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A Epístola aos Hebreus

SEGUNDA ADVERTÊNCIA CONTRA A APOSTASIA Capítulo 3:7-4:11

Bruce Anstey · Texto do EPUB · Seção 8 de 23

SEGUNDA ADVERTÊNCIA CONTRA A APOSTASIA
Capítulo 3:7-4:11

O Perigo da Incredulidade

Isso leva o escritor a dar uma segunda advertência contra a apostasia. Em um parêntese (vs. 7-11), ele cita o Salmo 95 para trazer diante dos hebreus a seriedade de se recusar a seguir o caminho de fé. Esta é a primeira das cinco citações desse salmo. A circunstância à qual o salmista se refere foi a incredulidade de Israel em Cades-Barneia, no que é chamado de a “provocação” (Nm 13-14). A terra prometida estava diante deles; tudo o que eles tinham que fazer era crer na Palavra do Senhor por meio de Moisés e entrar e possuí-la. Mas eles estavam cheios de incredulidade e recusa. Os filhos de Israel provocaram a ira do Senhor recusando-se a entrar na terra de Canaã que Deus lhes havia dado.

As Dez Tentações

A “provocação” em Cades foi a décima vez que Israel tentou o Senhor nos dois primeiros anos de sua jornada no deserto (Nm 14:22). São elas:

  • Não confiar no Senhor no Mar Vermelho a respeito do exército de Faraó (Êx 14:11-12; Sl 106:7).
  • Questionar a sabedoria do Senhor ao conduzi-los ao deserto (Êx 15:24).
  • Pedir pão para satisfazer sua concupiscência (Êx 16:2; Sl 78:18).
  • Tentar colher o maná no dia de Sábado (Êx 16:27-28).
  • Questionar se o Senhor estava verdadeiramente entre eles (Êx 17:2, 7; Sl 78:19-20).
  • Adorar o bezerro de ouro (Êx 32:7-14; Sl 106:19).
  • Queixar contra o Senhor (Nm 11:1-3).
  • Cobiçar os alimentos do Egito (Nm 11:4-9).
  • Criticar seu líder – Moisés (Nm 12:9).
  • Desprezar a terra aprazível (Nm 14:1-5; Sl 106:24-25).

 

As cinco primeiras tentações foram antes de ter sido dada a Lei, quando Israel ainda estava em um período de graça sob a mão de Deus e, portanto, não foram feitas para sentir as consequências de seus pecados. Mas as últimas cinco foram após ter sido dada a Lei, quando o povo estava sob a responsabilidade de seu relacionamento de aliança com o Senhor (Êx 24) e, portanto, tiveram que suportar as consequências de seus pecados em vários golpes de juízo governamental de Deus.

Citando as Escrituras, como faz o escritor aqui no capítulo 3:7-11, ele deu aos hebreus um aviso que veio diretamente da Palavra de Deus. Ele identifica o orador como “o Espírito Santo”. (Ele não diz: “Como diz Davi ...”). Assim, o primeiro aviso veio do Filho (cap. 2:1-4) e agora este segundo aviso vem do Espírito Santo. Não poderia estar mais claro que Deus estava falando com eles! A gravidade desse fato foi calculada para deixá-los sóbrios. É significativo que, ao citar a passagem, o escritor usa a citação do Salmo 95 no tempo verbal presente. Ele diz: “Como diz o Espírito Santo ...” Isso mostra que, embora tenha sido escrito centenas de anos antes, o Espírito Santo ainda estava falando por meio desse Salmo. Tal é a Palavra “viva” de Deus (Hb 4:12). Ele diz: “se ouvirdes hoje a Sua voz” O uso de “se” aqui traz a condição de boa vontade e obediência.

Vs. 12-13 – O escritor então faz sua aplicação da citação: “Cuidai, irmãos, que não haja, porventura, em algum de vós um perverso coração de incredulidade, em apostatar do Deus vivo” (TB). Seu uso da palavra “irmãos” aqui se refere aos laços naturais que ele tinha com seus compatriotas “da linhagem de Israel” (Fp 3:5) – não como no versículo 1, onde é usado em referência aos companheiros Cristãos da “família da fé” (Gl 6:10 – TB). Seu ponto nessa passagem não poderia ser mais claro. O mesmo pecado de “incredulidade” que marcou Israel de antigamente e levou à sua queda no deserto também poderia ser deles! Se negligenciassem a voz de Deus, seu coração se tornaria “endurecido pelo engano do pecado” (TB), como era o caso de Israel nos tempos antigos.

