, Ele é plenamente capaz de entrar nas aflições e provações do Seu povo, porque sentiu o mesmo. Ele os socorre (ajuda) em Sua compaixão e concede, de acordo com Sua perfeita sabedoria, “misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4:16). Assim, pela Sua intercessão sumo sacerdotal, somos capacitados a ficar firmes em tempos de tentação e de provas. No entanto, tudo isso exigiu que o Filho de Deus Se tornasse Homem e sofresse. E mais uma vez, isso é algo que os anjos não podem fazer. Eles não são homens e não andaram no caminho de fé, nem foram tentados com problemas relacionados à vida na Terra. Eles, portanto, não podem entrar em nossas tristezas e ministrar o conforto e encorajamento que precisamos em tempos de provação.

 

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Assim, Hebreus 2:5-18 apresenta quatro grandes razões por que o Filho de Deus Se tornou o Filho do Homem. Cada uma dessas coisas que o escritor abordou só poderia ser realizada por Cristo Se tornando um Homem, sofrendo, morrendo e depois ressuscitando. Cristo, sendo Quem é – Deus “na Pessoa do Filho” (Hb 1:2 – JND) – realmente não há comparação entre Ele e os anjos. Ele é uma Pessoa eterna e infinita, o Criador e Sustentador do universo, enquanto os anjos são apenas criaturas que Ele criou para serem Seus servos!