Dois Tipos de Coração

Existem dois tipos de coração em consideração na epístola aos Hebreus:

  • “Um perverso coração” (TB) de incredulidade que se aparta de Deus (cap. 3:12). Isso é apostasia. W. Kelly traduz “se apartar” como “fallen away”, uma expressão usada em outros lugares nas Escrituras para indicar apostasia (2 Ts 2:3 – apostasia; Hb 6:6 – recair; Lc 8:13 – desviar). É a mesma palavra usada em 1 Timóteo 4:1 que J. N. Darby traduz como “apostatar”. Como mencionado na Introdução, apostatar é algo que somente um crente meramente professo faria renunciando ao Cristianismo. Assim, um perverso coração de incredulidade não está se referindo ao retrocesso que um crente pode ter ao se esfriar em sua alma. (A fraqueza da fé em um crente não é o assunto das advertências da epístola; todo abandono a Deus em Hebreus é apostasia).
  • Um “verdadeiro coração” que se aproxima com plena certeza de fé (cap. 10:22). Isso é algo que um verdadeiro crente fará quando instruído na verdade revelada nesta epístola.

 

O fato de que eles deveriam exortar “uns aos outros todos os dias” por causa do “engano do pecado” mostra que precisamos estar juntos com frequência. Não podemos exortar uns aos outros, se raramente nos vemos! Isso mostra que devemos vigiar a alma uns dos outros como guardião do nosso irmão.

V. 14 – Enquanto os versículos anteriores advertem contra a apostasia, este versículo encoraja a fé para continuar no caminho. Como já foi dito, os crentes nesta epístola são vistos como sendo parte da raça da nova criação. Como tais, eles são vistos como “filhos” de Deus (cap. 2:10), como “irmãos” de Cristo (cap. 2:11) e como “companheiros do Cristo” (cap. 3:14 – JND). Esses termos indicam nosso relacionamento com o Senhor como Cabeça da raça. (Nosso elo com Cristo, a Cabeça de Seu corpo, do qual somos os membros, é um relacionamento diferente, e não é o assunto em Hebreus). O argumento do autor aqui é que os verdadeiros crentes provarão a si mesmos como verdadeiros por reter “firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim”.

V. 15 – O escritor retorna à citação do Salmo 95 para enfatizar outra palavra-chave – “Hoje”. Isso mostra que havia uma urgência em ouvir Sua voz e em responder apropriada e imediatamente.

Três Perguntas Incisivas

Vs. 16-19 – Em outro parêntese, o escritor fala novamente da história de Israel no deserto para revelar os efeitos do pecado da incredulidade. Ele faz três perguntas incisivas que destacam o solene fato de que um coração maligno de incredulidade é facilmente enganado pelo pecado, e que o engano endurece o coração de modo que nenhuma repreensão possa tocá-lo. Assim, a pessoa cujo coração endureceu fica firme em seu curso para a condenação. Isso é realmente muito solene.

Primeiramente, ele pergunta: “Pois quais foram os que, tendo-a ouvido, O provocaram?” Foram apenas alguns? Não, foi a massa do povo – “todos os que saíram do Egito por meio de Moisés” (v. 16 – TB). Da mesma forma, todos a quem ele escrevia estavam sendo testados dessa maneira. E, se eles não respondessem com fé à Palavra de Deus, eles também poderiam “provocá-Lo” à ira.

Em segundo lugar, ele pergunta: “Com quem Se indignou por quarenta anos?” Foram “os que pecaram, cujos corpos caíram no deserto” (v. 17). O que o escritor se refere aqui vai além do dia da provocação para tomar todo o curso de Israel no deserto. Ao final de quarenta anos, todos os que eram daquela geração que menosprezaram a terra aprazível “se consumiram” do meio do arraial (Dt 2:14-15). Eles foram tratados com um golpe do julgamento governamental de Deus e morreram no deserto. Da mesma forma, com esses hebreus, se a incredulidade estivesse neles, eles poderiam experimentar um golpe semelhante de julgamento divino e ser tirados da terra prematuramente por meio da morte! Isso realmente aconteceu com milhares deles pela mão dos romanos em 66-70 d.C.

Em terceiro lugar, ele pergunta: “E a quem jurou que não entrariam no Seu repouso”? Foram aqueles que “foram desobedientes” (v. 18). Assim, o consequente resultado para todos os que não creram foi a perda do descanso de Deus na terra de Canaã. Este foi o caso com a maioria deles. Eles nunca entraram na terra e assim falharam em alcançar aquele descanso. Semelhantemente, aqueles entre os hebreus que não acreditassem não entrariam no descanso eterno de Deus! Tanto naquele tempo ou depois, a “incredulidade” é o que impede as pessoas de entrarem no Seu descanso. Mera profissão não é suficiente para levar uma pessoa ao céu e ao descanso de Deus.